Roma, 11 de julho de 2021

Os nossos pés se detêm às tuas portas, ó Jerusalém! (Sl 122,2)

Queridos irmãos e irmãs da Família Carmelitana,

Este ano tenho um especial desejo de dirigir vossa atenção à ligação que têm os Carmelitas com a terra onde Jesus nasceu e viveu e onde foi fundada a Ordem Carmelita e sua Tradição. É a terra que continuamos honrando em nossa devoção a Maria, a qual veneramos como Nossa Senhora do Monte Carmelo, a Senhora do Lugar. É a terra que peregrinos e cruzados ansiaram por visitar e proteger. É a terra que hoje grita para que cessem as hostilidades e se cumpra um sonho de paz para as muitas nações e gentes que estão representadas em suas populações.

O lugar onde fomos fundados

Nossa tradição mariana deita suas raízes na dedicação a Maria do primeiro oratório construído pelos eremitas no meio das celas, perto da fonte de Elias, em um dos tranquilos vales do Monte Carmelo. Isto significava que eles a reconheciam como Mãe do seu Senhor, como a Senhora do Lugar. Tanto o oratório como a fonte, naquele monte, continuam recordando-nos que nossos antepassados escolheram viver em obséquio de Jesus Cristo, sob o olhar de Maria e na imitação dela e do profeta Elias, cuja solenidade também celebramos em julho.

Nossos antepassados eram contados entre os muitos peregrinos medievais que iam à Terra Santa. Como outros peregrinos, optaram por ficar ali e procuraram formar uma comunidade eremítica nas encostas do Monte Carmelo. Levavam juntos uma vida de penitência, ou seja, de conversão contínua, para poder viver em “obséquio de Jesus Cristo e servi-lo com coração puro e reta consciência” (Regra, 2). A ideia de obséquio, tal como se concebia e se vivia na Idade Média, significava que estes eremitas-irmãos do Carmelo estabeleceriam um vínculo vivo com a Terra Santa, que então era considerada o autêntico patrimônio e reino de seu Senhor. Eles se comprometiam a permanecer nesta terra, em seu eremitério, ocupados numa batalha espiritual (Regra 18-19) ao serviço de seu Senhor.

Do Monte Carmelo ao resto do mundo

Este compromisso foi posto em dúvida quando, por volta de 1230, a situação política da Terra Santa se tornou mais difícil e alguns eremitas do Carmelo, temendo a perseguição, desejaram abandonar o lugar onde estavam, voltar aos seus países europeus de origem e fazer novas fundações neles. Não era uma questão trivial. Felipe Ribot, em sua obra Dez livros sobre o modo de vida e as gestas dos carmelitas, comumente conhecida como Instituição dos primeiros monges, nos desenha, a partir do título dos sete primeiros livros, um quadro vivo do capítulo comunitário no Monte Carmelo, no qual os irmãos dialogaram sobre se podiam “deixar a Terra Santa ou construir casas da Ordem fora dela”. Era um tema tão importante, que se reuniram para discernir em oração a vontade de Deus para eles, buscando luz na Sagrada Escritura. Como se isto não fosse suficiente, a história narra que só depois de serem “advertidos por Cristo e pela Bem-aventurada Virgem Maria, sua mãe, em sonhos”, o prior deu permissão a alguns irmãos para deixar a Terra Santa e voltar a seus países e construir mosteiros da Ordem neles” (Livro 9, capítulo 3).

Seja histórico ou não, este relato mostra como os carmelitas medievais concebiam sua relação com a Terra Santa, que não era simplesmente o seu berço, que podiam abandonar quando crescessem, mas que, mediante um voto, se obrigavam a permanecer ali. Foi assim como os irmãos começaram a sair da Terra Santa e estabeleceram-se primeiramente em Chipre e depois em várias partes da Europa. Por último, em 1291, toda a Terra Santa caiu em mãos dos mulçumanos, e o primeiro mosteiro do Monte Carmelo, com duas outras fundações na Terra Santa, em Acre e Tiro, foi destruído.

Assim, pois, os carmelitas foram arrancados do Monte Carmelo e da Terra Santa. Porém, aonde quer que fossem, levavam consigo a memoria do Monte Carmelo e da Terra Santa e guardavam a esperança de voltar algum dia. O Monte Carmelo lhes deu o seu nome e foi o principal símbolo espiritual deles. A peregrinação à Terra Santa empreendida pelos seus antepassados tornou-se então uma parábola de sua viagem espiritual. Levando consigo o Rito do Santo Sepulcro, conservaram a saudade da Terra Santa. Durante muitos séculos, e até à reforma litúrgica empreendida pelo Vaticano II, o Rito Jerosolimitano era o vínculo vivo da Ordem com a Terra Santa. Outra forma de manter viva sua relação com a terra do Senhor foi a conservação de uma Província da Terra Santa em Chipre, e inclusive quando se perderam as fundações desta ilha, o título de Provincial da Terra Santa, mesmo que só nominal, continuou sendo outorgado durante vários séculos a um frade, ao qual lhe dava direito de tomar parte no Capítulo Geral. Algumas das primeiras fundações da Ordem, inclusive hoje, incluem a cruz latina de Jerusalém no escudo carmelita.

Manter vivo o espírito primigênio

O que representa a Terra Santa para a Ordem hoje? Certamente, nos recorda nossas origens. Porém isto deveria ser mais que um mero vínculo sentimental com o passado. Recordando-nos este lugar, somos convidados a manter vivo o espírito que animou aqueles homens que deixaram seus países para peregrinar à Terra Santa e fizeram voto de estabelecer-se nela, vivendo em obséquio de Jesus Cristo. Estes três aspectos: ser peregrinos, permanecer e viver em obséquio de Jesus Cristo constituem o centro de nossa vocação. Já não têm o significado concreto local que tiveram para os primeiros carmelitas, porém nós nos consideramos um povo a caminho, que necessita de uma morada estável e que está dedicado completamente a Cristo e ao seu serviço.

Uma viagem de transformação em comunidade

Nossa viagem é sobretudo interior: “uma viagem de transformação”. Esta é a essência de nossa vocação e missão. Porém há um outro aspecto. Como a peregrinação de nossos pais eremitas à Terra Santa transformou-se numa itinerância de frades mendicantes, assim também para nós, hoje, viajar implica caminhar ao lado dos homens e mulheres de nosso tempo, compartilhando suas alegrias e dificuldades, compartilhando Cristo com eles e a riqueza de nossa espiritualidade.

Com a transformação da Ordem de frades eremitas em mendicantes, estabelecer-se em um lugar, e mais ainda estabelecer-se na Terra Santa já não era o caso. Todavia, a ideia de permanecer ou de ter uma morada estável, persistiu e ainda faz parte de nossa vocação. A Regra nos chama a permanecer em nossas celas, “meditando dia e noite na lei do Senhor e velando em oração” (Regra, 10). O chamado a permanecer em nossas celas, foi sempre um aspecto importante de nossa Espiritualidade e há de ser fomentado. Permanecer em nossa cela nos recorda o convite de Jesus a permanecer nele (Jo 15,4-10). Deus é nossa verdadeira morada, quer estejamos na solidão de nossa cela, em comunidade ou servindo ao povo. A ideia de estabelecer-nos, de “permanecer”, de ter uma morada estável, também nos recorda nosso chamado à comunidade. A primeira comunidade do Monte Carmelo conservou a imagem da primitiva comunidade de Jerusalém, que para eles era uma representação da Nova Jerusalém.

Estes aspectos constituem o modo concreto no qual nós, como carmelitas, somos chamados a viver no obséquio de Jesus Cristo. Ele é e permanece a pedra angular do Carmelo, que não pode ser substituída. Celebrando a solenidade de Nossa Senhora do Monte Carmelo da Terra Santa, somos convidados a nos comprometer a viver de modo renovado o propositum de nossa comunidade fundacional.

Uma questão de identidade

A memória viva do Monte Carmelo, situado na Terra Santa, se manifesta no uso contínuo que fazemos desse nome quando expressamos quem somos. Continuamos a levar esse monte em nossos corações e mentes. Esta memória viva nos recorda que ainda somos um povo dessa montanha, ainda que estejamos presos às ocupações da cidade. Esta tensão dá vida e nos remete, uma e outra vez, a nossa identidade como contemplativos. Por essa razão, vemos em nosso beato Ângelo Paoli o pai dos pobres, em Teresa de Jesus a fundadora inquieta, em João da Cruz o poeta e o companheiro espiritual, em Edith Stein a professora e a mártir, em Tito Brandsma um homem para todas as épocas; são todos carmelitas que viveram com esta tensão, amantes todos do nome “Monte Carmelo”.

Nossas celebrações de julho nos levam ao passado, como numa peregrinação espiritual, ao Monte Carmelo e à Terra Santa. Neste ano, no qual temos presenciado novamente inquietação política e guerra na Terra Santa, recordando nossa ligação especial a essa terra, nosso coração se dirige a todas as pessoas afetadas por essa difícil situação. Oramos fervorosamente para que se encontre uma solução justa, de modo que todos possam gozar de estabilidade e segurança e vivam em paz. Também nos entristece o êxodo contínuo de cristãos da Terra Santa e de todo o Oriente Médio por causa das grandes dificuldades nas quais vivem. Queremos apoiá-los com a oração e com o que que mais for possível.

Uma oração pela paz

Ao mesmo tempo em que compartilhamos a alegria de nossos pais peregrinos e dos peregrinos de toda época, sejam judeus, cristãos ou mulçumanos, ao chegarem à Terra Santa, cantamos com eles: “Os nossos pés se detêm às tuas portas, ó Jerusalém!” (Sl 122,2) e escutamos atentamente o salmista, que nos exorta: “Desejai a paz a Jerusalém” (Sl 122,3). Que este seja nosso pedido especial neste ano ao celebrarmos Nossa Senhora e Santo Elias. Enquanto, por uma parte, pensamos muitas vezes que seria estupendo que a Família Carmelita, e especialmente os frades, tivéssemos uma maior presença na Terra Santa, recordemos que estamos ali graças à presença de duas comunidades do Instituto de Nossa Senhora do Carmo, a congregação italiana carmelita fundada pela beata Teresa Scrili e pelas mulheres e homens da Tradição Descalça. Sua segurança e êxito em seu trabalho são para nós motivo de oração.

Na ocasião em que renovamos nossa devoção a Maria, a honramos novamente como Senhora do Lugar e colocamos o povo da Terra Santa sob sua proteção maternal, confiando que quanto mais ferventemente mostrarmos nosso desejo de paz, dessa paz que só Deus pode dar, mais seguros estamos de que nossa oração será escutada e haverá paz.

Abençoada e gozosa Solenidade de Nossa Senhora do Monte Carmelo para todos!

P. Míceál O’Neill, O. Carm.
Prior Geral


1 COMENTÁRIO

  1. Que carta mais linda. Tantas revelações desconhecidas.
    Sou encantada com a ordem carmelita. Dando os meus primeiros passos rumo a ser uma camelitana da 3° ordem . Se Deus quiser.

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