1ª PARTE

O PONTO DE PARTIDA

1. A SITUAÇÃO GERAL DO POVO DE ONDE ELIAS DEVE PARTIR

O profeta Elias apareceu no tempo do rei Acab (874—853), filho de Amri (885–874). Amri, general do exército, subiu ao poder por um golpe militar contra o rei Zambri (886-885). Amri (o sexto rei de Israel em 46 anos, desde que Jeroboão I se separou de Judá em 931), iniciou a quarta dinastia e fundou a quarta capital (Siquém, Penuel, Tirsa e Samaria). A instabilidade era muito grande! O governo de Amri durou doze anos e dele pouco se fala na Bíblia. Mas com ele começou um período de paz e de progresso econômico continuado por seu filho Acab. Toda a política dos dois reis, tanto interna quanto externa, era dirigida para uma estabilização do país e um aumento do poder econômico. Estes dados são confirmados pela arqueologia.

O texto que, na Bíblia, introduz a história de Elias, é um resumo do governo de Acab. Ele oferece o quadro de referências para situar a vida e a ação do profeta Elias. Eis o texto:

“Acab, filho de Amri, subiu ao trono de Israel no ano trinta e oito do reinado de Asa, rei de Judá. Reinou sobre Israel em Samaria vinte e dois anos. Acab, filho de Amri, fez o que Javé reprova, mais do que todos que vieram antes dele. Além de imitar os pecados de Jeroboão, filho de Nabat, casou-se com Jezabel, filha e Etbaal, rei dos sidônios, e começou a servir e a adorar Baal. Chegou a construir em Samaria um templo e um altar para Baal. Acab levantou também um poste sagrado e cometeu outros pecados, irritando a Javé, o Deus de Israel, mais do que todos os reis de Israel que vieram antes dele. No seu tempo, Hiel de Betel reconstruiu Jericó: Os alicerces lhe custaram a vida do seu filho Abiram, e as portas custaram a vida de Segub, seu filho caçula, como Javé havia predito por meio de Josué, filho de Nun. Elias o tesbita de Tesbi de Galaad disse ao rei Acab: “Pela vida de Javé, o Deus de Israel, a quem sirvo: nestes anos não haverá nem chuva, a não ser quando eu o mandar” (1 R 16,29-34; 17,1).

Esta breve introdução à história de Elias chama a atenção não para o progresso material realizado pelo governo de Acab, mas sim para três consequências negativas da política dos reis:

1. Desprezo pela vida. Transparece uma situação, em que o desvio do Deus da vida levou a um desprezo pela vida. O povo voltou a sacrificar seus filhos aos ídolos. A ação de Elias vai caracterizar-se pela defesa da vida do povo.

2. Quebra da aliança. O desvio de Deus e o desprezo pela vida são consequência da quebra da Aliança. Abandonaram Javé e seguiram outros deuses. A ação de Elias vai caracterizar-se pela restauração da Aliança do povo com Javé.

3. Injustiça institucionalizada. A quebra da aliança não era fruto da má vontade de algumas pessoas, mas sim fruto do sistema injusto que governava o país. A ação de Elias vai caracterizar-se pela tentativa de reformar o sistema da monarquia.

As histórias da Bíblia sobre Elias oferecem detalhes concretos com relação a estes três aspectos negativos. Eis alguns:

1. A monarquia centralizou o poder e o manipulava em seu próprio favor. A história da vinha de Nabot é uma prova evidente deste abuso (1 R 21, 1-16). O poder já não era serviço ao povo. O rei não se interessava pela vida do povo, mas sim pela vida dos cavalos e jumentos que lhe garantiam o transporte da produção e o comércio (1 R 18,5).

2. A mudança cultural, provocada pelo progresso econômico e pela aliança com Etbaal, rei dos Sidônios (1 R 16,31), mudou a visão das coisas. A terra já não era vista como uma herança imutável de Javé, mas como meio de troca e de proveito (1 R 21,2). Isto trouxe consigo um conflito muito grave entre os interesses da monarquia e os costumes tribais (1 R 21,3).

3. Para defender os seus interesses e impor o seu ponto de vista o rei não tinha medo de usar a força do exército (2 R 1,9.11.13), de manipular as instituições tribais como, por exemplo, o profetismo (1 R 18,19), de exigir juramentos e decretar leis (1 R 18,10; 21,9), e de praticar roubo e assassinato (1 R 18,12; 21,10-14; 19,1-2). Era uma situação de desmando, de arbítrio e de injustiça.

4. A monarquia manipulava os costumes religiosos para combater e neutralizar a resistência da religião de Javé. Assim, ela favorecia o culto ao deus Baal (1 R 16,31), uma divindade vinda da Sidônia, largamente venerada na Palestina, através dos seus numerosos profetas (1 R 18,19). O culto a Baal favorecia o culto de fertilidade que contrastava com a religião austera de Javé, vinda do deserto.

5. A monarquia procurou transformar Javé, o Deus do povo, num deus nacional. Ou seja, nacionalizou Javé e o reduziu a um Deus-Padroeiro a serviço do Reino e seus interesses, inverteu a situação.

6. Sob a influência de todos estes fatores, surgiu uma grande confusão na cabeça do povo. O povo já não sabia quem era o Deus verdadeiro: Baal ou Javé (1 R 18,21). Ou seja, a própria imagem de Javé tornou-se igual a um Baal qualquer. “Baalizaram” Javé.

7. Os altares de Javé foram destruídos e os profetas de Javé que tentaram reagir, foram perseguidos e mortos (1 R 19,10.14). Elias era um dos poucos que sobraram. Ele mesmo concluiu tragicamente: “Os filhos de Israel abandonaram a Aliança!” (1 R 19,10.14). Ou seja, para Elias, a experiência iniciada no Êxodo, 400 anos antes, tinha fracassado. Era o fim! O povo voltou a uma situação de opressão e de exploração, igual àquela do Egito.

Esta era a situação, de onde Elias devia partir. Situação estruturalmente contrária à Aliança, que se desdobrava em consequências muito graves para a vida do povo: situação de não-vida, de seca, fome, doença, confusão, perseguição, massacre, morte, desespero (1 R 17,7-12.17; 18,2.3.5.13.21).

Dentro da mentalidade da época, a seca era interpretada como castigo de Deus pelos pecados de infidelidade. Assim, terminada a descrição do governo de Acab com seus desvios e pecados (1 R 16,29-34), o livro dos Reis introduz o profeta Elias anunciando a seca como castigo de Deus (1 R 17,1). É neste momento, que começam a caminhada e a luta do profeta pela vida do povo, pela restauração da Aliança e pela reforma da Monarquia. Nesta luta, aparece não só a situação do povo, mas também a situação pessoal de Elias com suas limitações e falhas.

2. A SITUAÇÃO PESSOAL DO PROFETA E AS SUAS LIMITAÇÕES

Numa situação de desprezo pela vida, de quebra da aliança e de injustiça institucionalizada como aquela do tempo de Acab e Jezabel, não havia mais lugar para alguém que, como Elias, queria ser fiel a Javé. Para Elias não havia outra alternativa: ou reagia, denunciava e morria; ou escapava, fugia e desanimava. Ele fez os dois!

Elias não aparece como um herói, mas como um homem limitado, meio perdido, incapaz de enfrentar a crise que era maior do que ele mesmo. Às vezes, reagia com força e denunciava sem medo. Outras vezes, não via mais futuro, tinha medo e fugia desanimado. “Elias era um homem, fraco como nós” (Tg 5,17).

De um lado, orientado pela Palavra de Deus, ele deve sair para denunciar o mal e iniciar a transformação. De outro lado, sofrendo o impacto da situação, ele quer sair, porque, para ele, tudo tinha terminado: “Quebraram a aliança, derrubaram os altares, mataram os profetas. Só eu sobrei, e até a mim eles querem matar!” (1 R 19,10-14).

Aqui transparecem as limitações do profeta. Ele não é capaz de avaliar a situação com objetividade:

1) Ele diz: “Só eu sobrei!”, e não era só ele. Havia 7000 (1 R 19,18)!

2) Ele achava que a aliança havia terminado, e não havia terminado. Pelo contrário!

3) Ele diz: “Estou cheio de zelo!” (1 R 19,10), mas queria morrer, tinha medo (1 R 19,3-4)!

4) Ele buscava a Deus, mas não tinha um critério certo de busca, pois Deus já não estava no vento, no terremoto e no raio (1 R 19,11-12)!

A motivação e a visão de Elias não coincidiam com a motivação e a visão do próprio Deus. Ele vai ter que sair desta situação de imperfeição. Vai ter que passar por uma purificação, por uma Noite Escura. É esta caminhada que o Liber Institutionis procura descrever.

 3. A SITUAÇÃO DO POVO NO CATIVEIRO E A HISTÓRIA DE ELIAS

Um último aspecto deve ser considerado nesta primeira parte. É a situação do povo que, no tempo do cativeiro (587-538), encontrou na história de Elias um motivo para não desistir da luta e uma chave ou uma luz para poder entender sua própria situação.

Os exilados gemiam numa situação de aparente abandono de Javé (Is 40,27; 49,14). Eles interpretavam sua situação como um castigo de Deus (Lam 1,12.14; 2,1). O povo estava de volta na mesma terra, de onde Abraão tinha saído, mais de mil anos antes. Parecia o fim! Parecia o mesmo fracasso da aliança como no tempo de Elias.

A pergunta que os exilados se faziam era esta: “Por que tudo isto nos aconteceu? Quem é o culpado? Quem é que estragou a vida”. Duas respostas eram dadas. Uns diziam: o culpado é o rei, a monarquia! Este é o teor do Livro dos Reis que condena a monarquia (2 R 17,7-23; 18,12). Outros diziam: os culpados são os profetas que recorriam ao Oráculo, para orientar e apoiar a política do Rei e, assim, contribuíram para levar o povo ao desastre (Jer 28,1-17). Haviam fortes reações contra o profetismo (Jer 23, 13,40; Zac 13,1-6).

Assim, na época do cativeiro, a pergunta: “Quem é o culpado da desgraça do povo?” Era uma pergunta muito atual. Era precisamente esta pergunta que dava atualidade à história de Elias, Acab acusa Elias (1 R 18,17), e Elias acusa Acab (1 R 18,18). Quem é o juiz nesta questão? Na história de Elias, o juiz é o povo (1 R 18,20-24.39). É o leitor. Somos nós!

Conclusão. A situação de onde Elias devia partir era uma situação em que a crise, como que de repente, estourou em todos os níveis da vida: econômico, social, político, ideológico, cultural, religioso. Ora, foi exatamente neste momento de crise que a Palavra de Deus se fez presente na vida do povo, chamando Elias:

“Saia daqui, dirija-se para o oriente e esconda-se junto ao córrego Carit, que fica a leste do Jordão. Você poderá beber água do córrego. Eu ordenei aos corvos que levem comida para você” (1 R 17,3-4).

2.ª PARTE

A CAMINHADA

É difícil reconstruir a cronologia exata da caminhada de Elias. Também não é tão importante para o nosso objetivo. As histórias de Elias não eram usadas como relatórios de viagens, mas sim como símbolos e espelhos, em que o povo se reconhecia e por meio dos quais se conscientizava. O caminhar de Elias chamou a atenção dos primeiros Carmelitas, sobretudo o seu itinerário místico em direção a Deus. Sete pontos chamaram a nossa atenção no estudo que fizemos em Whitefriars Hall. São sete janelas, sete espelhos.

1. ELIAS, O HOMEM DO DESERTO

A experiência do deserto marcou a caminhada de Elias. Ele enfrentou o deserto de Carit (1 R 17,5), o deserto de Beersheba (1 R 19,3), o deserto de Horeb (1 R 19,8). Deserto, não só como lugar geográfico, mas também como experiência interior. Elias teve momentos de não saber, de estar perdido, de ter medo, de achar que tudo estava terminado, de querer fugir e morrer, de pensar só em comer e dormir.

O deserto interior manifestou-se sobretudo no fato de ele procurar a presença de Deus nos sinais tradicionais (terremoto, vento, fogo) e de descobrir que estes sinais já não revelavam mais nada a respeito de Deus. Eram lâmpadas que já não acendiam. Quem o procurasse por aí, já não o encontraria (1 R 19,11-12).

O deserto era também o lugar da origem do povo, da volta às fontes em época de crise, onde se recuperavam a memória e a identidade; o lugar para onde o povo escapou para a liberdade, onde morreram os restos da ideologia do faraó, e onde o povo se reorganizou; o lugar da longa caminhada, quarenta anos, onde morreu uma geração inteira; o lugar do murmúrio, da luta, da tentação e da queda; o lugar do namoro, do noivado, da experiência de Deus, da oração. O deserto fez Elias se reaproximar da origem do povo. Os 40 dias lembram os 40 anos.

No deserto Elias experimentou os seus próprios limites. Não chegou a perder a fé, mas já não sabia como usar a fé antiga para enfrentar a situação nova. Foi o momento de viver e sofrer a crise do próprio povo. Por isso mesmo, ao superar a sua crise pessoal e ao reencontrar a presença de Deus para si mesmo, ele estava redescobrindo o sentido de Deus para a vida do povo.

A experiência do deserto marcou para sempre a vida dos primeiros eremitas do Monte Carmelo. Saindo da Palestina, levaram o deserto consigo, dentro de si. Vivendo na Europa, reencontraram o deserto, não na vida regular dos grandes mosteiros independentes e autossuficientes, longe das cidades, mas sim na vida pobre dos Mendicantes.

2. ELIAS, O HOMEM DA BRISA LEVE

Atravessando o deserto de Beersheba, Elias entrou no deserto da montanha de Deus, o Horeb (1 R 19,8). Lá ele ouviu a pergunta: “Elias, que fazes aqui?” E ele respondeu, por duas vezes:

“O zelo por Javé dos exércitos me consome, porque os israelitas abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares, mataram teus profetas. Sobrei somente eu, e eles querem me matar também” (1 R 19,10-14).

Existe uma contradição entre a resposta e a realidade vivida, entre o discurso e a prática de Elias. Conforme o discurso ele é o único que sobrou; mas haviam sete mil (1 R 19,18). Conforme o discurso, ele está cheio de zelo; mas a prática mostra um homem medroso que foge (1 R 19,3). Conforme o discurso ele sabe analisar o fracasso da nação; mas na prática não sabe analisar o seu próprio fracasso. Elias não se dá conta de que a situação de derrota e de morte em que se encontra é o lugar onde Deus o atinge, pois não percebe a presença do anjo que o orienta. Ele só pensa em comer e dormir (1 R 19,6).

O olhar de Elias está perturbado por algum defeito que o impede de perceber a realidade tal como ela é: ele se considera dono da luta contra Baal (e não é); acha que sem ele tudo estará perdido (e não estará); pensa que Deus sai perdendo caso ele, Elias, for derrotado (e Deus não sai perdendo). Qual o defeito nos olhos de Elias? Qual o defeito em nossos olhos hoje? A resposta está na história da Brisa Leve.

A expressão “Brisa Leve” traduz o hebraico: qôl demamáh daqqáh. Literalmente: voz de calmaria suave. A palavra hebraica, demamáh, usada para indicar a calmaria, vem de uma raiz, DMH, que significa parar, ficar imóvel, emudecer. A brisa leve indica algo, um fato, que, de repente, faz emudecer, faz a pessoa ficar calada, cria nela um vazio e, assim, a dispõe para escutar; provoca nela uma expectativa.

