Se excluirmos as décadas dos reinados de Davi e de Salomão, Israel nunca desempenhou um papel importante na cena política internacional da antiguidade. Sempre foi dominado e oprimido pelas grandes nações vizinhas. Nesta condição de permanente dominação deve ser enquadrada a promessa dos profetas de um messias libertador, nascido da estirpe de Davi.


No tempo de Jesus a expectativa desta salvador é aguda, impaciente, febril. Os rabinos ensinam a rezar assim: “Senhor, faze surgir o filho de Davi para que reine sobre Israel. Dá-lhe força para que destrua os poderosos injustos e liberte Jerusalém dos pagãos. Prouvera, possa ele aniquilar os pagãos ímpios com uma única palavra da sua boca: fujam os pagãos diante dele!”


Para entender o Evangelho de hoje é preciso lembrar estas expectativas do povo. O Messias deverá ser – todos pensam assim – um herói, um guerreiro forte como Sansão, um rei vitorioso como Davi, um político inteligente e hábil como Salomão, um chefe protegido milagrosamente como Ezequias.

  • A primeira parte do texto (vv. 18-19) começa apresentando Jesus em oração. Com frequência Lucas observa que Jesus, antes de cumprir algum gesto importante ou antes de transmitir um ensinamento com um significado extraordinário, se recolhe em oração. O acontecimento que vem a seguir deve, portanto, ser considerado relevante.
    Jesus começa perguntando: “Quem dizem que eu sou?” Os discípulos ficam um tanto surpresos diante de tal pergunta, pois ele nunca deu a impressão de ligar para as opiniões que circulavam a respeito dele. Mas, enfim, respondem: “Uns dizem que és João Batista, outros, Elias, outros pensam que ressuscitou algum dos antigos profetas”.
    O povo aproxima Jesus destes grandes personagens que – confirme ensinavam os rabinos – deviam preceder a vinda do Messias. Eis o que Jesus é para o povo: um precursor.
    Por que não o reconhecem como Messias? Porque ele não corresponde às expectativas. Não tem nada do grande rei vencedor e glorioso que estão esperando. Portanto, é um precursor, nada mais.
    Muitos homens do nosso tempo, em relação a Jesus, estão estagnados neste primeiro estágio: reconhecem-no como um grande mestre que pregou o amor, a fraternidade, a paz, a justiça; admiram-no pela sua opção em favor dos pobres, dos excluídos, dos marginalizados; apreciam-no pela sua coragem, pela sua coerência, pela sua nobreza de espírito, pela sua fortaleza diante da morte. Entretanto continuam acreditando que os verdadeiros messias são os outros: os políticos, que representam as nações grandes e ricas, os generais que comandam exércitos poderosos, os donos de multinacionais que administram capitais imensos e que exercem influência no mundo inteiro.
    No fundo, também os cristãos que consideram Jesus como um operador de milagres, alguém ao qual se possa recorrer para obter graças e favores, talvez não tenham consciência disso, mas consideram Jesus só como um precursor. Um dia aparecerão cientistas e descobrirão remédios para curar todas as doenças, que saberão controlar a chuva, que centuplicarão os produtos agrícolas e talvez, quem sabe? Descobrirão até o remédio contra a morte. Haverá então, ainda necessidade de Jesus?

  • A segunda parte (vv. 20-21) contém a segunda pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro, em nome de todos responde: “Tú és o Messias de Deus!” Jesus não o desmente, mas ordena energicamente a todos que não o digam a ninguém. Por quê? O motivo é simples: as palavras de Pedro são exatas, mas o conteúdo está errado. Jesus sabe que tipo de Messias Pedro tem na sua mente. Sabe que os seus discípulos estão convencidos de que é só uma questão de paciência: um dia (certamente não muito distante) o Mestre tomará a decisão de agir com seriedade e, se necessário, recorrerá até às armas. Será um vencedor” Este messias é exatamente o oposto do verdadeiro Messias.
    Quantos cristãos dos nossos dias se assemelham aos doze apóstolos: repetem com exatidão o “Creio”, mas tem na cabeça idéias completamente diferentes das idéias evangélicas!
    Quanto não há, ainda hoje, que estão convencidos de que um dia Jesus exterminará os malvados, que cobrará deles tudo o que fizeram de errado e que mostrará a todos, ainda neste mundo, quem está certo e quem está errado” Quantos não há que ainda pensam que , por serem discípulos, mais cedo ou mais tarde terão mais sucesso nesta vida do que os outros”
    Quem pensa assim considere como dirigida a ele esta ordem do Mestre: “Não digais nada a ninguém”, pois vós ainda estais pensando “como os homens, não como Deus” (Mc 8,23).

