Na Regra da Carmo, a fraternidade não é uma tarefa a mais ao lado das outras tarefas, mas é uma atitude de vida que deve permear tudo. Na Regra, a vivência da Fraternidade está no mesmo nível do “meditar dia e noite na lei do Senhor”. Assim como Deus é presença constante, também o irmão e a irmã devem ser presença constante. O exercício da fraternidade nasce da experiência de Deus e conduz para uma experiência mais profunda de Deus.

Ao escrever a Regra, o patriarca Alberto tinha diante de si o modelo da comunidade dos primeiros cristãos de Jerusalém, da qual dizem os Atos dos Apóstolos: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” (At 4,32). Comparando o ideal da Regra (Rc 10 a 15) com o que dizem os Atos dos Apóstolos a respeito da comunidade dos primeiros cristãos (At 2,42-47; 4,32-35), aparecem os seguintes cinco pontos que marcaram a vida comunitária dos primeiros cristãos e que formam também a base da fraternidade a ser vivida no Carmelo. Eis o esquema:

“Perseveravam na oração” (At 2,42; 4,24)

“Frequentavam o Templo” (At 2,46-47)

“Tinham tudo em comum”
(At 2,42.44; 4,32.34-35)

“Fração do pão nas casas” (At 2,42.46)

“Eram um só coração e uma só alma”
(At 4,32; 1,14)
1. Oração e vigilância (Rc 10)

2. Oração litúrgica (Rc 11)

3. Comunhão de bens (Rc 12 e 13)

4. Celebrar eucaristia (Rc 14)

5. Revisão semanal (Rc 15)

1. A fraternidade deve alimentar-se da Palavra de Deus e da oração permanente: isto exige Leitura Orante e meditação constante (Rc 10).

2. A fraternidade deve ter a sua expressão comunitária: oração litúrgica ou celebra­ção comunitária da Palavra de Deus (Rc 11).

3. A fraternidade deve ter a sua expressão econômica bem concreta na partilha dos bens, na igualdade básica real, na pobreza que os leva a ficar do lado dos “menores” (pobres) (Rc 12 e 13).

4. A fraternidade deve alimentar-se da Eucaristia, que é a participação na Morte e Ressurreição: doação radical de si a Deus e aos irmãos (Rc 14).

5. A fraternidade se consolida através da revisão semanal, que promove a corresponsabilidade de todos no andamento do conjunto e no bem-estar de cada um dos irmãos (Rc 15).

Este ideal de fraternidade orante no meio do povo, próprio dos carmelitas, permeia a Regra de ponta a ponta. Nos números 4 a 9: a Regra lhe garante o espaço e lhe fornece a infraestrutura. Nos números 10 a 15: descreve o ideal de fraternidade como sendo cópia da comunidade de Jerusalém. Nos números 16 a 21: oferece os meios necessários para poder encarná-lo na vida e realiza-lo. Eis o esquema:

Rc 4 a 9 A infraestrutura da vida Garante as condições necessárias Rc 10 a 15 O ideal a ser realizado Imita a comunidade de Jerusalém Rc 16 a 21 Os meios para realizar o ideal A riqueza da tradição Monacal

A fraternidade no Carmelo é como uma árvore. Para crescer bem, ela deve lançar raízes para baixo, para dentro da terra. Assim ela crescerá para cima e dará frutos. Lançar raízes para dentro do chão é perder-se em Deus através da oração e da meditação constante da Palavra de Deus. Crescer e dar frutos significa irradiar o Reino de Deus, para além de nós mesmos, no meio do povo, sobretudo dos pobres. A fraternidade é o tronco que sustenta tudo: com a raiz no chão e os galhos para o alto.

No coração da vida mendicante estava esta característica da comunidade dos primeiros cristãos, descrita nos Atos dos Apóstolos: “Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum entre eles” (At 4,32). Da mesma maneira, entre os carmelitas: tudo era de todos. Este era o ideal que, naquele tempo, animava a renovação da Igreja e da Vida Religiosa. Os números 10 a 15 da Regra descrevem o miolo da vida carmelitana, o ideal da fraternidade orante e profética. A proibição de ter propriedade e a comunhão de bens (Rc 12 e 13) estão no centro desta descrição. São o miolo do miolo. A própria estrutura literária o revela:

A  Tarefa de cada um: Oração e vigília individual (RC 10)

B  Oração litúrgica em comum: ofício divino (RC 11)

C  Comunhão de bens e proibição de ter coisa própria (RC 12 e 13)

D  Oração litúrgica em comum: Eucarística (RC 14)

E Tarefa da comunidade: Revisão e zelo pelo bem comum (RC 15)



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