A “Brisa Leve” não deve ser entendida no sentido romântico de uma brisa suave no fim da tarde, mas sim no sentido de algo que, de repente, fez desintegrar tudo que Elias pensava e vivia até àquele momento. Ela indica o impacto de algum fato que o obrigou a uma mudança radical e o levou a uma visão totalmente nova das coisas. É como diz a poesia:

“Diante da vida do povo sofrido, a gente não fala, só sabe calar. Esquece as ideias do povo sabido, e fica humilde, começa a pensar”.

Qual foi a “brisa leve” que provocou tudo isto na vida de Elias? O texto não o diz expressamente, mas sugere que foi a descoberta dolorosa de que Javé, o Deus de Israel, já não estava nem no vento, nem no terremoto, nem no raio! (Os sinais tradicionais da manifestação de Deus). Deus já não era como ele, Elias, o imaginava. Elias descobriu que, apesar de toda a sua fidelidade e luta pela causa de Javé, ele estava lutando por algo que já não era a causa de Javé!

Deus se fez presente na ausência! A luz apareceu na escuridão! A voz de calmaria suave era o silêncio de todas as vozes! Elias descobriu que ele estava errado. E descobrindo que estava errado, descobriu coisa certa! A “Brisa Leve” é a noite escura da experiência mística; é o sair de si para se encontrar. Ela derrubou tudo e abriu o espaço para uma nova experiência de Deus que, aos poucos, foi penetrando na vida de Elias e o levou a redescobrir sua missão na reconstrução da Aliança.

3. ELIAS, O HOMEM DA ALIANÇA

É aqui que a Bíblia coloca todo o peso da ação de Elias. É aqui também que ela pode ajudar-nos a enriquecer a Tradição Eliana da Ordem para os nossos dias. Vamos ver os vários aspectos:

3.1 Elias obedece à Palavra e revela Deus ao povo

Apesar das suas limitações, Elias obedecia como podia, Sua obediência fez com que ele fosse reconhecido como “Homem de Deus” (1 R 17,24; 2 R 1,9), cuja palavra ardia como uma tocha (Eclo 48,1). A palavra de Elias tornou-se como que Palavra de Deus para os outros que, por sua vez, obedeciam a Elias: a viúva de Sarepta (1 R 17,15): Abdias, o chefe do palácio (1 R 18,14-16), o própria povo (1 R 8,24.30). Sua palavra tinha a força para fazer descer o fogo do céu (2 R 1,10.12; Eclo 48,3).

Elias passou a ser conhecido como o homem disponível para Deus que já não se pertencia. Deus podia dispor dele e arrebatá-lo como e quando quisesse (1 R 18,12; 2 R 2,11). O próprio Deus passou a ser conhecido como o “Deus de Elias” (2 R 2,14).

3.2 Elias refaz a história e cria um novo começo

Este Elias, “homem fraco como nós (Tg 5,17), mas obediente a Deus, refaz a história do povo. Todos os grandes momentos que marcaram a origem do povo, reaparecem na caminhada de Elias. O seu caminhar é um novo começo para uma vivência renovada da aliança:

  O Profeta Elias O Povo no deserto
1. Travessia   Elias atravessa o Jordão a pé enxuto (2 R 2,7-8). O povo atravessa o Mar Vermelho a pé enxuto (Ex 14,16.22).
2. Deserto Vai para o deserto de Carit e Horeb (1 R 17,2; 19,1-8). O povo vai para o deserto do Sinai / Horeb.
3. Alimentado no deserto É alimentado pelo anjo no deserto com água, carne e pão (1 R 17,4-6; 19,5-8). O povo é alimentado com carne, água e pão, chamado “pão dos anjos” (Sab 16,20).
4. Longa caminhada Alimentado pela comida de Deus, ele anda 40 dias e 40 noites pelo deserto (1 R 18,8). Alimentado pela comida de Deus, o povo caminha 40 anos pelo deserto.  
5. As doze tribos Refaz o altar das doze tribos (1 R 18,30-31) e, no fim, restabelecerá as doze tribos (Eclo 48,10). Saindo do Egito, as doze tribos se reorganizaram e formaram o Povo de Deus (Num 1-4).
6. Partilha Junto à viúva, ele insistena partilha e, assim, criou abundância (1 R 17,10-16). O maná partilhado criou abundância e garantiu a sobrevivência (Ex 16)
7. Encontro com Deus Na Montanha de Deus, Horeb, ele encontra com Deus (1 R 19,8-13). No Monte Sinai/Hore o povo encontra com Deus e nasce como povo (Ex 19).
8. Aliança Elias insiste na observância da aliança e denuncia a infidelidade às suas cláusulas.   O povo conclui uma aliança e se compromete a observar suas cláusulas (Ex 24).  
9. Moisés Pelo seu testemunho e pela sua vida, Elias revela Javé. Moisés revela as exigências de Javé ao povo.

3.3. Faz o povo abandonar Baal e escolher Javé

Naquela situação de incerteza e de confusão Elias soube ser claro e exigir do povo que abandonasse a sua atitude dúbia de querer aproveitar dos dois lados (1 R 18,21). Enfrentou os falsos profetas denunciou o Rei como a causa da confusão. O Rei que, para o povo, era o “ungido”, o messias, passo a ser “a ruína de Israel” (1 R 18,18). O motivo da denúncia era um só: abandonaram Javé e seguiram os ídolos (1 R 18,18).

A denúncia do erro era, ao mesmo tempo, anúncio do Deus verdadeiro. No Monte Carmelo, Elia conseguiu levar o povo a refazer a sua opção fundamental e a escolher Javé como o seu Deus, com outrora Josué fizera: “Javé, Ele é Deus!” (1 R 18,30). Renasce o povo.

4. ELIAS O HOMEM QUE DEFENDE A VIDA

A preocupação com a vida percorre as histórias de Elias e caracteriza o seu caminhar. De muitas maneiras, ele aparece defendendo a vida do povo contra a morte e contra o sistema de morte do rei.

Ele revela a face de Deus, como Deus da vida, que quer o bem-estar do seu povo. Revela que o objetivo da aliança e da lei não é a observância como valor em si, mas sim como caminho que leva à vida. Ele chega a matar os profetas que defendem o sistema de morte, para assim garantir a vida ao povo.

Os vários aspectos desta defesa da vida:

1. Garantir o alimento para combater a fome (1 R 17,14-16).

2. Curar o filho da viúva que tinha morrido (1 R 17,23).

3. O rei só pensava na vida dos cavalos e jumentos; não pensava na vida do povo que morria de fome por causa da seca (1 R 18,5). Elias, pela sua oração trouxe de volta a chuva (1 R 18,42-45).

4. Jezabel persegue e mata os profetas de Javé e quer matar o próprio Elias (1 R 19,2). Elias quer viver, e foge “para salvar sua vida” (1 R 19,3).

5. Elias defende a causa de Nabot, assassinado pela injustiça do rei e da rainha (1 R 21,17-20).

6. Elias vai para lugares fora do território: Sa repta, Carit, Horeb. Onde existe vida humana Javé é reconhecido como Deus. Há mais aliança na viúva de Sarepta do que no rei de Israel.

5. ELIAS, O HOMEM DO CONFLITO

No momento de aceitar a Palavra de Deus, Elias deixa o conflito entrar em sua vida. O conflito nasce de dupla fonte: da situação geral de infidelidade à Palavra de Deus e da vontade de Elias de ser fiel à esta Palavra que o chama a sair da situação.

São muitos e variados os conflitos que envolvem a vida de Elias. Eis alguns deles:

1. Conflito com o rei, anunciando a seca (1 R 17,1).

2. Conflito com a situação, rompendo com ela e saindo para o Carit e para Sarepta (1 R 17,2.9)

3. Conflito com a viúva, pedindo que partilhe o pão (1 R 17,10-12) e sendo acusado por ela da morte do filho (1 R 17,18).

4. Conflito com Abdias, o empregado do rei, enviando-o para junto do rei (1 R 18,9-14).

5. Conflito com o rei e a rainha, enfrentando o seu sistema no Monte Carmelo (1 R 18,16-19) e na vinha de Nabot (1 R 21,17-19), e matando os profetas de Baal (1 R 18,40).

6. Conflito com o povo, exigindo que não fique dos dois lados e desafiando-o a escolher o Deus verdadeiro (1 R 18,20-24).

7. Conflito com os 450 profetas de Baal, desafiando-os para o julgamento (1 R 18,25-29).

8. Conflito consigo mesmo e com as suas ideias sobre Deus, pois não encontra Deus no vento, no fogo e no terremoto (1 R 19,11-12).

9. Conflito com Deus, queixando-se de estar no e perdido, sem saber como continuar a luta (1 R 19,4).

10. Conflito com os militares que o desafiam a descer da montanha para comparecer diante do rei (2 R 1,9.11).

11. Conflito com Eliseu ao chamá-lo para segui-lo (1 R 18,19-20) e não permitir que caminhe com ele (2 R 2,2.4.6).

Elias vive em conflito permanente, provoca conflitos e envolve outros no conflito. Todos estes conflitos são expressão e manifestação do grande conflito básico: caminhar do lugar onde está para o lugar onde Deus o quer.

6. ELIAS, HOMEM DA ORAÇÃO

Estamos vendo as características do caminhar de Elias, da sua fidelidade à Palavra, da sua maneira de ser profeta. Ele foi capaz de realizar tudo isto porque estava ligado a Javé pela Oração. A oração aparece em muitos lugares. Ela sempre chamou a atenção dos carmelitas.

A oração era o espaço que lhe dava condições de:

1. viver e experimentar o deserto,

2. descobrir a presença de Deus na brisa leve,

3. defender a aliança,

4. defender a vida do povo,

5. viver em conflito permanente.

Eis os lugares e momentos em que Elias aparece rezando:

1. “Vivo é o Senhor em cuja presença estou” (1 R 17,1; 18,15). É a consciência de estar consagrado ao serviço de Javé.

2. Reza e consegue de volta a vida do filho da viúva (1 R 17,20).

3. Critica a reza dos profetas de Baal (1 R 18.27), e reza, para que Deus se manifeste ao povo no Monte Horeb (1 R 18,36-37).

4. Reza sete vezes e insiste, até que apareça um sinal de chuva (1 R 18,42-43).

5. Reza para que o fogo desça do céu e mate os militares que querem prendê-lo (2 R 1,10.12).

6. Restaura o altar no Monte Carmelo (1 R 18,30).

7. Reza queixando-se (1 R 19,10.14) e pedindo a morte (1 R 19,4).

8. Confronta-se com Deus na Brisa Leve (1 R 19,12).

A imagem de Elias como “Homem de Deus” (1 R 17,24), disponível para a ação do Espírito, (1 R 18,12), “cuja palavra ardia como uma tocha” (Eclo 48,1) revelam a sua intimidade com Deus.

No Novo Testamento, Tiago resume o testemunho de Elias na linha da oração (Tg 5,17-18). A tradição Carmelitana tem aqui um dos pontos fundamentais da imagem de Elias.

7. ELIAS, O HOMEM DO ESPÍRITO E DO FOGO

O livro do Eclesiástico introduz a figura de Elias com estas palavras: “Então o profeta Elias surgiu como um fogo, sua palavra queimava como uma tocha” (Eclo 48,1). Diz ainda que “por três vezes fez descer o fogo” (Eclo 48,3). O fim da sua vida é descrito assim: “Foste arrebatado num turbilhão de fogo, num carro puxado por cavalos de fogo“ (Eclo 48,9).  

O fogo é expressão da ação do Espírito (At 2,3-4). O arrebatamento no carro de fogo é realizado pelo Espírito de Javé (2 R 2,16). Abdias diz a Elias: “O Espírito de Javé te transportará não sei para onde” (1 R 18,12). Na opinião do povo, Elias podia ser arrebatado a cada momento pelo espírito de Deus.

Esta ação do Espírito manifestou-se na caminhada que ele fez correndo na frente do carro do Rei (1 R 18,46), na denúncia no caso da vinha (1 R 21,27), no fogo que ele fez baixar do céu (2 R 2,10.12), no arrebatamento ao céu (2 R 2,11). Toda vez que a Palavra entrava e o mandava sair de um lugar para outro!

Eliseu pediu a Elias: “Que me seja dada uma dupla porção do teu Espírito” (2 R 2,9). O Espírito de Elias repousou sobre Eliseu, seu sucessor (2 R 2,15). Os discípulos o reconheceram na hora em que Eliseu, usando a capa de Elias separou as águas do rio Jordão (2 R 2,14).

Elias, o homem do fogo e do Espírito! Como tal entrou na história, pois é assim que ele nos é apresentado no livro do Eclesiástico e no Apocalipse (Apoc 11,5-6.11-12).

3ª PARTE O PONTO DE CHEGADA

1. O PONTO DE CHEGADA CONTINUA ABERTO

O caminho de Elias teve como ponto de partida uma situação de morte, doença, fome, seca, abandono, perseguição, assassinato, falsidade, manipulação, incerteza e imperfeição. O ponto de partida era claro. Era espelho do que acontecia na época dos primeiros carmelitas e continua sendo espelho do que acontece hoje. Claro também era o chamado de Deus. “Vai! Saia desta situação!” Elias deve sair, deve entrar na oposição e realizar uma transformação dentro de si e fora de si.

O que não está claro é o ponto de chegada. Pois ao que parece, a história de Elias ainda não acabou. A última notícia é de que ele foi arrebata do num carro de fogo. Para onde foi? Morreu? Vai voltar? Como? Quando? Não somos os primeiros a levantar estas perguntas!

Afinal para onde nos conduz o caminho de Elias? A história de Elias não apresenta um projeto pronto a ser implantado. Indica apenas um caminho a ser aberto e percorrido, na fé, na fidelidade e na criatividade. Caminho que vai aparecendo aos poucos na medida em que Elias se põe a caminhar! Oponto de chegada do caminho de Elias continua aberto, não está predeterminado.

Caminhando, Elias não vê tudo claro, não sabe tudo o que deve fazer, nem tem visão total de todo o projeto de Deus. Ele só vê até à próxima curva. Muitas vezes, não sabe como andar, nem para onde. Só sabe que deve andar. Anda no escuro, sem ver. Só enxerga um passo na frente. O resto é neblina, deserto, noite. Só começa a enxergar, andando e errando. A palavra se faz clara na medida em que ele tem a coragem de praticá-la. “A luz se faz é na travessia!”

2. VIVER NO PROVISÓRIO, ATÉ O FIM

Elias é o homem do provisório. Eis alguns aspectos deste provisório que caracteriza o ponto de chegada do caminhar de Elias:

1. O primeiro chamado de Deus o envia até Carit, sem saber que deve ir até Sarepta. Estando em Carit, sob a pressão da fome e da sede, a palavra se torna mais clara e ele vai até Sarepta (1 R 17,1-10).

2. Estando em Sarepta, ele sabe dizer à viúva que a partilha garante a vida e o sustento da família (1 R 17,10-16), mas não sabe prever a doença e a morte do menino (1 R 17,17). Uma vez dentro da situação de morte, ele aprende e descobre o que Deus quer dele para enfrentar a situação e fazer prevalecer a vida (1 R 17,18-23).

3. Reunido no Monte Carmelo com todos os filhos de Israel, Elias interpela o povo a não seguir dois deuses ao mesmo tempo. Mas o povo não lhe dá resposta (1 R 18,21). Parece negar-lhe o direito de fazer tal advertência. O silêncio do povo leva-o a fazer a nova proposta do desafio, aceito pelo povo (1 R 18,22-24).

