Ao longo das páginas da Regra, do começo ao fim, Jesus recebe muitos títulos e atributos. Estes títulos são como janelas. Revelam quem era Jesus para os primeiros Carmelitas. A mesma variedade de títulos existe no Novo Testamento: em torno de cem janelas para revelar quem era Jesus para os primeiros cristãos! Cada título é uma tentativa para expressar quem era Jesus para eles. Os três títulos mais antigos estão nesta frase: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate para muitos“ (Mc 10,45): Filho do Homem, Servo de Deus e Redentor dos irmãos. O significado destes três títulos ajuda a entender e viver melhor a fraternidade em obséquio de Jesus Cristo.

1. Filho do homem

Filho do Homem é o título que Jesus mais gostava de usar. Aparece 83 vezes nos quatro evangelhos! (Uma vez nos Atos 7,56). A expressão Filho do Homem vem dos profetas Ezequiel e Daniel. Em Ezequiel, a expressão “filho do homem” ocorre inúmeras vezes e acentua a condição humana do profeta. No livro de Daniel a expressão Filho do Homem ocorre na visão do profeta sobre os grandes impérios do mundo (Dn 7,1-28). Nesta visão, os impérios aparecem sob a figura de animais (Dn 7,4-8), pois são reinos animalescos. Desumanizam a vida, “animalizam” as pessoas. O Reino de Deus aparece, não sob a figura de um animal, mas sim de um ser humano, de um Filho do Homem (Dn 7,13), que representa o “povo dos Santos do Altíssimo”, isto é, o povo de Deus” (Dn7, 18.27). O Filho do Homem, o povo de Deus, não se deixa desumanizar nem enganar pela ideologia dominante dos reinos animalescos. A sua missão consiste em realizar o Reino de Deus como um reino humano, reino que não persegue a vida, mas sim a promove! Humaniza as pessoas.

Apresentando-se aos discípulos como Filho do Homem, Jesus assume como sua esta missão humanizadora do Povo de Deus. É como se dissesse: “Venham comigo! Esta missão é de todos nós! Vamos juntos realizar a missão que Deus nos entregou, e realizar o Reino humano e humanizador que ele sonhou! ” E foi o que Jesus fez e viveu durante toda a sua vida, sobretudo, nos últimos três anos. Como dizia o Papa Leão Magno: “Ele foi tão humano, como só Deus pode ser humano”. Quanto mais humano, tanto mais divino! Quanto mais “filho do Homem” e tanto mais “filho de Deus! ” Tudo que desumaniza as pessoas, afasta de Deus. Antes de ser carmelita, sou um ser humano, sou criatura de Deus.

2. Servo de Deus

Este título vem de uma profecia de Isaías, na qual o futuro Messias é apresentado como Servo de Deus (Is 42,1-9). No tempo de Jesus, havia muitas formas de esperar o futuro Messias. Alguns esperavam um Messias Rei (Mc 15, 9.32); outros, um Messias Santo ou Sumo Sacerdote (Mc 1,24); outros, um Messias Guerrilheiro (Lc 23,5; Mc 13,6-8), ou Messias Doutor (Jo 4,25), Messias Juiz (Lc 3,5-9), Messias Profeta (Mc 6,4; 14,65). Apesar das diferenças, todos eles esperavam um messias glorioso que fizesse o povo de Deus ser grandioso no meio dos povos. Só os pobres esperavam o Messias Servidor, anunciado pelo profeta Isaías (Is 42,1; 49,3; 52,13), e encaravam a missão do povo de Deus, não como um domínio ou privilégio, mas como um serviço à humanidade. Maria, a pobre de Javé, dizia ao anjo: “Eis aqui a serva do Senhor! ” Foi dela e dos pobres, dos anawim, que Jesus aprendeu o caminho do serviço. 

Este povo-servo é descrito por Isaías como aquele que “não grita, nem levanta a voz, não solta berros pelas ruas, não quebra a planta machucada, nem apaga o pavio de vela que ainda solta fumaça” (Is 42,2). Perseguido, não persegue; oprimido, não oprime. Nele o vírus da violência opressora dos impérios não consegue penetrar. É esta atitude resistente de serviço, própria do Servo, que Deus quer ver implantada no mundo inteiro (Is42, 4.6). Por isso, convoca este povo pobre para ser o seu Servo com a missão de irradiar a justiça e o direito no mundo inteiro para além das diferenças de raça e de religião e, assim, ser “Luz das Nações” (Is 42,6; 49,6).

Jesus percorreu o caminho do serviço até o fim, até as últimas consequências. Ele definiu sua missão: “Não vim para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45). Não veio para implantar uma nova religião ao lado das que já existiam, mas veio para trazer a dimensão de serviço para todas as religiões.

3. Redentor dos irmãos (irmão mais velho)

Jesus inicia a sua pregação proclamando um novo jubileu, um “Ano de Graça da parte do Senhor” (Lc 4,19). O objetivo do Ano Jubileu era restabelecer os direitos dos pobres, acolher os excluídos, reintegrá-los na convivência e, assim, realizar o objetivo da Lei de Deus. Era uma oportunidade para fazer uma revisão da caminhada, corrigir os erros e recomeçar tudo de novo. Um dos meios para levar a bom termo o Ano Jubileu era a lei do “Resgate” (Goêl, Redentor) (Lv 25,23-55). Jesus é o Goêl, o redentor dos irmãos, que veio pagar o resgate exigido, para que nós pudéssemos ser libertados da escravidão e recuperar a vida em comunidade. Jesus, o Redentor dos irmãos! Este talvez seja o título mais antigo usado pelos primeiros cristãos para expressar o que Jesus significava para eles. O termo hebraico goêlé tão rico que não tem tradução unívoca na nossa língua.

No tempo de Jesus, em nome de uma interpretação errada da Lei de Deus, muita gente era excluída e marginalizada. Jesus, a partir da sua experiência de Deus como Pai, denuncia esta situação que esconde o rosto de Deus para os pequenos (Mt 23,13-36). Como redentor (goêl) ou irmão mais velho, ele oferece um lugar aos que não tinham lugar na convivência humana. Acolhe os que não eram acolhidos e, na sua nova família, ele recebe como irmão e irmã aqueles que a religião e o governo desprezavam e excluíam (Mc 3,34). Eis a lista deles:

* os imorais: prostitutas, pecadores (Mt 21,31-32; Mc 2,15; Lc 7,37-50; Jo 8,2-11);

* os hereges: pagãos e samaritanos (Lc 7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30; Jo 4,7-42);

* os impuros: leprosos e possessos (Mt 8,2-4; Lc 11,14-22; 17,12-14; Mc 1,25-26);

* os marginalizados: mulheres, crianças, doentes (Mc 1,32; Mt 19,13-15; Lc 8,2s);

* os colaboradores: publicanos e soldados (Lc 18,9-14;19,1-10);

* os pobres: o povo da terra e os pobres sem poder (Mt 5,3; 11,25-26; Lc6, 20.24).

Jesus cumpriu para com todos eles seu dever de goêl. Como irmão mais velho, não tendo dinheiro para pagar o resgate, ele se entregou a si mesmo, seu corpo e seu sangue, para que todos pudessem viver em fraternidade (1Cor 11,23-26; Mc 14,22-24; Lc 22,20). São Paulo o definiu tão bem na carta aos Gálatas: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim. E esta vida que agora vivo, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim(Gl 2,20).


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