  • Jesus percebeu claramente que na mente dos discípulos há um grande equívoco sobre a sua pessoa: eles alimentam falsas esperanças, cultivam recônditos sonhos de glória que nunca se concretizarão. Ele não é o messias que todos estão esperando. Chegou a hora na qual ele deve mostrar a sua carteira de identidade.
    Na terceira parte (vv. 21-22) do Evangelho ele esclarece: “É necessário que o Filho do Homem padeça muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas. É necessário que ele seja levado à morte e que ressuscite ao terceiro dia”.
    São palavras perturbadoras: não o espera o triunfo, mas a humilhação; não a vitória mas a derrota. Por que Deus escolheu este caminho absurdo? Não porque lhe agradem o sofrimento e a morte. Ele é o Deus da vida; são os homens os agentes da morte.
    Espero que não haja mais ninguém que considere doença e as desgraças como bênçãos de Deus, reservadas aos amigos mais íntimos! Deus não quer de forma alguma que o homem sofra. Mas por que, então, não permitiu que seu Filho triunfasse? Por que não fez com que descesse milagrosamente da cruz?
    Deus não impede a maldade dos homens, respeita sua liberdade, mas revela todo o seu amor e toda a sua grandeza quando, servindo-se do mesmo pecado deles, sabe construir a sua história de salvação. Em Jesus de Nazaré Deus mostrou como ele pode transformar o maior crime cometido pelos homens numa obra-prima de amor.

  • A última parte (vv 23-24) deste trecho contém uma exortação destinada aos discípulos de todos os tempos. Acreditar em Jesus não significa professar a própria fé num pacote de verdade aprendidas na catequese, mas segui-lo participando do seu destino. “Se alguém quiser vir após mim, renegue a si mesmo, tome a sua ruz e me siga”.
    O Mestre nos coloca diante de uma escolha. Não pede que façamos algum sacrifício mais do que os outros ou procuremos sofrimentos, mas exige que não nos deixemos mais guiar pela busca do nosso próprio conforto, pede que não coloquemos a nós mesmos no centro das nossas preocupações. É isto o que significa perder a própria vida.
    Lucas é o único entre os evangelistas que insere nas palavras de Jesus o inciso “cada dia”. O dom total de si envolve o discípulo “cada dia”. Todos conseguem cumprir um gesto isolado de generosidade, todos conseguem esquecer a si mesmo por uma hora. Difícil é manter esta disposição “cada dia”.
    Provavelmente Luas quer alertar os cristãos das suas comunidades para a perseverança, para a constância diante das dificuldades, das provas, da seduções do mundo que os circunda.
    Como podemos nós hoje “perder a nossa vida” por amor? Com certeza transformar a própria vida em um dom: o estudante que renuncia a uma festa para ajudar um colega que está em dificuldades; o marido que não fica sentado assistindo a uma telenovela, enquanto a sua mulher faz todos os serviços da casa e cuida dos filhos; quem, em sua vez de gastar em coisas supérfluas, em lazer, em viagens de prazer, ajuda quem está em dificuldades; o voluntário que dedica o seu tempo para assistir gratuitamente os doentes. Tentemos lembrar outas situações nas quais alguém é convocado para “perder a própria vida”.

Fonte: Armellini, Fernando – Celebrando a Palavra – “Ano C”


DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui