É justificada a devoção católica a Maria?

Poucos ensinamentos da Igreja Católica são tão largamente mal compreendidos como a atitude da Igreja para com Maria, a mãe de Jesus Cristo. Mesmo entre os que reconhecem que Maria foi a mãe do Redentor, muitos criticam acerbamente a antiga devoção que os católicos tributam a ela.

“Vocês católicos”, dizem alguns, “pregam Maria e rejeitam Jesus”…; ou: “A Igreja de vocês é uma Igreja de Maria, e não uma Igreja de Jesus”…; ou: “Maria foi justamente uma mulher comum, e vocês fazem dela uma deusa”. Por estes e similares comentários é evidente que muitos compreendam mal não só a atitude da Igreja Católica para com Maria, como também a importância de Maria no plano de Deus para a nossa redenção.

A finalidade deste folheto não é, portanto, apenas explicar o que os católicos creem relativamente a Maria, mas também demonstrar por que razão essa crença é completamente justificada. Mais importante ainda, nós cremos que muitos que agora rejeitam Maria para ela se volveriam com amor e devoção se sequer compreendessem o verdadeiro e essencial lugar dela no credo cristão.

Empreenderemos explicar nestas páginas os pontos precisos sobre os quais os católicos diferem de outros na sua atitude para com a mãe de Jesus, e explicar o exato significado de palavras que nós e outros muitas vezes usamos em diferentes sentidos, e as quais podem gerar confusão quando não corretamente compreendidas.

Muita confusão, por exemplo pende do significado de palavras tais como “adoração”! Significa esta uma honra tributada exclusivamente a Deus, ou pode ser tributada também a seres humanos que Deus tornou singularmente santos? E que sucede com relação a Jesus Cristo? Era Ele uma só pessoa ou duas pessoas? Embora possam faze-lo inconscientemente, há alguns que pensam e falam de Jesus-homem e de Jesus-Deus como de dois indivíduos distintos. As respostas católicas a tais perguntas são básicas e fornecem um quadro dentro do qual deve ser julgada a atitude católica para com Maria.

Semelhantemente, há respostas a outras questões que devem ser tidas em mente em qualquer justa apreciação de Maria como parte da Fé Católica — e parte essencial nela.

Aonde vão os católicos buscar o que creem acerca de Maria? Certamente, não na Bíblia conforme esta pode ser entendida por cada um de acordo com as suas próprias luzes e como sendo a única fonte de informação concernente a Maria. Certamente, não no ensino da Igreja Católica como se este fosse completamente independente da Bíblia. Antes, nós vamos à nossa Santa Madre Igreja com a Bíblia nas mãos dela, ensinando-nos ela e explicando-nos o pleno significado daquilo que a palavra escrita de Deus nos diz sobre Maria.

Veja por si mesmo!

Se estamos certos ou errados de assim fazermos não é a questão aqui. Ela tem sido longamente discutida. O que aqui queremos acentuar é que o ensino católico concernente a Maria é fundado na Bíblia, mesmo se alguns pontos não são ali explicitamente estatuídos. O sentido implícito da Escritura é extraído pela Igreja, cujo ensino nunca é completamente independente da Bíblia nem, de qualquer modo, oposto a ela.

Quanto mais familiar for um católico com a Escritura, tanto melhor compreenderá os ensinamentos da sua Igreja, tanto mais a sua mente absorverá as simples, embora sublimes, verdades como podem ser achadas na Bíblia.

Por dezenove séculos e meio a Igreja Católica tem estado ensinando ao mundo cristão os fatos; acerca de Maria — e esses fatos tem sido sempre os mesmos. Contudo, ensinando cada geração sucessiva, tem ela progressivamente apresentado esses fatos de acordo com as necessidades particulares dessa geração. No segundo século da história cristã, por exemplo, a virgindade da mãe de Jesus foi claramente e altissonantemente sustentada contra os que a negavam. Duzentos anos mais tarde, a Igreja achou necessário acentuar o fato de ser Maria em toda verdade, a mãe de Deus e não a mãe de um simples homem. Ainda mais tarde, tornou-se necessário assinalar que a santidade de Maria e a sua isenção do pecado envolviam a sua preservação do pecado que toda a humanidade herda dos nossos primeiros pais. E, nos nossos dias a Igreja oficialmente ensina um fato que os católicos estiveram honrando por séculos: a antecipada ressurreição de Maria e a sua assunção corporal ao céu. Assim gerações futuras podem vir a achar a Igreja proclamando oficialmente a eficácia das preces a Maria no céu, coisa que é hoje ensinada a todo católico e por ele crida.

Os tempos mudam

Assim, em cada geração a Igreja reafirma várias verdades importantes que foram reveladas por Deus no começo e sempre foram aceitas pela Igreja como reveladas. Tempos diferentes e circunstâncias diferentes dão lugar a que as necessidades do mundo cristão variem, e a Igreja oficialmente proclama ao mundo a sua fé conforme o pede a ocasião. A crença na existência de Deus, por exemplo, foi ensino católico elementar desde os dias dos Apóstolos. Mas só na última parte do século dezenove foi que a Igreja solenemente definiu a sua crença nessa verdade, quando a maré montante do ateísmo e do materialismo ímpio forneceu a necessidade para uma inequívoca declaração da verdade cristã.

Durante o curso da história cristã, a Igreja de tempo em tempo tem salientado primeiro um fato sobre Maria e depois outro. As grandes verdades cardeais sobre a Virgem Bem-aventurada, permanecendo sempre as mesmas, tem sido gradualmente desdobradas pela explicação, e tem ganhado precisão e clareza no ensino da Igreja e na mente do povo católico. Certamente é um engano, e muitas vezes um erro crasso, pegar-se disso como sendo variação ou mudança de fé, ou arguir que algo de novo foi aditado ao credo católico.

Compreendendo Maria

Por um longo e penetrante estudo daquelas palavras de Maria, quando a vinda do Salvador lhe foi anunciada: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”, a Igreja Católica progrediu na compreensão de Maria, da sua dignidade, e da sua parte no plano divino da Redenção do homem. O mesmo pode dizer-se da compreensão de Jesus Cristo pela Igreja. Como disse um escritor, “o cristianismo é eminentemente uma religião objetiva. Na maioria das vezes, ele nos fala de pessoas e de fatos em palavras simples, e deixa esse anuncio produzir o seu efeito nos corações que estão preparados para recebe-lo. Este, pelo menos, é o seu caráter geral… foi dessarte que a doutrina revelada da Encarnação exerceu influencia mais forte e mais larga sobre os cristãos à medida que eles foram cada vez mais apreendendo e dominando o significado e as consequências dela. Ela está contida na breve e simples declaração de S. João: “O Verbo fez-se carne”. Mas foi preciso século após século para ampliá-la em toda a sua plenitude, e para imprimi-la energicamente no culto e na prática do povo católico tanto como na sua fé”.

Doutrina não nova

Com o correr do tempo, a Igreja tem crescido em dimensões, cumprindo a figurada predição de Cristo de que, qual a mais pequena das sementes, ela se desenvolveria numa grande árvore. A Igreja também tem crescido na sua compreensão das férteis sementes da verdade cristã concernente a Maria que se vem desenvolvendo no seu seio desde o começo. A Igreja Católica hoje não crê sobre Maria mais do que o creram os primeiros católicos, porém pode exprimir-se muito mais claramente. E, seja qual for a objeção, e venha a outras questões que devem ser tidas em mente em qualquer justa apreciação de Maria como parte da Fé Católica — e parte essencial nela.

Aonde vão os católicos buscar o que creem acerca de Maria? Certamente, não na Bíblia conforme esta pode ser entendida por cada um de acordo com as suas próprias luzes e como sendo a única fonte de informação concernente a Maria. Certamente, não no ensino da Igreja Católica como se este fosse completamente independente da Bíblia. Antes, nós vamos à nossa Santa Madre Igreja com a Bíblia nas mãos dela, ensinando-nos ela e explicando-nos o pleno significado daquilo que a palavra escrita de Deus nos diz sobre Maria.

O honrar a Maria e a devoção a ela tem sempre crescido com o tempo, mas não se deve, por engano, tomar crescimento como mudança de identidade. Tudo o que você vê no carvalho frondoso estava virtualmente contido na glande da qual ele se desenvolveu. O carvalho plenamente crescido e o embrião na glande são a mesma árvore. A devoção a Maria tem-se desenvolvido, mas tem sido sempre a mesma devoção. O seu crescimento tem sido acelerado em diferentes tempos por uma variedade de causas. Disputas sobre doutrina, declarações oficiais de fé pela Igreja, aparições da Virgem, respostas ou orações a ela dirigidas largamente publicadas, etc., tem dado um impulso ocasional a uma sempre crescente consideração fervorosa para com Maria como objeto da devoção católica.

As formas que essa devoção assume são infindáveis no seu número e variedade. Vão e vem. Hoje em dia tributa-se honra a Maria sob o título de Nossa Senhora de Fátima ou de Nossa Senhora de Lourdes, as quais eram desconhecidas dos católicos de séculos atrás. Foi-lhe tributada honra nos dias primitivos de acordo com títulos que desde muito estão simplesmente esquecidos. Ela pode ser honrada de um modo numa nação e de modo diferente noutra. As formas que a devoção a ela assume podem mudar, mas a fé católica a respeito de Maria permanece substancialmente a mesma. John Henry Newman, o eminente inglês convertido à Igreja Católica, assinala a importância de se aquilatar a distinção entre fé e devoção, e mostra como o deixar de fazer isso dá lugar a que tantos se desviem, clamar do “Mudança!”, onde mudança não há nem houve.

Clara compreensão

Por “fé” ele entendia o nosso assentimento à verdade revelada por Deus; por “devoção” entendia a honra religiosa que pertence aos objetos da nossa fé, e a tributação dessas honras. “Fé e devoção”, escreveu ele, “são tão distintas de fato como o são em ideia. Com efeito, não podemos ser devotos sem fé, mas podemos crer sem sentir devoção. “Deste fenômeno cada um tem experiência tanto em si como nos outros; e damos testemunho dele todas as vezes que falamos de compreender uma verdade ou de não a compreender. Pode isso ser ilustrado, com mais ou menos exatidão, por coisas que se nos deparam no mundo. Por exemplo, um grande autor, ou homem público, pode ser reconhecido como tal por uma série de anos; contudo, pode haver um incremento, um fluxo e um refluxo, e uma moda, na sua popularidade. E, se ele assume um lugar duradouro nas mentes dos seus compatrícios, pode gradualmente crescer nele ou ser subitamente elevado a ele.

Nós interpretamos

“A ideia de Shakespeare como um grande poeta existiu desde data muito antiga na opinião pública; e havia então ao menos indivíduos que o compreendiam e o honravam tanto quanto o povo inglês pode honrá-lo agora; todavia, penso eu, na época atual há uma devoção nacional a ele tal como nunca houve antes. Isto sucede porque, à medida que a educação se difunde no país, há mais homens capazes de penetrar o gênio poético dele, e, entre estes, mais capacidade também para o compreender profunda e criticamente; e, sem embargo, desde o princípio ele exerceu uma grande e insensível influência sobre a nação, como se vê, em substância, no fato de as suas frases e sentenças, mais do que poderem ser contadas, se haverem tomado quase provérbios entre nós.

“E assim também em filosofia, e nas artes e ciências, grandes verdades e princípios tem sido às vezes conhecidos e reconhecidos por um curso de anos; mas, ou por fraqueza de potência espiritual nos recebedores, ou por circunstâncias externas de natureza acidental, eles não foram aproveitados. Assim, dizem que os chineses conheceram as propriedades do ímã desde tempos imemoriais e o usaram para expedições terrestres, mas não no mar. “Ilustrações tais como estas, excogitadas não com inteiro a propósito, servem para explicar essa distinção entre fé e devoção sobre a qual estou insistindo.

Devoção a Maria 

“O sol na primavera terá do brilhar muitos dias antes de poder derreter o gelo, abrir o solo e trazer para fora as folhas; não obstante, ele brilha desde o princípio, embora só faça sentir o seu poder gradualmente. Ele é um só e o mesmo sol, embora a sua influência dia a dia se torne maior; e assim também, na Igreja Católica, é uma única Virgem Maria, uma só e a mesma do começo ao fim, pois os católicos podem sempre reconhecê-la; e, no entanto, a despeito desse reconhecimento, a sua devoção a ela pode ser escassa num tempo e num lugar, e ser transbordante noutro. “Esta distinção forçosamente é feita conhecer a um convertido como uma peculiaridade da religião católica, na primeira introdução dele no culto desta… quando ele descobre tanto o número como a variedade de devoções que estão abertas aos católicos individuais, para estes escolherem entre elas de acordo com o seu gosto religioso e sua perspectiva de edificação pessoal. A fé é em toda parte uma só e a mesma, porém grande liberdade é concedida ao juízo e à inclinação privada no que concerne a assuntos de devoção”.

Cristo, único Salvador

Finalmente, nunca deve ser esquecido que, na fé e na devoção católicas, Maria nunca é posta no lugar de Cristo ou de par com Ele. Os católicos não tributam a ela a honra que pertence a Cristo como nosso único Salvador. Separada de Jesus, ela não tem nenhum direito especial a honra… não haveria razão para dizer dela alguma coisa mais do que de qualquer outra mulher que houvesse sido conspícua na história bíblica — e talvez nem tanto.

“Assim”, dizem alguns, “os católicos pregam Maria e rejeitam Cristo”. Todo aquele que isso crê nunca leu um livro ou folheto explicativo da fé e da prática católicas. Nunca se deu ao trabalho de ligar para um programa católico de rádio, ou de perguntar à média dos católicos: “Vocês rejeitam Cristo?” Cristo significa tudo para nós. E, por ser Ele tão importante para nós e para todos mais, Maria, sua mãe, deriva dEle uma importância que ninguém pode procurar menosprezar.

Deus teve avô?

Esta pergunta não é feita por brincadeira ou por mofa… nem com espírito blasfemo.

É seriamente formulada pelo autor de um artigo sobre Maria, a mãe de Jesus Cristo, no qual ele tenta mostrar “o absurdo lógico” de se chamar a Maria mãe de Deus. Eis aqui o que ele escreveu:

“Jesus era Deus. Maria era mãe de Jesus. Logo, Maria é a mãe de Deus. Assim raciocina a Igreja Católica Romana. Continuemos esta linha de raciocínio.

“Se Maria é mãe de Deus, então a mãe de Maria é avó de Deus. O pai de Maria é avo de Deus.

“Ninguém me acuse de leviandade”, assegura-nos esse autor, “pelo contrário — tomo a Deus por testemunha — estou falando sério. Se é direito e lógico dizer que Maria é mãe de Deus, então igualmente lógico e direito é dizer essas outras coisas… substituir pela palavra “Deus” o nome de Jesus onde quer que apareça na Escritura.

“Experimentemo-lo. Deus foi circuncidado… Deus foi perdido por seus pais… Deus crescia em sabedoria e estatura… Deus ficou cansado e dormiu”. E a conclusão do nosso autor é a exclamação: “Absurdos lógicos!”

Já que ele chama a tudo isso “absurdo lógico”, que é que esse escritor propõe como resposta “lógica”? Admite que Jesus era Deus — e igualmente que Maria era mãe de Jesus. Contudo, nega que Maria fosse mãe de Deus. Maria argumenta ele, era “mãe de Jesus-homem” como distinto de “Jesus-Deus”.

Jesus-homem distinto de Jesus-Deus? Maria é mãe de um e não é do outro? Onde e quando foi isto ouvido antes? Ainda no ano 429 da era cristã foi pregado um sermão na cidade de Constantinopla. O pregador disse: “Não chame o homem a Maria mãe de Deus. Maria era uma mulher, e uma mulher não pode dar nascimento a Deus”. Estas estranhas palavras causaram considerável emoção no seio do povo de Constantinopla, especialmente quando tal doutrina era sustentada por um homem chamado Nestório — bispo deles. Ele se recusava a chamar Maria mãe de Deus porque não cria que Deus e Jesus Cristo são uma só e mesma pessoa. Sustentava serem duas pessoas distintas, maravilhosamente unidas, de fato, porém tão distintas que o homem Cristo veio à existência quando nasceu de Maria, ao passo que Deus existira desde toda a eternidade. Não importa o quanto ele exaltou a intimidade da união entre o homem Cristo e Deus: para ele, eram duas pessoas diferentes. Maria era a mãe de um homem — de um simples homem.

Raciocínio falso

Tudo isso soou muito estranho aos ouvidos católicos então, como soaria hoje. Causou profunda perturbação na Fé cristã do povo. Assim, para enfrentar a emergência, dois anos depois os bispos da Igreja Católica, em concílio reunido na cidade de Éfeso, tornaram claro a todos aquilo que tinha sido a fé dos cristãos antes deles, e aquilo que devia ser a fé dos cristãos deles em diante. “Jesus Cristo é verdadeiramente Deus”, declararam eles, “e conseguintemente a Santíssima Virgem é mãe de Deus — visto haver dado nascimento, na carne, ao Verbo de Deus feito carne, segundo o que está escrito: “O Verbo fez-se carne” Na medida em que a coisa interessava aos cristãos, não deveria haver mais dúvida.

Foi evidente então e é evidente hoje que a cilada em que inevitavelmente caem os que recusam chamar a Maria a mãe de Deus é a divisão de Cristo — a dissolução de Cristo em algo como “Jesus-homem” e “Jesus-Deus” — o “Jesus Celeste”; e o “Jesus terrestre”. E, consoante o Apóstolo João, “todo espírito que dissolve Jesus não é de Deus…'” (1 Jo 4, 3). Consciente ou inconscientemente, devem eles fazer de Jesus uma pessoa humana se insistem em que Maria era a mãe do simples homem.

A resposta à pergunta: “Maria era a mãe de Deus?” Este toda envolta na pergunta: “Quem era e o que era Jesus Cristo? As duas questões são tão inseparáveis como o são Maria e seu Filho. A resposta católica sempre foi clara e consistente — consistente com as exigências da reta razão e com os fatos a serem achados no Novo Testamento.

E quais são esses fatos? Podem ser brevemente estatuídos como segue. No Novo Testamento, fala-se de Jesus Cristo como Deus, e ele é expressamente chamado Deus. Dele se fala, semelhantemente, como de um homem real e chamado homem. O sentido óbvio é o de que ele era uma pessoa divina que possuía a natureza de Deus e a natureza de homem. Não que a natureza de Deus se houvesse tornado humana, ou que a natureza do homem se houvesse tornado divina. Elas permaneciam distintas, mas nele estavam unidas, por serem possuídas por uma só e mesma pessoa, Jesus Cristo.

A divindade de Cristo

Não é difícil ou irrelevante verificar esses fatos na Escritura. Jesus Cristo é expressamente chamado “Deus” numa porção de passagens. Depois da sua ressurreição, quando ele apareceu aos seus Apóstolos e censurou o dubitante Tomé pela sua falta de fé, “Tomé respondeu e lhe disse: “Senhor meu e Deus meu” (Jo 20, 28). É claro que Tomé desejou proclamar a sua fé não só no fato da ressurreição de Jesus de entre os mortos, mas também na divindade da sua pessoa, para a qual a ressurreição fornecia argumento tão concludente. Neste sentido, Jesus replicou-lhe: “Porque viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram”.

Escrevendo a Tito (2, 13), S. Paulo claramente chama a Cristo Deus quando concita os cristãos a “viverem sóbria e justa e piedosamente neste século; aguardando a bem-aventurada esperança e vinda gloriosa do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo, que se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda iniquidade… ” Deverá ser notado que ele não está falando de duas pessoas diferentes, mas tem em mira somente Cristo, que é conjuntamente “nosso grande Deus” e nosso “Salvador”.

O Apóstolo João fez-se abundantemente claro quando escreveu: “E sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento para que conheçamos o verdadeiro Deus e estejamos em seu verdadeiro Filho. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1 Jo 5, 20).

Não poderia haver afirmação mais explícita do que as palavras de S. Paulo referentes a Cristo como àquele “que está acima de todas as coisas, Deus bendito para sempre…” (Rom 9, 5).

É clara a evidência

Mas Jesus Cristo não é somente chamado Deus nas Escrituras, são lhe igualmente atribuídos características que só Deus pode possuir, e Ele é referido como praticando ações que só a Deus seriam possíveis. Tão numerosas são as passagens neste sentido, que mencionaremos só algumas que são mais intuitivas. Só Deus é onipotente, e só Ele, por causa da sua onipotência, pode criar. Contudo, falando de Cristo, S. Paulo pode dizer: “… todas as coisas subsistem por Ele.”. (Col 1, 17). E “um só Senhor, Jesus Cristo, por quem todas as coisas existem…” (1 Col 8, 6). E S. João escreveu: “Sem Ele nada foi feito do que foi feito (Jo 1, 3).

Só Deus é eterno, e, no entanto, o próprio Cristo proclamou haver existido antes de Abraão, que vivera e morrera séculos antes de haver o Salvador nascido (Jo 8, 58). Ele proclamou mesmo haver preexistido ao próprio mundo (Jo 17, 5).

«… eu o farei»

Não deveria, pois, surpreender que Cristo exigisse que os homens lhe prestassem a honra que só a Deus é devida (Jo 5, 22), e que fizesse promessas que só Deus pode cumprir: “Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei” (Jo 14, 14).

Não é aqui nossa intenção multiplicar passagens do Novo Testamento que servem para estabelecer e confirmar o fato do ser Jesus Cristo verdadeiramente Deus. Apenas assinalaríamos que, seguindo as próprias Escrituras, que identificam Jesus Cristo como Deus, não há “absurdo lógico” em substituir a palavra “Deus” onde quer que o nome Jesus Cristo apareça. De fato, todo aquele que confia na Bíblia é forçado a fazê-lo.

Todavia, o Novo Testamento é igualmente enfático em asseverar outro fato. Jesus Cristo era um homem de sangue vermelho como qualquer outro que tenha vivido. Ele não é representado como um homem fantástico de Marte ou como um fantasma que se movia por entre o povo como uma aparição. A história da sua vida e do seu trato com as outras pessoas é relatada por miúdo. Depois da sua ressurreição, quando Ele se encontrou com os seus discípulos, interpelou-os: “Por que estais perturbados e por que surgem dúvidas nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés, vede que sou eu mesmo. Palpai-me e vede, pois um espírito não tem carne e ossos como vedes que eu tenho”; e, dito isso, mostrou-lhes as mãos e os pés, e comeu na presença deles” (Lc 24, 3843). Estas são as palavras daquele que fora crucificado, que vivera, comera e dormira com eles, que trabalhara em Nazaré, e que, como criança, fora depositado numa manjedoura. Ele usou o argumento mais simples e mais convincente possível. “Não duvidastes de que eu fosse um homem vivo real durante os anos em que vivemos juntos. Agora também não duvideis, pois, ver o sentir é crer”.

Divino e humano

Embora tenha havido no passado tempos em que foi necessário insistir em que Jesus Cristo era um homem real e não um espírito, há pouca necessidade de elaborar neste ponto hoje em dia. Afinal de contas, só aqueles que quiseram solapar toda a história verdadeira é que negam que o homem histórico Jesus Cristo foi uma pessoa real. Porém as mesmas fontes que justificam o reconhecimento de Jesus como um real homem histórico também justificam o reconhecimento dele como uma pessoa divina com todos os atributos de Deus. É pela Escritura que nós ficamos sabendo que — “O Verbo se fez carne e habitou entre nós… o Verbo era Deus… e o Verbo era Jesus Cristo, a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo, e da sua plenitude todos nós recebemos” (Jo 1, 118).

A verdade básica

Referindo-se a Jesus Cristo, S. Paulo falou dele como de alguém que, “embora por natureza fosse Deus, não considerou coisa cobiçável o ser igual a Deus, mas despejou-se a si mesmo, assumindo a natureza de escravo e fazendo-se semelhante ao homem. E, aparecendo na forma de homem, humilhou-se a si mesmo… até à morte da cruz” (Filip 2, 68). Ei-lo aí! Aquele que era Deus, em razão da sua natureza divina, fez-se homem, assumindo para si mesmo a natureza humana.

Haverá em tudo isso qualquer indicação de que o Novo Testamento fale de um Jesus-Deus distinto de um Jesus-homem, ou de que Maria fosse a mãe de um só Jesus e nós fossemos redimidos pelo outro?

Quando formulamos a pergunta: “Quem era o Filho de Maria?”, e baseamos a nossa resposta naquilo que a Escritura nos diz, só há uma resposta possível. Ele era uma pessoa divina que possuía a natureza de Deus e a natureza de homem. As suas duas naturezas com as suas potencias distintivas não fazem dele duas pessoas diferentes. Ele é Jesus Cristo o Filho Eterno de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Este é o fato da Encarnação.

É o fato central do Cristianismo. É a verdade básica — o próprio cerne — do Credo cristão. Os cristãos têm estado falando disso por séculos, e logo foi aprendido que, quando usamos linguagem humana falando de Jesus Cristo, devemos usá-la cautelosamente e interpretá-la cuidadosamente.

Deus — pessoa divina — tomou para si um corpo humano com a mesma estrutura e as mesmas funções que o corpo humano que cada um de nós tão bem conhece. Tomou para si uma alma humana, uma mente humana, sentidos e emoções humanas, não diferentes daqueles com que nós somos dotados ao nascermos. E nem por isso deixou de ser Deus, cuja natureza é inteiramente espiritual, em cuja constituição não entra nada corpóreo, cuja vontade é onipotente, cuja mente é onisciente, e cuja vida não teve princípio nem terá fim. A Escritura simplesmente o declara: “O Verbo fez-se carne e habitou entre nós” (Jo 1).

Jesus é Deus

A irrefragável significação deste fato começa a aclarar-se para nós quando refletimos em que tudo o que é verdadeiro de Deus e tudo o que é verdadeiro do homem é verdadeiro dessa pessoa única Jesus Cristo. Tudo o que é verdadeiro da sua natureza divina e tudo o que é verdadeiro da sua natureza humana pode ser asseverado dele — Jesus Cristo. Ele é infinito, onipotente, onisciente e eterno. E igualmente verdadeiro é que ele é mortal, limitado nas suas potencias físicas, capaz de fadiga e de dor, sujeito a crescimento em estatura corporal e em saber humano.

Não quer isto dizer que a natureza divina se tenha tornado humana, ou que a inteligência infalível de Deus se tenha tornado falível, ou que a natureza imortal de Deus se haja tomado sujeita à morte. O divino de modo algum se converteu no humano. Mas quer dizer que uma pessoa divina possuiu a natureza humana e, se a linguagem deve exprimir a verdade, tudo aquilo que sucedeu a ele na sua natureza humana deve ser, com verdade, asseverado dele.

Com isto em mente, podemos começar a ver que aquilo que pode recear contraditório em certas passagens do Novo Testamento com realmente senso. Com efeito, Cristo pode dizer de si mesmo em certa ocasião: “… pois o Pai é maior do que eu” (Jo 14, 28); e noutra: “Eu e o Pai somos um” (Lc 10, 30). Em razão da sua natureza humana, ele era verdadeiramente sujeito a Deus e podia orar ao Pai celeste de todos os homens. E, em razão da mesma natureza divina que ambos, ele e o Pai, possuem, ele é igual ao Pai e um só com ele.

Em razão da natural fragilidade humana, ele pode suar sangue ante a perspectiva da sua morte, e em razão da onipotência da sua natureza divina pode ressuscitar os mortos para a vida com uma palavra.

Assim, o Apóstolo Pedro não foi réu de um selvagem absurdo quando acusou o povo dizendo: “… vós matastes o autor da vida…” (At 3, 15). Nem S. Paulo disse nenhum absurdo quando escreveu a respeito daqueles que “haviam crucificado o Senhor da glória” (1 Cor 2, 8). Eles crucificaram e mataram Jesus Cristo, que era o Autor da vida, o Criador imortal, conformemente à sua natureza divina, mas que pode morrer na sua natureza humana mortal.

O que disse Pedro

Claro deveria ser, portanto, que, se não foi absurdo para Pedro, em se referindo a Jesus Cristo, falar dos que haviam matado o Autor da vida — Deus, também não é absurdo que, falando de Jesus Cristo, nós digamos: “Deus foi circuncidado; Deus foi perdido por seus pais; Deus cresceu em sabedoria e estatura; Deus ficou cansado e dormiu”.

S. Paulo foi ainda menos absurdo quando falou da vinda de Cristo, o Redentor, com estas palavras: “Quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido da mulher, nascido sob a Lei, para remir os que estavam sob a lei…” (Gal 4, 4). O Filho de Deus nasceu de uma mulher. O Verbo, que era Deus, fez-se homem e habitou entre nós, nascendo de uma mulher. O Senhor, que era Deus, e que nos remiu morrendo na cruz, nasceu de uma mulher.

Que é que isso faz de Maria? Em todo bom senso, ou senso comum, isso faz de Maria nada menos do que a mãe de Deus. Se este título é absurdo, então a Escritura toda é um tecido de absurdos.

Entretanto, muitos que falam livremente de Maria como da mãe de Jesus, retraem-se de chamá-la mãe de Deus, eles não apreendem o pleno sentido da Encarnação, e ideias errôneas concernentes a estas ocultam-se nas suas mentes. Não há boa razão para que uma pessoa divina, Jesus Cristo, que é verdadeiramente homem, não pudesse ser concebido e nascer de acordo com essa natureza humana. Isto não quereria dizer que sua mãe, como alguma espécie de deusa, trouxesse à existência a natureza divina dele. Ainda menos quereria dizer que, como mãe de uma pessoa divina, ela existisse antes dele. Cristo asseverou que existia antes que Abraão fosse nascido, e isso não podia querer dizer nada mais do que que ele existia antes que Maria fosse nascida. Como Deus, ele era eterno; como homem, começou a viver vida humana quando Maria o concebeu. Maria não existiu antes de Deus, mas existiu antes de haver Deus tomado a natureza humana em seu seio.

Se não é absurdo que a pessoa divina, Jesus Cristo, tenha devido a sua vida humana a Maria como sua mãe, também não é absurdo que o pai dela se haja aparentado com ele como avô. Deus teve avô? Formulada sem qualquer referência a Jesus Cristo, esta pergunta é simplesmente absurda. Mas, referindo-se a Jesus Cristo, a resposta afirmativa é verdade evangélica.

Sim Maria é a Virgem Mãe de Deus!

Algumas pessoas não conseguem admitir que Maria tenha sido realmente a mãe de Deus porque deixam de compreender que nada faltou nas suas funções maternas ao conceber e dar à luz Jesus Cristo. Como seu filho, ele deveu tanto a ela como qualquer filho deve a sua mãe.

O seu parentesco materno com Cristo foi um parentesco real e de pessoa a pessoa — um parentesco de sangue, em razão do qual Cristo foi membro da família dela, da nação dela e da raça humana inteira.

“Mas você nos diz que ela permaneceu virgem”, dirão alguns. “Certamente, se ela não perdeu a sua virgindade ao conceber Cristo, não foi mãe dele no sentido ordinário do termo”.

Deve ser lembrado que a maneira como Maria concebeu Cristo é uma coisa, e o fato de havê-lo realmente concebido é outra. A ausência de um pai humano na concepção de Cristo explica que a virgindade de Maria tenha permanecido intacta, mas a realidade do seu papel materno em concebe-lo não foi, por isso, afetada. Um exame cuidadoso dos fatos como são referidos no capítulo primeiro do Evangelho de S. Lucas mostrará isso.

Há muitos pormenores significativos na história da visita do Anjo a Maria quando foi obtido o seu consentimento em vir a ser a mãe do Salvador. Para o fim presente, só damos a atenção aos que versam sobre os fatos essenciais da Encarnação.

Note-se que é Deus quem desempenha o papel dominante na história. O Anjo Gabriel é nada mais do que um mensageiro d« Deus. “O Anjo Gabriel foi mandado por Deus… a uma virgem prometida a um homem chamado José… e o nome da Virgem era Maria” (Lc 1, 2628). É compreensível que uma humilde virgem como Maria ficasse confundida e cheia de admiração ante a honra e a reverência que o mensageiro de Deus mostrou para com ela, saudando-a como “bendita entre as mulheres”. Por que razão era ela digna de tal reverência? A razão é imediatamente fornecida: “… Conceberás em teu seio e darás à luz um filho, e por-lhe-ás o nome de Jesus” (Deus que salva) — nome indicativo da obra de sua vida”, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1, 21).

O Anjo proclamou grandes e gloriosas coisas do filho que dela nasceria, mas isto não perturbou Maria. Ela com simplicidade as acreditou e aceitou como desígnio de Deus. O seu interesse não estava em: pode isso ser feito? Mas sim em “como” sucederá isso, já que eu “não conheço homem”? Nesta resposta está contido mais do que à primeira vista os olhos enxergam.

A Virgem Maria

Ela estava prometida a José, e os seus esponsais significavam troca de votos de casamento. Se não houvesse nada de inusitado sobre o seu esposório, se ela não houvesse resolvido preservar a sua virgindade, a mensagem do Anjo teria indicado que ela devia cooperar com os desígnios de Deus pela maneira natural, e assim vir a ser mãe. E, no entanto, ela, uma virgem prometida, efetivamente estipulou que nem mesmo o plano de Deus a seu respeito poderia ser cumprido por intercorrência sexual com homem.

O Anjo superou essa dificuldade explicando imediatamente que a concepção de Jesus teria lugar não por intercorrência com homem, mas pelo poder de Deus. Como virgem, e com a sua virgindade intacta, ela conceberia e viria a ser mãe.

Removida, assim, toda ansiedade a respeito da sua estremecida virgindade, ela consentiu com simplicidade e de coração, e o Anjo deixou-a, uma vez cumprida a sua missão. O Verbo fizera-se homem e habitou entre nós. A Encarnação tivera lugar. Quando ela disse: “… Faça-se em mim segundo a tua palavra”, o Filho de Deus tomou carne no seu seio.

Através deste extraordinário evento, como narrado por Lucas evidentemente por informação por ele obtida da própria Maria, não há cogitação ou menção de José, seu esposo. De fato, tanto o Anjo como Maria excluem expressamente qualquer intervenção do homem. No relato de Mateus, é explicitamente declarado que Jesus não era filho de José.

Os dois fatos importantes e inegáveis que ressaltam da narrativa evangélica são a concepção, por Maria, do Filho de Deus, e a conservação da sua virgindade. Consideremos primeiro o começo da gravidez de Maria quando ela no princípio contraiu o parentesco materno de pessoa a pessoa com o Filho de Deus.

É princípio universalmente admitido que uma mulher é com razão chamada mãe do filho que ela concebe. O primeiro ato do seu papel materno é fornecer, por meio dos seus órgãos femininos, o óvulo capaz de se desenvolver num corpo humano. Isto sozinho não a torna mãe, mas apenas uma mãe em potencial. O óvulo não é uma pessoa humana.

A alma espiritual

Igualmente requerida é a função paterna de fornecer a semente que fecunda o óvulo. Mas o processo de fecundação sozinho não dá causa a que o óvulo se torne uma pessoa humana. Nem as funções maternas nem as paternas podem transmitir a alma espiritual sem a qual não há natureza humana ou pessoa humana.

No processo natural e normal da reprodução humana, quando se unem ambas as funções, materna e paterna, Deus simultaneamente cria a alma humana que vivifica o óvulo fecundado no seio da mulher, e assim uma pessoa humana é concebida. É sempre a natureza humana de um indivíduo — de uma pessoa que possui a natureza humana.

«… bendita és tu»

Não importa que a mulher não tenha parte na produção do elemento espiritual (diretamente criado por Deus) na natureza humana da pessoa que ela concebe. Para que ela com razão adquira o título de mãe, basta que tenha fornecido a substância corpórea que entra na constituição da natureza humana possuída pela pessoa.

Maria bem pode ser louvada pelo Anjo como “bendita entre as mulheres” por causa do maravilhoso título que seria o seu quando ela concebeu Jesus Cristo. Ela não era apenas a mãe de um filho, mas sim a mãe de um Filho divino. O óvulo que ela fornecia era miraculosamente fecundado no seu seio pelo poder de Deus. Simultaneamente, a natureza humana, composta de corpo e alma, começou a existir e foi possuída pelo Filho de Deus, que a fez sua. Maria tornou-se mãe dele quando o corpo embriônico de Cristo foi vivificado pela sua alma humana, e nesse instante ele começou a sua vida humana no seio dela. Isto teve lugar quando ela consentiu na mensagem trazida de Deus pelo Anjo, e, destarte, tinha ela todo direito e título a ser chamada mãe de Deus.

Deveria ser evidente que a maternidade de Maria, por nenhum esforço de imaginação, teve coisa alguma que ver com a “produção de Deus”. A própria ideia é inerentemente absurda. A completa independência do Ser Supremo exclui qualquer “produção” na medida em que ele entra em causa. Porém Maria podia, e realmente o fez, dar à Pessoa Divina que se fez homem no seu seio a carne humana que o fez verdadeiramente homem, tal qual como qualquer outra mãe dá a carne humana ao filho humano que nasce dela. Por isso ela contraiu com ele um parentesco de pessoa a pessoa, um parentesco de sangue, idêntico ao que existe entre toda mãe e filho.

As funções maternas de Maria ao conceber Cristo foram naturais, normais e, de modo algum, milagrosas. O milagre na concepção de Cristo foi a ausência de um pai humano, em lugar do qual o poder de Deus ativamente ocasionou a gravidez dela sem relações sexuais de qualquer espécie. A milagrosa operação de Deus simultaneamente preservou a virgindade dela e fê-la mãe. Assim as suas funções maternas não foram misteriosas, mas certamente o foi a ação divina em lugar das funções paternas.

O Milagre

Que Maria, permanecendo virgem, tenha concebido Jesus Cristo pelo poder de Deus, isto é positivamente milagroso. Escreve Walter Farrell, O. P.: “O desafio a esse fato hoje é uma parte do desafio universal ao sobrenatural. O desafio não é feito em nome do progresso da ciência, embora seja sob esse título que muitos o rejeitam hoje em dia; antes, é feito em nome da decadência da Fé. Absolutamente não há questão científica aqui envolvida; porquanto o ponto em apreço não é o do que pode fazer na ordem física uma causa secundária (uma criatura), mas, antes, o do que pode fazer a causa primária (Deus). Filosoficamente, a possibilidade dessa virgindade miraculosa não representa dificuldade de qualquer espécie. Se…. o pai natural opera em virtude da causa primária (Deus), como tudo o deve fazer, então certamente a causa primária (Deus) pode produzir o mesmo efeito sem o pai natural… Deus pode fazer tudo aquilo que ele pôs dentro do poder das suas criaturas”.

Dentro do poder de Deus

Os críticos do miraculoso não podem razoavelmente negar a Deus o poder que ele deu às suas criaturas, nem exigir que as ações de Deus sigam a maneira das ações das suas criaturas. A possibilidade da concepção virginal de Cristo por Maria é simples; o fato deve ser aceito pela fé dos que querem crer no Anjo, quando ele diz: “A Deus nada é impossível”.

Nos nossos dias, quando o valor da virgindade, mantida por um motivo de amor de Deus, é frequentemente pouco estimado, há quem considere a preservação da virgindade de Maria como uma condenação antinatural do sexo. “Esta apreciação equivocada”, escreve o Padre Farrell, “deixou de ver a inteira beleza da virgindade e a inteira significação, para todas as suas filhas, da pureza imaculada de Maria. Esta é uma ênfase da sagrada significação do sexo, e não a condenação deste. Aqui foi francamente dito que o sexo não é um brinquedo, nem um amo, nem instrumento de prazer, mas sim um mensageiro do amor, a expressão física da sublimidade espiritual. Separado do amor, o sexo não é humano, é animal. Em Maria, esse amor era um amor divino, um amor que não precisava de expressão física; de feito, do lado de Deus, uma expressão física era uma impossibilidade. A esse amor Maria trouxe pureza, como toda mulher deveria trazer. A sua virgindade foi absoluta, para acentuar o alto lugar da pureza e a sacralidade da consagração divina; em todas as outras esposas a virgindade de Maria tem seu paralelo na fiel castidade, isto é, na aderência ao significado humano do sexo”.

Porém, mesmo quando a concepção virginal de Cristo por Maria é concedida, persiste a questão: Por que foi isso necessário?

O Filho de Deus poderia ter vindo ao mundo com uma natureza humana e habitado entre nós sem as preliminares da concepção, do nascimento, da infância e do mais. Tudo isto é inteiramente possível. Todavia, se ele assim houvesse feito, inquestionavelmente teriam ficado pendendo dúvidas acerca da realidade da sua humanidade, e, portanto, da sua morte e ressurreição. Foi para obviar a tais dúvidas que ele nasceu tal como nós nascemos.

Mas por que era necessário a Maria permanecer virgem?

“Imaginemos, escreve Hugh Pope, a Santíssima Virgem tal como uma matrona comum, com vários filhos, um dos quais subitamente anuncia ser o Messias. É fácil pintar o ressentimento dos outros. Supondo agora que esse pretenda ser o Redentor do mundo, seus irmãos naturalmente perguntariam como é que ele, simples homem e precisando também de redenção, poderia fazer isso. E ele teria de explicar que era Deus feito homem. Mas a isso eles poderiam efetivamente redarguir: “Você nasceu, logo é homem, seja lá o que for que pretenda ser”; e poderiam logicamente insistir em que, se nascido, ele, como os outros, incidiria na maldição infligida a Adão e aos seus descendentes, e, conseguintemente, precisaria, por sua vez, de redenção. E que outra resposta poderia ele dar senão que o argumento deles era irrespondível, a menos que ele houvesse nascido de uma virgem?”

A profecia

Como o único genitor humano de Jesus Cristo, Maria trouxe-o ao mundo como um membro de sua família, descendente de Davi como fora profetizado desde antanho, como membro da nação judia e como membro da raça humana descendente de Adão. Se todos os homens são irmãos (e certamente o são), por ter nascido de Maria, Jesus Cristo tem todo direito a ser contado entre nós. Mas, nascendo de uma virgem, Jesus Cristo não foi da semente de Adão. A ausência de um pai humano significava que, na sua concepção, ele não era nem mesmo sujeito a herdar o Pecado Original e nem precisava mesmo ser preservado de herdá-lo. Aquele que era o Salvador do pecado não precisava, em sentido algum, ser salvo do pecado.

Mas, uma vez que é estabelecido o fato de Maria haver sido realmente a virgem mãe de Deus, torna-se aparente o lugar dela no plano divino da redenção do homem por meio de Cristo. Ela é mais do que um acessório de menos importância na elaboração do plano divino, acessório cuja utilidade pode ser prontamente reconhecida e depois posta fora de vista e desdenhada. O Deus Onipotente não a honrou fazendo a mãe da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade sem esperar que nós a honrássemos semelhantemente. Não foi sem razão que ela foi incluída no sumário mais antigo dos puros essenciais da Fé cristã a que nós chamamos o Credo dos Apóstolos: “Jesus Cristo… que nasceu de Maria Virgem”. Em matéria de fato, e não estamos falando de um positivo e deliberado desrespeito a ela, a mera ausência de crença em Maria como mãe de Deus e a mera ausência de honra a ela tributada como mãe de Deus são sinais certos de uma Fé cristã defeituosa — a espécie de fé que não corresponde à fé que agrada a Deus.

Maria é, pois, real e verdadeiramente mãe de Deus. Se isto assim é, que dignidade humana pode ser grande demais para ser atribuída a ela, que tão de perto e tão intimamente está aparentada com o próprio Deus como uma mãe o está com seu filho? Deus só poderia outorgar a uma mulher dignidade maior dando-lhe um filho maior do que o deu a Maria. E isto é impossível!

Tem a Mãe de Cristo alguma relação com você?

Você pensa de Maria como de uma mulher cujo nome chegou até nós na história simplesmente por ter ela tido a oportunidade de ser mãe de Jesus Cristo, o maior personagem histórico de todos os tempos? É só isso que ela significa para nós neste tempo e nesta época? Ou Maria, no seu papel como mãe de Cristo, tem uma ação prática conosco?

Considerando esta questão, não podemos perder de vista quem era Cristo — o Filho de Deus feito homem; mas igualmente importante é a razão por que ele se fez homem — o cumprimento da promessa de Deus de salvar seu povo dos seus pecados. Isto diz-nos respeito. Podemos, por certo, considerar separadamente estas questões e as suas respostas na nossa mente; na realidade, entretanto, elas são apenas fases diferentes do plano unificado da nossa Redenção. Se Maria foi associada a Cristo em operar a nossa Redenção pela morte de Cristo na cruz, Maria tem uma importante relação com você e comigo no mundo de hoje:

A correta e conveniente crença e prática cristã será porventura reconhecer que Maria foi a mãe de Jesus — uma humilde e piedosa judia — e que isso é tudo? O Novo Testamento registra a visita dela a Isabel, o nascimento de Jesus em Belém, a parte dela na conversão milagrosa da água em vinho em Caná, a sua presença ao pé da cruz em que Cristo morreu, e com os Apóstolos no cenáculo por ocasião do Pentecostes. Mas, pode-se perguntar, que tem tudo isso a ver com a nossa salvação? São Paulo não falou de Jesus Cristo como do único Mediador entre o homem e Deus? Pedro não proclamou que só há um único nome no qual nós somos salvos — Jesus Cristo? O próprio Cristo não censurou Maria em várias ocasiões por se intrometer na sua obra quando ele se ocupava dos negócios de seu Pai? Não deveríamos, pois, relegar Maria a segundo plano, para não suceder que, honrando-a, defraudemos Cristo na honra a que ele tem direito?

Estas questões refletirão provavelmente a atitude de muitos dos nossos leitores, e aqui as mencionamos para indicar que estamos ciente do ponto de vista deles. No entender dos católicos, esse ponto de vista é lastimavelmente errado.

Atitude tal para com Maria certamente não tem sido a atitude histórica dos cristãos na Igreja Católica desde os primeiros tempos até o presente dia. Ela não se baseia em indicações que a Escritura nos dá sobre qual deve ser a nossa atitude para com Maria, conforme tem sido isto explicado pela viva voz da Igreja desde os dias dos Apóstolos.

Noutro lugar neste folheto foi declarado que os católicos obtêm a sua informação sobre Maria — não da Igreja a nos ensinar como se a Bíblia não existisse, mas sim da Igreja ensinando o pleno significado daquilo que a Bíblia diz a respeito de Maria. A resposta católica à pergunta: Tem Maria alguma relação prática com você? — É um bom exemplo daquilo que temos em mira.

Alguém disse que a associação de Maria a Cristo como sua mãe tinha com a redenção do homem quase a mesma relação que a mãe de Cristóvão Colombo teve com o descobrimento do Novo Mundo. É válida esta comparação?

Quando a mãe de Cristóvão Colombo concebeu este, não sabia que seu filho seria um grande explorador. Maria, pelo contrário sabia quem era seu Filho e o que ele faria.

A mãe de Cristóvão Colombo não foi consultada sobre se queria ou não queria vir a ser a mãe do grande explorador. Entretanto Maria consentiu em vir a ser a mãe do Salvador, e o seu consentimento foi dado livremente.

Estas diferenças colocam qualquer comparação da mãe de Jesus com a mãe de Colombo num contraste ridículo.

Pelo seu consentimento em vir a ser a mãe do Filho de Deus Maria livremente se associou ao Filho de Deus na redenção de toda a humanidade — e isso inclui cada um que lê estas palavras.

Tem você pensado de Maria como de uma mulher que não teve ligação pessoal com a grandeza com que seu Filho foi distinguido mais tarde na vida? Considera-a como uma mulher que foi mero agente inconsciente e involuntário no plano divino da redenção do homem, plano levado a efeito por Jesus Cristo? Então mude de ideias, se quer que elas se conformem aos fatos da Escritura.

Que foi que Deus propôs a Maria por intermédio do Anjo Gabriel? Não foi a vinda do Filho de Deus ao mundo, nascido da mulher, para redimir a humanidade? Que foi justamente que o Anjo Gabriel negociou com a humilde filha de Davi, e a que foi que ela deu o seu consentimento? Foi isso um assunto privado e pessoal entre ela e Deus Onipotente, ou foi um acontecimento público e social ao qual ela deu o seu consentimento?

A simples leitura do Evangelho revela que não foi a dignidade pessoal de Jesus que o Anjo frisou. Antes, foi que ele devia ser o Salvador dos homens pecadores, o Messias prometido a todos, o Rei da humanidade redimida. Maria foi, pois, solicitada a se associar ao conseguimento do propósito do Filho de Deus ao se fazer homem — a salvação dos pecadores, na missão do Messias e na fundação do reino anunciado pelo Anjo Gabriel.

A Igreja Católica sempre assinalou que, na visita do mensageiro de Deus a Maria, foi combinada a obra redentora de Cristo, e esta dizia respeito a toda a humanidade. Não há aí lugar para ideia de haver Maria consentido em ser mãe de Jesus apenas como pessoa privada, ou não ter tido relação para com ele como pessoa pública e como o Redentor dos homens.

Pelo próprio fato de haver sido permitido a Maria cooperar voluntariamente com Deus quando ele enviou seu Filho nascido de mulher, ela foi, por isso mesmo, associada à realização do fim para o qual ele veio. Consentindo em dar carne humana ao Filho de Deus e em pô-lo no mundo, não deu ela, a seu modo, o Redentor ao mundo? Se Deus nosso Pai nos deu seu Filho unigênito como nosso Redentor, não o fez por intermédio de Maria?

É este o significado do consentimento de Maria, quando disse: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”, significado que a Igreja Católica nunca cessou de apontar ao mundo cristão. São apenas algumas breves palavras na Bíblia, é verdade, mas são profundas de significação para todo aquele que está interessado nelas.

Mas será que tudo isto é achado somente numa curta passagem no primeiro capítulo do Evangelho de S. Lucas, e nem sequer é tocado noutros lugares na palavra escrita de Deus? De modo algum! Comecemos por S. Paulo. Além de se referir a Jesus Cristo como ao Filho de Deus nascido da mulher, ele também lhe chamou “o segundo Adão” (1 Cor 15, 4547), e há um mundo de significado neste título, e ele concerne não somente a Jesus Cristo, mas igualmente a Maria.

Referir-se a Maria como à “segunda Eva” pode-se apresentar à mente de alguns dos nossos leitores como uma ideia inteiramente nova — mas não é nova. Absolutamente! É tão velha como o Cristianismo, e tem as suas raízes na parte mais antiga do Antigo Testamento.

Quando S. Paulo falou de Jesus como do “segundo Adão”, abriu todo um aspecto novo do Salvador e da sua obra. Exprimiu aquilo que lhe fora revelado sobre o plano de Deus para a redenção do homem. Segundo S. Paulo, Cristo é o segundo Adão que restaurou para a humanidade aquilo que para a humanidade foi perdido pelo primeiro Adão, o pai do gênero humano. “… Assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados” (1 Cor 15, 22).

A similaridade entre Adão e Cristo pode-se dizer que reside geralmente na relação que ambos tiveram para com o gênero humano inteiro, um como pai e outro como Redentor. O contraste entre eles jaz na conduta e nos efeitos diferentes de cada um deles. A desobediência do primeiro acarretou a perda da amizade de Deus, e sobretudo a morte. A obediência do segundo restabeleceu essa amizade e a espécie de vida espiritual que a Deus apraz.

A comparação feita por S. Paulo, de Cristo com Adão, fundada como é no relato da queda do homem no Gênese, necessariamente pede uma comparação entre a mulher que ali é predita como a antagonista de Satã, e que daria nascimento ao Redentor prometido, e Eva, que esteve associada a Adão na queda.

Comentários católicos sobre a Escritura, inclusive o composto por homens que viveram poucas gerações afastadas de Cristo e dos seus Apóstolos, chamaram a atenção para a notável similaridade entre a parte de uma mulher — Eva — na queda original e na perda da amizade de Deus através de Adão, e a parte de uma mulher — Maria — na restauração, por Cristo, dessa amizade para todos. Essa similaridade é igualmente notada por um erudito protestante da Bíblia numa moderna revista bíblica (Etemity, agosto de 1950, p 45), e eis os seus reparos: “Quando lemos o terceiro capítulo do Gênesis, ficamos sabendo como o pecado e as suas terríveis consequências vieram para a história e para a experiência humanas, isto é, através da desobediência dos nossos primeiros pais. Nesse relato, a mulher foi a primeira na transgressão, e depois seu marido, tendo ela sido enganada pela serpente representando Satanás (1 Tim 2, 14).

“Lendo mais em Gênesis, 3, no meio dessa passagem (v. 15), que é o primeiro texto áureo da Bíblia, há uma nota de esperança, porque a “descendência da mulher algum dia há de esmagar a cabeça da serpente num poderoso conflito, quando a serpente tentar morder o calcanhar da descendência da mulher”. Nós cremos que esse conflito teve lugar no Calvário… onde o nosso Salvador e Redentor realmente morreu, mas, triunfando da morte e do túmulo, esmagou a cabeça da serpente e, pela sua ressurreição, retirou o espinho da morte (1 Cor 15, 55).

“O primeiro ponto importante nessa lição… é que, assim como o pecado veio por uma mulher, assim também, no plano de Deus, um Salvador devia vir por uma mulher” (o grifo é nosso).

O pleno significado e a exata extensão da similaridade que a Escritura diz existir entre a queda de nossos primeiros pais e a reparação dela por Jesus Cristo é especialmente importante se devermos compreender que o papel de Maria na reparação foi designado por Deus para ser similar ao papel da primeira mulher da transgressão original.

Lendo o Gênesis, 3, pode-se ver que Eva teve um lugar essencial na queda da humanidade. Verdade é que o destino do gênero humano estava nas mãos de Adão (Rom 1, 12). Só ele nos representava e poderia impedir ou causar a nossa queda. Contudo, Eva teve um lugar próprio; pois Adão denominou-a “a mãe de todos os viventes” (Gn 3, 20) — nome que exprimia não somente um fato, mas também uma dignidade. Assim como ela tinha a sua própria relação geral com todo o gênero humano, assim também teve seu papel próprio na provação e na queda dele em Adão. “… a mulher, seduzida, prevaricou” (1 Tim 2, 14). Deu ouvido ao tentador e concitou seu marido a comer do fruto, e ele comeu. Ela cooperou no pecado não como um agente irresponsável, senão íntima e pessoalmente. A seu modo, ela trouxe o pecado ao mundo e teve a sua parte no castigo dele.

Nesse terrível acontecimento, três partes estiveram em jogo — o espírito mau em forma de serpente, a primeira mulher e o primeiro homem. E, quando o castigo deles foi anunciado, um acontecimento a ter lugar em futuro remoto também foi anunciado — acontecimento no qual três partes haviam de figurar — serpente, a mulher e o homem este descendência dela. Mas deveria haver um segundo Adão e uma segunda Eva, e esta deveria ser a mãe do novo Adão. Deus prometeu por inimizades entre a serpente e a mulher, entre a descendência da serpente e a descendência da mulher. Haveria completa vitória para a mulher e sua descendência, sobre a serpente. A descendência da mulher é Jesus Cristo, o novo Adão, e Maria, sua mãe, é a nova Eva.

Irineu, um sábio cristão que nasceu pelo ano 130, da era cristã, e a quem a Fé cristã fora ensinada por um discípulo do Apóstolo João, deixou um registo do que foi a primitiva compreensão cristã da parte de Maria na Redenção, comparada com a parte de Eva na queda.

Destacamos Irineu entre muitos por ser ele familiar com aqueles que tinham estado ‘perto tanto de Pedro como de Paulo, e que “ainda tinham a pregação dos bem-aventurados Apóstolos a lhes soar aos ouvidos”, ele atesta que a mesma pregação da verdade que a Igreja recebeu dos Apóstolos chegara até ele, e conseguintemente “uma só e mesma fé vivificadora tinha sido preservada na Igreja e era transmitida na sua pureza e integridade desde os Apóstolos até o seu tempo” (Adv. Haeres. III, 3). Escreveu ele:

“Assim como Eva foi seduzida pela voz de um anjo, de modo a fugir a Deus transgredindo a sua palavra, assim também Maria recebeu a boa nova pela voz do anjo, de modo a trazer Deus dentro de si, sendo obediente a essa palavra. E, embora uma houvesse desobedecido a Deus, contudo a outra foi impelida a lhe obedecer; para que da virgem Eva a virgem Maria se tomasse a advogada e, assim como por uma virgem a raça humana tinha sido fadada à morte, assim também por uma virgem ela é salva, sendo preservado o equilíbrio — a desobediência de uma virgem pela obediência de uma virgem” (Adv. Haer. III, 19).

Dissemos que Eva teve parte essencial no pecado original. Como foi exatamente que ela foi envolvida nele precisa ser examinado mais de perto.

Foi responsabilidade só de Adão que o estado de pecado seja herdado por todo o gênero humano. Ele, e não Eva, é que era o chefe da família humana. Se só Eva houvesse caído, a posteridade deles não teria sido afetada. Se ela tivesse ficado fiel, ao passo que só Adão pecasse, o estado de pecado passaria a todos os homens.

Conforme as coisas realmente aconteceram, Adão foi incitado ao pecado pela persuasão de Eva. Pela sua persuasão ela fez com que se passasse todo o infeliz episódio; e, neste sentido, este pode ser atribuído a ela. Assim, enquanto é verdade que Adão é o autor da ruína causada exclusivamente pelo seu pecado, todavia, por causa da cooperação de Eva, a coisa toda pode ser verdadeiramente atribuída à sugestão e instigação desta.

Agora olhemos para a parte de Maria na nossa Redenção, como ela realmente teve lugar.

Jesus Cristo é o autor exclusivo da Redenção, e só a sua morte redentora satisfez pelos pecados de toda a humanidade. Ela foi a inteira, plenamente suficiente e mesmo superabundante causa da nossa justificação aos olhos de Deus, da nossa santificação e salvação. Tivesse ele vindo ao mundo sem que qualquer ser humano lhe houvesse sido de algum modo associado, e a nossa redenção teria sido completamente efetuada. Não se houvesse ele oferecido em sacrifício por todos, e tudo o que Maria ou qualquer outro fizesse não teria sido apto para nos reconciliar com Deus.

Assim, o fato de Maria ter sido associada a ele na Redenção, conforme esta realmente teve lugar, não acrescenta nada ao sacrifício dele. É possível nos tornarmos agora amigos de Deus exclusivamente por causa dos méritos de Jesus Cristo. Isto é o que a Igreja Católica sempre ensinou e creu.

Porém, Maria teve uma parte da nossa Redenção, e a Bíblia, nos fornece os fatos. Pela sua parte na queda, a primeira Eva arruinou-nos, incitando conscientemente Adão a pecar. A segunda Eva, Maria, salvou-nos pela sua parte na Redenção, que foi o seu consentimento em vir a ser a mãe do Filho de Deus que veio salvar o seu povo dos seus pecados.

Cooperação por consentimento não é coisa sem importância que possa ser facilmente desdenhada. Suponha que um príncipe da família real da Inglaterra desejasse esposar uma moça que não fosse de sangue real, e que, esposando-a, desejasse conferir-lhe a dignidade real. Mas suponha que, para isso fazer, devesse ele ter o consentimento da rainha — sua mãe. Quando o consentimento desta é dado, o casamento tem lugar, e então seria o príncipe quem realmente outorgaria à moça os direitos reais. Mas não deveria esta tudo, de maneira diferente, à rainha, cujo consentimento tornou isso possível?

É esta uma clara ilustração daquilo que o consentimento de Maria significou na nossa redenção. Jesus Cristo foi o único Autor desta, o único mediador entre o homem e Deus, o qual nos reconciliou com Deus. Sem embargo, Maria foi associada ao Mediador no plano divino e desempenhou a sua parte — parte essencial — justamente como Eva participaria da queda.

Mas por que dizer que a parte de Maria foi essencial? Porque não pode ser chamada de outra forma. Leia o capítulo primeiro do Evangelho de S. Lucas, e observará que o Anjo Gabriel não visitou Maria simplesmente para anunciar o que estava para acontecer; pediu o consentimento dela. Nos desígnios de Deus, portanto, o consentimento dela era necessário. E por que foi procurado, se não era necessário? E note-se bem que Maria foi solicitada a vir a ser não somente a mãe do Filho de Deus feito homem, senão também a mãe de um Redentor sofredor, de cujos sofrimentos ela participaria (Lc 2, 35). Era simplesmente justo que ela não fosse, sem o seu prévio consentimento, sujeitada à dor que lhe traspassaria o coração.

E por que é que o seu consentimento foi procurado? Entre outras razões, porque o seu consentimento tornava a Reparação semelhante à queda. Pela sua soberba desobediência, Adão arruinara o gênero humano todo; assim Jesus Cristo, o segundo Adão, pela sua humilde obediência salvou a humanidade. Assim como Eva, pelo seu conselho, cooperara na desobediência de Adão, assim também Maria, a segunda Eva, pelo seu consentimento no sacrifício de Cristo cooperou na Redenção que ele operou na cruz. A primeira mulher incitara à queda escutando a sugestão do anjo rebelde; por isto a segunda Eva consentiu na proposta da nossa redenção feita pelo anjo fiel que a ela viera da parte de Deus.

Na sua infinita bondade e amor, Deus planejou a nossa redenção e o modo como ela se efetuaria. Ao seu amor reconhecemo-nos inteiramente devedores. Mas também vemos que, de acordo com o plano do seu amor, o Filho Eterno de Deus, Jesus Cristo, fez-se homem e sacrificou-se por nós na cruz. Sem de modo algum diminuir a gratidão que devemos ao nosso Pai Celeste, reconhecemo-nos inteiramente devedores a Jesus Cristo, nosso Salvador. É também inteiramente aparente que o consentimento de Maria foi procurado e obtido para que o Filho de Deus se fizesse homem e nos salvasse dos nossos pecados. Por isto, sem de modo algum diminuir a gratidão que devemos a Jesus Cristo e ao nosso Pai Celeste, nós nos confessamos devedores a Maria.

A nossa gratidão a Deus, nosso Pai, não é diminuída, antes, é intensificada, pela nossa gratidão a seu divino Filho. De maneira semelhante, a nossa gratidão ao nosso Divino mestre não é diminuída, mas aumentada, pela nossa gratidão a Maria. Os que mais a honram e lhe mostram a maior gratidão também oferecem a mais alta honra, a mais profunda gratidão e o mais fervoroso amor a Jesus Cristo, nosso Divino Redentor.

Tem, pois, Maria qualquer relação conosco? Sim, certamente que tem — é a resposta da Igreja Católica. E essa resposta é a mesma hoje qual foi no século quarto: “Eva foi chamada a mãe dos viventes… depois da queda foi-lhe dado este título. Verdadeiro é ele… a raça inteira do homem na terra nasceu de Eva; mas, na realidade, de Maria foi que a Vida verdadeiramente nasceu para o mundo. De modo que, dando nascimento ao Único Vivo, Maria veio a ser a mãe de todos os viventes” (Epiphanius, Haer. 78 n. 9).

Os cristãos têm exprimido a relação de Maria conosco dirigindo-se a ela com o título “Nossa Mãe”. Isto, é claro, não denota maternidade no sentido natural do termo, e sim um real parentesco espiritual. Tão verdadeiramente como S. Paulo, falando aos Coríntios, pode dizer: “Em Cristo Jesus, pelo Evangelho, gerei-vos” (1 Cor 4, 15), Maria pode dizer a todos os homens: “Em Cristo Jesus, pelo meu consentimento à vossa Redenção, gerei-vos”. Ela esteve associada à nossa regeneração dando-nos o autor desta.

Quando Jesus Cristo, no Calvário, dirigiu a Maria aquelas palavras: “Mulher, eis aí teu filho”, e a S. João: “Eis aí tua mãe”, proclamou esta verdade. Os cristãos sempre consideraram S. João como personificando todos os remidos, que olhariam para Maria como para sua “mãe”. Esta é a origem da devoção a Maria.

Maria exultou em Deus seu Salvador!

Maria, a mãe de Jesus, foi isenta do pecado? A Igreja Católica responde: “Certissimamente o foi!”.

Pode isto vir como uma surpresa para aqueles que tem pensado que os católicos creem que Maria não foi remida. Muitos tem perguntado: Os católicos não creem que Maria foi concebida sem pecado? Que foi sem pecado? E isto não contradiz as próprias palavras de Maria: “… meu espírito exultou em Deus, meu Salvador” (Lc 1, 47)?

Segundo a crença católica, Maria, como qualquer outro filho nascido da semente de Adão, precisou ser redimida e foi redimida. Como todos nós, ela só pode obter graça, santidade e salvação pelos merecimentos de Jesus Cristo. É tão verdadeiro dela como o é de nós que não há salvação senão em Jesus Cristo, e não há outro nome, afora o dele, em que possamos ser salvos.

Como a nova Eva associada ao seu Divino Filho na obra da Redenção, ela precisou daquilo que a Redenção trouxe a toda a humanidade — os méritos de Jesus Cristo. Que ela tenha sido associada à Redenção e ao mesmo tempo se haja beneficiado dela, isto não envolve contradição.

Podemos ver algo semelhante na queda de nossos primeiros pais, e é isso apenas outra feição da semelhança entre a Queda e a Reparação.

O efeito do pecado de Adão foi despojar do estado de inocência não somente a ele mesmo e a sua posteridade, mas também a própria Eva, por instigação da qual o seu pecado foi cometido. Eva, por certo, cometeu uma ofensa contra Deus, mas o seu pecado poderia afetar a ela pessoalmente. Só Adão pode afetar todos outros, de quem ele era cabeça. Assim, Eva incitou Adão a pecar, e o pecado dele motivou que ela perdesse o estado de inocência juntamente com a sua posteridade ainda não nascida.

O efeito da Redenção de Jesus Cristo foi não somente a salvação da humanidade, mas também a salvação de Maria. Maria tornou possível a Redenção para nós pelo seu consentimento, e gozou o benefício dela como os outros seres humanos, e mesmo mais plenamente do que qualquer outro ser humano.

Coloquemos de outro modo este ponto importante. Adão verdadeiramente poderia dizer a Eva: “Foi o seu conselho que me fez pecar”; e ela poderia dizer-lhe com igual verdade: “Foi o seu pecado que me fez perder o estado de inocência em que eu fui criada”. E Jesus poderia dizer a Maria: “Pelo vosso consentimento me possibilitastes redimir o mundo”, e ela poderia dizer-lhe: “Eu precisei do sacrifício da vossa paixão e morte para a minha redenção”.

Em relação à Redenção da humanidade, a situação de Maria foi, obviamente, única, e não deve ser surpreendente que a sua retenção pessoal por seu Divino filho tenha sido única. Ela não foi livrada ou isentada de pecado em que houvesse caído, nem foi purificada de pecado de que houvesse sido infectada; antes, foi preservada e resguardada de cair em pecado; a infecção do pecado original foi impedida no caso dela, logo no primeiro instante da sua existência no seio de sua mãe. Ela foi concebida imaculada por sua mãe — livre de pecado e dotada da graça de Cristo, em razão dos méritos antecipados da paixão e morte de Cristo.

A preservação de Maria de herdar o estado de pecado original é comumente chamada a sua Imaculada Conceição. Esta não quer dizer, como tantos erroneamente pensam, a concepção virginal, por ela, de Cristo, e não está ligada ao fato de Cristo não ter tido pai humano, mas sim de ter sido concebido milagrosamente por Maria. Nem quer dizer que Maria tenha sido concebida por sua mãe de maneira milagrosa, sem relações conjugais com seu marido. Não! Na medida em que os pais de Maria entram em causa, ela foi concebida pela maneira natural da reprodução humana. Sendo concebida pela maneira natural, Maria teria sido concebida sem a graça de Deus e teria herdado o estado de inocência perdida, como sucede a todos os que descendem de Adão por geração natural humana. Mas Deus preservou-a disso por causa do papel que ela devia desempenhar no seu plano divino.

A fé da Igreja Católica na Imaculada Conceição é expressa com simplicidade como segue: “… a Bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro momento da sua conceição, por um singular privilégio de Deus Todo-Poderoso, em vista dos méritos de Jesus Cristo nosso Salvador, foi preservada de toda mácula do pecado original”.

A ausência de toda mancha do pecado original em Maria é o elemento importante na Imaculada Conceição. Todo filho de Adão normalmente é privado da inocência original de nossos primeiros pais, da qual teríamos sido dotados ao nascermos se Adão houvesse permanecido fiel a Deus. Esta privação da graça e da inocência é figuradamente chamada “mancha”, para denotar a ausência do lustre da graça de Deus que a alma humana perde quando no princípio é unida ao corpo no seio materno. A ausência da graça de Deus significa a ausência de santidade e um estado desagradável a Deus, esse estado de perda é normalmente reparado pela regeneração espiritual efetuada por Cristo mediante o Sacramento do Batismo. Maria, entretanto, nunca trouxe essa mancha, senão que, desde o primeiro momento em que seu corpo e sua alma foram unidos, ela esteve em estado de inocência e de amizade divina.

É quando Deus, no princípio, promete a futura Redenção, na presença de Satanás e de Adão e Eva pecadores, que achamos uma indicação do privilégio de Maria. “Inimizades porei entre ti (a serpente usada figuradamente em lugar de Satanás) e a mulher, entre a tua descendência (todos os pecaminosos seguidores de Satanás) e a dela (Jesus Cristo, que esmagará a cabeça da serpente) …” (Gn 3, 15). Os cristãos sempre viram neste anúncio uma promessa do futuro Redentor e da sua vitória sobre o pecado e o demônio. Porque Jesus é a semente ou descendência da mulher, em conflito com a semente ou descendência da serpente.

Jesus, contudo, é a semente da mulher que é oposta a Satanás, não por causa de qualquer remota ligação que ele tivesse com Eva, em quem não achamos a prometida oposição. Eva, como Adão, fora vítima da serpente. Só em Maria associada a seu Filho, em oposição à serpente, é que tal inimizade pode ser achada.

Semelhantemente, a mulher e a sua semente alcançarão uma completa; vitória sobre a serpente, cuja; cabeça será esmagada. Completa vitória sobre o demônio só pode significar completa vitória sobre o pecado e suas consequências. A completa e irrestrita vitória do Filho e de sua Mãe, a ele associada na prometida vitória, não teria sido realizada se em qualquer tempo Maria tivesse sido sujeita ao pecado e ao demônio.

O pecado em Maria tê-la-ia oposto a Deus, e não a Satanás. Mas Deus prometeu uma completa oposição entre a mulher e Satanás, e, através da sua descendência, completa vitória sobre este. E Deus cumpriu esta promessa preservando-a do pecado original.

A significação desta promessa divina não passou despercebida aos primeiros cristãos, como evidente nos seus escritos que ficaram preservados até hoje. Os que insistem em dizer que os católicos de séculos recentes aditaram novas doutrinas ao ensino cristão original a respeito da santidade de Maria em particular, e de todos os privilégios que a ela atribuímos em geral, deveriam ler o que os cristãos nos primeiros séculos realmente ensinaram. Passagens pertinentes das obras deles foram traduzidas para inglês e coligidas em volumes tais como o intitulado “A Bem-aventurada. Virgem nos Padres dos Seis primeiros Séculos”, de autoria de Thomas Livius, publicado por Burns & Oates. No prefácio desse livro, declara o erudito autor: “Esforçando-me por ser tão imparcial quanto possível, formei a clara convicção de que… os escritores dos seis primeiros séculos unanimemente tiveram Nossa Senhora na mesma alta apreciação em que ela tem sido tida pelos católicos de todas as épocas subsequentes; e que tudo o que a Igreja em qualquer tempo definiu ou sancionou com relação aos privilégios dela e à honra que lhe é devida… pode ser achado substancialmente, e em princípio ou em germe, nos escritos (que eu coligi)… e não só isso, porém das passagens que eu citei transparecerá… que muitos dos padres foram tão explícitos nos seus laudatórios da Santa mãe de Deus, que pouco deixaram para os que vieram depois deles fazerem, a não ser repetirem as próprias palavras deles e repercutirem o seu louvor”.

E como foi que os primeiros cristãos falaram da santidade de Maria? “Outros podem ser santos”, disseram eles, “porém Maria fruiu da inteira plenitude da santidade”. “Deus, que fez a primeira virgem (Eva) sem pecado, fez a segunda virgem (Maria) sem falha”. Falando da santidade dela, eles usavam adjetivos tais como santidade “intacta”, “impoluta”, “incontaminada”, “incorrupta”, “sem culpa”. Ela não é somente imaculada, senão “totalmente imaculada” — “totalmente sem mácula”, “sempre sem pecado”, “inteiramente imune de pecado”, “intacta do pecado”. Será que a crença dos católicos hoje em dia, de que Maria foi preservada de toda mácula de pecado, mesmo do pecado original, acrescenta alguma coisa a essa crença que se estende por toda a história do povo cristão?

Se você se pergunta por que é tão importante essa isenção do pecado no raiar da vida dela, e por que os cristãos sempre a têm aclamado como tendo sido imaculada, e não manchada, a razão é que ela era dessarte adequada para vir a ser a mãe do Redentor, digna de ser associada ao Filho de Deus num parentesco muito íntimo. Em Maria não houve nódoa de pecado a se refletir sobre seu filho. A carne que o Santo tomou dela como sua mãe foi a carne de alguém que nunca tinha sido — em sentido algum — um pecador.

A ausência de pecado em Maria queria dizer santidade — uma santidade em que ela firmemente cresceu. Quando veio o tempo de visitá-la o Anjo de Deus, pode ele saudá-la como “cheia de graça” e “bendita entre as mulheres”. Nunca antes um mensageiro de Deus dirigira a um ser humano tal linguagem. Deve ter havido uma razão para isso.

Há dois pontos importantes que devem ser guardados em mente ao procurar essa razão. O primeiro é que Deus não faz nada por acaso ou sob a impulsão do momento. O Deus Eterno simplesmente não age desse modo. O que ele faz no mundo ele o planejou desde o começo do tempo. Não sucedeu, pois, que ele mandasse um anjo a uma cidadezinha da Judéia, a uma bela menina judia que ele escolheu para ser a mãe do Messias depois de um pronto o onisciente lance d’olhos sobre todas as outras e uma pronta decisão de que ela devia ser a única. Ela lhe esteve na mente desde o princípio. Quando ela veio à existência, já foi para ser a mãe de Deus.

O segundo ponto é que, quando Deus dá a alguém uma obra a fazer, dá o necessário para faze-la direito. S. Paulo, por exemplo, disse que “Deus nos fez ministros idôneos da “nova aliança…” (2 Cor 3, 6). Por outras palavras, pela sua graça ele nos fez quadrar para cumprirmos aquilo para que ele nos havia chamado. Portanto, Deus, que escolheu Maria para ser sua mãe, deu a ela graça, bem-aventurança e santidade que a tornaram merecedora dessa dignidade. Ela foi preparada para ser a mãe de Deus e para receber em seu seio o próprio Deus.

Não… Maria não se dissolveu no túmulo

Teria Deus originariamente pretendido que alguém se dissolvesse no túmulo? Que resposta a Bíblia dá a isto?

A resposta, em resumo, é que a morte é a pena do pecado, e, quando o primeiro homem apareceu no mundo, não era destinado a morrer, nem o era o gênero humano que dele descenderia.

Nas primeiras páginas do Livro do Gênesis achamos Adão sendo prevenido pelo seu Criador de não comer da árvore da ciência do bem e do mal: “Porque, no dia em que dela comerdes, morrereis de morte” (Gn 2, 17). Ele só conheceria a morte como uma pena por transgredir o mandamento divino. A obediência significaria a imortalidade corporal.

O mesmo aparece através de muitas outras passagens: “Deus não fez a morte”, diz o Livro da Sabedoria (1, 13), “nem tem prazer na destruição do vivente… Deus criou o homem incorrupto…, mas, pela inveja do demônio e a morte entraram no mundo” (2, 2324). S. Paulo diz o mesmo: “… assim como por um só homem o pecado entrou neste mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, naquele em que todos pecaram” (Rom 5, 12).

E assim achamos a pena infligida aos nossos primeiros pais: “… és pó e ao pó hás de volver” (Gn 3, 19). A morte e a dissolução do corpo do homem no túmulo são um castigo do pecado que a humanidade herda juntamente com o próprio pecado.

E como é que tudo se aplica a Maria? Se, pela sua Imaculada Conceição, ela foi preservada de herdar o pecado original e as suas consequências, não deveríamos esperar que não se aplicasse a ela o “és pó e ao pó hás de volver”?

Que o corpo de Maria não se decompôs no túmulo, mas foi “reunido por Deus à sua alma logo depois da sua morte, e que assim ela foi levada à eterna recompensa no Céu, este é o ensinamento da Igreja Católica comumente chamado a Assunção de Maria.

Mas, pode você perguntar, Maria realmente morreu? Quando a sua permanência na terra atingiu o seu tempo marcado, por que é que ela não foi transportada à sua recompensa sem ser sujeitada à morte? Para compreender a resposta a esta pergunta, é bom retrocedermos e considerarmos outra penalidade com que o gênero humano foi cominado por causa do pecado de nossos primeiros pais — o sofrimento. Se a dor e a perturbação implicadas na luta do homem para ganhar a vida num mundo hostil, se o sofrimento aturado pelas mulheres ao darem à luz, são penalidades infligidas como resultado da queda — e o foram (Gn 3, 16-18), — o mesmo deve ser dito de todo e qualquer sofrimento. Originariamente, a humanidade não devia experimentar distúrbio físico e sofrimento; isto foi introduzido no mundo pelo pecado do homem.

O sofrimento e a morte são as consequências do pecado do qual Jesus Cristo veio ao mundo para nos remir. E foi aturando o sofrimento e a morte que ele isso fez. Como nascido de Maria, ele era membro da família humana, mas não era da semente de Adão, visto não ter tido pai humano. Assim, ele não poderia ter herdado qualquer pecado nem contraído as penalidades de sofrimento e morte. Estas penalidades foram por ele livremente assumidas para o fim de oferecer a Deus o supremo ato de amor pelo seu sofrimento e morte na cruz — e assim redimir-nos.

Maria teria herdado o pecado e as penalidades do pecado se Deus não a houvesse preservado dele. Como resultado disso, a condição dela foi uma condição similar à dos nossos primeiros pais antes da queda. Os privilégios de isenção do sofrimento e isenção da morte poderiam ter sido seus, porém ela devia ser associada ao Redentor sofredor, na Redenção que exigia a morte deste. Ela associou-se livremente a ele, e, portanto, livremente se submeteu ao sofrimento e à morte, não como castigos do pecado, mas como defeitos próprios da natureza humana e úteis para a obra redentora. Ela livremente resignou privilégios que convinham a alguém que era isento do pecado original, e submeteu-se ao sofrimento e à morte, como convinha a uma associada do Redentor.

Assim houve uma razão para Maria morrer, e houve uma razão para que o seu corpo morto não se dissolvesse no túmulo. Como a segunda Eva, Maria foi associada a Jesus Cristo como segundo Adão no completo triunfo que ele alcançou sobre o pecado e as suas consequências — especialmente sobre a morte. Pela sua Imaculada Conceição ela participou da vitória dele sobre o pecado; pela sua assunção corporal ao Céu participou da vitória dele sobre a morte.

Não devemos esquecer a passagem, no Gênese, que fornece a base para a crença dos católicos relativamente ao lugar de Maria no plano divino da nossa Redenção e aos privilégios que eram seus: “Inimizades porei entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela…” (3, 15). Noutro lugar deste folheto foi assinalado que a oposição que a ela aí se refere é entre o Redentor e sua mãe de um lado, e Satanás e os seus sequazes do outro. Claro que a vitória do Redentor e da sua mãe sobre Satanás será completa.

Ora, em que foi que consistiu a vitória de Cristo? “Para este fim apareceu o Filho de Deus”, diz-nos S. João, “para destruir as obras do demônio” (1 Jo 3, 8). O que ele veio fazer fez. Esta é a sua vitória.

Porém quais são “as obras do demônio” que Cristo veio destruir? O pecado antes de tudo, mas também as consequências deste, entre as quais está a morte.

Como é que o Novo Testamento fala da vitória de Cristo? João Batista disse: “Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira os pecados do mundo” (Jo 1, 29). E a morte também será destruída: “ele (Deus Pai) colocou todos os seus inimigos como escabelo dos seus pés (de Jesus Cristo) … e o último inimigo a ser destruído será a morte” (1 Cor 15, 26). “A morte é tragada na vitória. Ó morte, onde está a tua vitória? Ó morte, onde está o teu aguilhão? Ora, o aguilhão da morte é o pecado…, mas graças sejam dadas a Deus, que nos deu a vitória por Nosso Senhor Jesus Cristo” (55-57).

Todos os homens são chamados a participar do triunfo do novo Adão, e todos participarão dele, mas de diferentes modos. É por isto que S. Paulo escreve aos Romanos: “O Deus de paz rapidamente esmagará Satanás debaixo de vossos pés” (16, 20). Mas qual é a parte de Maria na vitória de Cristo sobre o pecado e a morte? Que ela tem uma parte importante na vitória de Cristo, disto não podemos duvidar, porque ela aparece na promessa do futuro Redentor singularmente associada a este como inimiga do demônio, como mãe daquele que triunfa sobre o demônio.

Portanto, nem o pecado nem a morte triunfarão dela, tal como deixaram de triunfar de Cristo, seu Filho. Isto é verdadeiro do pecado, até mesmo do pecado original, que nós mesmos realmente não cometemos, mas que herdamos no nosso nascimento. Ela foi preservada deles pelo triunfo da sua Imaculada Conceição. Em corroboração, a sua vitória sobre a morte foi alcançada pela sua assunção corporal ao Céu. Ela morreu, é verdade, e seu Filho também morreu. Mas não foi a morte a que S. Paulo chama o “estipêndio do pecado” e a obra do demônio — uma morte que é prolongada pela decomposição no túmulo até à ressurreição final e todos os homens. Esta é a sorte que é castigo do pecado — instigo que a ela não foi infligido. Sim, há uma razão pela qual corpo de Maria não se dissolveu no túmulo, e achamos essa razão indicada na palavra de Deus escrita quando todos os seus ensinamentos são atentamente considerados. É uma verdade revelada por Deus que a vitória de Cristo sobre Satanás incluiu a vitória sobre o pecado e a morte. Isto é explicitamente ensinado no Novo Testamento. Nós igualmente assinalamos que, pela promessa do Redentor no Gênese, e pelo anúncio da sua vinda e do consentimento de Maria, no capítulo primeiro do Evangelho de São Lucas, Maria foi singularmente associada a ele na sua vitória sobre Satanás. Qual foi a vitória dele sobre a morte, se não foi parte da sua vitória sobre Satanás e sobre o pecado? Casada com a dele, a vitória dela sobre a morte, na sua Assunção, é pois certamente revelada por Deus.

Tudo isto foi exposto mui brevemente pelo Papa Pio XII quando solenemente proclamou a Assunção de Maria: “Devemos especialmente lembrar que, desde o século segundo, a Virgem Maria foi designada pelos Padres da Igreja como a nova Eva, que, embora sujeita ao novo Adão, a ele está muito intimamente associada nessa luta contra o inimigo infernal que, conforme predito no protoevangelho (Gn 3, 15), finalmente resultou naquela completíssima vitória sobre o pecado e a morte, que são sempre mencionados juntos nos escritos do Apóstolo das Gentes (cf. Rom caps. 5 e 6). Conseguintemente, assim como a gloriosa ressurreição de Cristo foi parte essencial e o sinal final dessa vitória, assim também essa luta que foi comum à Santíssima Virgem e a seu divino Filho deveria ser levada a termo pela glorificação do seu corpo virginal”.

Assim, com boa razão os católicos consideram a assunção de Maria ao céu um fato que não pode ser negado sem se impugnar a autoridade do próprio Deus.

Note-se bem que falamos da assunção de Maria como de um fato — fato revelado por Deus e, portanto, fato doutrinário, cuja certeza repousa sobre a autoridade de Deus. Não é um simples fato histórico que fica de pé ou cai segundo o peso da evidência histórica pró ou contra ele.

Ninguém esqueça que foi Deus, e não qualquer operação humana, quem deu causa a que Maria fosse assunta ao céu. É mesmo possível que a sua assunção tenha sido realizada de uma maneira que nenhum ser humano pudesse testemunhar. Assim o fato não se apoia somente na credibilidade do testemunho humano ou na sua prova documentária registada, ele assenta sobre a autoridade da Igreja de Cristo, que por Cristo foi incumbida de ensinar aos homens a verdade revelada com a segurança da permanente guia dele. É a Igreja de Cristo quem nos assegura que a assunção de Maria é um fato revelado por Deus.

Para os interessados em história, fácil é mostrar que por 1300 anos a Igreja ensinou a assunção de Maria de maneira a mais prática possível. Todo aquele que está familiarizado com a história do povo cristão desde os primeiros tempos até o presente dia sabe que tem sido prática constante da Igreja realçar acontecimentos importantes comemorando-os em dia especial, tal como hoje em dia, de modo algo similar, os governos realçam certas causas desejáveis instituindo “Dias” disto e daquilo. Assim o nascimento de Cristo é comemorado a 25 de dezembro, a sua morte na Sexta-Feira Santa, e a sua ressurreição no Domingo de Páscoa. Por esses recorrentes dias de comemoração, esses fatos importantes foram impressos na mente do povo. Entre os dias mais antigos postos de parte para honrar fatos concernentes a Maria esteve o dia 15 de agosto, o qual, no século sexto, foi instituído como dia para honrar a sua Assunção ao céu.

Quando tomamos em consideração a dificuldade implícita às viagens e à comunicação naqueles tempos primitivos, não pode haver explicação para o reconhecimento mundial da Assunção de Maria a não ser tendo ela sido continuamente pregada como uma verdade que Deus fizera conhecida aos Apóstolos — a alguns deles, ou pelo menos a um, — e que, assim, pertencia ao corpo da verdade cristã que eles foram incumbidos de ensinar a toda a humanidade.

Ninguém sabe, ao certo, onde quando teve lugar a Assunção. As circunstâncias são relativamente sem importância. Que o próprio fato tenha sido aceito como revelado por Deus Todo-Poderoso é prova de haver-se ele originado dos Apóstolos, pois só deles poderia vir uma verdade publicamente revelada.

Não quer isto, entretanto, dizer que todos ou algum dos Apóstolos tenham sido necessariamente testemunhas oculares do acontecimento. Se nenhum deles o testemunhou, eles não poderiam ter certeza dele a não ser que, de algum modo, Deus lhes houvesse dado essa certeza. Mesmo se o túmulo de Maria foi achado vazio pouco depois da sua morte, havia sempre a possibilidade de ter sido o seu corpo removido para lugar desconhecido. Assim, se nenhum dos Apóstolos foi testemunha ocular do fato, somente a intervenção divina poderia ter-lhes dado a certeza com que a Assunção foi pregada e aceita.

Pode ser verdade que a um ou mais dos Apóstolos tenha sido permitido testemunhar o evento, na medida em que isso era possível. Se este foi o caso, só a intervenção divina pode explicar por que razão lhes foi permitido testemunhar tal espetáculo. A única razão que possam consignar é que tal privilégio teria sido concedido para que as testemunhas pudessem estar absolutamente certas de um fato que elas transmitiriam a outros como garantido pelo próprio Deus.

Quando Pio XII, em 1º de novembro de 1950, solenemente proclamava ao mundo que “a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, tendo completado currículo da sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória do céu”, não estava ensinando nada de novo ou uma verdade que não tivesse sido ouvida antes, mas estava apenas dando uma nova ênfase a um fato bem conhecido, e a toda a Igreja a segurança positiva de que era verdadeiramente revelado por Deus aquilo que tinha sido crido sobre a Assunção de Maria.

Por que razão o Papa, no ano de 1950, fez esse raro uso do seu ofício para chamar a atenção do mundo sobre a Assunção de Maria? Ele mesmo deu a resposta a isto quando disse, em substância: “A solene proclamação da Assunção contribuirá de modo não pequeno para a vantagem da sociedade humana, de vez que ela redunda na glória de Deus. É de esperar que será despertada uma mais fervorosa consideração para com Maria, e que todos aqueles que se gloriam do nome cristão serão movidos do desejo de compartilhar a unidade do Corpo Místico de Cristo e de aumentar o seu amor a Maria, que em todas as coisas mostra o seu coração materno aos membros desse corpo. E assim podemos espelhar que os que meditarem sobre o glorioso exemplo que Maria nos oferece ficarão cada vez mais convencidos do valor de uma vida humana inteiramente dedicada a realizar a vontade do Pai Celeste e a fazer bem aos outros. Finalmente, é nossa esperança que a crença na assunção corporal de Maria ao Céu tornará mais forte e mais eficiente a nossa crença na nossa própria ressurreição.

“Todas as Gerações chamar-me-ão bem-aventurada”

Ninguém que esteja familiarizado com a história cristã negará que essas palavras de Maria têm sido cumpridas na Igreja Católica em cada geração.

Pelos anos a fora os lábios católicos tem repercutido as palavras de louvor: “Bendita sois vós entre as mulheres”, palavras que o Anjo dirigiu a Maria; e em toda parte os católicos dão prova diária do seu amor e devoção à Santíssima Virgem. E por isto nós somos frequentemente criticados.

“Para a bondade e virtude de Maria”, dizem alguns críticos, “temos uma certa autorização Escriturária. Porém isso não é o bastante para justificar o culto católico romano a Maria”. Às vezes a crítica é dura. Pergunta-se: “Como é que Maria foi feita para assumir o papel de uma deusa deificada?” “O culto de Maria é construído sobre as emoções dos ignorantes, influenciados por uma disposição da hierarquia. Maria é para ser respeitada, mas não adorada”.

Repetidas vezes a devoção católica a Maria é referida como ‘adoração”, “deificação,” “culto”

Consideremos só esta palavra “culto”, pois pode ser que muito mal-entendido resida no sentido em que ela é usada. Pode ser que haja muito mal-entendido honesto no uso da palavra “culto”. O dicionário de Webster dir-lhe-á que a palavra significa: 1) cortesia ou reverência, deferência; 2) um título de honra usado ao endereço de certos magistrados outras pessoas de categoria e estado; 3) o ato de prestar honras divinas a uma divindade; reverência e homenagem religiosa, etc. Há uma vasta diferença entre o primeiro e o segundo significados, de um lado, e o terceiro. Todavia, quando falam do “culto” de Maria, há alguns que aparentemente pensam que o único significado dessa palavra é “prestar honra divina”. Na mente deles e, geralmente falando, em linguagem popular, culto e adoração tornaram-se sinônimos.

Render culto a Maria, no modo de pensar deles, é tributar-lhe honra divina e é superstição grosseira. Negue um católico isto e explique que ele honra Maria, que a venera, que a respeita, mas não lhe tributa honra que só a Deus é devida, e ser-lhe-á dito: “Mas vocês se ajoelham diante da imagem dela, rezam a ela. Estes não são atos de culto que só a Deus são devidos?”. Essencialmente essas pessoas sempre se arrimam à persuasão de que culto e gestos externos de culto só a Deus são devidos.

Como nós cultuamos

Mas culto no sentido de respeito, honra e reverencia não é devido só a Deus. Que é que fazemos quando cultuamos, honramos ou respeitamos? Antes de tudo o mais, nós julgamos e apreciamos a excelência de alguém, e então manifestamos externamente a nossa estima dessa excelência — esse direito a ser honrado. Honra onde honra é devida — é um truísmo. Como a excelência difere, diferentes espécies de honra são prestadas. À excelência em esportes é prestada honra no mundo dos esportes. À excelência na cultura é prestada honra apropriada. À excelência na função civil é prestada honra civil.

Por ocasião do tricentenário de Shakespeare, toda a Inglaterra foi despertada para prestar honra ao grande poeta. Para isso foi deliberada uma mensagem por um afamado linguista de Oxford. A mensagem foi cuidadosamente composta como adequada para a ocasião. Nela exprimia ele a esperança de que “este não será o último festival de Shakespeare nos anais de Stanford-on-Avon. Nesta nossa época fria e crítica, o poder de cultuar, a arte de admirar, a paixão de amar o que é grande e bom, depressa vão morrendo. Possa a Inglaterra nunca se envergonhar de mostrar ao mundo que ela pode amar, que pode admirar, que pode cultuar o maior dos seus poetas!”

Nem todo ato de culto, portanto, precisa ser um ato de culto divino, nem o precisa todo ato de culto cristão. Muitos homens e mulheres cristãs tem um direito à nossa lembrança por causa da sua excelência na prática da virtude cristã e do caráter exemplar de suas vidas. Podemos cultuá-los, honrá-los e reverenciá-los sem lhes atribuir nenhuma excelência que só a Deus pertence. É esta a espécie de culto que os católicos rendem a Maria. Por mais difundido ou fervoroso que ele seja, é sempre essa espécie de culto.

“Mas vocês se ajoelham diante da imagem dela”, dizem-nos, “rezam a ela. Só devemos rezar a Deus”.

E nós respondemos: “Quem foi que disse isso, e por que?”.

A oração a Maria será discutida mais longamente num capítulo seguinte. Aqui propomo-nos tratar dela, juntamente com o fato de nos ajoelharmos diante da imagem de Maria, somente como um ato que erroneamente é crido como só devendo ser dirigido a Deus.

Ajoelhamo-nos em oração

Para os católicos, ajoelhar-se diante de Maria, como eles a veem na sua imagem, é um ato de culto que exprime a honra que eles devem demonstrar-lhe como a uma criatura de santidade excelente e fruindo de uma união única com Deus. E o apelo que eles lhe dirigem é que ela junte as suas preces às deles. Que há de errado nisto?

O culto pode ser tributado a seres humanos por causa da sua excelência humana, sem qualquer infração dos direitos de Deus. O culto prestado a Deus deve ser sempre por causa da sua divina e infinita excelência, e este é chamado “adoração”. Nenhum católico pensaria em adorar alguém a não ser Deus. Há uma distinção inequívoca entre a honra que nós prestamos a um ser humano e a adoração que prestamos a Deus. E eis a razão pela qual esta distinção é inequívoca: nós católicos temos um sacrifício.

A Santa Missa

Prestamos honra a Deus cultuando-o, este culto é de adoração. E a ação que exprime exclusivamente adoração é o sacrifício. Nós só oferecemos sacrifício a Deus. Fazendo-o, exprimimos a honra que só a Deus devemos — a adoração. O culto público e oficial de Deus na Igreja Católica é construído em torno do Sacrifício da Missa. Este ato de culto, este sacrifício, só a Deus é oferecido — nunca a Maria nem a qualquer santo.

Num folheto desta série intitulado “O Santo Sacrifício — A Missa Católica”, explicamos o que se entende por esse ato central do culto católico. Se houver alguma dúvida de que esse culto oficial da Igreja Católica é dirigido a alguém que não só a Deus, procure-se um Missal dominical, o livro em que são dadas as orações da Missa.

Para algumas pessoas, ajoelhar-se e rezar são as únicas ações pelas quais podem elas exprimir a sua reverencia a Deus e a sua dependência de Deus. Procuram elas, pois, sustentar que tais ações só devem ser dirigidas a Deus — que elas são pura superstição se dirigidas a alguém mais. Realmente, quando os primeiros Reformadores protestantes aboliram o Sacrifício da Missa, aboliram a única forma externa de culto que só pode ser oferecida exclusivamente a Deus. Suprimiram ideia de sacrifício. As suas igrejas tornaram-se meramente casa de reunião e salas de oração, e não templos de sacrifício. Rejeitando o sacrifício cristão oferecido a Deus, eles foram forçados a recorrer a expressões de oração e de louvor e dos sentimentos de um coração contrito como a única espécie de honra externa que eles pudessem render a Deus.

Mas será que não podemos com razão louvar o nosso vizinho por qualquer excelência que ele possua, e nem podemos rogar-lhes granjear para nós o favor de outros? Eliminando da sua religião o sacrifício, os Reformadores protestantes não retiveram nada mais do que aqueles atos externos de culto que nós, com perfeito direito, podemos oferecer a Maria, eles são forçados a usar a oração e o louvor exclusivamente como o seu culto a Deus, por não terem culto de ordem mais alta. E, quando nós dirigimos nossa oração e louvor a Maria, não infringimos os direitos de Deus, pois a ele dirigimos o culto mais alto e exclusivo, o Santo Sacrifício da Missa.

O culto de oração e de louvor e de coração contrito é, realmente, devido a Deus, e é necessário se quisermos ter aproveitável a nós a nossa oferta no altar. Mas não é o ato distintivo do culto divino. E nem distingue o culto cristão de qualquer outra espécie de culto. Oração e louvor podem ser oferecidos por qualquer um, e, se eles fossem a nossa única forma de culto, não haveria nada de positivo no culto cristão para o distinguir de qualquer outro. Entretanto S. Paulo nos diz: “Temos um altar, do qual não tem o direito de comer os que servem ao tabernáculo” (Heb 13, 10).

A distinção entre a honra devida a Maria e a adoração devida a Deus sempre foi claramente ensinada na Igreja Católica, mesmo nos tempos mais antigos. No século quarto, um grupo no Oriente Médio, chamado os Colirídios, iniciou a prática de mulheres oferecendo sacrifício à Santíssima Virgem. Isto foi denunciado como um erro absurdo e idolátrico. Um escritor daquele tempo, Epifânio, mencionados na sua história dos erros antigos. Reconhecendo o direito de Maria a ser honrada, escreveu ele: “… sem embargo, ela não é Deus. Por mais exaltada e excelente que ela seja, e por maiores que sejam as honras que a tem consagrado em corpo e alma, contudo ela ainda é uma mulher da mesma natureza que as outras mulheres… Seja Maria honrada, mui certamente; mas ninguém seja adorado, salvo somente o Pai e o Filho e o Espírito Santo. Ninguém adore Maria… isto é reservado só a Deus”.

