A Santíssima Eucaristia é chamada, com razão, de “sacramento dos sacramentos”, pois contém em si o próprio Senhor Jesus – em seu corpo, sangue, alma e divindade – autor de todos os sacramentos.

A primeira grande base bíblica da Eucaristia não está, como se possa imaginar, nos chamados “relatos da instituição” (cf. Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20; 1Cor 11,23-26), mas em Jo 6, comumente, chamado de “A promessa do Pão da Vida”. A este importante capítulo do quarto Evangelho dedico a primeira reflexão.

O evangelista João reúne, aí, três fatos que se entrelaçam de modo harmonioso: nos versículos 1-15, há a multiplicação de pães, gesto milagroso a demonstrar o poder do Senhor sobre o pão; nos versículos 16-21, Jesus caminha sobre as águas, ato confirmador do domínio exercido sobre Seu corpo e sobre os elementos da natureza e, nos versículos 22-71, conclui, falando do Pão da Vida, que é Ele próprio.

Os teólogos destacam dessa última parte (vers. 22-71), os versículos 51-56. Aí, Jesus afirma ser o Pão da Vida descido do céu. Mais: diz que quem comer desse pão (que é a sua carne) terá a vida eterna. Os ouvintes de Jesus, então, perguntavam entre si como poderia o Senhor dar de comer (phagein, em grego) a sua própria carne?

Ora, Cristo não desfez um equívoco no entendimento de quem O ouvia, como outras vezes. Por exemplo, em Jo 3,4-5, disse que nascer de novo não era entrar e sair do seio materno outra vez, mas, sim, nascer da água e do Espírito (= para a vida divina pelo Batismo); em Jo 11,11-14, explicou que o verbo dormir, no caso, não deve ser tomado ao pé da letra, mas, em sentido figurado, como o sono da morte. Ao contrário, aqui, no capítulo 6, sustentou, como veremos, a literalidade das suas palavras.

Sim. Disse que só quem comesse a Sua carne e bebesse o Seu sangue teria a vida eterna. Afinal, Sua carne é comida e Seu sangue, bebida. Quem come Sua carne e bebe o Seu sangue permanece n’Ele (em Cristo) e Ele na pessoa. Jesus usa, agora, o verbo comer (trogô, em grego) que significa “mastigar ou dilacerar com os dentes”, de modo a não admitir dúvidas da realidade do que afirma. Seus dizeres foram tão reais que muitos deixaram de segui-Lo, ficando apenas os Apóstolos com Ele (cf. vers. 66-67).

Aqui, dois pontos vêm ao caso a fim de serem esclarecidos. O primeiro pergunta se não seria possível – ainda que forçando o contexto e maltratando o texto bíblico – dar às colocações do Senhor um sentido figurado? – A resposta é não, pois “comer a carne de alguém”, ou “beber o seu sangue”, de modo figurado, seria ofender a pessoa e/ou persegui-la até a morte (cf. Sl 26,2). Ora, o Senhor Jesus não pode, de modo algum, despertar ódio contra si mesmo e, em troca, prometer a vida eterna. Seria muito ilógico.

segundo tópico a causar dificuldade é o versículo 63 no qual Jesus diz: “É o espírito que vivifica; a carne para nada serve. As palavras que vos disse são espírito e vida”. – A propósito, Dom Estêvão Bettencourt, OSB, no Curso sobre os sacramentos, p. 90, diz que “Jesus apenas visava remover um entendimento grosseiro de suas afirmações: não se tratava de comer carne enquanto tal (está claro que esta por si só não santifica o homem) nem de comer a carne do Senhor em suas condições terrestres, mas, sim, de receber a carne de Cristo glorificada e elevada aos céus, emancipada das leis do espaço e do tempo. É a carne nessas circunstâncias novas que Jesus chama ‘espírito’; é espírito, porque está toda penetrada pela Divindade (na verdade, é a Divindade de Cristo que, mediante a carne, vivifica os fiéis na Eucaristia)”.

“Acrescentou o Senhor que as suas palavras são espírito, não como se tivessem de ser entendidas em sentido figurado, mas pelo fato de terem um alcance espiritual e de exigirem um entendimento sobrenatural (na fé); são vida também, porque nos revelam o meio de termos a vida em nós”.

Só nos resta aceitar o sentido real de Jo 6 como confirmação da Santa Eucaristia. 

Fonte: aleteia.org


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