Beato Tito Brandsma: Modelo de Santidad de los tiempos modernos pelo nosso ex-padre geral Frei Fernando Romeral O.Carm – palestra realizada no dia 13/06/2020 por conferência eletrônica.

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Introdução

O Beato Tito Brandsma é uma das principais figuras do Carmelo do século XX e dos tempos modernos. Seu exemplo, suas atitudes ante os problemas que se iam apresentando em um momento especialmente delicado da história da Europa e da história da Igreja, sua profunda vida interior (enriquecida em meio de uma atividade tremenda e dos mais diversos trabalhos realizados) assim como sua esperança nos momentos mais dramáticos, fazem do Beato Tito um verdadeiro modelo para o carmelita e para o crente de nossos tempos.

Nascido no seio de uma família católica profundamente religiosa, em Frisia, região do norte da Holanda de ampla maioria protestante, o Beato Tito herdou dos seus a teimosia e perseverança, assim como a firmeza nos princípios fundamentais, algo que ele sabia combinar com flexibilidade nos métodos e no trato com as pessoas.

Essa retidão pessoal lhe levou a defender sem rodeios nem fissuras a postura do Episcopado Holandês ante a ocupação nacional-socialista e ante as medidas do governo de ocupação a respeito das crianças judias e da imprensa católica. Colaborador próximo do Cardeal De Jong, não se escondeu em momentos difíceis e inclusive se tornou porta-voz do posicionamento católico. Em um pequeno ensaio escrito no cárcere a pedido de um sargento judicial Hardegen explicou detalhadamente e com profundidade a rejeição dos católicos holandeses ao Nacional-Socialismo, pensamento que ele atribui como um perigoso neopaganismo.

Mas essa postura pública não se explica somente pelos traços de seu caráter, nem por sua origem Frisia, nem sequer por um posicionamento do tipo teórico ou filosófico. Atrás de sua atuação se intui (pelo pouco que o Beato Tito – pouco amigo de exibicionismos de nenhum tipo nos deixou vislumbrar) uma profunda experiência espiritual, uma vivência de fé profunda e um encontro pessoal com Jesus Cristo.

Vamos tentar descrever muito brevemente alguns traços dessa fisionomia espiritual que pode nos servir como carmelitas do século XXI. A figura do Beato Tito é muito rica, “poliédrica”, estes são apenas uns traços que, entre outros, se podem destacar e podem nos ser úteis para nosso próprio caminhar. Não obstante convém ter em conta as dificuldades com que nos encontramos de antemão:

– Não temos acesso a grande maioria das obras do Beato Tito: escreveu muito (sua obra está muito dispersa em revistas, periódicos, etc), há muito pouco organizado em edições críticas e quase tudo está sem tradução.

– O Beato Tio foi bastante sóbrio na hora de expor suas próprias experiências espirituais. Apenas no final de sua vida, nos momentos trágicos da prisão, seus escritos nos revelam sua profunda vivencia mística, muito influenciada pela espiritualidade flamenca, por Santa Teresa (por quem sentia uma verdadeira fascinação e pela experiência da cruz. Essas poucas pinceladas, nos dizem muito da figura interior do Beato Tito.

O Beato Tito traduziu a vida de Santa Teresa e uma Via Crucis. Acabando o papel, não havendo a possibilidade de que lhe fornecessem mais. Mesmo assim, ele segue escrevendo nos espaços entre as linhas do livro sobre a vida de Jesus que está lendo.
  1. Espírito Ecumênico

Quando falamos de espírito ecumênico não nos referimos apenas a sua delicadeza e atitude de diálogo com o mundo protestante (Holanda é um país de ampla maioria calvinista), mas para uma atitude vital, que se manifesta em todas as atuações do Beato Tito e que consiste essencialmente em uma abertura sincera e cordial ao outro, aos que são ou pensam de outra maneira.

Quando estava encarregado da impressa católica por parte do Episcopado Holandês, e em circunstâncias delicadas (relações com sindicatos, com os diretores dos jornais, etc), se ganhou o apelido de “o conciliador” o que nos diz muito de sua forma de ser. Em seu processo de beatificação foram vários os pastores protestantes que testemunharam (e que discordam a princípio de todo tipo de canonização) manifestaram seu apreço e afeto por aquele carmelita que eles conheciam dos campos de concentração.

Em uma sociedade como a nossa, onde abundam posturas radicais, divisões políticas, pouca capacidade de diálogo e de reconhecimento do outro, etc, a postura do Beato Tito é especialmente significativa.

2. Otimismo – Alegria

Apesar dos estereótipos de sua biografia (saúde enferma, mil ocupações e trabalhos, alguns deles muito delicados, situação política, etc), o Beato Tito manteve sempre uma atitude positiva diante da vida e dos seres humanos. Como se mostra no final de sua vida (e pelos poucos detalhes que ele mesmo nos permitiu conhecer) essa alegria brotava de uma profunda experiência espiritual, de uma união íntima com o Cristo sofredor. Em certas ocasiões sua alegria nos recorda (levando em consideração a diversidade de estilos) a de Santa Teresinha do Menino Jesus. Assim junto ao lema do Beato Tito: Onde eu estiver, tem que haver festa… poderíamos colocar a frase de Teresinha: o amor não é para esconder, mas para iluminar e alegrar. E junto as reflexões do Beato Tito no cárcere, tentando descobrir o lado cômico de sua prisão, já mais velho e doente, poderíamos colocar a reflexão de Teresa d’Ávila, tentando elevar-se com o humor acima do sofrimento:

[P.T.]  … mas quando alguém é trancado pela primeira vez e à noite, em uma cela carcerária e fecham atrás de você a porta com chaves e correntes, alguns ficam estupefatos durantes alguns instantes, apesar de estar preso em minha idade avançada me causa risos, ao invés de tristeza… Aqui me tens pois (…). Psiquicamente não sofro, nem tenho necessidade de chorar nem de suspirar. Além do mais, eu canto suavemente, do meu jeito…

[T.L] Vejo sempre o lado bom das coisas. Há quem leve tudo da maneira que os faz sofrer mais. A mim me passa o contrário. Quando me vem o sofrimento puro, quando o céu se mostra tão escuro que não vejo nenhuma claridade, pois bem, eu faço disso minha alegria!

Não são de todo estranhos na vida religiosa vozes ameaçadoras, homilias catastrofistas, profetas de calamidades (como os denominou João XXIII) que olham a nosso mundo de forma negativa e condenatória. O Beato Tito sabia ver o que tinha de positivo no mundo, nos avanços técnicos e científicos, na sociedade moderna, etc. sem que ele em absoluto renunciasse o espírito profético ou a denúncia da injustiça e da opressão, crítica que ele rubricaria com seu próprio sangue.

3. Apaixonado pelo Carmelo

O pequeno Anno Sjoerd Brandsma (seu nome de batismo), sentiu desde muito jovem a vocação a vida religiosa, ou ao sacerdócio. Nem sempre é fácil a essa jovem idade saber com detalhes o que se quer, menos ainda, saber a que nos chama Deus. Por isso, foi enviado por seus pais ao seminário menor de Megen que era um pré-seminário, em regime aberto, em que o jovem além de realizar seus estudos podia ir amadurecendo a sua vocação. Ali terminou seus estudos primários e contrariamente ao que se poderia pensar por sua curta idade, meditou muito sua decisão: iria ser carmelita. Aparentemente em uma conversa com um familiar descobriu o espirito da Ordem do Carmo e ficou “fascinado” por dois aspectos da sua espiritualidade uma intensa vida de oração e intimidade com Deus, combinado com o apostolado e a devoção filial a Maria.

Esse amor a Ordem e a sua espiritualidade ele viveu e expressou sem disfarce ao longo de sua vida. Foi também um estudioso dessa espiritualidade carmelita que dava sentido a sua vida. Nesta mesma linha, convém fazer uma breve menção a situação que a Província da Holanda vivia naquele tempo: Uma província restaurada um pouco antes, com poucos conventos, poucos religiosos, etc, mas com grande entusiasmo. Na primeira metade do século XX esta Província foi abrindo uma série de missões que com o tempo, foram dando lugar a algumas das províncias mais importantes da Ordem: Brasil, Indonésia, Filipinas, etc. Incluindo os momentos de fraqueza, em plena Guerra Mundial, o Beato Tito com os carmelitas holandeses, seguiam debruçando sobre o tema das missões.

