Esta oração de Santa Elisabete da Trindade, mais conhecida como “Elevação à Santíssima Trindade”, é uma obra da síntese teológica trinitária mais profunda que uma pessoa humana possa ter escrito. Não é um tratado, mas sim uma oração nascida da intensidade do amor, com uma lógica interna profunda. Ela nos toma pela mão e nos conduz nas profundidades do mistério do Deus único que transborda o seu amor no mistério dos “três”, onde tudo é harmonia, união.

Elisabete já está percebendo os passos violentos da doença no seu corpo, e no seu espírito experimenta a beleza da “solidão sonora, música silenciosa” na escuta-adoração do Deus vivo que nela habita. O silêncio desta monja mística não é fruto de falta de comunhão ou de intimismo, é colocar-se toda na escuta do Filho bem-amado que o Pai apresenta para que nós possamos escutar. É silêncio para ouvir o “balbuciar” do eterno em seu coração de mulher, mística. É apaixonada da adoração silenciosa, responde assim ao convite do Cristo: “o Pai procura adoradores em espírito e verdade”.

Elisabete provavelmente colocou no papel toda a efusão do seu espírito na noite do dia 21 de novembro de 1904, quando todo o Carmelo, depois da Oração da Noite, está no silêncio mais profundo. Ela, recolhida na sua cela onde “habita a Trindade”, num simples papel escreve o que mais percebeu durante o dia de adoração ao Santíssimo Sacramento.

Esta oração de adoração é um cântico de louvor, de ação de graças, mas principalmente é adoração silenciosa do mistério que invade, imerge e deixa a alma como que inebriada, embriagada de divino.

O pensamento amoroso de Elisabete se dirige ao Pai e pede que quer permanecer silenciosa, imóvel como se já estivesse na eternidade. Quer viver “aqui e agora” o paraíso, promessa de eternidade, mas que inicia no tempo.

Tomada pelo amor ao Cristo crucificado Elisabete pede que possa passar a vida toda na escuta do Verbo eterno. E que toda sua humanidade seja a grande hóstia, carne onde se realiza o que falta à paixão do Senhor.

No Espírito Santo ela deixa-se queimar de todos os defeitos para ser somente um hino de louvor, de glória. É nos “três” que ela se realiza.

A mesma Igreja no Catecismo toma as palavras experienciais de Elisabete para nos convidar a mergulhar-nos em Deus e a sentir em nós a presença viva dos Três. A meditação desta oração de Elisabete nos leva fora do tempo para que contemplemos o amor de Deus. Sem dúvida foi escrita num momento de Êxtase de amor.

Elisabete nos traça o caminho que devemos percorrer para ter deste já em nós o “paraíso” que é estar e permanecer em Deus-Trindade, acompanhemos o texto na íntegra:

Elevação à Santíssima Trindade

Ó meu Deus, Trindade que adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente de mim mesma para fixar-me em Vós, imóvel e pacífica, como se minha alma já estivesse na eternidade. Que nada possa perturbar-me a paz e nem me fazer sair de Vós, ó meu imutável, mas que em cada minuto eu me adentre mais na profundidade de Vosso Mistério. Pacificai minha alma, fazei dela o Vosso céu, Vossa morada preferida e o lugar de Vosso repouso. Que eu jamais Vos deixe só, mas aí esteja toda inteira, totalmente desperta em minha fé, toda em adoração, entregue inteiramente à Vossa Ação criadora.

Ó meu Cristo amado, crucificado por amor, quisera ser uma esposa para Vosso Coração, quisera cobrir-Vos de glória, amar-Vos… Até morrer de amor! Sinto, porém, minha impotência e peço-Vos revestir-me de Vós mesmo, identificar minha alma com todos os movimentos da Vossa, submergir-me, invadir-me, substituir-Vos a mim, para que minha vida seja uma verdadeira irradiação da Vossa. Vinde a mim como Adorador, como Reparador e como Salvador. Ó Verbo Eterno, Palavra de meu Deus, quero passar minha vida a escutar-Vos, quero ser de uma docilidade absoluta para tudo aprender de Vós. Depois, através de todas as noites, de todos vazios, de todas as impotências, quero ter sempre os olhos fixos em Vós e ficar sob Vossa grande luz; ó meu Astro amado, fascinai-me a fim de que não me seja mais possível sair de Vossa irradiação.

Ó Fogo devorador, Espírito de Amor, “vinde a mim” para que uma encarnação do Verbo; que eu seja para Ele uma humanidade de acréscimo na qual Ele renove todo o Seu Mistério. E Vós, ó Pai, inclinai-Vos sobre Vossa pobre e pequena criatura, cobri-a com Vossa sombra vendo só o Bem-Amado, no qual pusestes todas as Vossas complacências.

Ó meu Três, meu Tudo, minha Beatitude, Solidão infinita, Imensidade onde me perco, entrego-me a Vós qual uma presa. Sepultai-Vos em mim para que eu me sepulte em Vós, até que vá contemplar em Vossa luz o abismo de Vossas grandezas.

Fonte: Elisabete da Trindade – Obras Completas


DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui