Introdução à formação

Parte 1

“Chamados a seguir Cristo”

CAPITULO I

CHAMADOS A SEGUIR CRISTO: “IN OBSEQUIO JESU CHRISTI”

I. Vocação como iniciativa de Deus

Deus “nos amou primeiro”: é Ele que vem primeiro para procurar seu povo. Ele chama todos para serem santos como o Pai é santo (Mt 5,48). O chamado à santidade é uma convocação para participar na vida da Santíssima Trindade e encontrar o destino real do homem (1). Nessa primeira iniciativa do Pai está fundamentada toda a vida espiritual: é o Pai que, “por meio do Filho e no Espírito Santo, dá a cada homem e a cada mulher a vida e a santidade”. Estimuladas pelo Espírito, as pessoas estão atentas para ouvir a Palavra de Deus, que é Nosso Senhor Jesus Cristo, segui-la e abrir-se para a ação transformadora de Deus (2).

II. Chamados à Santidade

O Pai nos chama à santidade e a ao discipulado, convidando-nos para a Igreja, corpo de Cristo, que é seu povo, cheio do Espírito Santo. Todos os fiéis, em virtude de seu novo nascimento em Cristo, compartilham uma mesma dignidade: todos são chamados à santidade. “Cristo também amou a Igreja, e se entregou por ela, a fim de santificar (Efésios 5, 25-26). Todos cooperam na construção do único Corpo de Cristo, conforme a vocação particular de cada um e os dons que cada um recebeu do Espírito Santo (Cf. Rm 12, 3-8).

Segundo o Concílio Vaticano II, a primeira e fundamental vocação é a vocação de santidade que significa que todos são chamados a estar em união com Cristo por meio do Espírito Santo e a esforçar-se para ser perfeitos no amor (3). A vocação de santidade dos fiéis é um chamado divino, que é “feito pelo Pai em Cristo por intermédio do Espírito Santo”. (4)

A santidade de vida não é uma opção para os membros da Igreja. “A santidade não é a prerrogativa de só uns poucos: santidade é um dom que é oferecido a todos, sem exceção, de forma que se torna o caráter distintivo de cada cristão” (5). Todos nós somos chamados à perfeição cristã, “qualquer que seja a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor a procurarem, cada um por seu caminho, a perfeição daquela santidade pela qual é perfeito o próprio pai celeste”. (6) “Qualquer estado de vida leva à santidade, sempre, porém apenas se estivermos abertos à graça do dom de Deus.” (7)

Todos os membros da Igreja recebem de Deus e partilham a mesma vocação para a santidade, inseparável de sua dignidade como batizados: isto é, o chamado à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade no estado particular de vida de cada « um. (8)

O chamado à santidade é a vocação primeira de todo batizado. Com esse entendimento, o Vaticano II quer dizer que os leigos não pertencem mais a algo profano, mas sim ao sagrado, pois os leigos e leigas são também filhos de Deus e recebem o mesmo batismo.

O chamado à santidade é a tarefa básica confiada a todos os filhos e filhas da Igreja (9). Essa incumbência não é simplesmente uma exortação moral. É uma verdade inegável porque são ramos que crescem na mesma vinha e partilham a mesma vida de santidade da Cabeça, que é Cristo (10).

III Chamados para viver o tríplice ministério de Cristo

Deus nos chama para sermos instrumentos d’Ele no mundo. Por meio dos sacramentos do Batismo e da Crisma, todos os cristãos são configurados pela participação no tríplice ministério de Cristo (sacerdotal, profético e real), que é uma expressão de nossa vocação e uma missão na Igreja e no mundo.

Pelo batismo os fiéis leigos tornam-se um corpo com Cristo e são incluídos entre os membros do Povo de Deus. Tornam-se, em seu modo particular, compartilhadores no tríplice ministério de Cristo. Realizam sua parte na missão de todo o povo cristão em relação com a Igreja e o mundo (11).

Vivendo o ministério sacerdotal, nós leigos oferecemos a Deus não só nossas esperanças, mas também nossos sofrimentos num gesto de sacrifício espiritual para a transformação pessoal e para a salvação do mundo. Como Sacerdote, Cristo oferece o sacrifício para a redenção de toda a humanidade. Como leigos, na vida diária, podemos assumir a dimensão sacerdotal de nossa vocação e missão pela “liturgia da vida diária” (12). Como escreve São Paulo: “Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto”. (Rm 12, 1).

De fato, nas atividades diárias na família e no trabalho, o leigo pode viver a espiritualidade da função sacerdotal, consagrando a Deus sua família, seu trabalho, suas orações, seu empenho apostólico. Precisamos suportar as provações da vida paciente e amorosamente, realizando-os no Espírito e transformando-os em sacrifícios agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo (13).

Como cônjuges, os leigos são chamados a rezar um pelo outro, sobretudo santificando a vida um ao outro pelo cuidado e pelo amor de um pelo outro, no perdão e na paciência de um pelo outro. São chamados a sacrificar vida pelo outro de modo que eles fiquem sem mancha (14). “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo também amou a Igreja e se entregou por ela, a fim de sacrificar pela palavra aquele que ele purifica pelo banho de água. (Efésios 5, 25-26)

Como pais e mães de família, vivemos a função sacerdotal, ensinando os filhos a rezar, a amar a Deus, a obedecer a seus mandamentos e a orientar a família a viver de acordo com os ensinamentos da Igreja.

Vivendo a função profética de Cristo, somos convidados a permitir que a Palavra de Deus habite profundamente em nós, de forma que possamos nos tornar testemunhas do amor de Deus diante dos outros por meio da palavra e das ações, do mesmo modo que Cristo, a Palavra que se fez carne, a revelação final do Pai, também nos revela o reino de Deus pela sua palavra e ações (15).