4. Estando no Monte Carmelo, manda o empregado subir sete vezes (1 R 18,43). É só na sétima vez quando aparece uma nuvenzinha no céu, que o profeta percebe o alcance do momento. Só então ele percebe o que é para fazer e começa a distribuir ordens (1 R 18,44-46).

5. Elias vai para o deserto, desanimado. Come, dorme e quer morrer (1 R 19,1-4). O anjo tem que acordá-lo duas vezes para ele perceber que Deus está querendo alimentá-lo para a caminhada (1 R 19,5-7). Na força da comida ele anda quarenta noites, mas sem saber a solução para o seu problema (1 R 19,8).

6. Estando no Monte Horeb, mesmo depois de perceber a Brisa Leve, Elias continua com o pensamento antigo, pois repete a mesma análise e a mesma queixa (1 R 19,14), que ele tinha feito antes (1 R 19,10). Em Elias, a mudança só se faz aos poucos, lentamente.

7. No fim, ele recebe uma tríplice missão: ungir Hazael, ungir Jeú e ungir Eliseu (1 R 19.15-16). Ele mesmo só executa uma terça parte desta missão, a saber, ungir Eliseu (1 R 19,19-21).

8. Elias está convencido de que deve ir só até Betel (2 R 2,2). Mas estando em Betel, descobre que deve ir até Jericó (2 R 2,4). E chegando em Jericó, descobre que deve ir até o Jordão (2 R 2,6). E quando, finalmente, alcança o Jordão, ele deve ir mais longe (2 R 2,7-8). A luz se faz é na travessia!

O importante em tudo isto é que o caminho só aparece caminhando nele. Elias é como Jesus que pronto a cada momento, faz aquilo que o Pai The mostra que é para fazer (cf. João 5,30; 8,28). Na medida em que obedece e anda, Elias vai descobrindo o que Deus pede. Descobre aos poucos a sua própria missão, a sua própria identidade. A sua fidelidade, às vezes cega e muda, vai gerando luz para perceber a Palavra que o chama.

3. O COMEÇO DE UM PROCESSO

DE TRANSFORMAÇÃO

Através de Elias e através dos que deixam a palavra do profeta trabalhar em suas vidas, a Palavra de Deus vai gerando um processo de transformação e de libertação nos vários níveis da vida tanto da sociedade e da comunidade, como da vida pessoal:

3.1. No nível da sociedade e da comunidade

1. O rei se arrepende e se converte (1 R 21,27-29).

2. O povo reassume a aliança (1 R 18,39-40).

3. A vida do povo se cura (1 R 17,16.23).

4. As instituições se reconciliam (1 R 18,46).

5. A injustiça é castigada (1 R 21,17-24).

6. Elias redescobre e retoma sua missão (1 R 18,15-18).

7. Os militares reconhecem que a vida é mais importante do que as ordens do rei (2 R

1, 13-14).

A transformação no nível da sociedade, porém, foi provisória. Não durou muito. Humanamente falando, não teve muito efeito. Elias queria converter o rei. Conseguiu uma conversão momentânea e uma momentânea reconciliação entre rei e profeta (1 R 18,44-46). Mas não conseguiu a conversão da monarquia. A monarquia foi mais forte que a boa vontade do monarca e, no fim, levou o povo à ruína total do exílio.

3.2. No nível da vida pessoal

A transformação também se faz em nível pessoal. A experiência desestabilizadora de Deus na Brisa Leve produziu em Elias uma mudança radical. Destacamos três aspectos:

1. Elias experimenta que Deus é livre! Deus não obedece a Elias, isto é, não se sente obrigado a obedecer aos critérios que a Tradição estabeleceu para o povo poder reconhecer e controlar a sua presença. Ele não se manifesta na tempestade, nem no raio nem no tremor da terra. Esta liberdade de Deus é a raiz da nossa liberdade e da nossa libertação. Deus não pode ser usado por ninguém, nem pelos profetas de Baal nem pelo profeta Elias. Deus é livre!

2. Elias experimenta que Deus não depende da sua defesa! Apesar dos altares destruídos, da aliança quebrada e dos profetas assassinados, a causa de Deus não estava perdida. Pelo contrário! Não é Elias quem defende a Deus, mas é Deus quem acolhe, sustenta e defende o pobre do Elias! É desta certeza de Deus que renasce em Elias a coragem. Ele reencontra o sentido da vida e da luta.

3. Elias experimenta a total gratuidade de Deus e da sua presença. Deus se fez presente na Brisa Leve não por mérito de Elias. Pelo contrário! Elias experimentou a presença libertadora e restauradora de Deus no momento exato em que experimentava o seu próprio nada e a sua falta absoluta de qual quer título de glória. Deixou Deus ser Deus!

Esta nova experiência de Deus dá olhos novos, abre um novo horizonte e devolve a Elias a liberdade de ação, a vitória sobre o medo, a certeza de si, a vontade de continuar a luta pela causa de Deus em defesa da vida do povo, e dá a ele, ao mesmo tempo, a consciência clara de não ser o dono da luta nem o único a defender a causa de Deus.