Talvez algo disso nos possa ser sugestivo para nós que hoje vivemos também em um tempo de crise, distinta certamente, mas que também afeta aos fundamentos da vida religiosa. Quando ouvimos anunciar por todos lugares o fechamento de províncias, casas, ordens, missões, etc, é o momento de juntar forças vindas da esperança e da convicção entusiasmada em nossa vida e em nossa vocação, tendo em conta sempre, das debilidades e das limitações humanas.

Esse “carmelitanismo” do Beato Tito nos manifesta de forma deliciosa em uma série de anedotas do tempo da prisão: coloca em sua cela a imagem da Virgem, que não pode faltar na cela de um bom carmelita, em 16 de julho de 1942 (poucos dias antes de morrer), parabeniza cordialmente aos carmelitas poloneses prisioneiros em Dachau, esse mesmo dia de forma clandestina, recebeu a profissão de um sacerdote diocesano polonês na Ordem Terceira… Sem sectarismos nem fanatismo de nenhum tipo, estava fazendo realidade aquilo que escrevera anos antes: Amo intensamente a minha Ordem. É o caminho que Deus me deu para encontra-lo.

4. A cela interior

Um dos grandes problemas das sociedades ocidentais é o ritmo de vida que nos é imposto, a falta de tempo, o stress. Tudo isso, reconhecemos humildemente, nos leva a um tipo de ser humano superficial, banal, bombardeado pela informação (muitas vezes sem estar acompanhada de uma reflexão nem de verdadeira atitude de escuta), um ser “virtual”

O Beato Tito (sempre atarefado, cheio de ocupações de todo tipo) manteve sempre essa profundeza no meio da atividade, viveu nessa “cela interior”, que grandes personagens da espiritualidade nos tem falado como Santa Catarina de Sena ou o Beato João Soreth. Sabia como fazer oração da vida e vida de oração. É muito conhecida a sua frase: A oração não é um oásis no meio do deserto da vida. É vida. Mas para conseguir essa união harmônica, o Beato Tito estava treinado na solidão, no silêncio interior, na intimidade com Deus, na presença de Deus tão querida no carisma carmelita.

De novo, a figura do Beato Tito nos ilumina e nos interpela. Podemos nos perguntar se nós, carmelitas do século XXI, buscamos essa combinação de trabalho e oração, de vida ativa e contemplação, de compromisso com as realidades de nosso mundo e de profundidade espiritual.

5. A honestidade pessoal e ética

O Beato Tito teve que enfrentar nos últimos anos de sua vida uma série de situações especialmente tensas e delicadas. Quando o governo nacional socialista da ocupação impõe aos colégios religiosos a expulsão das crianças de origem judia, ou quando se impõe que a imprensa católica (muito vigorosa na Holanda por se tratar de um país de escassa população católica) a publicação de slogans racistas, o Beato Tito com a próxima colaboração do Cardeal De Jong, mostra sua oposição mesmo às custas de sua segurança pessoal. Nos últimos meses de sua vida pública, antes de sua detenção, se manteve com serenidade a seus princípios quando tudo o convidava ao contrário. Inclusive, na prisão, ao Beato Tito foi apresentada a possibilidade (certamente tentadora) de retratar suas opiniões e retirar-se a um convento carmelita na Alemanha, algo que ele se negou, serena mas bruscamente. Se manteve sempre firme em seus princípios éticos e suas convicções.

Sem dúvida, o testemunho do beato Tito nos interpela também neste sentido. A Conferência Episcopal Espanhola tem denunciado em diversos documentos, os sintomas da degradação moral que se veem na sociedade espanhola, sobretudo, no campo da moral social, política e econômica. Podemos nos perguntar se em nossos trabalhos (como empregados ou como empresários), em nossos investimentos, nossas relações sociais, no trânsito, nas questões ecológicas, tentamos dar um testemunho, simples mas honesto, de nossas convicções que nascem da fé.

Vários decênios depois da morte do Beato Tito, teólogos como Juan Bautista Metz, entre outros, falaram de uma “santidade política” e de uma “mística política” (cívica, cidadã, social). Em certo modo nosso compromisso social é o teste de nossas místicas. Em tempos de corrupção, de interesses egoístas, de cartas na manga… o testemunho ético do Beato Tito é especialmente sóbrio.

6. Devoção Mariana

Um dos elementos da espiritualidade carmelita que mais chamou a atenção ao jovem Brandsma foi a profunda devoção mariana. Ao longo de sua vida religiosa viveu e expressou de muitas maneiras. Destaquemos apenas os momentos de maior importância:

– em 1932 organizou um Congresso Mariano em razão dos XV Centenário do Concílio de Éfeso (que proclamou solenemente a Maria como Mãe de Deus). Para não ofender aos protestantes explicou em um interessante artigo o sentido de uma saudável devoção católica a Maria em que insistiu que todos nós, como Maria, devemos ser “portadores de Deus” (Theotokos, no grego). Também em seus exercícios espirituais (inspirados em cenas bíblicas em que a Virgem aparece), insiste nesta ideia: Maria, depois de ser elevada a Mãe de Deus, vai visitar a Isabel. Nossas obras de caridade devem manifestar também que Deus habita em nós.

– Pouco antes de morrer dá seu rosário a enfermeira Tizia (nome fictício que aparece em seu processo). Ela lhe diz que não é uma crente, mesmo assim ele insiste: Ainda que não saiba rezar, poderá dizer ao menos em cada conta «Roga por nós pecadores».

7. Um artesão de reconciliação

Já sabemos que o Beato Tito foi interrogado em várias ocasiões pelo capitão judicial Hardegen que lhe pediu, dada a condição de católico e de professor de filosofia, que escrevesse um breve ensaio em que ele explicasse porque os católicos holandeses se opunham ao nacional-socialismo. Sem bibliografia, nem outros meios, Beato Tito chegou a escrever várias páginas em que com humildade mas com firmeza, explicava claramente estas razões. O escrito se conclui de forma esmagadora:

– Deus salve a Holanda! Deus salve a Alemanha! Oxalá Deus conceda a nossos povos voltar a caminhar em paz e em liberdade e reconhecer sua Glória para o bem destas duas nações tão próximas.

É uma anedota significativa. O Beato Tito sempre foi um infatigável artesão de reconciliação, amigo de construir pontes e sarar feridas, sem negar o mal nem deixar de ter firmeza ante o mesmo.

No fundo, Beato Tito não fez nada além de colocar em prática, nos momentos mais dramáticos e difíceis de sua vida, o que havia pregado e proclamado em diversas ocasiões ao longo de seu trabalho docente e de seu apostolado. Por exemplo, em uma célebre conferência sobre a paz, que aconteceu em 11 de novembro de 1931 em Bergkerk, diante de diversas autoridades civis da cidade e um público variado (em que se misturavam católicos e protestantes), o Beato Tito afirmou:

Nem tudo se pode suportar, certamente, entretanto isso significa que devemos voltar à velha ideia pagã de que todos os insultos devem ser pagos com sangue e que o perdão é um sinal de fraqueza? É triste contemplar que nas relações políticas internacionais as ofensas nunca são esquecidas, que se cultivam entre países e povos antipatias e até ódio, que uma boa palavra para um velho inimigo e encontrar algo positivo nele equivale, na prática, a um dano de lesa majestade (…). Sei que para muitos, na sociedade atual, a palavra perdão é uma voz no deserto, más para vós que amais a paz, que compreendeis, como eu, que a paz no final poderá brotar das convicções daqueles que formam a comunidade mundial, a vós dirijo a palavra de Cristo, certamente radical, igualmente difícil de colocar em prática, mas que é a indicação mais singular da direção pelo qual orientar nossa ação de paz…

Para aprofundar…

Ainda resta muito para conhecer e divulgar a figura do Beato Tito: sua vida, sua espiritualidade, seu pensamento, etc. Pelo que conhecemos sua figura parece atraente e cheia de sugestões para a nossa vida. Uma boa proposta para o Capítulo Geral seria que alguém (Institutum Carmelitanum, uma comissão, o delegado de cultura) fique a cargo de uma edição das obras completas. Entretanto, damos graças a Deus por ter suscitado este testemunho tão belo no Carmelo e abramos nossos corações ao que seu itinerário espiritual nos ensina.

Ofereço, para terminar esta pequena pista bibliográfica para aqueles que querem aprofundar ainda mais este tema.

► Para a vida do Beato Tito em espanhol podem utilizar a biografia de M. ARRIBAS, Un periodista mártir (Madrid 1984), ampliada em uma segunda edição da Postulação Geral: El precio de la verdad (Roma 1998). Em outras línguas destacam-se as bibliografias de: J. ALZIN, Ce petit moine dangereux (Paris 1954) da qual contamos com a tradução: J. ALZIN, Ese frailecito peligroso (Madrid 1956). Pode usar também um folhetim que o P. Ismael Martínez publicou em Vida Nueva: Y tras la noche, la libertad (Madrid 1993).

► De suas obras contamos somente com as antologias que foram publicadas por P. Rafael Mª López-Melús: Ejercicios bíblicos con María para llegar a Jesús (Caudete 1978), publicado posteriormente como: Vivir con María y como María (Onda 1985); El Carmelo, escuela de santidad (Onda 1985) [tradução da voz «Carmes»: Dictionnaire de Spiritualité (Paris 1953)]; Camino del cielo (Onda 1985).

► Em inglês e italiano existem estudos da sua vida e sua obra. Eu destacaria dois: a coleção de ensaios e antologia de textos publicados (em inglês) pelo Institutum Carmelitanum com motivo da beatificação: AA.VV., Essays on Titus Brandsma (Roma 1985). E um interessante artigo (em italiano) publicado em Carmelus que es o resumo de una tese sobre o Beato Tito como jornalista: C. BONETTO, Il giornalismo cattolico secondo Titus Brandsma: Carmelus 41 (1964) 126-164.

► Um estudo mais detalhado destes traços que temos indicado e de outros pode se ver no último número da nossa revista Fonte: F. MILLÁN ROMERAL, La santidad de la humanidad: Fonte 3 (2006) 77-100.

► Por último, uma bibliografia bastante completa até o ano de 1984 foi preparada pelo P. Adriano Staring, Vice-postulador da causa: Bibliografia di Tito Brandsma: Carmelus 31 (1984) 209-230.

Para o diálogo:

1 . Ler individualmente o artigo anteriormente citado, MILLÁN ROMERAL, F., La santidad de la humanidad, en Fonte 3 (2006) 77-100. 

2. Entre os traços da fisionomia espiritual do Beato Tito Brandsma descritos no artigo, quais considera que podem servir-nos para nosso próprio caminhar, como carmelitas do século XXI.

3. Leia e comente em comunidade aqueles aspectos que mais chamam a atenção na reflexão do Beato Tito “Sobre la paz”.

Sobre a paz do Beato Tito Brandsma (Deventer 1931) 

O amor pela paz

É curioso como no transcurso dos séculos tem se levantado repetidamente arautos da paz, pregadores da mensagem da paz. Entretanto nenhuma mensagem de paz tem ecoado mais vastamente de quem nós os católicos chamamos de “Rei da Paz”. Deixe-me evocar aqui aquela mensagem. Quando no dia da Páscoa parecia que para os apóstolos não iria haver esperança depois da morte de Cristo na cruz, quando aos olhos do mundo a missão de Cristo havia acabado, falhado e era incompreendida, Ele apareceu no meio dos apóstolos reunidos em um cenáculo por medo dos inimigos, e ante rumores de guerra pelo ataque dos adversários, ouviram dizer: A paz vos deixo, minha paz vos dou. A paz que eu voz dou não é como a paz do mundo (Jo 14, 27). Sim naquele momento de tristeza e desespero a primeira palavra que, apesar de tudo, pronunciou Cristo depois de sua ressurreição foi a que cantaram os anjos na manjedoura de Belém, também agora… devemos desejar a paz e leva-la a humanidade, como eles fizeram naquela ocasião. São muitas as coisas que nos podem dividir, mas… estaremos certamente de acordo nisto: que o anuncio da paz de Cristo tem para o mundo, um significado profundo e ainda o tem.

A mensagem da paz de Cristo é: Amai a vosso inimigos e rogai por aqueles que vos perseguem… Porque se amais aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Não fazer o mesmo também os pagãos? Entretanto eu vos digo: Fazei o bem também àqueles que voz fazem mal (Mt 5, 44ss). Junto a falta de amor encontramos a falta de perdão. É certo que nem tudo se pode suportar, mas significa isto que devemos voltar a antiga ideia pagã de que cada insulto deve ser pago com sangue, e que o perdão é digno de fraqueza? É triste que nas relações políticas internacionais as ofensas nunca faltem, que entre países e entre povos se alimentem artificialmente antipatias e até ódios, que uma palavra boa a um velho inimigo (e encontrar nele algo positivo) equivalha praticamente a um crime de lesa majestade! Sei que para muitos, em nossa sociedade atual, esta palavra é uma voz no deserto. A vós lhes dirijo esta palavra radical de Cristo tão difícil de pôr em prática, mas que é a nota essencial para entender a direção em que devemos dirigir nossas ações para a paz. Nossa atuação em favor da paz deve basear-se na reforma da sociedade. E, na sociedade, devem florescer, novamente, princípios profundos de amor e de perdão nos quais se convertam em uma pratica habitual. Soa difícil, e pode parecer-nos que nos exige algo que parece impossível: Dar a outra face para receber a segunda bofetada depois de haver sido golpeado. Muito consideram uma loucura… mas temos que colocar em nossas cabeças que não há progresso aceitando mais as ideias que a sociedade nos impõe. Somente quando nos convencermos disto poderemos chegar a uma reforma da tal sociedade, tão radical, que será capaz de acabar com a guerra do mundo. Se a filosofia de Nietzsche nos conduz a guerra, deixemos que outra filosofia inspirada em uma mensagem particular de amor e perdão nos leve outra vez a paz. Não há outro caminho. Se queremos erradicar do nosso mundo a peste da guerra, devemos novamente introduzir estas duas ideias: amor e perdão. A paz é possível.

ANTE JESÚS

Cuando te miro, buen Jesús, advierto

en ti el amor del más querido amigo,

y siento que, al amarte yo,

consigo el mayor galardón, el bien más cierto.

Este amor tuyo –bien lo sé- produce

sufrimiento y exige gran coraje;

mas a tu gloria, en este duro viaje,

sólo el camino del dolor conduce.

Feliz en el dolor mi alma se siente:

la Cruz es mi alegría, no mi pena;

es gracia tuya que mi vida llena

y me une a ti, Señor, estrechamente.

Si quieres añadir nuevos dolores

a este viejo dolor que me tortura,

fina muestra serán de tu ternura,

porque a ti me asemejan redentores.

Déjame, mi Señor, en este frío

y en esta soledad, que no me aterra:

a nadie necesito ya en la tierra

en tanto que Tú estés al lado mío.

¡Quédate, mi Jesús! Que, en mi desgracia,

jamás el corazón llore tu ausencia:

¡que todo lo hace fácil tu presencia

y todo lo embelleces con tu gracia!

A fé do Beato Tito Brandsma, durante o cárcere em Scheveningen, rompe em um precioso poema, que logo se tornará célebre, intitulado Ante Jesús.

Retrato do Beato Tito, realizado por John Dons, enquanto esteve prisioneiro no campo de concentração de Amersfoort (Holanda) desde 12 de março até 28 de abril de 1942.

Fonte: Centro de Espiritualidad Carmelita “San Juan de la Cruz”

Documento traduzido do original espanhol por Irmão Davi Rufino OTCarmo.


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