“Assim como os sacramentos da nova lei, alimento da vida e do apostolado dos fiéis, prefiguram o novo céu e a nova terra (Ap 21,1), assim também os leigos se tornam válidos arautos da fé nos bens esperados (cf. Mb 11,1), se uniram sem desfalecimentos, a uma vida segundo a fé, a profissão da mesma fé (…). Por conseguinte, os leigos, ainda quando se entregam a tarefas temporais, podem e devem realizar uma ação preciosa para a evangelização do mundo. (…) Por esforcem-se os leigos com diligência por conhecer mais profundamente a verdade revelada e peçam instantemente a Deus o dom da sabedoria”. (Lumen Gentium, 35)

Este chamado nos dá coragem para denunciar o mal e testemunhar a Palavra de Deus nas nossas atividades temporais, procurando ser sal para a vida e luz para o mundo (16) e, como nos ensina São Pedro:

“Antes, declarai santo, em vossos corações, o Senhor Jesus Cristo e estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que a pediu. Fazei-o, porém, com mansidão e respeito e com boa consciência. Então, se em alguma coisa fordes difamados, ficarão com vergonha aqueles que ultrajam o vosso bom procedimento em Cristo” (1 Pd 3, 15-16).

Podemos pôr em prática essa espiritualidade permitindo que a novidade e o poder do Evangelho brilhem todo dia na nossa vida familiar e social (17).

Viver o ministério real de Cristo:

Nós, leigos, podemos deixar que Cristo reine em nossos corações de tal forma que nossas ações e prioridades reflitam os valores evangélicos. Por sua morte e ressurreição, Cristo reina sobre o pecado e torna todas as coisas sujeitas a Ele. Somos convidados a viver esse ministério pela superação do pecado em nossa vida, não só o pecado pessoal, mas também o pecado estrutural na sociedade. Vivendo esse ministério, somos também levados à ideia de que “reinar é servir” e a seguir o caminho de Cristo, que veio, não para ser servido, mas para servir e dar livremente sua vida pelos outros (18).

“O cristão é rei porque triunfa sobre o pecado, controla as seduções da carne e governa o corpo e a alma.” (Congar, 235)

Pôr em prática o espírito do ministério real exige que nos ocupemos “das coisas temporais e ordenando-as segundo Deus” (19). Nós, fiéis leigos, temos a responsabilidade da sociedade segundo os princípios evangélicos e a doutrina social da Igreja. Não apenas trabalhamos pela paz, justiça e amor no mundo e na sociedade, mas também construirmos uma cultura da vida.

IV. Estabelecendo a resposta ao chamado

O chamado de Deus, seu dom livre, não cai em solo neutro. E é dirigido a indivíduos, cada um dos quais tem uma história particular de graça e de pecado. Todos nós sabemos o poder da graça, que nos dá a força e a vida para cooperar alegremente com o plano de Deus. Nós também experienciamos o conflito interior que afeta nosso processo de crescimento. Como disse São Paulo: “De fato, estou ciente de que o bem não habita em mim, isto é, na minha carne. Pois querer o bem está ao meu alcance, não, porém, realizá-lo. Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero (…). Portanto, descubro em mim esta lei: quando quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta”. (20). Mas as palavras tranquilizadoras do Senhor a Paulo são dirigidas a cada um de nós em nossa fragilidade: “Basta-te a minha graça; pois é na fraqueza que a força se realiza plenamente”. (21)

Homens e mulheres, “pela sua interioridade, transcende o universo das coisas” (22). Em nossas três dimensões — física, psicológica e espiritual — somos atraídos aos valores naturais e espirituais; mas a atração para os valores espirituais é entorpecida pelos condicionamentos sociais e por nossas próprias limitações. Precisamos, portanto, estar atentos para a dimensão subconsciente em cada um de nós, de sorte que possamos adquirir um conhecimento mais profundo de nós mesmos, entender o que motiva nossos atos e responder livremente ao chamado de Deus.

A autoconsciência — consciência de nosso potencial e de nossas limitações— nos ajuda a canalizar todas as nossas energias construtivamente para alcançar os ideais de nossa vocação. (23)

Nota:

1. Cf. Lumem Gentium, 40; Orígenes, Comin. Rom . 7,7: pg 14, 1122B. PS. Macarius, De Oratione, 11: pg 34, 861 AB. Santo Tomás, Summa Theol 11-11, q. 184, a.3.

2. RC 17

3. Cf. Christifideles Laici, 16

4. Ibid.

5. Papa Francisco, Audiência 19/11/2014

6. Lúmen Gentium, 11

7. Papa Francisco, Audiência, 19/11/2014

8. Ibid.

9. Ibid.

10. Ibid…

11. Christifideles Laici, 15

12. Cf. Hagstron, 100

13. Ibid.

14. Cf. Weinandy, Thomas G. The Catholic Laity: Priests, Prophets and Kings. Women for Faith and Family. Vol. XXI, n° 3 (2006)

15. Cf. Hagstrom, 101

16. Ibid.

17. Ibid.

18. Cf. Christifideles Laici, 14

19. Lúmen Gentium, 31

20. Romanos 7, 14-21. Cf. Gálatas 5, 13-14.

21. 2Coríntios 12,9

22. Gaudium et Spes, 14

23. Cf. Santa Teresa de Jesus, Vida 13, 15. Fundações 5,16. O Caminho da Perfeição 39,5. O Castelo Interior, 1.2,8.

CAPÍTULO 2

CHAMADOS PARA FAZER PARTE DA FAMÍLIA CARMELITA

I. Chamados para viver um Carisma Especial

Muitas e variadas são as formas que o Espírito Santo usa para nos convidar a responder a esse chamado à santidade. O Espírito Santo também despertou vários carismas para diferentes famílias religiosas. Como leigos, encontramos, em nossa vida, uma vocação especial para participar do carisma e da espiritualidade de uma Ordem Religiosa sem negligenciar o modo de vida próprio do estado de leigo. Essa participação no carisma da família religiosa “torna-se para nós também uma fonte de energia e uma escola de vida” (24) de forma que possamos “alcançar a perfeição evangélica através da comunhão no serviço de Cristo e numa liberdade fortalecida pela obediência”. (25)

II. Chamados para viver a vida carmelita

Quando os frades regressaram do Monte Carmelo e se instalaram na Europa, começaram a trabalhar no meio do povo. No século XIV, muitos fiéis leigos encontraram alimento espiritual no estilo de vida e no Carisma da Ordem. Eventualmente, em algumas comunidades, os frades passaram a receber leigos em seus conventos e a considerá-los “amigos do Carmelo” (26). Eram chamados “pinzocheri” (homens) ou “pinzochere” (mulheres). Eram pessoas casadas, tinham família e desenvolviam negócios para se manter, ligados aos frades e às comunidades (27). Os membros não casados, muitas vezes, faziam votos e trajavam uma variação menor do hábito carmelita (28). Eram chamados “mantellate” porque usavam um hábito semelhante aos dos frades. (29)

Logo após se estabelecerem na Europa, os frades receberam leigos em seus conventos e os consideraram também carmelitas em certo sentido. Esses leigos eram “oblatos”, ou “donati”, ofertados, no sentido de que davam seus bens aos conventos que daí em diante os acolhiam. Como as mulheres eram a maioria, necessitavam de casas exclusivas; eram chamadas de “mantellate”, porque vestiam um hábito semelhante ao dos frades. (29)

Ao longo do tempo, foram organizados em grupos homogêneos de “homens e mulheres com obrigações análogas às dos frades” (30). O Papa Nicolau V, em 7 de outubro de 1452, assinou a bula “Cum Nulla”, estabelecendo as bases para Ordem Terceira (31). A bula permitia aos superiores da Ordem organizar vários grupos de mulheres que viviam como freiras de clausura ou como carmelitas leigas. Em 1476, o Papa Sisto IV permitiu que a Ordem Carmelita organizasse seus diversos grupos de leigos de acordo com as mesmas linhas dos terceiros de outras Ordens mendicantes.

III. Chamados a viver os conselhos evangélicos

Os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência são um convite para todos os fiéis, para todos os que querem seguir a Cristo mais de perto, que consiste na perfeição da caridade. “Se queres se perfeito, vai, vende os teus bens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. (Mt 19, 21)

“Os valores dos conselhos evangélicos, comuns a todo cristão, tornam-se para o terceiro um programa de vida, que atinja as esferas do poder, da sexualidade e dos bens materiais.” (Regra OTC, 13)

A profissão é um compromisso que se torna explícito sob a forma de uma promessa, com a opção de fazer votos de obediência e castidade, de acordo com as obrigações do estado da pessoa. Com o voto de obediência, o terceiro procura intensificar as promessas batismais de amar a Deus acima de todas as coisas e de renunciar a Satanás e a toadas as suas seduções. Escolhemos prosseguir em total conformidade com Cristo, o que se torna para nós santificação, nossa justiça, nosso amor, buscando amar a Deus como todo o nosso ser e amar aos irmãos como nós mesmos, reafirmando constantemente a primazia de Deus e recusando categoricamente servir a dois senhores. Nós nos comprometemos a buscar e a viver a vontade de Deus expressa no Evangelho, na Regra e no Estatuto da Ordem Terceira, sob orientação do assistente espiritual e da comunidade dos terceiros.

Com o voto de castidade, os terceiros se comprometem a viver, conforme o estado de vida de cada um, a beatitude evangélica de pureza de coração, o que lhes permite ver a Deus e expandir seu coração e desenvolver uma maior capacidade de amar. Isso resultará também numa atenção maior para os relacionamentos fraternos, particularmente para com aqueles mais necessitados.

Nos dias de hoje, os membros da Ordem terceira estão divididos em diversos, presentes em todos os continentes. Vivemos em nossas casas, criando nossa família, exercendo nosso trabalho, esforçando-nos para viver na oração, construindo a comunidade e servindo conforme nossas próprias circunstâncias (33).

Reconhecemos o Prior-Geral como pai espiritual, chefe e vínculo de unidade. Da Ordem Carmelita, recebemos a orientação e o encorajamento para promover e estimular a concretização dos objetivos da Ordem Terceira (34). Também recebemos a formação na espiritualidade carmelitana e participamos em encontros regulares das comunidades de carmelitas leigos (35). Nós nos tornamos membros da Família Carmelitana juntamente com os frades, eremitas, monjas contemplativas e irmãs de vida ativa, partilhando a herança espiritual do Carmelo e, ao mesmo tempo, contribuindo com a nossa porção para o desenvolvimento da Ordem.

Contudo, os leigos carmelitas têm uma ampla autonomia para tomar iniciativas e organizar a vida de fraternidade de acordo com os próprios estatutos de cada uma (36). Os leigos carmelitas podem eleger os próprios líderes, são assistidos espiritualmente por um sacerdote, que pode ser ou não um frade carmelita, ou ainda por um irmão ou irmã carmelita.

“Este empenho traduz-se em uma forma de promessa ou, em alguns casos, conforme um antigo costume, com a emissão dos votos de obediência e de castidade, segundo as obrigações do próprio estado. Deste modo, o terceiro consagra-se mais profundamente a Deus, de modo que possa oferecer-lhe um culto mais intenso. Mediante a profissão, o terceiro, na verdade, visa intensificar as promessas batismais de amar a Deus sobre todas as coisas e de renunciar a Satanás e às suas seduções. A originalidade desta profissão está nos meios escolhidos para atingir a plena conforme com Cristo”.

Isso requer um estilo de vida de pobreza, marcado pelo desapego dos bens e pelo comportamento altruísta para o serviço e a partilha.

“O carmelita sabe que comparece diante do Senhor de mãos vazias, mas põe todo seu amor esperançoso em Cristo Jesus, que se torna pessoalmente a sua santidade, a sua justiça, o seu amor, a sua coroa (38). O cerne da mensagem de Jesus — amar a Deus com todo o coração e ao próximo como a si mesmo — exige do terceiro uma afirmação constante do primado de Deus (39); a recusa categórica de servir a dois senhores (40) e a opção prioritária de amar o próximo, combatendo toda forma de egoísmo (41) e de fechamento em si mesmo (42).”

Recomenda-se a leitura da regra da Ordem Terceira Carmelita de 11 a 16.

NOTAS:

24.Rcgra do Carmelo 4

25. Id. 3; cf. Lúmen Gentium 43

26. Regra do Carmelo 6

27. McMahon. A Pattern…74

28. Ibid.

29. Regra da OTC

30. Regra da OTC 7

31.Ibid

32. Ibid

33. Família Carmelitana: www.carmelitas.ora

34. É a chamada altius moderamen (governança do alto) Direito Canónico se refere no Cânon 303. É um termo técnico que significa que a Ordem Terceira depende de certo modo da Ordem Primeira.

35. Família Carmelitana: www.carmelitas.org

36. Catecismo da Igreja Católica 31753 »

37. Regrada OTC 12

38. Cf. Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face. Oferenda de mim mesma como vítima de Holocausto ao Amor Misericordioso do Bom Jesus.

39. Cf. Mt 22,37

40. Cf. Mt 6, 24

41. Cf. Mt 22,9

42. Regra da OTC 12

CAPITULO 3

VIVENDO O CARISMA CARMELITA NA VIDA SECULAR

I. O Dom da Vida Carmelitana

Os homens e mulheres chamados para a vida carmelita reconhecem que o carisma e a espiritualidade da Ordem encontram ressonância no seu próprio coração, que foi tocado pelo Deus vivo.

Por Jesus Cristo, Filho do Pai e primogênito de toda criação, vivemos em união com Deus e nosso próximo de um novo modo. E assim, participamos na missão do Verbo Encarnado e formamos a Igreja, que está em Cristo como um sacramento – um sinal e instrumento de comunhão com Deus e da unidade de toda humanidade (43).

Entrar na experiência carmelita é tornar-se parte de uma história contínua. É entrar numa longa tradição humana, espiritual, eclesial e apostólica, que já foi testada pelo tempo. Embora haja uma necessidade de reler, reinterpretar e aprofundar nossa compreensão dessa tradição, isso não significa que precisamos começar do zero. Esse trabalho de contínua revisão fornece às pessoas muitas oportunidades para darem sua própria contribuição, com seus dons específicos, dessa forma enriquecendo, desenvolvendo e renovando a vida da Ordem.

II. In obsequio Iesu Christi

Como os frades, monjas e freiras, os carmelitas leigos também compartilham o mesmo carisma do Carmelo. “Viver a serviço de Jesus Cristo com o coração puro e uma consciência limpa” (45) é o núcleo da identidade e do carisma carmelitanos e, por conseguinte, como carmelitas leigos, somos chamados a viver essa identidade e essa inspiração na nossa vida diária, com nossa família, com a nossa comunidade ou com pessoas no nosso trabalho. A primeira chave para viver a serviço de Jesus para um cristão é deixar que Deus entre em nosso coração de forma que guie e santifique nossa vida.

Viver em obséquio de Jesus Cristo é abraçar seu evangelho como a regra suprema de nossa vida, pelo poder do Espírito que distribui seus dons a cada um, conforme a Sua vontade; procurando viver no serviço recíproco um ao outro e a toda gente. Desse modo cooperamos com o plano de Deus de congregar todos os homens e mulheres num único Povo Santo (46).

Nós, carmelitas, podemos viver em obséquio de Jesus Cristo deixando Deus entrar em nossa vida, em nossas decisões, nossa felicidade, nosso sofrimento, em nossa alegria e tristeza. Está a serviço de Jesus Cristo é um compromisso para viver nele, deixando Jesus guiar nossos pensamentos, nossos sentimentos, nossas palavras, nossas ações “de sorte que tudo venha de sua Palavra e seja feito em sua Palavra (47). Vivendo a dimensão do serviço a Cristo, precisamos pouco a pouco aceitar Jesus como a pessoa mais importante na nossa existência, que tem suas raízes numa “relação pessoal, aquecida, afetuosa e constante com Jesus”, “nutrida pela Eucaristia”, pelo Espírito Santo e pelas diferentes formas de oração”, de maneira que possamos assumir as palavras de São Paulo e dizer: “Jesus não sou cu quem vive, mas é Cristo que vive em mim (49). Assim, vivendo plenamente na companhia de Jesus e deixando que ele viva em nosso coração. Nós, terceiros carmelitas, podemos reconhecer Jesus nos acontecimentos diários, em nosso próximo, e testemunhá-lo pela nossa presença pelas estradas e caminho do mundo (50).

III. Oração e contemplação: o coração do carisma carmelitano

“Contemplação é a caminhada interior dos carmelitas, originada da livre iniciativa de Deus, que nos toca e nos transforma, conduzindo-nos em direção à unidade em amor com ele, edificando-nos de tal forma que possamos gozar do seu amor gratuito e viver em sua presença amorosa. É uma experiência transformadora do poder superior de Deus. Esse amor nos esvazia de nossas formas humanas, limitadas e imperfeitas, de pensar, de amar e de nos  comportarmos, transformando-as em formas divinas” (51) e nos torna capazes de “experimentar em nossos corações e experienciar em nossas almas o poder da divina presença e a doçura da glória celeste, não só após a morte, mas também durante esta vida mortal”. (52) A dimensão contemplativa não é apenas um dos elementos do nosso carisma (oração, fraternidade e serviço): é, sim, o elemento dinâmico que unifica todos os três.

Desde seu começo, a comunidade carmelita adotou um etilo contemplativo, nos seus valores fundamentais e também nas suas estruturas. Isso reflete-se claramente na Rega, que fala de uma comunidade de irmãos, inteiramente dedicados a uma escuta orante da Palavra, celebrando e louvando com zelo o Senhor (53).

Na oração, nós nos abrimos para Deus, que por sua ação, passo a passo, nos transforma através dos grandes e dos pequenos eventos da nossa vida. Esse processo de transformação nos capacita a construir e sustentar autênticos relacionamentos fraternos, também nos torna desejosos de servir, nos induz à compaixão e à solidariedade e nos qualifica a levar, perante o Pai, as aspirações, as angústias, as esperanças e as lágrimas do povo. (54. 55)

A contemplação tem também um valor evangélico e eclesial. A prática da contemplação é não só a fonte de nossa vida espiritual, mas também determina a qualidade de nossa vida fraterna e do nosso serviço no meio do povo de Deus. (56)

Na vida do leigo carmelita, há diversas características que distinguem sua vida no Espírito. Ela é marcada pela contemplação constante, focada em Jesus Cristo. O leigo carmelita procura viver uma vida de intensa oração, entendida como “uma atitude que implica o reconhecimento da mão de Deus” e a consciência de que essa ação invade a vida inteira de cada um e capacita a aceitar o amor gratuito como um dom (57). Desse modo. “orar” no Carmelo “torna-se vida, e a vida floresce na oração”, conforme afirmou São João Paulo II, numa carta à Ordem Carmelita (58). Essa oração encontra sua inspiração na “meditação” sobre a Sagrada Escritura (59, 60), que se expressa na Lectio Divina. A vida orante dos leigos carmelitas não é só particular, mas encontra sua fonte de vida espiritual nos Sacramentos com o seu centro na Eucaristia que alimenta a vida com “o pão vivo e a graça para continuar a caminhada”. Os carmelitas são estimulados a outras formas de oração em comum, especialmente o Ofício Divino (Liturgia das Horas) e outras práticas devocionais (61). Entre elas, de forma especial, está o sagrado Escapulário, “símbolo do amor maternal de Maria”, que é um memorial das virtudes dela e o chamado para “revestir-se interiormente de Cristo” e para “mostrar na vida a presença salvífica de Jesus”. (62, 63, 64)

IV. Fraternidade: partilhando a experiência de Deus na comunidade

Os carmelitas são chamados a viver em união com irmãos e irmãs num estilo de vida comunitária. Para os carmelitas, a vida comunitária não está simplesmente num lugar onde quatro ou cinco frades moram juntos. E, sim, um espaço onde os irmãos e irmãs demonstram união, fraternidade e caridade para com o outro. Fraternidade significa crescer em comunhão e unidade (65), superando privilégios e distinções (66) no espírito de participação e corresponsabilidade (67) e partilhando bens materiais (68).

Uma atitude contemplativa em relação ao mundo a nosso redor nos permite descobrir a presença de Deus nos fatos do dia a dia e, especialmente, ver Deus em nossos irmãos e irmãs. Assim, somos levados a apreciar o mistério daqueles com quem partilhamos nossa vida (69).

No seguimento da Regra do Carmelo, nós, carmelitas leigos também somos convidados a alimentar a fraternidade (70) com a escuta comunitária da Palavra de Deus (71) e na participação na liturgia – sobretudo quando nos reunimos para celebrar a Eucaristia; na partilha dos bens materiais e espirituais; conscientes do bem-estar de cada irmão e irmã (72), discernindo em conjunto o itinerário comum (73); tomando juntos decisões importantes (74); valorizando o silêncio (75) e, portanto, garantia de relacionamento não opressivos, não possessivos, respeitosos para com o outro. Enfim, partilhando o trabalho apostólico.

Esses valores fraternais encontram expressão e alimento na Palavra, na Eucaristia e na oração. Escutar, rezar e viver a Palavra, no silêncio, na solidão e na comunidade, principalmente sob a forma de Lectio Divina. (76)

Os carmelitas leigos podem viver a dimensão fraterna no seio de suas famílias “cuidando do bem-estar espiritual e psicológico do outro, trilhando o caminho do diálogo e da reconciliação” (77). Aprendem como cuidar de cada membro da família sobretudo dos mais velhos e dos jovens, compreendendo as características de cada um, ouvindo-os, abrindo-se para o outro, fazendo-se presente na vida deles. Dar atenção especial aos membros da família é um ato de bondade, amor e lealdade para com a família.

A dimensão fraterna também nos convida a aceitar e apreciar os pequenos inconvenientes diários na convivência com os outros. Quando nos aborrecemos, ficamos impacientes ou chateados com pessoas da própria família ou, às vezes, com estranhos. Santa Teresinha do Menino Jesus é um grande exemplo para todos nós compreendermos a beleza da vida fraterna. Ela ganhou muitos admiradores vivendo a pequena via, fazendo pequenas coisas com grande amor a Deus e aos outros (78).

As carmelitas leigos não são chamados a viver a espiritualidade do Carmelo de forma individualista, mas, sim, como irmãos e irmãs em qualquer lugar onde vivam: nas nossas famílias, nas paróquias, nas comunidades carmelitas, onde participamos da oração de modo especial quando celebramos a Eucaristia, quando discernimos a vontade de Deus ou quando tomamos decisões, quando cultivamos relacionamentos juntos que não sejam opressoras nem possessivas, mas respeitem a diversidade do outro, oi quando partilharmos a mesma mesa, o mesmo trabalho, nutrindo, assim, a espiritualidade carmelitana (79,80).

“A vida associativa dos carmelitas leigos deve destacar-se pela simplicidade e autenticidade; cada comunidade deve ser um lar de fraternidade, onde cada um se sente em sua própria casa, acolhido, conhecido, valorizado, encorajado na caminhada e. quando necessário, corrigido com atenção e caridade” (81).