4. UMA LÂMPADA NO CAMINHO DOS EXILADOS

As histórias de Elias foram conservadas e relembradas sobretudo na época do cativeiro, onde o povo vivia numa situação semelhante de morte e abandono, de frustração, destruição e confusão. Os exilados sabiam que deviam caminhar, mas não sabiam como nem por onde, pois não eram capazes de analisar a situação e descobrir o Ôquêr (o culpado). Isto é, não conheciam a causa que levou à destruição do exílio.

As histórias de Elias ajudavam os exilados a ler os fatos, a ter uma consciência mais crítica, e a não se deixar iludir pela propaganda oficial que chamava os profetas de ôquer (cf. 1 R 18,17; Zac 13,1-6). As histórias de Elias ajudavam a descobrir o caminho a seguir.

Um ponto importante que transparece nas histórias, é que o critério para discernir e descobrir o caminho não é o Rei, não são os sábios, não é nem sequer o próprio Profeta, mas é o povo como um todo, quando reunido em assembleia, convocado pelo rei (1 R 18,20). Este povo é capaz de discernir nos fatos, provocados por Elias, que YHWH É DEUS.

5. CHEGANDO NO LIMIAR DO NOVO TESTAMENTO

Depois do cativeiro, desaparece a profecia. O povo chegou a dizer: “Não há mais profeta!” (SI 74,9). Profeta era coisa do passado. Chegavam a falar em “antigos profetas”. Mas a saudade da profecia fez nascer a esperança da volta. E é sobretudo em torno de Elias que esta esperança se articula e se transmite. Eis como, no limiar do Novo Testamento, os vários livros da Bíblia resumem e esperam a volta do profeta Elias:

1. Malaquias espera o Homem da Aliança (MI 2,23-24).

2. Tiago resume-o como Homem da oração (Tg 5,17-18).

3. Paulo sintetiza como Homem do conflito (Rom 11,2-4).

4. A tradição rabínica acentua o Homem do deserto.

5. O Apocalipse focaliza o Homem do testemunho (Apoc 11,3,5,6).

6. Lucas espera o homem da aliança que reorganiza o povo (Lc 1,17).

7. Sirach valoriza o Homem obediente à Palavra (Eclo 48,1-11).

8. A Tradição Carmelitana acentua o Homem do Caminho.

CONCLUSÃO

A TRADICÃO CARMELITANA

OS CARMELITAS OLHANDO NO ESPELHO

DAS HISTÓRIAS DE ELIAS

Abriu-se para nós a Tradição do Carmelo sobre Elias. Eis os pontos que mais chamaram nossa atenção:

1. O Liber Institutionis apresenta Elias como o Modelo da Vida Monástica. Elias é quem iniciou este tipo de vida. Ele aparece ensinando como o Carmelita deve imitar Jesus e viver o Evangelho de acordo com a Regra de Santo Alberto.

2. O Liber Institutionis, comentando a vida de Elias, tal como esta aparece em 1 Reis e 2 Reis, descreve o “Itinerário Espiritual” que o Carmelita deve seguir para chegar até Deus.

3. Este itinerário, descrito nos capítulos 1 a 8 do Liber como comentário de 1 Reis 17,2-6, não pode ser separado dos outros capítulos que seguem depois. Tal separação isolaria a pessoa da comunidade, faria do “Itinerário Espiritual” um empreendimento sem ligação com a realidade do povo e seria infiel ao próprio Liber. Pois, no Liber, Elias sempre aparece dentro da comunidade, ligado ao povo.

4. O Liber insiste mais na dimensão contemplativa da vida de Elias. O episódio da vinha de Nabot (1 R 21) quase não aparece. A sensibilidade da época dos primeiros Carmelitas era diferente da nossa. A dimensão da luta pela Aliança e pela Justiça aparece pouco no nível explícito do conteúdo, mas aparece no nível prático da vida dos primeiros Carmelitas. Vindos para a Europa, não se isolaram, mas se inseriram no meio dos “menores’ (os pobres da época) e assumiram o tipo de vida dos mendicantes.

5. Na origem da tradição Eliana da Ordem não existe o interesse apologético de querer ter um fundador igual aos Franciscanos e Dominicanos. A tradição eliana é bem mais antiga do que esta polêmica. Na sua origem estão as seguintes motivações:

a) o desejo de ser fiel a uma tradição monástica bem mais antiga do que a própria Ordem.

b) A preocupação em dar fundamento bíblico à nossa maneira de vivermos o Evangelho no Carmelo.

c) Elias é o modelo concreto de como viver o ideal da Regra de Santo Alberto.

d) A fidelidade à tradição Eliana era expressão de uma luta pela identidade e missão nossa.

6. A tradição carmelitana focalizou os seguintes pontos essenciais da vida de Elias:

a) o caminho, o itinerário espiritual.

b) a busca do Deus vivo na experiência do deserto.

c) a oração.

A Vida Religiosa redescobre hoje a sua missão profética dentro da Igreja e dentro da sociedade. Isto vale tanto aos religiosos do 1º como do 3º mundo. Ora, a tradição eliana nos oferece elementos para realizar esta missão profética de maneira própria nossa, carmelitana.

Fonte: A Caminhada do Profeta Elias, Frei Carlos Mesters, O.Carm


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