Introdução

A tradição carmelitana pode ser entendida como um comentário de oitocentos anos ao Cântico dos Cânticos.  Esta antiga história de amor da escritura hebreia é a narração básica que capta a experiência de muitos carmelitas. “A voz de meu amado!  Vejam-no aqui chegar, saltando pelos montes, brincando pelas colinas.  Pensavam que buscavam um Deus difícil de encontrar, e voltavam de sua procura com a convicção de que Ele os estava acompanhando com seu amor ao longo de todo o caminho. O desejo profundo do coração do Carmelita tem se revelado como um convite: “Levanta, amada minha, formosa minha, e vem” (Cant 2,10).

Os escritores carmelitas se detiveram com frequência na história de amor do Cântico dos Cânticos para encontrar palavras que possam expressar sua experiência.  São João da Cruz tomou da história e das imagens dos Cânticos para compor seu poema de amor Cântico Espiritual.  Teresa de Ávila escreveu um comentário ao Cânticos.  E Teresa de Lisieux se identificou com esta história, porém diferente do amante dos Cânticos, que espera o amado, ela o encontrava sempre em sua cama.

As palavras dos Cânticos aparecem consciente ou inconscientemente nas histórias carmelitas.  Os carmelitas contam muitas histórias, porém a história do amante inquieto que espera o Amado aparece como tema comum. A união amorosa e a retirada para a solidão encontram expressões equivalentes na história dos carmelitas.  João da Cruz encontrou nas palavras de Oseías uma expressão de sua experiência: “Por isso eu vou seduzi-la, levá-la ao deserto e falar-lhe ao coração’’ (2,16).  Respondendo ao convite de uma presença misteriosa presente na vida daqueles que estão à procura, os carmelitas têm sido arrastados até uma relação que os transforma para sempre: “… o inverno já passou, as chuvas cessaram.  A terra se cobre de flores, chega a estação da canções …”(Cânt  2,11-12).

  Os temas fundamentais da espiritualidade carmelitana aparecem nesta história do coração humano.   Estes temas revelam um dinamismo espiritual no núcleo da vida carmelitana que podem ser descritos como “Épocas do coração”.  A intenção deste tema é repassar estas “épocas do coração” numa tentativa de identificar a dinâmica espiritual da vida carmelitana.

Há cinco “épocas” descritas neste tema:

    1. Um coração desejoso (nosso desejo de Deus)

    2. Um coração escravizado (culto ao falso Deus)

    3. Um coração que escuta (a vida contemplativa)

    4. Um coração preocupado (o trágico da vida)

    5. Um coração puro (a transformação do desejo)

Estas “épocas do coração” e a resposta que lhes dá o Carmelo, estão entre as realidades que dão origem à tradição carmelitana, estabelecendo-as como um dos maiores caminhos para os cristãos.

I – UM CORAÇÃO DESEJOSO

NOSSO DESEJO DE DEUS

Queremos tudo

“Nossos corações estão inquietos”, escreveu Santo Agostinho, e esta verdade permanece como algo fundamental à condição humana. A inquietude, o desejo humano parece que nunca serão completamente satisfeitos.  Podemos ver a inquietude humana expressa na imagem de um bebê que começa a engatinhar e a explorar seu ambiente. A viagem dos primeiros carmelitas que deixaram suas casas para congregar-se num Vale do Monte Carmelo foi movida por este mesmo desejo.   Somos verdadeiramente peregrinos.

Nós, os humanos, nunca estamos satisfeitos com o que temos pois, como diz Santa Tereza de Lisieux, queremos tudo.  E não descansaremos até consegui-lo.  A tradição carmelitana reconhece esta fome do coração humano e diz que fomos feitos desta maneira.  Fomos feitos para procurar e explorar, desejar e sofrer até que o coração finalmente encontre algo ou alguém que possa harmonizar ou estar em consonância com a profundidade do seu desejo, até que o coração possa encontrar alimento suficiente para satisfazer sua fome. Chamamos a este alimento, a esta realização, a esta meta do desejo humano, Deus.  Durante oitocentos anos os carmelitas têm intencionalmente perseguindo esta realização misteriosa e difícil de encontrar. “desejava viver” escreveu Santa Teresa de Ávila, “e não tinha quem me desse vida…”

Acreditamos, ainda que não o digamos, que todo ser humano está nesta procura.  Podemos afirmar isto: cada estudante de nosso colégio, cada membro de nossa paróquia, cada peregrino a nosso santuário, cada candidato em nosso instituto está aberto ao mistério transcendente a que chamamos Deus.   Por algum tempo o desejo pode ser negado, a fome temporariamente satisfeita, o desejo afogado, atordoado, debilitado.   Mas sabemos que está aí e que de um momento a outro aparecerá. Nossa tradição tem a força, a linguagem, as imagens que nos ajudam a iluminar o que as pessoas estão experimentando no profundo do seu ser.

A tradição carmelitana tenta dar nome a esta fome, dar palavras ao desejo e expressar que o final da viagem está em Deus.   O coração humano precisa ter clareza sobre estes seus desejos.  O Carmelo sempre tem desejado o mesmo e está disposto a caminhar e acompanhar aqueles com os quais se encontrar neste caminho.  Não podemos satisfazer sua fome, mas podemos ajudá-los a encontrar palavras para ela e saber para onde aponta. Temos feito isso na arte, na poesia e na canção, no aconselhamento e no ensinamento, na simples escuta e compreensão.  E podemos advertir as pessoas que, no final, as palavras falham e somente fica o desejo em si mesmo.

Um autor contemporâneo diz que o problema sério da espiritualidade hoje em dia é a ingenuidade a respeito do desejo ou da energia que nos move.  Nosso desejo espiritual dado por Deus, que pode expressar-se de diversas maneiras, incluindo a energia criadora e erótica, pode ser perigoso para nós se não o soubermos conduzir com cuidado. Somos muito engenhosos a respeito deste nosso profundo desejo e não estamos muito atentos ao perigo.  Sem uma atitude de respeito para com esta energia, buscando o modo adequado de assumi-la e administrá-la, muitos adultos se movem entre a alienação deste fogo, isto é, ignoram a existência do desejo e vivem em depressão, ou se deixam ser consumidos por ele e vivem num estado de inflação.

Depressão, neste sentido, significa a incapacidade de desfrutar da vida como um menino, de sentir o verdadeiro prazer. A inflação se refere a nossa tendência de, por momentos, nos identificar-nos com este fogo, com este poder dos deuses. “…estamos tão cheios de nós mesmos que somos uma ameaça para nossas famílias, amigos, comunidades e para nós mesmos. ”  Incapazes de conduzir esta energia, ou nos sentimos mortos interiormente ou, pelo contrário, somos hiperativos e inquietos. “A espiritualidade trata sobre as maneiras como podemos ter acesso a essa energia e como podemos contê-la. ”

Desejos dos Carmelitas

Este dilema encontrará sua compreensão nos santos do Carmelo. No encontro com esta chama profunda os santos se deixaram queimar e purificar por ela. Teresa de Ávila a entende como a água que Jesus ofereceu à samaritana.  Mais fogo que água, esta chama inflama o desejo.  “Mas com que sede se deseja ter esta sede!”  João da Cruz começa seu poema do Cântico Espiritual com uma queixa: “Onde é que te escondeste, Amado, e me deixaste com gemido?  Como o cervo fugistes, havendo-me ferido; saí, por ti clamando, e eras já ido. ” João da Cruz compreende nossa humanidade como o despertar no meio de uma história de amor.  Alguém tocou nossos corações ferindo-os e fazendo-os penar por causa disto.  Quem tem nos fez tal coisa e para onde foi?  Estas perguntas perseguem a cada ser humano ao longo de sua viagem e o impulsionam a cada passo, desde o engatinhar do bebê à peregrinação do papa à Terra Santa, incluindo todo o esforço humano que é feito nesta busca.

João da Cruz diz que nossos desejos são como meninos. Se lhes damos atenção, acalmam-se por algum tempo. Mas logo despertam e rompem com seu barulho a paz do lar. Nossos desejos são também como um dia longamente desejado de estar com o amado; mas esse dia termina numa grande desilusão. Nossa humanidade tem uma fome que somente Deus pode satisfazer.

Teresa de Lisieux procurou explicar seus profundos desejos com a imagem do céu: o céu como o Domingo sem fim, o retiro eterno, a fonte eterna. A ribeira eterna é uma expressão particularmente evocadora do desejo do seu coração. ela queria tudo na sua vida, e esta imagem é expressão de todos os seus desejos.  Mas não há imagem ou conceito que possa expressar seus desejos:

          Sinto o quanto sou impotente para expressar em linguagem humana os segredos do céu, e depois de escrever página após página vejo que ainda não comecei. Há tantos horizontes diferentes, tantos nuances de infinita variedade… (SS. 189) 

Saímos ao encontro disto ou daquilo seduzidos por uma promessa de realização, mas terminamos por ser decepcionados mais uma vez. Usando a imagem de Terezinha chegamos a muitas fontes, mas não percebemos que não é a fonte eterna.

O espírito e a psique habitam a mesma região da mente. O espírito é esse dinamismo que há em nós, que nos impulsiona à plenitude do ser, ao conhecer tudo, ao amar tudo, a ser um com todos.  A psique expressa estes desejos com imagens primordiais tiradas do corpo e do mundo.  A psique conecta os órgãos do corpo com seu enraizamento no cosmos, com a transcendência do espírito e seu desejo de plenitude.  Nossas imagens esperançosas, tais como “a ribeira eterna”, são expressão tanto da psique como do espírito.

As imagens da psique são movidas pelos desejos do espírito.  Elas podem mover e expressar nossas ânsias de paz e de justiça, podem nos abrir a um profundo arrependimento, podem lançar luz sobre nossa existência e iluminar o nosso caminho, podem criar cenários de esperança sobre nosso futuro depois desta vida, como fez Teresa de Lisieux.  Mas nenhuma delas é suficiente para expressar completamente nossos desejos mais profundos, sobretudo o desejo que somos. Nosso desejo profundo de conhecer e amar, de ser unificado com tudo o que se é, nunca será realizado. Nossa fome profunda nunca encontra suficiente alimento nesta vida.  Expressamos nossas necessidades, mas, o que queremos na realidade?

O teólogo Bernard Lonergan acreditava que se nós seguirmos o caminho de nossos desejos profundos, expressando-os na verdade, confrontando-nos com eles e respondendo ao seu apelo em nossas vidas, dessa forma poderíamos experimentar conversões. Nossas necessidades e nossos desejos se purificarão na medida em que desejemos o que Deus deseja até que nosso desejo seja harmonizado com o de Deus.

Que desejam os homens e mulheres de nossas paróquias, de nossas casas de retiro, que buscam nossos conselhos e orientação?  Tudo! Contem com isto e isto lhes dêem. Nós dizemos a nós mesmos e dizemos a eles que a fome dentro de nós é tão profunda e poderosa que, reconhecida ou não, só Deus é o alimento que a pode saciar. Quando Jesus pregou sobre o Reino de Deus presente e vindouro, se referia precisamente aos desejos profundos, ao santo desejo que aninhava o coração de seus ouvintes.

Em 24 de março de 2000 foi celebrado o vigésimo aniversário do assassinato do Arcebispo Oscar Romero em El Salvado. Foi assassinado durante a celebração da Eucaristia em uma capela carmelita.  Enquanto celebrava os funerais daqueles que tinham sido assassinados pelos poderosos e lia os nomes dos desaparecidos, percebeu que era seu dever emprestar sua voz aos sem voz. E assim se produziu sua conversação de um padre tradicional, profissional e piedoso se converte num pastor valente e defensor de seu povo. Entregou-se à tarefa de denunciar os desejos oprimidos do povo e assim com sua presença valiosa dar vida ao desejo santo que viu refletido nos rostos das pessoas do povo salvadorenho. 

Escutar as pessoas, expressar seu desejo profundo e ajudá-las a dar nome ao seu desejo, é parte do ministério carmelita.   Os primeiros carmelitas estabeleceram em seu pequeno vale as condições que colocariam ordem em seus múltiplos desejos.  Cada um habitava em uma cela e estas rodeavam a capela na qual recordavam diariamente o desejo de Deus para eles. Teresa de Ávila fundou comunidades de clausura nas quais as freiras puderam abrir-se completamente à força de seus desejos numa amizade afetuosa com o Senhor e entre elas. Ela as animou a que se deixassem seduzir pela atração de suas profundidades enquanto seus desejos fragmentados iam encontrando sanção e reorientação. Tanto ela como Teresa de Lisieux acreditavam firmemente que se Deus nos havia dado esses desejos, Ele mesmo os levaria à sua plenitude.

Resumo

A tradição carmelitana reconhece que há uma fome de Deus muito profunda no coração do homem. Este desejo e esta ânsia nos impulsiona ao longo de toda nossa vida enquanto buscamos a realização do desejo de nosso coração. Este desejo profundo de Deus em nossas vidas é o fruto do seu amor primeiro, do seu desejo anterior por nós. Deus, o primeiro contemplativo, nos olhou e nos fez encantadores e atraentes para Ele. A tradição carmelitana não fala do aniquilamento do desejo, mas sim da transformação dos desejos para que mais e mais desejemos o que Deus deseja, numa consonância de desejo. Como Teresa de Ávila disse simplesmente, eu quero o que Você quer.

Perguntas para reflexão

  1. Como experimento esse desejo, esta ânsia, esta fome que no fundo é de Deus? Estou consciente dessa inquietude fundamental? Encontro um lugar na minha vida em que este desejo esteja se expressando?
  2. O que produz em mim gozo e prazer profundo? Em que momento me sinto mais criativo e mais vivo? Tento rejeitar, ignorar, suprimir o fogo dentro de mim ou procuro formas de valorizá-lo?
  3. Como expresso os meus desejos mais profundos? Que atividades os incluem e me deixam desejando sua realização profunda?
  4. Como as pessoas com as quais trabalho expressam os desejos profundos do seu coração?  Como eu, junto com elas, encontro a linguagem para este desejo e o celebro como um dom que eleva até Deus?

II –  UM CORAÇÃO ESCRAVIZADO

O CULTO AO FALSO DEUS

Convivendo com os ídolos

Um segundo tema constante na espiritualidade do Carmelo é a necessidade de decidir a que Deus seguir.   Nossa tradição nasce no Monte Carmelo, o lugar da luta entre os seguidores Yahvé e os seguidores de Baal.  Elias exortou o povo a fazer com segurança sua escolha do verdadeiro Deus.  Os carmelitas, tanto em comunidade como individualmente, têm que lutar sempre contra as forças da desintegração e da fragmentação que trazem os interesses pelos ídolos.

Nicolas Gálico em sua obra intitulada Ignea Saggita, acusou os membros daOrdem de perder o caminho enquanto iam migrando do deserto à cidade e iam se acostumando a seus atrativos.  Acusou-os de seguir seus próprios desejos desordenados, com a desculpa de um ministério necessário.  As reformas de Albi, Mantua, Juan Soret, Teresa de Ávila e Tureme continuamente recordavam aos carmelitas que deviam ter um só Deus, e servir a esse Deus com todo o coração.

Os santos de nossa tradição sabiam o quanto é difícil encontrar e seguir a esse Deus verdadeiro e distingui-lo entre os falsos deuses que nos são oferecidos. Esta presença no profundo de nossas vidas, nós a encontramos no mundo ao nosso redor. No Cântico Espiritual, João da Cruz diz: “E todos quantos vagam, de ti me vão mil graças relatando…” Teresa de Ávila aconselhou: Deixem que as criaturas lhes falem de seu criador” 

Em nossa exuberância pedimos à criação de Deus que seja mais do que é. Com regularidade colocamos os desejos de nossos corações em alguma parte da criação de Deus e pedimos que seja a realização daquilo que procuramos. Pedimos a alguma parte da criação que não seja criada. Tomamos um bem e pedimos que se converta em um deus.

O coração, cansado de sua contínua peregrinação, procura assentar-se e construir para si uma casa, negando-se a seguir adiante. Convive com os deuses menores, encontrando gozo, paz, identidade, segurança e outros alívios para seus desejos. Este consolo temporal mascara um problema espiritual e também um problema de desenvolvimento humano. João da Cruz estava convencido que quando a pessoa se centraliza em algo ou alguém que não é Deus, a personalidade se desequilibra.

Estas “prisões” criam uma situação de morte. Nenhuma coisa ou pessoa a quem eu peça que seja meu deus, e que realize meus desejos mais profundos, pode corresponder a esta expectativa. O ídolo ao qual eu peço que seja meu “tudo”, começará a derrubar-se sob essa pressão. E porque não podemos crescer mais do que nossos deuses, um deus menor significa um ser humano menor. Em consequência, aquilo a que estou “atado” morre ante minha necessidade, e eu morro junto com ele, porque meus desejos mais profundos não podem encontrar nada nem ninguém que possa estar no seu grau de elevação e intensidade.

O dinamismo auto transcendente de nossa humanidade nos impede concluir que já chegamos ao final da viagem. Afirmar prematuramente a vitória, enquanto estamos apegados aos ídolos, nos levaria a deixar de exercitar-nos numa autêntica autotranscedência.  Em outras palavras, o coração já não é livre para escutar e seguir o convite do amado.  Esta escravidão do coração é o resultado do desejo desordenado.  A solução está na libertação do coração que não consegue aniquilar o desejo senão reorientando-o.

Relação desordenada     

Quando nossa tradição fala sobre “prisões”, ou apegos desordenados, isto não significa que a relação com o mundo seja um problema.  Certamente, algumas vezes o mundo é um problema.  Mas temos que nos relacionar com o único mundo que temos.  A relação com o mundo não é o problema fundamental desses apegos, mas sim o modo como nós nos relacionamos com ele é que se converte em problema. Nossos santos falam a pessoas adultas cujos corações foram escravizados por alguém ou por alguma coisa que ocupou o lugar de Deus.  Não é necessariamente a pessoa ou a coisa o problema, mas sim a maneira como nos relacionamos com elas, o modo desordenado com que expressamos nossos desejos.

É irrelevante se o ídolo é valioso ou não.  A relação é o fator crítico. Um incidente na vida de João da Cruz pode ser ilustrativo. Um dos frades de João tinha uma simples cruz feita de palma.  João a tomou. O frei tinha pouco mais, e a cruz certamente não era valiosa, mas João percebeu que ele estava apegado a ela de forma desordenada. Aquela cruz tinha-se convertido em algo não-negociável, indicando que a relação do frade com ela era desviada.

João observou que a um pássaro preso não importa se está atado por uma corda ou por uma linha fina, de qualquer forma está preso. O coração que está escravizado pelos seus ídolos já não é livre para ouvir o convite do amado.  João identifica uma pessoa enfeitiçada com os ídolos com uma pessoa pobremente sintonizada com Deus.  Ele estava convencido de que uma pessoa se converte naquilo que ama.  Este falso deus fomentará um falso ser.

É importante enfatizar que a tradição carmelitana não é partidária do abandono do mundo. Mas insiste numa correta relação com o mundo criado por Deus.  Sem uma boa interpretação, pode-se entender que o Carmelo está dizendo que envolver-se com o mundo é um obstáculo para a relação com Deus.  Pelo contrário, é no mundo criado por Deus onde nos encontramos com Ele.

A tradição carmelitana se dirige a aqueles cujos corações vão ao mundo procurando sua realização e se dispersam e se dividem nessa procura. Isto ocorre quando o cristão coloca os desejos do coração nas posses e nas relações que não podem preencher a intensidade desses desejos e então começa a experimentar uma paralisia na sua vida. Esta é uma situação destruidora. Este mundo ao qual o cristão é tentado a agarrar-se freneticamente está reduzindo sua a vida através das expectativas.  E o cristão se ajusta aos ídolos, e não se transforma em Deus.

Um tema de nossos dias que se relaciona com o tema tradicional do apego é a afeição. Percebemos que todos, de uma forma ou de outra, somos presos afetivamente, e que só a graça de Deus pode nos liberar de nossas afeições. Podemos ser ligados a coisas obviamente destrutivas, mas podemos ser também afeiçoados à Igreja, ao Papa, às práticas religiosas, e ainda afeiçoados ao Carmelo e a Deus, mas a um deus criado por nós.    

Em outras palavras, podemos pedir a alguma criatura para que se transforme em alimento para nossa fome profunda como indivíduos e como povo.  Estamos pedindo à criação aquilo que só Deus pode nos dar. Nossa tradição insiste em que nada, nenhuma parte da criação pode substituir a Deus. Só aquele que é nada (nenhuma coisa e ao mesmo tempo tudo) pode ser suficientemente alimento para nossa fome.

Quando João da Cruz desenhou a montanha estilizada para projetar a viagem da transformação, desenhou três caminhos que levam até seu cume.  Os dois caminhos de fora, um dos bens do mundo, o outro dos bens espirituais, nenhum chega lá em cima. Só o caminho do meio, o dos nadas, alcança o cume do Carmelo. Ele explica em texto o ensinamento do desenho. As linhas do texto foram variações do mesmo tema, “Para possuir tudo, não possuir nada”.

O texto explicativo na parte baixa do desenho nos ajuda a entender a compreensão básica que tem João do itinerário espiritual. Ele está de acordo em que fomos feitos para possuir tudo, saber tudo, ser tudo, etc.  Mas também entende que nunca teremos o tudo se pedirmos a uma parte da criação que sacie nossa fome. Seu conselho de possuir o nada para possuir tudo é um estímulo para que nunca peçamos que alguma coisa, (parte da criação) seja tudo. Só aquele que é nenhuma coisa pode ser nosso Tudo.

Este ascetismo pode soar difícil a menos que entendamos que João está se dirigindo aos homens e mulheres que tentaram outros caminhos na vida para encontrar sua realização. Seus corações saíram à procura daquele que os ama e se viram aprisionados, e com os corações partidos e divididos. Os conselhos de João são palavras de vida para as pessoas que estão morrendo por falta de alimento. Ele está mostrando o caminho da vida àqueles peregrinos que o perderam.

Um caráter profético  

Um escritor sugeriu que a vocação carmelita é estar suspenso entre o céu e a terra, sem encontrar apoio em nenhum dos lugares.  Esta é uma forma dramática de dizer que no fundo nossa fé, nossa esperança e nossa confiança em Deus tem que ser seu próprio apoio e Deus nos conduz mais além de nossos feitos mundanos e espirituais.   No final de sua vida Teresa de Lisieux achou que a esperança pelo céu sustentada em toda sua vida se esvaía.  João da Cruz nos lembrou as observações de São Paulo: se já temos aquilo que esperamos, já não é esperança; a esperança está naquilo que não possuímos. A espiritualidade de João da Cruz tem sido descrita como uma contínua interpretação da natureza de Deus.

Será que esta suspeita que temos quanto às intenções e as construções humanas nos converte, a nós carmelitas, em uns eternos estressados?  Ou, ao contrário, nos permite fazer uma avaliação inteligente do coração humano e de sua tendência a criar ídolos? Não será isto realmente um exercício de libertação que vai nos libertando de todas as formas em que nos escravizamos e nos entregamos aos ídolos?  Não é a crítica carmelita um desafio para não nos apegarmos a nada, para que nada seja o centro de nossa vida, além do mistério que a envolve.  E nessa pureza de coração, somente conseguida pela ação do Espírito de Deus, somos capazes de amar aos outros e viver neste mundo sabiamente.  O desafio carmelita é cooperar com o amor de Deus, algumas vezes obscuro, que nos vivifica e nos cura.

Esta contínua escuta para aproximar-nos de Deus, por meio de todas as palavras e estruturas que conseguimos, é a tarefa profética do Carmelo.  Que Deus seguimos? O deus de nossas afeições? O deus das ideologias ou das teologias ilimitadas? Os deuses opressores dos sistemas econômicos e políticos? Os deuses de todos os “ismos” de nosso tempo? Ou é nosso Deus o Deus que transforma, cura, liberta e vivifica?

O arcebispo Oscar Romero foi um clérigo tradicional, cuidadoso e estudioso.  Era um bom homem, reservado, piedoso, orante.   Mas sua conversão chegou quando viu no outro o rosto de Cristo, um rosto diferente do Cristo de sua piedade e de sua oração, um rosto diferente de sua teologia, um rosto diferente do Cristo familiar à hierarquia de El Salvador. Era o rosto de Cristo no rosto do povo de El Salvador; era o rosto de Cristo verdadeiramente encarnado na história e nas lutas do povo.  Romero disse:

Aprendemos a ver o rosto de Cristo – o rosto de Cristo que é também  o rosto do ser humano que sofre, o rosto do crucificado, o rosto do pobre, o rosto do santo e o rosto de cada pessoa – e amamos a cada um com o critério pelo qual seremos julgados: “tive fome e me deste de comer”.

