— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 38 Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. 39 Sua irmã, chamada Maria, sentou-se aos pés do Senhor, e escutava a sua palavra.

40 Marta, porém, estava ocupada com muitos afazeres. Ela aproximou-se e disse: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha, com todo o serviço? Manda que ela me venha ajudar!”

41 O Senhor, porém, lhe respondeu: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas. 42 Porém, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

Reflexão

Quando, durante a celebração da missa ou em algum encontro bíblico, leio o trecho do Evangelho de hoje, no fim fico observando com atenção os semblantes dos presentes, procurando descobrir suas impressões imediatas. Às vezes provoco suas reações com uma pergunta: “Vocês concordam com as palavras que Jesus dirigiu a Marta?” Em geral os protestos explodem, imediatos e vibrantes: como é possível censurar um a mulher que trabalhar e elogiar uma preguiçosa? Seria muito bonito se, num domingo de manhã, o marido, depois de ter tomado tranquilamente o seu café, fosse para a igreja rezar, sentado com todo o conforto e ali permanecesse até a hora do almoço, enquanto sua esposa se desdobra para cuidar dos filhos e deixar a casa em ordem?

Para complicar ainda mais o caso, entram em consideração as interpretações mistificadoras que foram dadas a este trecho. Muitos continuam citando-o para demonstrar a superioridade da vida contemplativa sobre a vida ativa. Propaga-se que as monjas e monges, recolhidos nos seus mosteiros para rezar, escolheram a parte melhor em comparação com os padres e leigos que se dedicaram à atividade pastoral da caridade, embora esta seja exercida em meio a grandes sacrifícios e renúncias difíceis.

Entendendo deste modo, o ensinamento do Evangelho de hoje se choca frontalmente com o do domingo passado. Jesus elogiava o samaritano que se tinha desdobrado com toda a dedicação, mas hoje parece propor-nos como modelo uma mulher que nada faz para ajudar sua irmã.

O uso deste texto para contrapor a vida contemplativa à vida ativa deriva, além do mais, de uma tradução errônea. No texto original não está escrito: “Maria escolheu a parte melhor”, mas simplesmente “escolheu a parte boa”, isto é, enquanto Marta se deixa envolver pela agitação, Maria faz a escolha certa, comporta-se como uma pessoa sábia. Tentemos entender por quê.

Uma noite em Betânia… (vv. 38-39)
Lucas gosta de apresentar Jesus sentado à mesa na casa de alguém. O Senhor aceitava os convites de todos: os dos “justos”, dos fariseus (Lc 7,36; 11,37; 14,1) e os dos publicanos e “pecadores” (Lc 5,30; 15,2; 19,6). Na passagem de hoje o encontramos na casa de duas irmãs.

Marta, a mais velha, se envolve imediatamente nas suas tarefas. A sua sensibilidade feminina lhe diz que um copo de vinho e um bom prato de carne saborosa, servidos com carinho, mostram mais do que qualquer conversa mole o afeto que se sente por uma pessoa. Maria, a mais nova, em vez de colaborar nas lides da cozinha, prefere ficar tranquilamente sentada, escutando as palavras de Jesus. É neste ponto que começa a discussão entre as duas irmãs que acaba envolvendo também o hóspede.

Antes de abordar o tema central, é preciso esclarecer o pormenor mais significativo da narrativa. “Maria, sentada aos pés de Jesus, escutava a sua palavra” (v.39). É sublinhada principalmente a posição tomada por Maria: sentada aos pés do Mestre. Esta não é uma informação corriqueira; trata-se de uma informação com um valor bem definido. No tempo de Jesus significava que uma pessoa tinha entrado a fazer parte do grupo dos discípulos de um rabino. significava que a mesma participava oficialmente das suas lições. Nos Atos dos Apóstolos, por exemplo, Paulo lembra com orgulho: “Eu estive sentado aos pés de Gamaliel” (At 22,3), isto é, fui discípulo mais famoso dos mestres do meu tempo.

Mas enfim, o que há de estranho n ofato de que Maria seja apresentada como “aluna” de Jesus? Para nós, nada. Mas aquele tempo nenhum mestre teria aceitado como discípulo uma mulher. Diziam os rabinos: “É melhor queimar a Bíblia do que colocá-la nas mãos de uma mulher”, ou então: “Não se atrevam as mulheres a pronunciar a benção antes das refeições”; ou: “Se uma mulher frequentar a sinagoga, permaneça escondida, não compareça em público”. Esta mentalidade estava tão difundida que se infiltrou também nas primeiras comunidades cristãs. Em Corinto, por exemplo, durante certo tempo, estava em vigor esta norma: “Como em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas assembleias. não lhes é permitido falar, mas devem estar submissas, como também ordena a lei. Se querem aprender alguma coisa, perguntem-na em casa aos seus maridos: por que é inconveniente para uma mulher falar na assembléia (1Cor 14, 34-35).

Sendo este o modo de pensar daquele tempo, é fácil compreender quanto foi revolucionária a escolha de Jesus de acolher entre os seus discípulos também as mulheres. E como estamos tratando deste assunto, lembro que também a frase que abre a narrativa contém a mesma provocação: “Uma mulher, chamada Marta, o recebeu em sua casa” (v.38). Naquele tempo era extremamente inconveniente para um homem aceitar a hospitalidade que lhe era oferecida por uma mulher.

Não terá nada para ensinar-nos este gesto corajoso do Mestre? Não terá chegado para a Igreja a hora de dar ao mundo sinais evidentes de que uma nova sociedade surgiu, uma sociedade na qual a mulher de fato recuperou toda a sua dignidade? Não terá chegado a hora de romper, decidida e claramente, com certas discriminações que não derivam do evangelho, mas das nossas culturas ainda tão impregnadas de heranças pagãs?

Outra observação importante sobre este versículo 39: não se afirma que Maria estava absorta em oração, que estava “contemplando” Jesus, mas “que escutava a sua palavra”. Não escutava as palavras, as bisbilhotices, mas a Palavra, o Evangelho. Os que hoje evocam o exemplo de Maria para justificar a excelência das suas longas e frequentes orações, talvez não tenham ainda entendido que aqui não são levadas em consideração as práticas de devoção, os sentimentalismos religiosos, mas a “escuta da Palavra”. Trata-se de coisas muito diferentes.

Uma resposta enigmática (vv. 40-41)
Vamos analisar agora o ponto mais difícil do Evangelho de hoje: a censura de Jesus a Marta e o elogio a Maria. Se a questão for colocada no sentido de “censura” para quem trabalha e de “elogio” para os folgados, é difícil concordar com Jesus. Mas, será isso que ele quer ensinar?

Deve-se observar, inicialmente, que Marta não é censurada porque trabalha, mas porque “fica agitada, ansiosa, preocupada, inquieta-se por tantas coisas” e, sobretudo, porque se envolve no trabalho, sem ter antes escutado a Palavra. Maria é elogiada, sim, mas não porque é uma preguiçosa, porque faz de conta que não se importa com o trabalho que deve ser feito na cozinha. Jesus não diz que Marta está errada quando chama Maria para cumprir seus deveres concretos. não sugere que banque a espertinha e deixe que sua irmã se vire. Só ensina que a coisa mais importante, que merece prioridade total, se quisermos que a nossa atividade não se reduza a uma “agitação”, é “a escuta da Palavra”.

Além do bate-boca, a mensagem (v.42)
Tratemos agora de colher os frutos de quanto dissemos. A nós não nos interessa que um dia houve um desentendimento de duas irmãs diante do Mestre. Acontecem tantos em nossas famílias. Lucas refere este incidente para dar uma lição de catequese às comunidades cristãs: “as do seu tempo e também às nossas. Sabe-se que nelas existem tantas pessoas de boa vontade, tantos discípulos que se entregam ao serviço de Cristo e dos irmãos, que não economizam tempo e energias.

E no entanto, também nesta intensa e generosa atividade subsiste um perigo: que um tamanho e febril trabalho aconteça sem a “escuta da Palavra”, que se torne canseira, angústia, confusão, neurastenia, exatamente como o de Marta. Até o trabalho apostólico, as escolhas comunitárias, os projetos pastorais, se não forem orientados pela Palavra, podem reduzir-se a barulho vão e ineficaz, a um descontrolado bater de panelas.

Maria escolheu a parte boa porque “escutou a Palavra”. Igualmente a outra Maria, a mão de Jesus, foi elogiada pelo mesmo motivo: porque estava atenta à Palavra (Lc 1,38.45; 2,19; 8,21).

Curiosamente, os modelos de escuta da Palavra, que nos são propostos nos Evangelhos, são todos representados por mulheres! Não seria porque elas são deveras mais sensíveis e estão sempre mais prontas do que os homens a ouvir o Mestre?

O silêncio de Maria
A narrativa termina com as palavras de Jesus para Marta (vv. 41-42), mas não parece encerrada. O diálogo entre os dois deve ter continuado, mas não consta no relato de Lucas. Ele parece querer chamar a atenção dos seus leitores para outro pormenor que poderia passar despercebido: o silêncio de Maria. Ao longo de todo o episódio, Maria não diz uma palavra sequer; nem para se defender, para esclarecer sua posição, para explicar a própria escolha. Permanece calada e tudo leva a crer que o seu silêncio – sinal de meditação e de interiorização da Palavra – se prolongou também depois.

É Marta que agora precisa “sentar-se aos pés do Mestre” para escutá-lo e assim recuperar a calma, a serenidade interior, a paz.

Enquanto Jesus e Marta continuam conversando, eu imagino que Maria, absorta nos seus pensamentos, tranquila e feliz, coloca o avental e toma na cozinha o lugar da irmã. Marta é generosa, disposta, dinâmica, mas cometeu uma falha: sobrecarregou-se de tarefas antes de alimentar-se com a Palavra.

Com certeza naquela noite Maria trabalhou muito, demonstrando assim que o tempo dedicado à escuta da Palavra de Deus não está perdido ou não é roubado do serviço aos irmãos. Quem escuta Cristo não esquece os compromissos com as pessoas: Aprende a desincumbir-se deles de uma maneira certa, e sem agitação.

Fonte: Armellini, Fernando – Celebrando a Palavra – “Ano C”


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