Se fosse dito que nós podemos abster-nos de tributar honras religiosas de qualquer espécie a Maria, para que, assim fazendo, não roubemos Deus da honra que lhe é devida, então fazemos sentir que tal sugestão é baseada num mal-entendido do culto devido a Deus. Toda honra é devida a Deus, e, considerado distinto dele, nada nem ninguém neste mundo é digno de honra. Toda excelência que outros podem ter é a obra dele neles. Deus deve ser honrado em todas as suas obras. Nós não podemos realmente amá-lo e honrá-lo com todo o nosso coração, alma, mente e força senão fazendo isto.

Toda honra a Deus

Tudo quanto achamos em Maria que a torne digna de honra é obra de Deus. Se considerarmos a dignidade que é a sua como mãe de Deus, quem foi que a fez mãe de Deus? Se consideramos a santidade sem paralelo que foi a sua como uma idônea e digna mãe de Deus, quem foi que a dotou de tal santidade? Toda a honra que tributamos a Maria refere-se em última análise a Deus como ao único Autor daquilo por que ela é honrada. De fato, no caso de Maria, qualquer excelência que ela possua é tão aparentemente obra de Deus, que não há perigo de esquecer a relação dela com Cristo, ou de perder de vista Deus quando a honramos como mãe de Deus.

Por que razão Maria predisse que todas as gerações lhe chamariam bem-aventurada? Ela deu a razão: “Porque grandes coisas fez em mim aquele que é poderoso”. A medida da sua dignidade e da honra que lhe é devida são as grandes coisas que nela operou aquele que é a própria Divindade e Poder.

Por vezes se objeta que em parte alguma na Escritura nós somos concitados ou nos é mandado honrar Maria. Mui verdadeiro. E em parte alguma somos proibidos de lhe prestar a honra que lhe é devida. Pode não haver na Escritura mandado expresso de honrar Maria, mas ali achamos um exemplo mui compulsório. Que dizer da honra e reverência que o Anjo Gabriel mostrou a ela, e das palavras de louvor com que se lhe dirigiu? Que dizer de Isabel, que, sob a inspiração do Espírito Santo, lhe cantou os louvores e exprimiu admiração de que a mãe de seu Senhor se dignasse de visitá-la? Teria Deus querido que fizéssemos menos?

Quando começamos a dominar a ideia de que Maria realmente servia de mãe ao Deus Eterno em forma de criança, que limite é concebível ao tropel e à onda de pensamentos a que esta ideia dá origem? “E o Deus onisciente não conhecia o coração humano”, escreveu Newman, “quando tomou para si uma mãe? Não previu a nossa emoção ante a exaltação de uma mãe tão simples e tão humilde? Se ele não tivesse pretendido que ela exercesse na sua Igreja essa admirável influencia que no caso ela tem exercido, então usarei uma ousada palavra: foi ele quem nos perverteu. Se ela não devia atrair a nossa homenagem, por que a fez ele solitária na sua grandeza no meio da sua vasta criação? Se em nós fosse idolatria deixarmos os nossos afetos corresponderem à nossa fé, ele não a teria feito o que ela é, ou então não nos teria dito que assim a fez…”.

Ela esboçou para nós o seu retrato — retrato ao qual não devemos fechar os olhos — quando disse: “ele olhou para a humildade da sua serva; eis por que todas as gerações chamar-me-ão bem-aventurada”.

As preces de Maria ajudam cada um

É crença católica que no céu Maria intercede junto a Deus, junto a seu divino Filho Jesus Cristo, por todos aqueles por quem ele morreu. Isto quer dizer cada um.

Nós cremos que as preces dela são poderosas — que tocam a divina misericórdia de um modo que as preces de nenhum outro amigo de Deus poderiam igualar.

Isto quer dizer que o benefício das preces de Maria é sentido por muitos que não dão valor à sua intercessão, ou que são mesmo militantemente opostos à prática católica de invocar o auxílio das suas preces.

Já assinalamos que muito da hostilidade para com a prática de rezar a Maria se origina da crença infundada de que preces só devem ser dirigidas a Deus. Porém uma consideração cuidadosa do que é a oração revela que esta pode ser dirigida a quem quer que esteja no caso de deferir o pedido que a prece contém.

Se a oração fosse identificada com a adoração de Deus, então nenhum católico rezaria jamais a Maria. Porquanto os católicos não a adoram. Mas a oração não pode ser, com razão, identificada com a adoração — e certamente não o pode a oração de que a Escritura fala como sendo a prática característica dos cristãos.

“Para um pagão bisonho”, escreveu Newman, “deve ter sido um dos pontos mais notáveis do cristianismo, no seu primeiro aparecimento, que a observância da oração fizesse parte tão vital da sua organização” Embora os cristãos estivessem espalhados em muitas partes a mundo, embora o clero e os leigos tivessem pouca oportunidade de trabalhar juntos, eles achavam consolo e um real traço de união entre si na prática da oração mútua.

A oração é lealmente a própria essência de toda religião, porém nas religiões pagãs ela era ou uma ordenação do Estado ou um meio egoísta para o indivíduo alcançar certos benefícios tangíveis e mundanos. Vastamente diferente era a prática da oração entre os cristãos, que por ela eram unidos juntos num só corpo, embora diferindo em raça, categoria social e hábitos, distantes um do outro em país e desajudados no meio de gente hostil. Contudo ela se provou suficiente. Os cristãos não podiam corresponder-se uns com os outros, só podiam reunir-se com grande perigo, mas podiam rezar uns pelos outros.

Até mesmo as suas orações públicas participavam do caráter de intercessão; porque rezar pelo bem-estar de toda a Igreja era, de fato, uma oração em favor de todas as classes de homens e de todos os indivíduos de que ela era composta. Nesta oração é que a Igreja foi fundada. Por dez dias os Apóstolos “perseveraram, com uma só mente, em oração e súplica, com as mulheres e Maria, a mãe de Jesus, e com os irmãos dele”. Depois outra vez, no pentecostes, “estavam eles todos, com uma só mente, num só lugar”, e é dito que os convertidos então feitos “perseveravam em oração”. E, quando Pedro foi preso e lançado em prisão, “em favor dele foi feita oração sem cessar”. Quando ele foi solto, refugiou-se numa casa “onde muitos estavam reunidos em oração”.

Esses fatos são tão comuns, que provavelmente lhes não percebemos a significação. S. Paulo ordena a seus irmãos “rezarem com toda oração e súplica por todos os santos”, e também “orarem em qualquer lugar”, “fazerem súplicas, preces, intercessão, dando graças por todos os homens”. Ele próprio “não cessa de dar graças por eles, lembrando-se deles nas suas orações”.

As palavras de S. Paulo

Ora, devia esse vínculo espiritual ser quebrado pela morte, ou tinham os cristãos o dever de orar pelos seus irmãos falecidos? Da prática de S. Paulo transparece que eles tinham este dever. Porquanto S. Paulo escreveu na sua segunda Epístola a Timóteo: “Conceda o Senhor misericórdia à casa de Onesíforo” (funcionário da Igreja em Éfeso e morto no tempo em que S. Paulo escrevia), “conceda-lhe achar misericórdia da parte do Senhor naquele dia” (1 15, 18). Não era essa uma oração por um falecido?

Rezar pelos mortos

E, da parte dos cristãos falecidos, acaso cessavam eles de rezar por seus irmãos que ficavam entre os vivos? A resposta é dada por Cipriano, que escreveu a Cornélio, então bispo em Roma, e disse: “Sejamos mutuamente lembrados uns dos outros, sejamos de um só coração e de uma só mente, sempre em qualquer lado rezemos uns pelos outros, por mútuo amor aliviemos os nossos fardos e dificuldades. E, se um de nós, pela presteza do mando divino, partir daqui primeiro, continue o nosso amor na presença do Senhor; não cesse a oração por nossos irmãos e irmãs na presença da misericórdia do Pai” (Ep. ad Cornelium, 57).

Interceder uns pelos outros, tanto como por si mesmo, é a prática da oração como a achamos prevalecendo nos primitivos tempos cristãos e entre aqueles que não podem ser acusados de não saber o que estavam fazendo. Isto não pode ser identificado com a Adoração a Deus. Com toda evidência isso envolve oração a outros cristãos, àqueles que acredita serem os amigos de Deus, para que eles, por sua vez, nos retribuam nas suas orações a Deus.

Esta é a verdadeira substância da invocação católica de Maria. Rezamos a ela pedindo que ela una às nossas as suas orações a Deus. Rezamos a ela para que ela queira apresentar os nossos pedidos a Deus — a quem são dirigidos em nome de Jesus Cristo.

Não há necessidade de discutirmos aqui a razão por que nas nossas orações a Maria nós lhe pedimos rogar por nós. Queremos somente assinalar tão claramente quanto possível o que é que nós fazemos quando rezamos a ela… que o que nós fazemos de modo algum é oposto à prática dos cristãos primitivos, até mesmo dos próprios Apóstolos, que não a adoramos nem lhe atribuímos coisa alguma que é própria só de Deus.

Novamente escute S. Paulo solicitando as preces dos seus companheiros cristãos: “Suplico-vos, Irmãos, por Nosso Senhor Jesus Cristo, e pela caridade do Espírito Santo, que me ajudeis nas vossas orações a Deus” (Rom 15, 30). Será que ele os está adorando? Está ofendendo a Deus ou roubando-o de alguma honra que lhe é devida? Pelo contrário, estava apenas seguindo o ensino cristão: “…. Orai uns pelos outros, para que sejais salvos. Porque de grande proveito é a oração incessante do justo” (Tg 5, 16).

Ora, em lugar de “meus irmãos”, no pedido de S. Paulo, ponha-se o nome “Maria” e ter-se-á o que os católicos fazem quando rezam a Maria.

Porém a hostilidade a rezar a Maria custa a ceder. Muitos ainda dirão: “Maria está morta. Por que então rezar a uma pessoa morta?”

Essa questão não tem sentido quando formulada por cristãos que professam crer na sobrevivência após a morte e na realidade da vida futura. No caso de Maria, mui certamente não deve esta ser classificada entre os mortos. A sua Assunção ao céu significa que o seu corpo, revivificado pela sua alma, foi ressuscitado do túmulo e ela está viva no céu juntamente com os benditos santos que terão os seus corpos restaurados no fim do mundo eles todos também vivem. É privilégio do cristão ter a plena segurança de uma vida futura, olhar para a vida após a morte como mais verdadeiramente real do que a vida que presentemente conhecemos. Essa segurança é fundada na fé, e não em conjectura ou opinião — fé que é não menos certa do que a real experiência pessoal. Nós não perdemos os nossos amigos quando morrem; ganhamo-los se morrem como amigos de Deus. “Assim como eu vivo”, disse Nosso Senhor, “assim também vós vivereis”. Maria e os santos estão no céu, e o céu é a mansão dos vivos.

Será que Maria e os santos que estão com Cristo cessaram de nos amar e de se interessar pelos nossos negócios? Não! Nós cremos na comunhão dos santos — artigo do nosso Credo amiúde esquecido. “Longe de nós, escreveu S. Bernardo (Sobre a morte de Malaquias) o pensamento de que aquele amor que nós vimos tão ativo na terra deva ser diminuído ou destruído no céu, o amor daqueles que se foram antes de nós e que passaram pelo vale de sombra da morte não pode faltar, pois o amor é mais forte do que a morte; contudo, a largura do céu alarga os corações dos homens, não os estreita; enche-os de mais amor, não os esvazia daquele que eles tinham antes. Na luz de Deus, a memória iluminada e fortalecida, não é obscurecida; o que não era conhecido é agora aprendido; e não o que era conhecido é desaprendido; numa palavra, é o Céu e não a terra”, e o céu não é uma terra de separação ou de esquecimento. Não há senão um só Corpo dos fiéis, ou no céu ou na terra, e Jesus Cristo é a Cabeça deles, e por meio dele há uma comunhão entre todos os membros do seu corpo. Os que entraram no seu repouso não cessaram, por isso, de ser nossos irmãos e de nos amar. Nem cessaram de amar a Deus e de se interessar por tudo o que concerne à sua honra e glória, e à salvação das almas dos homens.

Se Maria e os santos estão vivos, pode alguém negar que eles estão em condições de saber que nós procuramos as suas preces? A fruição da vida bem-aventurada no céu não os priva do poder de conhecimento, antes este é aumentado. De que no céu há conhecimento do que se passa neste mundo é claro pelas próprias palavras de Cristo: “… haverá alegria entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrepende” (Lc 15, 10). Deus certamente pode fazer com que Maria e os santos saibam o que se passa neste mundo. Que realmente o faz é certo pela segurança que Cristo deu de que eles são “iguais aos anjos” (Lc 20, 36); e, embora ele estivesse falando dos bem-aventurados no céu após a ressurreição do corpo, Maria já tem o seu corpo restaurado, e os santos não precisam do seu corpo para serem capazes de conhecimento, como tampouco precisam os anjos, que não tem corpo.

Maria e os santos já não são afetados pelo tempo e pelo espaço no modo como nós o somos enquanto estamos na terra. Não estão sujeitos às dificuldades e imperfeições de comunicação a que nós estamos. Nada impede Maria e os santos de conhecerem as nossas petições apenas são formuladas na nossa mente e no nosso coração, e de apresentá-las a Deus, eles conhecem estas coisas em Deus, a quem veem face a face.

Os que acham falta na oração a Maria pensam, usualmente, haver desfechado nessa prática um golpe de morte quando triunfantemente citam S. Paulo dizendo: Há um só mediador entre Deus e o homem, é Cristo que está sempre vivo para interceder por nós” (Heb 7, 25). Mas que foi que S. Paulo quis dizer quando falou de Jesus Cristo como nosso Mediador? Não se referiu ao fato de somente Cristo ser o Redentor da humanidade — de, como homem, haver ele morrido e oferecido a sua morte como um sacrifício redentor? Os católicos não reclamam isto para Maria hoje — nem nunca o fizeram. É verdade que ela foi associada ao Mediador na sua missão redentora, como explicamos alhures; de fato, ela lhe foi associada mais de perto do que o foram os seus Apóstolos escolhidos. Todavia, isto não a faz uma “mediadora” no sentido que este termo tem quando aplicado a Jesus Cristo, nem os católicos dizem que o faz.

Somente Cristo nos redimiu, mas isto não tornou inútil ou, a seu modo, desnecessária a parte de Maria no plano divino da nossa Redenção. Cristo como nosso Redentor é igualmente nosso intercessor no céu. Note bem — aquele que é nosso intercessor é igualmente nosso Redentor que intercede por nós com a força do sacrifício que fez por nós. Maria nunca poderia ser intercessora neste sentido. Porém Maria ainda está associada a ele no céu, e, como ela é a mais bem-aventurada entre os bem-aventurados, a mais santa entre os redimidos, a mãe rogando a seu Filho, a sua intercessão ali, oferecida a ele, não é inútil nem desnecessária. Por certo, só ele é nosso intercessor e nosso Mediador como nosso Redentor, mas nem por isso Maria é riscada do quadro da Redenção e da realização desta. Dar a Maria o lugar a que Deus a exaltou não tira nenhuma honra a Cristo.

O Novo Testamento não contém mandamento de que invoquemos o auxílio da oração de Maria. Nem tampouco o Novo Testamento o proíbe. Mas, incentivando-nos a dar valor à assistência suplicante dos amigos vivos de Deus, o Novo Testamento incentiva-nos a dar valor às preces daqueles que no céu estão mais no caso de nos ajudar.

Semelhantemente, a Igreja Católica nunca obrigou os católicos a invocarem o auxílio da prece de Maria. A Igreja simplesmente declarou de modo oficial: ” Os santos, reinando com Deus, oferecem as suas preces a Deus pelos homens; e é bom e útil invocá-los de maneira suplicante a recorrer a eles para obter as suas preces como uma ajuda e assistência em obtermos benefícios de Deus por meio de seu Filho, Jesus Cristo, que é só quem é o nosso Salvador”. Escusa dizer que a Igreja conta Maria como a primeira entre os santos.

De fato, a Igreja Católica é tão cuidadosa em distinguir entre o culto de Deus pelo louvor, e a oração e devoção a Maria e aos santos, que todas as orações públicas e oficiais da Igreja, nisso que é chamado a Liturgia, são dirigidas diretamente ao Deus Onipotente e Eterno, e sempre em nome de Jesus Cristo Nosso Senhor. Nenhuma é dirigida a Maria; nenhuma a qualquer dos Santos; nenhuma é pronunciada em nome deles. Não quer isto dizer que a Igreja não encareça a devoção a Maria, pois na realidade o faz. Mas isso contradiz a pretensão dos críticos de que a Igreja coloca Maria acima de Cristo.

Entre as provas achadas nas catacumbas do segundo e terceiro séculos da história cristã estavam imagens de Maria esculpidas sobre túmulos ou pintadas em lugares subterrâneos de enterramento. Assim sabemos que nossos irmãos na fé davam valor à proteção de Maria e a veneravam. Daqueles primitivos tempos até agora, a Igreja tem incentivado a devoção a ela, e isso não tem sido difícil. Sob a providência de Deus, Maria tem sido autorizada a incentivar essa devoção de maneira verdadeiramente notável. As suas aparições aos vivos em santuários afamados tais como La Sallete, Lourdes e Fátima tem difundido essa devoção de uma forma que nem uma onda de pregação poderia jamais conseguir. A devoção a ela sob os títulos de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, da Medalha Milagrosa, de Nossa Senhora das Dores, etc., tem resultado numa resposta à oração que nenhum católico poderia menosprezar. Tudo isto a Igreja Católica sabe e aprova.

No começo dissemos que cada um se beneficia das preces de Maria por ele no céu. Isto é verdade. Maria não intercede somente pelos que a conhecem naquilo que ela é — a sua Mãe do céu. Quando as pessoas não a conhecem, ou quando a conhecem como sua Mãe do céu, mas a rejeitam, ela não as deserta.

Há, porém, uma vasta diferença entre os que, se a conhecessem, invocariam o auxílio das suas preces, e, de outro lado, os que, conhecendo-a, a rejeitam. Todavia, mesmo esses que a rejeitam são aqueles por quem ela roga.

As orações dela estão em harmonia com a vontade de Cristo, de que todos os homens se salvem, este benefício só é perdido pelo último ato livre pelo qual o homem se coloca fora do alcance da misericórdia de Deus e para além do benefício da oração de Maria.

A Maria a quem os Católicos honram está na Bíblia

Se você der ouvidos ao que algumas pessoas dizem, e se der crédito ao que elas escrevem, pensará que os católicos têm medo de mencionar, do mesmo folego, Maria e a Bíblia.

Pelo contrário, é nosso sincero desejo que todos leiam o que a Bíblia diz sobre Maria e procurem compreendê-lo com ânimo aberto. Maria que nós honramos está na Bíblia e ali pode ser claramente vista por todos que olham com ânimo aberto.

Em tudo o que até aqui dissemos aderimos à Bíblia como ela era entendida nos tempos em que os cristãos não estavam divididos, e como é entendida pela Igreja de Cristo hoje ainda não dividida na sua fé e culto católicos.

Porém algo mais resta ainda dizer. Proclama-se: Maria não é honrada na Bíblia pelo modo como a honram os católicos.

Antes de tudo, não nos esqueçamos de que o Novo Testamento é relacionado principalmente com Jesus Cristo, e só secundariamente com Maria, ele não pretendeu ser uma história da vida de Maria, e não nos deveríamos surpreender se é comparativamente escassa a informação que sobre ela ele contém. O que a Bíblia nos diz sobre ela não é tanto por causa dela como para mostrar a relação de Cristo com ela.

Às vezes é sugerido que, comparada com o que a Bíblia diz sobre Maria, a crença católica sobre ela está, proporcionalmente, inteiramente fora de linha. A resposta a isto dependerá, sem dúvida, de se estarem, no caso, medindo palavras ou ideias.

O número de páginas que a Bíblia dedica a Maria é sem importância, mas é importante o que a Bíblia diz sobre ela. Quando pelas suas páginas ficamos sabendo que um mensageiro de Deus a aclamou como “cheia de graça” e “bendita entre as mulheres” … que ela consentiu em se tornar a mãe do Redentor pelo poder de Deus, e foi a virgem e a mãe da profecia, temos a substância daquilo que a Bíblia nos diz sobre Maria e também a substância daquilo que a Igreja Católica vem dizendo dela ao mundo desde o primeiro Pentecostes.

Muito mais também poderia ter sido escrito sobre Jesus do que realmente foi escrito, e os evangelistas consideraram os relatos da vida do Salvador escassos e incompletos. Temos para isso a palavra de S. João (Jo 21, 25). Quanto mais verdadeiro é isto de Maria! Porém os fatos significativos sobre Jesus Cristo ali estão, e assim estão também os fatos sobre Maria.

Muitas vezes é dito que a honra e estima em que os católicos tem Maria não é garantida pela Escritura. De fato, pretende-se que ela tenha recebido tratamento justamente oposto nas mãos do próprio Jesus Cristo, e passagens onde ele trata diretamente com ela são citadas para provar isto. Ele não a repreendeu? Em vez de louvá-la, não mostrou certa dureza na linguagem que usou dirigindo-se a ela? Não a pôs no seu lugar “próprio”?

Consideremos estas questões examinando o título “mulher” com que Nosso Senhor se dirigiu a sua mãe em numerosas ocasiões. O uso de tal termo tem desconcertado muitos, mas ele apresenta uma dificuldade meramente especiosa. Na língua que Jesus usava e que foi literalmente traduzida para outras línguas modernas, esse termo não manifestava nenhuma falta de respeito. Para compreende-lo, devemo-nos guiar por como a palavra era usada então, e não por como ela soa agora. Quando Jesus se dirigiu a Madalena chorosa junto ao seu túmulo, perguntou-lhe: “Mulher, por que choras?” Ninguém pode crer que o Senhor usasse senão uma forma mui respeitosa de vocativo ao falar a uma mulher que estava chorando do mais puro amor a ele. Na língua que Jesus usava, nenhuma forma de vocativo era mais honrosa do que a de “mulher”.

As próprias primeiras palavras de Cristo registadas são, às vezes, citadas como uma censura de Jesus a sua mãe. Quando ele tinha doze anos de idade, tendo sido levado por seus pais ao templo para a Páscoa, ficou no templo sem ser notado por eles quando partiram para voltar para casa. Quando eles notaram a ausência dele da comitiva com que viajavam, debalde o procuraram na caravana. No dia seguinte voltaram a Jerusalém. “Após três dias, acharam-no no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Quando seus olhos depararam com essa visão, seus pais ficaram pasmados, e sua mãe perguntou-lhe: “Filho, por que fizeste assim conosco? Eis que teu pai e eu, aflitos, te procurávamos”. E ele lhe disse: “Por que me procuráveis. Não sabeis que eu devo ocupar-me dos negócios de meu Pai?” E eles não entenderam a palavra que ele lhes dizia” (Lc 2, 41-50).

Estas últimas palavras mostram que Maria não apreendeu plenamente, e só progressivamente compreendeu, a missão de seu Filho. Até esse tempo ele lhes fora sujeito; agora, mostrava-se inteiramente independente deles, cônscio de quem era e do que tinha a fazer. Simplesmente e com autoridade asseverava a sua independência naquilo que era um prelúdio à obra da sua vida.

A pergunta de Maria foi um rasgo de sentimento materno, uma pergunta que seria de esperar de uma mãe aflita e temerosa ante a separação de seu jovem filho. A resposta de Jesus não conteve censura. Eles não podiam ser censurados por não saberem que ele se ocupava dos negócios de seu Pai naquele tempo particular. Jesus simplesmente tornou claro que era o Filho de Deus com a causa da redenção do mundo nas mãos… que eles deviam subordinar os seus direitos aos interesses de seu Pai celestial.

Mais tarde, nas bodas de Caná, sua mãe notou uma falta de vinho, e sentindo o embaraço do hospedeiro, disse a Jesus: “eles não têm vinho”. Então Jesus disse a ela: “Que queres que eu faça, mulher? Minha hora não é chegada”. E sua mãe disse aos servos: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2, 1-11). E Jesus operou o seu primeiro milagre registado.

Maria pediu e obteve um milagre operado por seu Filho. Mas alguns insistirão em que, entre pedir e receber o milagre, ela recebeu uma severa repreensão do seu Filho (dizem alguns, sem razão, que ela estava “fazendo ostentação”). Entretanto, a ação dele é a única intérprete verdadeira das suas palavras. Ela pediu e recebeu. As palavras dele não podem ser uma contradição do seu ato. Repreenderia Cristo por suas palavras alguém a quem honrava pelo seu ato? A aparente pouca vontade e hesitação da parte dele, imediatamente seguida de fazer o que ela pedia mostra claramente que ele fez milagre por causa dela. O tempo de fazer milagres para provar que ele era o Messias ainda não chegara. E esse era o intuito real dos seus milagres, e não aliviar o embaraço dos amigos. Contudo, ele realizou o milagre a pedido dela, e, depois disto, por que haveria alguém de duvidar do poder da intercessão dela junto a ele?

Dois outros incidentes semelhantes são às vezes citados para provar que Cristo guardava distância de sua mãe. O primeiro é achado em Lucas, 8, 19-21. Nosso Senhor estava ensinando o povo, e “sua mãe e seus irmão: vieram a ele; e não podiam chegar até ele por causa da multidão. Uns foram dizer-lhe: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora desejando ver-te”. Mas ele respondeu e lhes disse: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e agem de acordo com ela”.

Qual a razão por que sua mãe e seus irmãos desejavam falar a ele, isto nem sequer é insinuado; e, no entanto, alguns críticos acusam a mãe dele de “fazer ostentação” também nessa ocasião. Isto é ridículo demais para requerer contradita. A resposta dada por Jesus à mensagem que ele recebeu é que merece consideração.

Claro é que as palavras dele não foram uma resposta a sua mãe e a seus irmãos, mas sim uma instrução aos que o escutavam. Ele aproveitou a ocasião para dar esta lição, importante de aprender e ainda mais difícil de praticar: de que a vontade de Deus deve ser preferida a qualquer consideração de carne e de sangue. Ele insistiu sobre isto, dizendo: “… aquele que ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10, 37).

Falando dos que o seguiam como sendo, esses, “sua mãe e seus irmãos”, nem por isso ele desconheceu o amor de sua mãe e dos seus parentes. O seu amor à humanidade não colidia com o seu amor a sua mãe e aos seus parentes, mas a esse amor de família não era lícito afastá-lo daquilo a que ele chamava “os negócios de seu Pai”.

Em outra ocasião, quando ele ensinava o povo, “certa mulher levantou a voz do meio da multidão e lhe disse: “Bem-aventurado o seio que te trouxe e os peitos que te amamentaram”. Mas ele disse: “Antes, bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam” (Lc 11,27-28). Teria Jesus querido aqui dizer que Maria não estava habilitada a louvor ou a honra de qualquer espécie? Assim alguns parecem pensar, pois sustentam que ele rejeitou a honra prestada a sua mãe.

Lendo, porém, essa passagem com ânimo aberto, podemos chegar a apenas um único significado. A mulher declarou que Maria era bendita por ser mãe dele. Cristo acrescentou uma razão pela qual ela era ainda mais bendita. Supriu o que faltava ao que a locutora dissera, e aplicou a um fim prático o que ela havia dito.

O louvor da mulher a Maria como mãe de Jesus era bom até onde ia, mas não ia bastante longe. Na sua resposta, Cristo não negou o que ela dizia, mas acrescentou que uma relação mais excelente com ele poderia ter-se guardando a palavra de Deus. Não negou que Maria fosse bem-aventurada na qualidade de sua mãe, mas assinalou que o maior direito dela à bem-aventurança estava em ouvir a palavra de Deus e guardá-la. A mulher olhou demais ao parentesco humano com Cristo. Jesus convidou-a, e com ela todos os presentes, a considerarem um título mais alto à bem-aventurança mostrado por Maria quando ela humildemente consentira na vontade de Deus e se fizera mãe do seu Divino Filho.

Os católicos sempre sustentaram que Jesus foi o único filho de Maria… que como virgem ela o concebeu e deu à luz, e depois permaneceu virgem. Mas que dizer então dos “irmãos de Jesus” que são mencionados em passagens anteriormente citadas? Alguns dos que procuram diminuir e desacreditar Maria pretendem que ela teve outros filhos, e dizem: “A Escritura não fala dos irmãos de Cristo?”

Parece que nunca se toma claro para esses que os Evangelhos nunca mencionam os outros filhos de Maria… que só Jesus é mencionado como filho de Maria. Em parte, nenhuma se fala dos “irmãos de Cristo” como diretamente relacionados com Maria como filhos e filhas, mas sempre como aparentados com Cristo. Ora, há muitos modos pelos quais eles poderiam ser aparentados com Cristo sem serem filhos de Maria.

Em uso escriturário, o termo “irmão” é empregado para significar parentes, e não apenas filhos da mesma mãe. Isto é tão claro para estudiosos da Sagrada Escritura, que negá-lo ou é franca desonestidade ou positiva ignorância. Abraão chama a seu sobrinho Lot seu “irmão” (Gn 13, 8); os primos das filhas de Eleazar são chamados seus “irmãos” (1 Cron 23, 21); todos os parentes de Azaías são chamados seus “irmãos” (2 Rs 10, 13). Se a mãe de Jesus também fosse mãe de outros filhos, por que razão não são eles mencionados como seus filhos? — E por que razão, no fim da sua vida, haveria Cristo de confiar sua mãe aos cuidados do Apóstolo João, se Maria tinha outros filhos para cuidarem dela?

É difícil aceitar a honestidade intelectual dos que apresentam essa objeção à virgindade de Maria. Porquanto, no conhecido uso dos judeus, a palavra “irmãos” muitas vezes significava primos e outros parentes (na sua língua eles não tinham mesmo palavra para “primo”), e no Novo Testamento há várias passagens em que esses “irmãos” poderiam ter sido chamados filhos de Maria se realmente o fossem.

“Mas Jesus foi ‘filho primogênito’ dela”, continuam os objetores. “Acaso isto não implica que houve outros?” Absolutamente não! “Primogênito” era um título legal entre os judeus — exprimia obrigações legais que persistiam mesmo se não fosse provado que, de fato, o primogênito era o único filho. A mãe judia tinha de apresentar seu filho primogênito ao Senhor e resgatá-lo sem esperar ver se não teria outros filhos. A força da expressão entre os judeus referia-se, para trás, ao filho nascido, e não, para adiante, aos futuros nascimentos.

Mas, pergunta-se, se ela foi virgem e sempre virgem, por que então foi casada? Há várias razões para isso. A mais saliente entre elas é o fato de quem Jesus era e como fora concebido não dever ser publicado imediatamente. Necessário se tornara, portanto, que Maria fosse publicamente conhecida como esposa de José antes de vir a ser mãe; do contrário, a sua reputação teria sido um escândalo para os de espírito fraco e uma irrisão para os de espírito mau. A própria Encarnação teria sido anunciada por suspeitas maliciosas. Ademais, o Filho de Deus feito homem pretendia ser criado como os outros meninos, começando pela infância destituída, em que ele e sua mãe precisavam do cuidado e proteção do esposo desta.

“A posição de José como chefe daquela família”, escreve o Padre Farrell, “era necessária para os nossos corações hesitantes séculos mais tarde; para que, por uma testemunha aditada ao mistério da Encarnação, nós, que somos tão tardos em crer, tivéssemos uma confirmação da palavra da mãe de Deus. Pelo papel de José naquela vida de família é-nos dada aprovação divina da virgindade para ambos os sexos; e na linguagem viva da ação dele vemos a benção de Deus sobre o casamento. José era verdadeiramente esposo de Maria; não deve isto ser esquecido. Devemo-nos lembrar de que José amava profundamente Maria, e ela a ele. Na sua união, havia essa completa consagração de alma que é a essência do amor humano; havia a mútua entrega de direitos que é a essência do matrimonio, embora o exercício desses direitos estivesse suspenso em nome de um amor maior que a presença constante do Menino divino não lhes permitiria esquecer; aí havia mesmo um filho divino a ser moldado por uma mãe e um pai humanos”.

Sim… A Mãe de Deus ajudá-lo-á

Fonte: Vozes em defesa da fé – Caderno 42 – Ano 1961 – disponibilizado pelo site: obrascatolicas.com, disponibilizado em HTML por otcarmo.org.


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