Os ídolos de nosso tempo não são somente os amores pessoais e as possessões, mas especialmente os ídolos do poder, do prestígio, do controle e o domínio que deixam a maior parte da humanidade fora do banquete da vida.   Romero comentou:

A pessoa pobre é aquela que se converteu a Deus e põe toda a sua fé NELE, e a pessoa rica é aquela que não se converteu a Deus e põe sua confiança nos ídolos: dinheiro, poder, bens materiais… Nosso trabalho deve procurar converter-nos a nós mesmos e a todo povo para este autêntico significado da pobreza.       

Muitas de nossas províncias tem participado na confrontação com os ídolos de nosso tempo através dos movimentos de libertação em muitas regiões do mundo, que incluem Filipinas, América Latina, América do Norte, África, Indonésia e o Leste da Europa. Hoje em dia as diferenças entre o norte e o sul apontam para os ídolos dos “ismos” que mantém a maioria do mundo em uma condição de marginalização.

Resumo

A fome do nosso coração nos lança ao mundo em busca de alimento. De muitas formas perguntamos ao mundo. Viste aquele que fez isto em meu coração e o deixou chorando? Nosso coração vai se dispersando sobre a terra enquanto vamos perguntando a cada pessoa, a cada objeto de posse e a cada atividade que nos diga mais a respeito do Mistério que está no centro de nossas vidas.

A alma apaixonada pelos mensageiros de Deus, confunde-os com Deus mesmo. Tomamos as coisas boas de Deus e lhes pedimos que sejam deuses. O coração, cansado de sua peregrinação, tenta assentar-se e construir um lar para si. Coloca seus desejos mais profundos nas relações, posses, planos, atividades, metas e pede a tudo isto que sacie sua fome profunda.  Pedimos muito e como nada pode corresponder às nossas expectativas, começam a desmoronar-se.  Mais e mais os santos carmelitas nos lembram que só Deus é o alimento que pode saciar a fome do nosso coração.

Perguntas para refletir:

  1. Quais são os ídolos, os não-negociáveis, que se transformam em parte da minha vida?  Quais são essas coisas sem as quais não posso passar?  Eu as estou prejudicando com meu apego?
  2. Onde e como tenho me tornado uma pessoa sem liberdade na vida?  Sinto-me livre para seguir meus desejos mais profundos?   Sou livre para escutar as necessidades da minha comunidade?
  3. Tenho estado inconscientemente construindo meu próprio reino no lugar de estar preocupado pelo reino de Deus? Sem perceber, tenho tirado Deus do centro da minha vida e tenho colocado nesse centro meus objetivos, meu trabalho profético, minha compreensão das exigências do reino? Ao longo dos anos tenho me esquecido de perguntar:  o que é que Deus quer?
  4. As paixões que me trouxeram ao Carmelo têm sido domesticadas ou vão se desvanecendo?  Tenho me transformado numa pessoa compulsivamente ativa, talvez me sentindo mais como um funcionário de uma instituição do que como um discípulo do Senhor?

III –  UM CORAÇÃO QUE OUVE

A VIDA CONTEMPLATIVA

Deus sempre presente

Uma das mensagens mais impressionantes de nossos santos carmelitas tem sido a compreensão de que Deus nos ama como somos. Pensando que buscavam a um Deus ausente e que a vida era a procura desse Deus, eles regressavam de seus esforços testemunhando que Deus os procurava ao longo de todo caminho.  Que a história de nossas vidas não seja a procura de Deus, mas sim o desejo e a procura de Deus por nós. A fome do nosso coração, o desejo do que somos, é o fruto de Deus nos ter desejado e amado primeiro.  Com o tempo, nossa transformação pode ser tão grande que viveremos numa consonância de desejo:  nosso desejo humano participando plenamente do desejo de Deus.

Certa vez Teresa de Ávila escutou estas palavras enquanto orava: “Procura-te em mim”. Ela perguntou a muitos de seus amigos e diretores em Ávila o significado dessas palavras; “Procura-te em mim”.  Entre os consultados estavam Francisco de Salcedo, um diretor espiritual leigo, seu irmão Lorenzo de Cepeda e João da Cruz. Estes cavalheiros se reuniram para discutir suas respostas, mas Teresa não estava presente.  Por isso decidiram enviar-lhe suas respostas.

Imitando a moderação acadêmica praticada em algumas escolas, Teresa alegremente decidiu encontrar falta em cada resposta e muito sutilmente se livrou de cada uma. Não temos suas respostas, mas sim temos as rejeições de Teresa a essas respostas. Um dos que respondeu foi Francisco de Salcedo que com frequência citava a São Paulo e termina sua resposta dizendo que tem “escrito estupidezes”. Teresa o repreende por considerar as palavras de São Paulo “estupidezes”. Disse-lhe que tinha em mente  denunciá-lo à Inquisição

João da Cruz respondeu que o significado de “Procura-te em mim” requer estar morto para o mundo para poder procurar Deus. Teresa respondeu com uma oração na qual pedia para ser libertada de pessoas tão espirituais como João da Cruz. Além do mais lhe disse, sua resposta era boa para os membros da Companhia de Jesus, mas não para aqueles a quem ela tinha em mente. A vida não é tão longa que nos permita morrer ao mundo antes de encontrar a Deus. Teresa lembrou os Evangelhos e observou que Maria Madalena não estava morta ao mundo antes de encontrar-se com Jesus; a mulher cananeia também não estava morta ao mundo antes de pedir as migalhas da mesa. E a mulher samaritana também não morreu ao mundo antes de encontrar-se com Jesus no poço. Ela era quem era e Jesus a aceitou. Teresa termina sua resposta a João da Cruz agradecendo-lhe por responder ao que ela não havia perguntado.

A experiência de Teresa é que Deus se encontra conosco e nos aceita tal como somos e nos acolhe no lugar que estamos em nossas vidas. Somos aceitos por Ele ao longo de todo o caminho.  O desafio para nós é aceitar a aceitação, e permitir a essa presença que nos transforme. A realidade desse abraço é a base de nossa oração. Orar, portanto, é entrar nessa relação com confiança sentindo-a como o fundamento de nossas vidas. É muito fácil falar sobre isto, mas muito difícil vivê-lo no dia-a-dia.

Um teólogo resumiu a mensagem de Teresa desta maneira: a melhor cooperação que podemos oferecer a Deus que reorienta nossas vidas, é prestar uma fiel e duradoura atenção a nossas profundidades e ao nosso centro.

Atraídos pelo amor   

A tradição carmelitana pode ser mal interpretada.  Pode parecer que o Carmelo está dizendo às pessoas que um rigoroso ascetismo pode leva-las `a união com Deus; que os ídolos de nossas vidas podem ser derrubados por nossos valentes esforços e por nosso viver isolado e severo.  Quando de fato a mensagem do Carmelo às pessoas é a necessidade que têm da graça de Deus e a boa notícia é que a graça está sempre disponível. Tudo o que temos a fazer é abrir nossas vidas a essa graça.

Na subida do Monte Carmelo, João da Cruz oferece alguns conselhos para nos ajudar a desapegar dos ídolos que nos submetem a seu serviço.  Os conselhos, num primeiro momento, podem parecer restritivos e desequilibrados. Mas João é rápido em afirmar que a força de vontade e o ascetismo por si só não podem libertar o coração escravizado pelos ídolos.  O ídolo ao menos lhe dá algum alimento ao coração faminto de Deus. O ídolo talvez proporcione alguma alegria, alguma identidade, alguma segurança ao peregrino faminto.  O coração, por si mesmo, não é capaz de afastar-se desse alimento e entrar num vazio afetivo e esperar pelo Senhor.

João afirma que é somente quando o coração tem uma oferta melhor é que pode desprender-se daquilo a que esteve preso durante toda sua vida.  Só quando Deus entra numa vida e acende um amor no profundo da pessoa e a afasta dos amores menores, pode a pessoa abrir-se ao desprendimento dos ídolos.  Com o convite de um amor como este, o que antes era impossível (deixar os ídolos) se faz possível, enquanto os ídolos vão se desvanecendo. O coração então vai passando de um amor a outro. Porque João está convencido de que Deus é o centro da alma, a tarefa não é encontrar um Deus distante, mas despertar para a realidade desse Deus “que está sempre presente”.

