— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

1 Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos”.

2 Jesus respondeu: “Quando rezardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. 3 Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, 4 e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação’”.

5 E Jesus acrescentou: “Se um de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite e lhe disser: ‘Amigo, empresta-me três pães, 6 porque um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe oferecer’, 7 e se o outro responder lá de dentro: ‘Não me incomodes! Já tranquei a porta, e meus filhos e eu já estamos deitados; não me posso levantar para te dar os pães’; 8 eu vos declaro: mesmo que o outro não se levante para dá-los porque é seu amigo, vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário.

9 Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. 10 Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá.

11 Será que algum de vós, que é pai, se o filho lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? 12 Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião?

13 Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!”

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

Comentário

Todos os que acreditam em Deus rezam, pertençam eles a que religião for. Rezam por quem está doente, por quem está desempregado, pelo filho que se deixou levar por más companhias, pelas famílias onde há discórdias. Pedem que Deus mande chuva, que abençoe as colheitas, que afaste as infelicidades.
Atualmente, este tipo de oração desperta muitas objeções. Muitos se questionam: Por que Deus quer que rezemos? Por acaso, para dar aos filhos coisas gostosas, a mãe espera que lhe implorem? É ponto de honra para o homem ser auto-suficiente, por ver a si mesmo, resolver os problemas com suas próprias forças, com sua própria capacidade. Não é humilhante ser obrigado a recorrer a Deus, importunando-o quando nos encontramos em encrencas? Por que ele deveria intervir de vez em quando, para resolver, com algum milagre, as situações complicadas? Se o mundo que ele criou precisa ser consertado com permanentes intervenções, é sinal de que não foi bem feito! Não é ridícula a oração do estudante que se lembra de frequentar a igreja só quando tem algum exame a prestar? E o que pensar da oração que procura convencer Deus a mudar os seus planos a nosso respeito? Um pedido nesse sentido deveria ser punido, não atendido! E por fim, por que Jesus reza, se tinha poderes para fazer todos os milagres que quisesse?
Estes problemas são sérios e o Evangelho de hoje quer esclarecê-los. Antes de tudo há um versículo de introdução que apresenta a situação em cujo contexto Jesus ensiou o Pai-nosso (v.1); a seguir encontramos a oração do Senhor (vv. 2-4), acompanhada de uma parábola (vv. 5-8) e por fim fala-se da eficácia da oração (vv. 9-13). Analisemos cada uma dessas partes:

v.1: Introdução
Antigamente os grupos religiosos se caracterizavam não só pelas verdades nas quais acreditavam e pelos mandamentos que observavam, mas também por uma oração que recitavam. Também o Batista tinha ensinado uma aos seus discípulos. Um dia os apóstodos se aproximam de Jesus e lhe pedem para ensinar também para eles uma oração.
Lucas observa que este pedido é formulado logo depois que Jesus terminou de rezar. Se a oração fosse somente uma solicitação de favores, Jesus não teria tido necessidade de fazê-la. A oração não é uma forma de mendicância. Mesmo quando nos dirigimos a Deus para pedir-lhe alguma coisa, não é para obter privilégios, para ter alguma vantagem nas dificuldades da vida. Não se pede a Deus que mude a sua vontade, mas que nos conceda conhecê-la, que nos ajude a identificar-nos com ela, que nos dê a força e a coragem de segui-la. Também Jesus precisava desta oração.

vv. 2-4: A oração do Senhor
Eis aí – dizem muitos cristãos – a mais bela de todas as nossas orações! Melhor que a Ave-Maria, que a Salve Rainha pois foi ensinada pelo próprio Jesus.
Mas não é assim! O Pai-Nosso não é uma fórmula de oração, superior às outras, é uma síntese de toda a mensagem cristã. Na Igreja primitiva os catecúmenos a aprendiam diretamente do bispo. Era como o compêndio de todo o conhecimento sobre Deus e sobre a vida cristã, instrução que lhes tinha sido transmitida durante o longo período de preparação para o Batismo.
Nas orações reflete-se o conteúdo da própria fé e a imagem do Deus no qual se acredita. Com efeito, não é suficiente rezar, é preciso também saber como rezar. Por isso Jesus ensinou aos seus discípulos uma oração, que deve servir como modelo. Disse-lhes ele, então:

  • Quando orardes, dizei: Pai
    O cristão sabe que seu Deus não é um patrão exigente, um juiz severo do qual se deve ter medo. Não é um rei que vivi em um palácio distante do qual só se pode aproximar quem dispõe do apoio de algum santo, que serve de mediador.
    O cristão não precisa de proteções ou de recomendações, vai diretamente a seu Deus, porque sabe que ele é Pai. Qualquer outra espécie de oração significa que temos em mente uma imagem de Deus ainda pagã ou herética.
  • Santificado seja o vosso nome
    O nome de Deus não é santificado ou glorificado quando são muitos os que o ovacionam com salvas de palmas (ele não precisa disso). Os nossos hinos, as nossas incensações, as nossas cerimônias solenes nada dão a Deus. O seu nome é glorificado quando a salvação alcança o homem.
    Um aleijado restabelecido, um coração libertado do ódio, um pecador que reconquista a felicidade, uma família que reconstrói a harmonia doméstica santificam o nome de Deus, porque fazem a pessoa exultar num grito de alegria e gratidão.
    No Pai-Nosso nós manifestamos o nosso anseio de contemplar o mais cedo possível esta sua presença salvadora em nós e no mundo. Nós sabemos que já fomos atendidos, embora não saibamos “nem o dia nem a hora” (Mc 13,32) nos quais esta salvação será realizada na sua plenitude e perfeição.
  • Venha o vosso Reino
    Todas as orações do cristão devem manifestar o desejo de ver realizado o projeto de Deus. Ao pedirmos que ele destrua o reino do mal, do ódio, das injustiças, das vinganças, das traições, nós reassumimos para nós mesmos o compromisso firmado no Batismo de colocar todas as nossas energias a serviço de Deus para que logo possa manifestar-se o seu reino de justiça, de amor e de paz.
    Mas, se é o próprio Deus que deve santificar o seu nome e fazer chegar o seu reino, para que serve a nossa oração?
    Quando nós elevamos a Deus o nosso brado de esperança, não pretendemos, com certeza, exercer a nossa influência sobre a sua vontade, que já é perfeita. As nossas súplicas não modificam Deus, mas modificam o nosso coração e o tornam disponível para dar acolhida à sua salvação. A oração acelera de fato a santificação do nome de Deus e a vinda do seu Reino, porque transforma o coração do homem.
  • Dai-nos hoje o pão necessário ao nosso sustento
    O cristão precisa do pão, isto é, de todas as coisas necessárias para a vida: o alimento, a roupa, a casa, a saúde… Nós, porém sabemos que todos estes bens só podem ser obtidos mediante o nosso esforço e o nosso trabalho. Para que rezar então?
    A oração não é uma fórmula mágica, que nos consegue gratuitamente, sem esforço e de forma milagrosa, tudo aquilo que desejamos. Deus não favorece a preguiça do homem. As dificuldades, os problemas, as necessidades que tínhamos antes de rezar, continuarão as mesmas também depois. O milagre da oração é outro: lembra-nos que devemos procurar o pão não só para nós mesmos, mas para todos, e nos comunica uma disposição e uma vontade renovadas para consegui-lo.
    Quem reza o Pai-Nosso se coloca num permanente estado de exame de si mesmo. Não tem condições de rezar com sinceridade e autenticidade quem pensa somente no próprio pão, quem acumula bens só para si mesmo e para satisfazer seus próprios caprichos, quem se esquece do pobre. Não pode pedir a Deus o pão nosso quem não trabalha, quem vive às custas dos outros.
  • Perdoai-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos
    Consegue-se recitar qualquer oração tendo ódio no coração ou até mesmo uma arma nas mãos, mas não é possível rezar o Pai-Nosso. O cristão não pode esperar ser ouvido por Deus se não cultivar sentimentos de amor para com os irmãos. Não se trata só de esquecer o mal recebido: exige-se muito mais do cristão. Ele não pode fazer sua oração ao Pai se sabe que algum irmão tem alguma coisa contra ele e não fez tudo o que era possível para reconciliar-se.
  • E não nos deixeis cair em tentação
    A tentação da qual pedimos ser libertados não se refere às pequenas fraquezas, misérias, imperfeições de todos os dias, mas ao esquecimento e ao abandono da lógica do Evangelho para substituí-la pela lógica deste mundo. As aflições ou as perseguições podem nos fazer tropeçar ou entrar em crise; as preocupações da vida e a ilusão dos bens podem sufocar a semente da palavra de Deus. Nós não só pedimos para não ceder a estas tentações, mas nem mesmo o ser tentados a abandonar o Mestre. Pedimos para não sermos nem mesmo tocados pelas seduções deste mundo.

vv. 5-8: A parábola do amigo chato
Depois de ter apresentado o modelo da oração cristã, Jesus conta a parábola de um homem que, com muita insistência, vai pedir a um amigo que lhe empreste três pães.
Esta história quer ensinar-nos que a oração só consegue resultados se for perseverante. Por quê? Talvez porque Deus queira ser perturbado antes de conceder alguma coisa? Não, não é por causa disso.
No começo as nossas orações se assemelham, quase sempre a uma tentativa de convencer Deus a modificar o seu projeto. Gostaríamos que ele se adaptasse às nossas idéias, que corrigisse alguns “lapsos” que a sua providência cometeu. Mas, com o passar do tempo, falamos demoradamente com ele e acabamos por entender o seu amor e por aceitar os seus desígnios. A oração não modifica Deus, mas abre a nossa mente, muda o nosso coração. Ora, esta transformação interior não pode se realizar de um momento para outro. É difícil para nós renunciar ao nosso modo de interpretar os acontecimentos. É duro aceitar a luz de Deus, somos cegos. Não conseguimos enxergar, pois os caminhos de Deus nem sempre são fáceis ou agradáveis, exigem esforços, renúncias, sacrifícios. Para conquistarmos esta adesão interior à vontade de Deus, para conseguirmos uma visão do alto, com os seus olhos, dos acontecimentos da nossa vida, é preciso rezar… durante muito tempo.

vv. 9-13: A eficácia da oração
Chegamos à última parte do Evangelho de hoje. A oração cristã – nos ensina Jesus – sempre é atendida. Mas a nossa experiência cristã parece não confirmar essa afirmação.
O motivo pelo qual nem sempre somos atendidos é simples: nós não sabemos orar. Orar significa sair das trevas dos nossos pensamentos e das nossas paixões para imergir-nos em Deus. Só depois de termos dialogado com Ele é que nossos olhos se abrirão e poderão contemplar o mundo, os homens e os acontecimentos numa ótica diferente. Fora de nós tudo continua como antes, mas nós não somos os mesmos. Ao transformar a nossa mente e o nosso coração, a oração alcançou o seu resultado… e foi atendida.

Fonte: Armellini, Fernando – Celebrando a Palavra – “Ano C”


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