“Tudo é graça” disse Teresa de Lisieux.  Ela expressou está convicção enquanto morria de tuberculose, rodeada de uma espiritualidade que desconfiava da natureza humana, que acreditava que tínhamos que merecer o amor de Deus, e pedia “almas vítimas” para acalmar a ira de Deus.  Quando lhe disseram que não podia receber a comunhão, ela simplesmente disse que era uma graça quando a podia receber e agora que não podia continua sendo uma graça. “Tudo é graça”.

Teresa de Lisieux estava convencida de que Deus estava sempre presente nela, que Deus a amava e que este amor era gratuito; sem mérito algum. Falando do mérito simplesmente dizia: “não tenho nenhum”.

Teresa conhecia a justiça de Deus, e estava consciente de que as pessoas devotas se ofereciam como vítima e essa justiça de maneira que os pecadores fossem perdoados e Deus aplacado.  Contudo este Deus não era familiar a Teresa. Nenhum dos rostos de Deus em sua vida exigia que o aplacasse, nem sua mãe, nem seu pai, nem Paulina, nem Celina, nem Maria, nem o Deus da Bíblia hebreia que amava aos pequenos, nem Jesus que chamou os pequenos a vir a Ele, nem o Amado do Cântico dos Cânticos ou nas poesias de João da Cruz.  Ela acreditava que Deus é justo, mas que essa justiça leva em canta a nossa pequenez.

Teresa de Lisieux uma vez foi descrita como “o Vaticano em miniatura”.  A recente atenção que tem sido dada a sua mensagem nos lembra que deve-se dar prioridade não a nossos méritos e esforços, mas ao viver em confiança. Teresa começa sua autobiografia com as palavras de São Paulo aos Romanos: “Portanto, não se trata de querer ou correr, senão de que Deus tenha misericórdia”.

Teresa se antecipou à Teologia de nossos dias que entende a graça como graça incriada, a presença amorosa e salvadora do Pai, do Filho e do Espírito. Quando falamos de contemplação, simplesmente estamos estimulando uma abertura a este amor gratuito. Deus continuamente está vindo a nós e convidando-nos a entrar na profundidade de nossas vidas, a uma liberdade mais ampla, e a uma relação de amor.  Contemplação é estar abertos a esse amor transformante, não importa como venha.

A contemplação re-focada  

Um dos recentes desenvolvimentos na compreensão do carisma carmelitano tem sido voltar a situar a contemplação entre nossas prioridades. Sempre falamos da oração, da comunidade e do ministério como os três pilares de nosso carisma. A contemplação era vista como uma forma de oração superior ou mais profunda, e algumas vezes em nossa história parecia que havia uma competição entre o ministério e a contemplação. Não obstante, aqui temos uma descrição da contemplação que se encontra no documento sobre a formação na Ordem Carmelita:

Nesta progressiva e contínua transformação em Cristo realizada em nós pelo Espírito, Deus nos atrai até Ele num caminho interior que conduz da periferia dispersante da vida à cela mais interior do nosso ser, na qual Ele mora e nos une com ele.   

Estamos entendendo agora que a contemplação fundamenta e une a oração, a comunidade e o ministério.  A porta é a oração, mas o amor de Deus nos é oferecido de várias maneiras nestas realidades de nossas vidas através das quais podemos entrar na abertura contemplativa desses três caminhos. Eles não são opostos, mas sim janelas abertas para a realidade transcendente que está no profundo de nossas vidas e nos oferecem um contato com esse Mistério.

É importante acentuar esta perspectiva porque o Carmelo tem oitocentos anos de ministério como resposta à Igreja e ao povo de Deus, e certamente, pela graça de Deus terá muitos séculos mais de serviço desinteressado.  E nada disto é contrário a uma vida contemplativa. Muitos carmelitas tem se transformado nas pessoas mais cheias de amor através do contato com o povo de Deus, por meio dos múltiplos ministérios.

O arcebispo Romero foi transformado e convertido pelo amor de Deus não somente na solidão de sua oração, mas também em seu compromisso com o Senhor da História, nos duros esforços do povo por encontrar seu lugar no banquete da vida. A contemplação deveria ser a fonte de compaixão para o mundo.  O contemplativo é aquele que faz a experiência da extrema pobreza e impotência de uma alma sem Deus.  O contemplativo aprende assim a esperar junto com todos aqueles que também esperam a misericórdia de Deus.  Nesta escuta contemplativa aprendemos a dizer: “Nós, os pobres”.

Nossa vida contemplativa, nossa abertura ao amor de Deus que vem a nós nos bons e nos maus momentos é o dom que temos para compartilhar com os demais.  O que aconteceu na vida dos santos do Carmelo no passado, está acontecendo nas vidas dos carmelitas de hoje, e na vida de cada um.  Daremos melhor testemunho se mantivermos o enfoque em quem somos:  uma fraternidade contemplativa em meio ao povo.

Falando à Congregação Geral da Ordem em 1999 um carmelita alemão acentuou este carisma contemplativo:

Acredito firmemente que nossa primeira tarefa é colocar bastante de nossa energia, tempo, talentos e capacidades pessoais no processo de uma crescente relação com o Deus da vida e do amor. Nosso crescimento humano e espiritual como também nosso futuro como Ordem depende de quanto nós, como indivíduos e como comunidade nos submetemos e desenvolvemos nesta amizade íntima com Deus, de maneira que Ele possa transformar-nos segundo a imagem de Cristo que atua através de nós pela causa da Igreja e do mundo.

Resumo               

A história do Amado que vem ao encontro do amante para atrair seu coração até uma profunda união é a história arquetípica que os carmelitas tem ensaiado através do tempo. Nossas vidas não podem ser forçadas à submissão a menos que não sejam levadas pelo amor. Não conseguimos deixar nosso apego aos ídolos, até que Deus acenda um amor mais profundo em nossa alma. O coração então tem um lugar aonde ir e pode com confiança soltar suas amarras, suas afeições, seus ídolos.  O amor de Deus, sempre presente e oferecido, atrai o coração até às profundezas de Deus: “entremos mais a fundo na esperança”, e aí nos encontraremos com o sofrimento do mundo. Nossa postura contemplativa não nos afasta das preocupações do mundo, ao contrário, nos lança com força a lutar no mundo.

Perguntas para reflexão

  1. Como “sentinela na noite”, me mantenho alerta à chegada do amor de Deus? Onde na minha vida me sinto chamado a uma escuta mais profunda? Onde encontro os desafios contínuos para minha mente e meu coração? Estes desafios são convites para entregar-me ao amor transformante de Deus de uma maneira mais profunda?
  2. Entre os sinais do amor de Deus atuando está uma crescente confiança na misericórdia de Deus, uma crescente liberdade diante daquilo que escraviza o coração. Experimento esta crescente confiança? Sou consciente de uma maior liberdade?  Na realidade tenho me entregado ao mistério que se aninha no centro de minha vida ou continuo lutando por garantir minha própria existência?
  3. Tenho visto o rosto de Cristo no rosto do povo que sirvo? Posso reconhecer o convite do amor transformante de Deus presente numa cultura?
  4. Na minha comunidade e no meu ministério, como posso ajudar a criar condições para um coração que escuta?

IV –  UM CORAÇÃO PREOCUPADO

O TRÁGICO NA VIDA

Os sofrimentos da humanidade

Um dos aspectos que tornam atraente a tradição carmelitana é sua luta honesta com os problemas e as forças obscuras que atacam o corpo e o espírito. O Carmelo não evita o trágico na vida, mas o enfrenta diretamente. O sofrimento é uma grande parte da experiência do povo, e uma espiritualidade que não reconheça o sofrimento será ignorada. Os santos do Carmelo compartilham as dificuldades da vida.

Edith Stein e Tito Brandsma experimentaram a profundidade da crueldade humana e do mal inexplicável. Teresa de Lisieux em sua curta e escondida vida experimentou uma grande quantidade de sofrimento. Teresa de Lisieux conheceu o sofrimento produzido pela luta tanto no interior como no exterior de sua alma. A forte reputação de João da Cruz, seu mesmo nome, e sua imagem da “noite escura” falam de uma espiritualidade que leva a sério assumir um compromisso com o lado obscuro da vida. Pensemos também nos primeiros carmelitas que foram à periferia da sociedade e aí, sem distrações, abriram suas vidas à luta interior entre os bons e os maus espíritos.

As pessoas se sentem atraídas para uma espiritualidade que encontra palavras para seus sofrimentos mais profundos, e ao mesmo tempo oferece uma esperança ao coração nestes tempos escuros. Os santos do Carmelo, nos diferentes séculos e culturas, compartilharam os sofrimentos comuns da humanidade. Um peregrino de qualquer época pode relacionar-se com os sofrimentos dos santos do Carmelo e desejar tê-los como companheiros de caminho neste vale de sofrimentos. É bom voltar a recordar suas dificuldades.

Por exemplo, hoje em dia muitas pessoas podem identificar-se com os problemas de Teresa de Lisieux. Quando menina experimentou, não somente a perda de sua mãe, mas também a perda das seguintes mães que cuidaram dela.  Frágil continuou e conheceu o sofrimento das neuroses e a debilitação causada pelas doenças psicossomáticas. Observou impotente a deterioração mental de seu pai, uma figura heroica em sua vida, e seu internamento num asilo. O Carmelo foi para ela como um deserto e em sua última doença mental e física, conheceu a tentação do suicídio. Sua aparência doce nunca enganou aos devotos de Teresa.  Reconheciam nela uma companheira de sofrimentos que sabia por experiência o difícil que pode ser a vida.  No entanto, deu testemunho do amor que estava presente em tudo e nunca a abandona.

Teresa expressou seu desejo de toda vida: sofrer.  Sentia uma atração tão misteriosa pelo sofrimento que se não o tivesse relacionado com o amor, seria suspeito. Desde que entrou no Carmelo, Teresa começou a experimentar secura no coração e permaneceu nesta condição através do resto do breve tempo que esteve ali. E, assombrosamente, sua autobiografia com seu atraente manuscrito “B” foi escrito enquanto ela estava passando por uma terrível noite escura do espírito e quando tudo estava em dúvida.  A ideia do céu que tinha inspirado toda sua vida na qual acreditava e se afastava dela. Intelectual e afetivamente não tinha certeza alguma em relação à direção de sua vida.  Ao mesmo tempo escrevia essa linda passagem a respeito de ser o amor no coração da Igreja e enviava cartas inspiradoras a seus irmãos missionários.

Teresa estava experimentando sua própria transformação no forno de um amor obscuro. O único que ficava era o centro de sua fé, sua confiança, seu amor.  Quando ela nos anima a confiar e a acreditar que “tudo é graça” não o faz a partir de uma posição de deleites tangíveis da presença amorosa de Deus, mas a partir de sua experiência da ausência de Deus e das rejeições de sua mente.  O Cardeal Daneels se perguntava se Teresa poderia ser chamada a “Doutora da esperança” devido a seu testemunho na possibilidade humana de continuar adiante quando todos os apoios desapareceram.

O amor obscuro de Deus 

Teresa de Ávila advertiu que as lutas dentro de nossos frágeis psiquismos são muito mais difíceis que as externas.  Teresa teve que vencer muitos obstáculos em sua reforma. Teve que lutar com os opositores, com a compra de casas adequadas para suas comunidades, contratar operários para reformá-las, arrecadar fundos para sua manutenção, recrutar membros para a comunidade, relacionar-se com vários eclesiásticos que não a apoiavam, viajar pelos difíceis caminhos da Espanha em más condições e enfrentar algum litígio com a corte.

Não obstante, ela comunicou que estas batalhas não se comparam com as batalhas enfrentadas em sua alma, enquanto ela se ocupava de suas profundidades na oração. “…Escutar Sua voz dá mais trabalho que não a escutar”.  Pode parecer que a reflexão de Teresa sobre o “entrar em si mesmo” seria como ir para casa; que as batalhas de fora são uma coisa, mas dentro da alma tudo é harmonia.  Entretanto, foi o contrário, pois ao entrar em seu interior, verificava que estava em guerra consigo mesma.

A oração lança luz sobre aspectos de nossa alma que anteriormente não tínhamos examinado.  As compulsões, os apegos, as maneiras não autênticas de viver, o falso eu, e os falsos deuses, tudo sai à luz enquanto a pessoa vai se afinando mais na verdade. Esta desagradável experiência pode conduzir ao medo, à debilidade do coração e à tentação de abandonar o itinerário existencial. O chamado de Teresa à valentia e a determinação através de uma vida de oração não é demasiadamente dramática.  Aquilo de que a alma necessita, escreveu Teresa, é do conhecimento de si mesma. E a porta desse conhecimento de si mesma, a porta ao interior do castelo, é a oração e a reflexão.

Sem um esforço orante, nos manteremos desesperançosamente fechados na periferia de nossas vidas perguntando aos outros e à criação o que somente Deus pode nos dizer, isto é, quem somos.  Sem um verdadeiro centro que emerja de nossas vidas, viveremos com muitos “centros”, fragmentados e dispersos, pedindo a cada um deles que realize os desejos do nosso coração.  O único antídoto contra a morte certa que decorre do apego aos ídolos, é a dolorosa batalha que supõe entrar em si mesmo através da oração.

Os leitores modernos podem simpatizar com Teresa enquanto ela enumera as dificuldades de sua vida que são, ter sido elogiada demais, injustamente criticada, tendo além de tudo que sofrer as contradições de homens bons que pensavam que suas experiências de oração vinham do demônio e diariamente tinha que enfrentar-se a sua saúde precária.

Porém sua experiência mais difícil surgiu justamente quando sua relação com o Senhor era mais íntima.  Ela começou a questionar todo seu itinerário existencial, perguntando se tudo não fora criado por sua imaginação, ou, se era de fato a presença de Deus em sua vida. Teria imaginado que Deus tinha sido bom com ela no passado?  Ela própria tinha sido boa no passado ou tinha imaginado isso? Em outras palavras, quando se esperaria que a amizade com Deus fosse base sólida, então surgiram as dúvidas.  Há alguém em casa, no centro?  Tendo entregado sua vida e sua melhor energia ao seguimento dessa “chama”, ela começou a perguntar-se se tudo era ilusão.

A pergunta também seria feita de outra maneira: O final será todo bom?  Tudo isso: a criação, o plano da salvação, o próprio Deus, é para nós?  Ou somos uma paixão inútil? O imenso desejo de nosso coração, a fome da alma, serão frustrados no final de tudo? Ou existe uma realidade, um amor do tamanho do nosso desejo? Todas estas perguntas estão no coração do peregrinar humano.

O tempo, a perseverança, e a graça de Deus, deram a Teresa a resposta às suas dúvidas. Mais tarde ela nos fala da ausência dessas dúvidas que lhe corroíam a alma, e da certeza de uma relação profunda, mas não preocupante com o Senhor.  Porém, ainda nessa condição que ela identifica com o “desponsório espiritual” diz que confia mais no sofrimento. Ainda nos momentos em que estava presa na periferia da vida, ela sabia   que o discípulo de Jesus levaria a cruz e que através desta surgiria a vida.  Ela não construía cruzes artificiais em sua vida, mas também não fugia das cruzes que a vida lhe apresentava. Ela tinha aprendido a confiar nesse, às vezes, obscuro amor de Deus.

Noites escuras

A metáfora da noite escura de João da Cruz nos lembra que a experiência de amor de Deus, não é sempre uma experiência pronta da união de toda criação. Na noite escura o amor de Deus se aproxima de uma maneira que parece negar-nos, parece que Deus está contra nós. Mas João afirma que nada no amor é escuro ou destrutivo, mas por causa da nossa necessidade de purificação, é que experimentamos o amor como escuro.

João nos dá uma descrição convincente sobre os momentos da vida em que se desvanecem as consolações e orar é impossível. O desejo está ainda presente, mas se esgotou no esforço para libertar-se dos ídolos.  O teólogo Karl Rahner comentou que todas as sinfonias da vida permanecem sem conclusão.  Em cada relação, em cada posse sempre haverá um momento em que surgirá a sensação de carência.  Esta frustração do desejo e a atração por algo mais além, é a inquietude que causa o contínuo convite de Deus para uma união mais profunda.

Quando os deuses morrem durante a noite, se eclipsa a personalidade. Carl Jung, o psicólogo, disse que não podia distinguir os símbolos dos deuses que representam o ser humano. Quando uma pessoa perde seu Deus-símbolo a personalidade começa a desintegrar-se. Esta afeição obscura permanece até que emerja um novo símbolo-Deus antigo.

O conselho que dá João da Cruz durante esta crise na vida é de muita ajuda.  Ele nos dá certeza de que o amor de Deus está em algum lugar presente no meio dos restos da vida, mas que inicialmente não será experimentado como amor. João aconselha paciência, confiança e perseverança. Esta atividade amorosa de Deus nos liberta dos ídolos e restabelece a saúde de nossas almas. Os “deuses” morrem na noite e a alma necessita passar por um processo de sofrimento. O caminho incorreto seria solucionar ou curar esta condição artificialmente, ou nega-la totalmente. João aconselha a enfrentar a condição, entrar nela com paciência, e ali onde o coração estiver lutando com mais força, ficar atentos à chegada do amor. João nos convida a uma “atenção amorosa” na escuridão; é tempo de ser um guardião na noite.  A contemplação é uma abertura ao amor transformante de Deus, especialmente quando Ele aparece disfarçado.

A intensa experiência que João chama a noite do espírito é simultaneamente uma forte experiência de nosso pecado, da finitude de nossa condição humana, e a sempre emergente transcendência de Deus. Enquanto se está nesta condição as palavras carecem de significado.  João escreve que é tempo de “moer o pó”. Tudo o que cada um pode fazer é realizar o próximo ato de amor que se apresente. No deserto o peregrino continua sua viagem existencial, apoiado numa verdadeira fé bíblica.  João está convencido de que somente no contexto desta fé purificada é pode acontecer a relação com Deus. Como aconteceu com Teresa de Lisieux que seu pensamento sobre o céu se desvaneceu, ao peregrino que já não possui o objeto de sua esperança, recorda que a esperança é aquilo que ainda não se possui.

Os escritos de João não se limitam ao sofrimento.  Sua poesia e seus comentários, foram escritos a partir do outro lado das lutas. A noite se converteu numa experiência iluminadora e num guia mais seguro que o dia.  A chama que uma vez doeu agora é cauterizada e curada. E a ausência que o levou `a procura do Amado se revela como uma Presença compassiva escondida no seu desejo.

Uma nova espiritualidade      

As testemunhas contemporâneas do Carmelo que testemunharam sua fé no meio de um sofrimento monstruoso, são as vítimas dos campos de concentração, Titus Brandsma e Edith Stein.  Brandsma resistiu à propaganda nazista e Stein se identificou com seu povo perseguido. Eles foram presos na poderosa corrente do mal social do Século 20. Na experiência de serem despojados de toda segurança e apoio, estes carmelitas deram testemunho de uma vida de fé, esperança e amor no meio das condições mais difíceis. No reconhecimento de seu testemunho a Igreja confirma a autenticidade de suas vidas e os coloca entre aqueles arriscaram tudo no seguimento de Cristo.  A regra do Carmelo conduz a várias formas de ser discípulo, mas todas levam a abraçar a Cruz.

Os Gerais das duas Ordens Carmelitas nos chamam a uma ”nova espiritualidade” para complementar a “nova evangelização”. Esta nova espiritualidade surgirá do crescente conhecimento que o Carmelo vai tendo sobre a realidade mundial que as pessoas experimentam?  Enquanto o rosto do Carmelo vai mudando e entram novos membros na ordem, especialmente vindos dos países, mas povoados e pobres, a situação das massas empobrecidas do mundo chegarão às portas do primeiro mundo. A internacionalidade da ordem e o vínculo internacional da família carmelitana nos oferecem uma oportunidade única para escutar o Espírito nos diversos contextos, e esta escuta nos desafia a dar uma resposta.

João Paulo II ampliou a imagem da noite escura de João da Cruz para incluir os sofrimentos do mundo moderno:

Nossa época conheceu tempos de sofrimento que nos tem feito compreender melhor esta expressão e dar-lhe um certo caráter coletivo.  Nossa época fala do silêncio ou da ausência de Deus. Conheceu tantas calamidades, tantos sofrimentos infligidos pelas guerras e por matanças de tantos seres inocentes. Usamos agora o termo noite escura   para todos os aspectos da vida e não somente par uma fase da viagem espiritual.  Recorremos à doutrina do santo como resposta a este mistério do sofrimento humano.

Faço referência específica ao mundo do sofrimento.  …. Sofrimento físico, moral, espiritual, como as doenças, como as pragas da fome , a guerra, a injustiça , a solidão , a falta de sentido da vida, a fragilidade da existência humana, o doloroso conhecimento do pecado, a aparente ausência de Deus; são para o crente experiências purificadoras, às quais se podem chamar noite da fé .

A esta existência São João da Cruz deu o nome simbólico e evocador de noite escura e se refere explicitamente à inquietante obscuridade do mistério da fé. Ele não tenta dar resposta ao terrível problema do sofrimento na ordem especulativa; mas à luz das Escrituras e da experiência descobre algo da maravilhosa transformação que Deus efetua na escuridão, posto que, “…de modo tão sábio e formoso sabe ele tirar dos males bens; ” (Cant. B 23: 5). Finalmente, nos dispomos a viver o mistério da morte e a ressurreição de Jesus em toda sua verdade.

Resumo

O Carmelo não tem resposta para o mistério do mal. Mas o Carmelo fez a experiência do caminho difícil e oferece uma palavra de esperança para o peregrino que sofre. O sofrimento profundo e as experiências do trágico na vida fazem parte da caminhada de cada pessoa.  As limitações de nossa condição humana e as forças destrutivas presentes no mundo com frequência atacam nossa fé. Apesar da evidência contraria, o Carmelo testemunha que o amor de Deus está sempre presente ainda nos restos de nossas vidas.

O Carmelo nos oferece uma análise particular e poderosa do impacto do amor de Deus no espírito e na personalidade humana. Convidando para uma relação mais profunda, ele desafia o peregrino a largar todos os apoios e a caminhar com confiança para o futuro de Deus.  O cristão com frequência experimenta ataques tanto no espírito como na psique, enquanto vai desenvolvendo o ambiente divino.  O Carmelo oferece uma linguagem e umas imagens expressivas para estes sofrimentos, e é muito eloquente ao recomendar uma vigília silenciosa para esperar a chegada de Deus.

Os santos do Carmelo confiaram no sofrimento e com frequência expressaram seu desejo de levar a cruz em seu discipulado.  Entretanto, este desejo de sofrimento só tem significado no contexto de resposta amorosa às iniciativas do amor de Deus. O sofrimento de Jesus na Cruz nasceu do seu amor ao Pai e aos irmãos e não do amor ao sofrimento.

Perguntas para refletir               

  1. Qual tem sido minha experiência de caminhar pelo caminho escuro? Tenho deixado outros caminhos para ser conduzido por um caminho não escolhido por mim?  O que mais me ajudou?
  2. Como devo proceder quando o caminho não está claro?
  3. Que consolo ou orientação o Carmelo oferece às pessoas que vivem situações dolorosas?
  4. Como a Ordem do Carmo responde à noite escura que sofre tanta gente no mundo? Poderia ser isto parte da nova espiritualidade a que nos chamam os Gerais de nossas Ordens?

V – UM CORAÇÃO PURO

A TRANSFORMAÇÃO DO DESEJO

União com Deus

A espiritualidade carmelitana, com frequência, tem sido apresentada como profunda, rara e somente para uns poucos escolhidos.  Ás vezes, também é apresentada como uniões elevadas e extáticas, ou como fortes sofrimentos mais intensos que os problemas normais da vida. Vem a minha mente imagens da estátua de Bernini da “transverberação” de Teresa, sua visão de ser atravessada pelo dardo de ouro; junto à sua agonia e seu êxtase.

O austero desenho que faz de João da Cruz de Cristo crucificado, na perspectiva do Pai que olha das alturas o seu Filho na cruz, evoca a infatigável determinação do santo.  Imaginamos o desenho de João mostrando o caminho até o Monte Carmelo.  Os caminhos das posses materiais e espirituais não chegam ao cume.  Somente o caminho do meio dos nadas se abre ao cume onde Deus é nada e tudo.  O Carmelo parece representar uma viagem heroica, inclusive épica, até Deus. Uma viagem a ser feita somente pelos montanhistas experientes que se atrevem a escalar sua altura.

Se a subida ao monte Carmelo é uma façanha épica, o que estamos fazendo nós os Carmelitas ordinários? Sentimos que, aos poucos, estamos informando sobre acontecimentos de segunda mão sobre a terra do Carmelo, mas que na realidade nunca estivemos lá?  Como resultado de nossa transformação no amor, “nos fazemos bons”.  João da Cruz proclama energicamente: “com que pouca frequência se celebra esta divinização em nossa tradição”.

Um despertar

Depois de viajar através da noite ou subir a montanha, João utiliza outra imagem para descrever a viagem.  Escreve que “o centro da alma é Deus” e que nossa viagem na vida é até esse centro. Mas no lugar de conceber um centro distante que requer uma árdua viagem.  João diz que ainda com o primeiro grau de amor estamos nesse centro. Com um grau de desejo, de esperança, ainda que seja difícil expressá-los.

Nossa teologia hoje reforça esta observação de João.  Estritamente falando não existe o mundo natural.  O que existe é um mundo cheio de graça, desde o começo, criação e redenção vão juntas de mão dadas.  Em outras palavras, nossas vidas estão impregnadas da presença amorosa, vivificante e salvadora de Deus, ou seja, da graça incriada.  No lugar de procurar um centro escondido e distante, esse centro tem se aproximado de nós.

Então, o que é viagem?  A viagem – disse João – é entrar na profundidade de Deus. Mas já estamos unidos com Deus ao longo de todo o caminho porque a divinização é um processo continuo.  Assim, a meta descrita por nossos autores carmelitas é tal que vai se realizando em cada alma que deseja mais.

“E agora acordas no meu coração, onde em segredo moras”, escreveu João da Cruz.  Mas no seu comentário ele se corrige e diz que não fostes tu quem acordou, mas fui eu quem acordou para o amor sempre presente e sempre ao meu alcance. Este despertar, e a mudança que se produz na vida da pessoa é o chamado do Carmelo.  Podemos chegar à conclusão de que muitos Carmelitas e tantas outras pessoas têm chegado ao cume do Carmelo.  E se chega ao cume, não somente quando uma pessoa se extasia na Igreja, senão quando sua vida expressa mais e mais a vontade de Deus.

Querer o que Deus quer

O propósito da oração é conformar-se com a vontade Deus, escreveu Teresa de Ávila. A pessoa orante está cada vez mais em união com Deus e esta união se expressa no fato de a pessoa desejar mais e mais aquilo que Deus deseja.  Nós não nos fazemos mais fortes através da ascética, lutando para submeter nossa vontade à vontade de Deus.  Não, o amor de Deus nos convida à transformação de nosso desejo para que nós desejemos o que Deus deseja; queremos o que Deus quer, disse João, “Assim, o que tu queres que peça, peço, e o que não queres, não quero, inclusive  nem posso, nem me passa pelo pensamento querer.”

A divinização é a participação gradativa no conhecimento e no amor de Deus.  O peregrino fica tão transformado que todo o seu modo de viver se converte em expressão da vontade de Deus.  Se podemos interpretar o que Jesus disse, que a vontade de Deus é o bem-estar da humanidade, então a pessoa orante vive mais do que esse bem-estar. Em outras palavras, a pessoa transformada e divinizada vive de tal forma que coopera com o Reino de Deus presente e vindouro.

Estas pessoas são difíceis de se identificar. O Mestre Eickhart nos previne que uma pessoa que vive a partir do seu centro, vive na vontade de Deus.  Diz que enquanto outros jejuam, eles comem; enquanto outros estão em vigília, eles dormem; enquanto outros oram eles estão em silêncio.  Pois, qual é o propósito da vigília, da oração, do jejum senão o viver do centro da alma que é Deus? É claro que ele está exagerando ao expressar sua compreensão, já que nosso peregrinar nunca acaba deste lado da morte. O que ele quer expressar é a absoluta humanização da pessoa transformada.

Teresa nos disse que estas pessoas não estão continuamente conscientes de sua vida espiritual.  A interioridade se converte cada vez menos num ponto de enfoque. Nem Deus lhes preocupa, porque o modo como vivem expressa sua relação com Deus. A meta nunca foi chegar a ser um contemplativo, ou um santo, ou ter uma vida espiritual. A meta sempre foi querer o que Deus quer numa consonância de desejo.

Na conclusão da Regra Carmelitana, Alberto, Patriarca de Jerusalém e o legislador escrevem: “É isto que, com brevidade, lhes escrevemos determinando a forma de conduta, segundo a qual vocês deverão viver.  Se alguém fizer mais do que o prescrito, o Senhor mesmo lhe retribuirá quando voltar.” Kees Waaijman do Instituto Tito Brandsma de Nimega vê nesta afirmação uma clara alusão à passagem do Bom Samaritano.  O Carmelita assume o papel do hospedeiro. Seus planos e a ordem de sua casa se vêm alterados quando um forasteiro traz um homem machucado para que cuide dele. O forasteiro pede ao hospedeiro que cuide daquele homem machucado e se gastar algo mais, isto é, se fizer mais, o forasteiro na volta o pagará.

O forasteiro, Cristo, pede ao Carmelita que cuide de sua gente durante sua ausência. Ainda que o hóspede não seja esperado e a ordem da casa fique alterada, o hospedeiro obedientemente se ocupa do homem ferido, talvez sem envolver-se emocional ou pessoalmente, e com pouca satisfação. Kees conclui que toda entrega autêntica é essencialmente obscura.  A presença que se encontra no profundo do coração do Carmelita é uma noite que guia, uma chama que cura, uma ausência reveladora.

Os frades não têm necessidade de desculpar-se por não ser autênticos carmelitas. Nossa espiritualidade não é de um ascetismo heroico, mas do amor de Deus que conquista e toca cada coração e o faz adoecer, de outro modo não estaríamos aqui.

Assumindo que no cume do Monte Carmelo nos sentimos em casa, quer dizer, nos braços de Deus, e ao mesmo tempo sempre necessitamos de sua misericórdia, nosso ministério é fazer acessível a tradição do Carmelo para ajudar a nossos irmãos e irmãs a ver e ouvir a presença de Deus em suas vidas.

Para manter viva esta chama nos outros, pareceria correto que primeiro nós a tivéssemos acolhido em nossas vidas. Se escutarmos nossos corações, conheceremos os corações das pessoas com as quais trabalhamos e assim as serviremos melhor. Tiremos a poeira de qualquer vocação carmelita e ali encontraremos uma brasa esperando tornar-se uma chama, uma chama que deseja a totalidade, a paz, a segurança, o gozo, a unidade e que encontra sua melhor expressão no serviço aos irmãos e irmãs.  Para isso viemos.  Para isso estamos aqui.

Resumo     

“Entrar no Carmelo” não é simplesmente entrar em um edifício, unir-se a uma comunidade, e assumir um ministério, seja este contemplativo ou apostólico.  Pode ser isso certamente, porém, “entrar ao Carmelo” é também entrar em um drama que se realiza no profundo de cada vida humana. O drama do encontro de espírito humano com o espírito de Deus é essencialmente inefável.

Os carmelitas são exploradores do lugar secreto onde Deus habita, esse lugar do espírito humano onde o Mistério se dirige ao espírito. O Carmelo honra essa primeira e privilegiada relação entre criatura e Criador. Os místicos carmelitas têm usado as imagens dos desposórios e, com frequência, a história de amor do Cântico dos Cânticos para captar a intimidade do encontro.  A paisagem dos Cânticos começa a dar forma à “terra do Carmelo”

O propósito da oração é a conformidade com a vontade de Deus, nos disse Teresa de Ávila. Nesta relação os desejos do peregrino são transformados de tal maneira que cada vez mais o cristão expressa em sua vida aqueles desejos que estão conformes com os desejos de Deus. Se dissermos que a meta do amor de Deus é o bem-estar da humanidade, então o cristão transformado vive de uma maneira que naturalmente coopera com o Reino de Deus.

Perguntas para reflexão  

  1. Quem são as pessoas verdadeiramente santas na minha experiência?  Como são?
  2. Entendo a vida espiritual como um crescimento heroico, ou como um despertar para um amor que brota do centro do meu ser?
  3. Estou disposto a confiar, de um modo prático, que o amor de Deus é gratuito, impossível de ser conquistado? Existem maneiras sutis em que tento assegurar meu valor?
  4. “Descanse, tudo já foi feito”, disse um teólogo da graça. O que pode significar esta frase?

Fonte: John Welch, O. Carm – Whitefriars Hall , Washington


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