A dimensão fraterna deve comunicar uma atitude de caridade, obras de misericórdia, altruísmo, serviço mútuo, na fidelidade a um objetivo comum (82). Os valores da fraternidade e da solidariedade devem encontrar sua expressão na abertura para o outro, na esperança compartilhada com os marginalizados, na demonstração de simpatia para com os desamparados e angustiados. A atitude fraternal, acima de tudo, não é falar belas palavras, mas, sim, com gestos de amor e serviço.

V No meio do mundo: A experiência de Deus nos envia à missão.

Como carmelitas leigos, existimos na Igreja e para a Igreja, c, juntamente com a Igreja, nós estamos a serviço do Reino (83). Enquanto nos esforçamos para enriquecer a Igreja pela especificidade de nosso carisma, nós cooperamos na construção do corpo de Cristo em plena comunhão com todos os outros membros da comunidade cristã (84). Essa comunhão se concretiza por meio de nosso engajamento na igreja local (85).

“Com uma fraternidade contemplativa, nós buscamos a face de Deus também no coração do mundo. Acreditamos que Deus estabeleceu sua morada no meio do seu povo (…). Os carmelitas serão solidários e ansiarão por colaborar com todos os que sofrer, que esperam, e estarão comprometidos na busca do Reino de Deus” (86)

Os carmelitas leigos participam na vocação da Ordem para o serviço, sendo chamados para servir o povo de Deus no mundo, no meio dos assuntos seculares, e para participar das atividades que promovem o bem comum e realizam a missão da Igreja.

O serviço do carmelita leigo está enraizado na missão de Jesus Cristo, que anuncia a Boa-Nova; e o chamado do leigo para o ministério é, portanto, uma parte integral de sua vocação como cristão e como carmelita leigo (87). Os carmelitas participam da sede de Deus para levar o povo de todas as épocas para o Salvador; e, dessa forma, os carmelitas procuram responder à sede do povo de hoje por Deus, sendo um sinal profético da presença de Deus por meio de seus irmãos, irmãs e amigos, que se preocupam especialmente com os últimos, os esquecidos, os oprimidos. Para muitos carmelitas leigos, a atitude de Santa Teresinha de Lisieux de ser “o amor no coração da Igreja” pode ser a mais importante contribuição para construir o Reino de Deus. (88, 89)

Os frutos do encontro deles com Deus na oração litúrgica e pessoal são vistos nas outras atividades e iniciativas apostólicas deles na vida familiar, no trabalho diário, sobretudo quando encontram dificuldades e julgamentos que suportam com paciência e aceitam com gratidão (90). Este compromisso com o apostolado faz parte da vocação dos membros da Ordem Terceira Carmelita, e através dele os leigos assumem a responsabilidade da promoção da mensagem cristã no trabalho apostólico de evangelização, nas obras de misericórdia e caridade, incluindo a oferta do sofrimento de alguém em união com Cristo (91). No seu apostolado, os terceiros “não deixam que a falha aparente os desaponte, nem os resultados escassos, nem a indiferença ou o sucesso daqueles que vivem contrariamente ao evangelho”. (92)

VI. Um zelo ardente como o de Elias

Elias é o profeta que arde de zelo por seu Deus, cuja palavra é uma tocha flamejante; o profeta que fica de pé na presença de Deus, sempre pronto para servi-lo e obedecer à sua Palavra; o profeta que aponta para o verdadeiro Deus de tal forma que o povo já não pode ficar com os pés em dois lados; o profeta que exorta o povo a escolher focar sua existência somente em Deus; o profeta que está atento não só à voz de Deus, mas também ao grito do pobre; que sabe como defender os direitos de Deus único e os direitos dos amados de Deus, os mais frágeis e os últimos.

Em Elias, vemos o profeta solitário que matou a sede no Deus único e uno e viveu em sua presença. É o contemplativo, ardente de amor apaixonado pelo Absoluto, que é Deus. Sua palavra arde como uma tocha. Elias é místico que, depois de uma jornada longa e preocupante, aprendeu a ler os novos sinais da presença de Deus. É o profeta que se envolveu com a vida do povo e que, lutando contra falsos ídolos, trouxe o povo de volta à fidelidade ao pacto com o Deus único. É o profeta solidário com os pobres e os esquecidos, e que defendeu os que sofrem violência e injustiça. (93).

Os carmelitas lembram e, até certo ponto, revivem a experiência do profeta; refugiam-se no deserto em tempos de seca; enfrentam o desafio dos falsos profetas de um ídolo morto que era incapaz de gerar vida; seguem Elias na longa jornada de volta através do deserto até o Monte Horeb para encontrar o Senhor de formas novas e inesperadas, e para compreender que Deus está sempre presente mesmo quando parece estar ausente; partilham a sede de justiça de Elias; sabem que eles mesmos são, como Eliseu, herdeiros do manto que caiu do céu e da charrete envolvida em chamas.

Como Elias, os eremitas carmelitas partiram numa longa jornada indicada pela Regra de Santo Alberto – um caminho que se estende pelos séculos até nós. Para eles e para os que os seguiram, Elias, assim, se tornou o primeiro a encarar o ideal da vida que os motivou a deixar suas casas. Eles se sentiram, em certo sentido, filhos dele, herdeiros de um patrimônio espiritual que, em várias formas, foi repassado a eles.

Coletaram as lendas judaicas e cristãs sobre Elias; reinterpretaram essas narrativas e se apropriaram delas. Assim, Elias, que, na tradução monástica já era considerado o primeiro monge e o modelo para os contemplativos, tornou-se para os carmelitas o protótipo dos místicos e o profeta que tem a intenção de cantar e ensinar o louvor de Deus a uma comunidade de discípulos; o defensor da justiça de Deus e o campeão para os mais fracos e desprezados. Os carmelitas desses primeiros tempos, como os carmelitas de hoje, falavam de Elias como o Pai deles – não no sentido histórico ou físico do termo, mas pelos valores que ele representa.

VII. Ser irmã e mãe como Maria

Ao dedicarem seu oratório a Maria, a Mãe do Senhor, os primeiros carmelitas a escolheram como patrona e confiaram-se a ela, consagrando sua vida inteiramente ao serviço dela e ao louvor a ela – expresso primeiramente na própria vida deles mais do que nos seus rituais. (94)

Ao longo de sua história, a família carmelita toda experimentou e celebrou em música a constante e carinhosa presença de sua mãe e patrona Maria, a estrela mística do Monte Carmelo, que protege seus filhos, abriga-os e os guia pelos caminhos que levam à alegria cio encontro transformador com Deus (95). Ela, que foi a primeira a gozar da experiência de união plena com Deus em Cristo, ajuda-nos a descobrir a beleza do nosso chamado e nos apoia na árdua subida “ao pico do monte que é Cristo, o Senhor”. (96)

O escapulário é o sinal e a lembrança de sua proteção e de nossa confiança nela. As festas em sua honra proporcionam oportunidades para dar graças ao Senhor pelo dom de Maria, “mais Mãe do que Rainha”. (97)

Na caminhada em direção a Deus, os carmelitas reconhecem a Virgem Puríssima como sua irmã, a nova mulher, que aceitou ser transformada pela ação do Espírito Santo. Maria, peregrina na fé, torna-se para eles um sinal de tudo aquilo que querem ser na Igreja (98).

Maria é a jovem mulher leiga que ouviu as palavras do anjo em Nazaré, acolheu a Palavra de Deus, nos introduz no mistério do Filho de Deus e nos ensina a obediência ao Espírito, que nos conduz à adesão total à vontade do Pai. Como ela se apressa a visitar Isabel, o exemplo de Maria nos ensina como servir ao outro na caridade, a maneira essencial de construir comunidade. Maria, Mãe de Deus, que nos apresenta o Deus-Menino em Belém, convida-nos para que nos tornemos “Portadores de Deus” (99) em todas as circunstâncias da vida. Maria, fugindo para o Egito com o Menino e São José, aponta as estradas do ascetismo e da purificação, a porta necessária para a experiência contemplativa de Deus. Maria, guardando e refletindo sobre todas as coisas no coração, nos ensina a buscar e reconhecer os sinais da presença de Deus nos acontecimentos da vida diária e a nos tornarmos discípulos do Senhor ouvindo a Palavra e pondo-a em prática. Em Caná, atenta às necessidades humanas. Maria aponta para Jesus como aquele que dá o vinho novo da salvação e nos convida a fazer o que ele diz. Aos pés da cruz, Maria nos ensina a ser fiéis até o fim, quaisquer que sejam as consequências. Recebida pelos discípulos como sua mãe, ela torna-se o modelo da Igreja orante, sempre aberta a receber e a partilhar o dom do Espírito.

Os carmelitas têm uma relação muito próxima e íntima com Maria, nossa Mãe e Irmã, que está presente em nossa vida pessoal e em nossa vida fraterna na comunidade.

NOTAS.

43. Constituições 1

44. MR,12; Constituições 120, Carmel: a place and a journey 4.6

45. Regra 4

46. Constituições 2

47. Transformação 6

48. Transformação 5

49.. Gálatas 2, 20

50. Regra 19

51. Constituições 16

52. Instituto Primorum Monachorum 1,2

53. Constituições 16

54. RI 23

55. RI 23

56. Constituições 18

57. Regra 33

58. São João Paulo II, Carta à Ordem carmelita

59. Regra de Santo Alberto. 10

60. Regra 37

61. Regra 38-39

62. Regra 40

63. Regra de Santo Alberto 5. 6. 8, 12, 15, 22. 23

64. Regra 42

65. Regra 10, 11

66. Regra 1-3,5, 17-18

67. Regra 67

68. Regra 3, 4. 9

69. Constituição 19

70. Constituições 20

71. Regra 7, 14

72. Regra 12

73. Regra 12, 15, 16,17

74. Regra 4, 5,6, 15

76. Constituições 20

77. Constituições 20

78. Teresinha de Jesus

79. RI VC 34

80. Regra OTC 46

81. Regra OTC 43

82. Constituições 21

83. Constituição 21. N. B. Amor pela Igreja e por sua missão é um elemento constante do Carmelo. Só umas poucas referências são mencionadas aqui: Santa Maria Madalena de Pazzi, Renovação da Igreja; Santa Teresinha do Menino Jesus, História de uma alma.

84. VC, 31,46-56

85. VC 48-49. Constituições 97-98

86. Constituições 21

87. Constituições 21

88. RIVC 38-40

89. Teresinha do Menino Jesus, Manuscrito B. Carta à Irmã Maria do Sagrado Coração. 254; Regra OTC 46

90. Regra 24-25

91. Regra OTC 98-99

92. Regra OTC 48

93. Constituições 26

94. Constituições 27

95. Prefácio II da Missa da Bem-Aventurada Virgem Maria do monte Carmelo.

96. Oração Coleta da Missa da Solene Comemoração da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo. Ver também Paulo VI, Alocução de 22 de junho de 1967: in AASLIX (30 set. 1967). N° 12. 779.

97. Santa Teresinha do Menino Jesus, Ultimas Conversas. 21 de agosto, 3

98. Prefácio I da Missa da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo

99. Beato Tito Brandsma. Leitura para o Congresso Mariano de Tangerloo (agosto 1936; Carmelita Misticism Sketches, Chicago II, 1936.

Capítulo 4

ESTRUTURAS DOS CARMELITAS LEIGOS

I. Leitura Anotada da Regra da Ordem Terceira

Os carmelitas leigos procuram o Carmelo atraídos por sua espiritualidade, buscando seguir a Cristo fielmente, guiados pelo amor que “faz o coração deles”. Na da Ordem Terceira Carmelita (OTC) ou Ordem Carmelita Secular (OCS), a Regra de Santo Alberto está presente de modo indireto, como pano de fundo de qual emana o carisma carmelitano. O primeiro texto da Regra da OTC data de 1455, e sua autoria é atribuída ao Beato João Soreth. A Ordem Terceira Carmelita recebeu a primeira aprovação jurídica eclesiástica em 7 de outubro com o Papa Nicolau, que, juntamente com a bula “Dum attenta” do Papa Sisto IV em 28 de novembro de 1476, estabeleceram os fundamentos da Família Carmelitana. A dimensão secular dos terceiros carmelitas tem sua regulamentação atual na Regra aprovada após o Concílio Vaticano II.

A Regra da OTC em vigor foi preparada pela Comissão Internacional para o Laicato, submetida à apreciação dos participantes do Congresso Internacional para os Leigos Carmelitas em 2001, em Sassone, na Itália. Isso aconteceu no governo de dois Conselhos Gerais: o de 1995 e o de 2001. A Regra foi aprovada em 3 de março de 2003 pelo Conselho Geral e em 11 de abril de 2003 pela Santa Sé. Foi promulgada em 16 de julho de 2003 e entrou em vigor em 8 de dezembro de 2003.

Referências:

– Regra da Ordem Terceira Carmelita, 20013

– Carta à Família Carmelitana: Para a Terra do Carmelo (Joseph Chalmens)

– Christifideles Laici

II. Estatuto Geral

A Ordem Terceira Carmelita (OTC) ou Ordem Carmelita Secular (OCS) é uma associação internacional de leigos com o propósito de trabalhar para o aperfeiçoamento cristão e dedicar-se ao apostolado, estando no mundo, permeados pela espiritualidade carmelitana, vivendo o Evangelho, sendo parte da Família Carmelitana e sob a direção da própria Ordem. Ela consiste de católicos leigos que, inspirados pelo Espírito Santo, prometem viver o Evangelho no espírito do Carmelo.

O Prior-Geral da Ordem Carmelita, pai espiritual e símbolo de unidade para toda a Família Carmelitana, garante o bem espiritual da Ordem Terceira e indica o Delegado para o Laicato, que é a pessoa responsável pelos leigos no âmbito internacional.

A OTC é dividida em comunidades que recebem vários nomes, é dirigida por seus próprios membros conforme a Regra e o estatuto de cada comunidade sob a suprema direção dos superiores da Ordem ou seus delegados. O estatuto dá ampla autonomia para os leigos conduzirem a vida da comunidade: eleger seus dirigentes e seus formadores. Contudo, a assistência espiritual na OTC é sempre garantida por sacerdote ou religioso da Ordem. Pode ser também um padre que, de preferência, seja membro da OTC e habilitado a realizar essa tarefa no espírito do Carmelo.

A Assembleia Geral, constituída por todos os membros da comunidade, é seu governo supremo. A comunidade é dirigida por um Conselho formado por membros conforme o estatuto local. O formador também participa do Conselho. É tarefa do Conselho, com a ajuda do sacerdote, fazer todo o possível para promover a comunidade de tal modo que seus membros possam se engajar na construção do Reino de Deus, em si mesmos e no mundo, conforme o espírito e o carisma do Carmelo.

Para ser membro da Ordem Terceira, o candidato deve preencher algumas condições: professar a fé católica, viver em comunhão com a Igreja, ter boa conduta moral, aceitar a Regra Carmelita, desejar viver e agir no espírito do Carmelo.

Depois de um período de discernimento, o candidato é admitido a uma etapa de formação espiritual conforme o estatuto. Mesmo após a profissão perpétua, a formação contínua sob a forma permanente.

Referências:

– A Regra da Ordem Terceira Carmelita

III. Estatuto Provincial

O estatuto provincial é a norma que unifica as diversas comunidades ou fraternidades da província ou do país. Há também uma síntese da tradição carmelitana, dada aos cristãos.

Parte II

“Formação dos Leigos Carmelitas”

Capítulo 5

A CAMINHADA DE FORMAÇÃO

I. Um Modo de Vida

A formação deve ser apresentada de modo tal, que as pessoas possam entendê-la e abraçá-la como um processo dinâmico que deve continuar por toda a vida, e não apenas uma forma de manter-se como membro permanente da Ordem.

Nunca se poderá dizer que o processo formativo está completo: o amadurecimento humano, espiritual, religioso e carmelitano vai progredindo à proporção que se desenrola a vida daqueles que, tendo encontrado a Cristo, respondem a seu chamado e o seguem na vida carmelitana aceitando que foram cativados e transformados pelo amor dele.

O processo formativo, pouco a pouco, desdobra a identidade carmelita deles, em constante relação com o carisma partilhado da Ordem, contribuindo para o próprio crescimento na maturidade e no desenvolvimento da própria Ordem.

Portanto, a formação não deveria ser vista como forma de acumular um rico acervo de ideias e hábitos ou de adotar um rígido estilo de vida. Ao contrário, deveria ser vista como forma de adquirir a capacidade de discernimento, flexibilidade e disponibilidade – qualidades que nos capacitam a uma constante renovação de nossa vida e à luta constante para aderir radicalmente a Cristo, de acordo com o modo de vida carmelitano.

II. Avançando no Itinerário de Formação

As linhas mestras da formação para os carmelitas leigos propostas pelo Conselho Geral são o resultado da necessidade geral de que as fraternidades ofereçam uma formação adequada aos que se aproximam da espiritualidade carmelitana. Também ajudam os formadores a selecionar os tópicos mais apropriados a cada período formativo. Podemos, pois, chamá-los “itinerários de formação”, uma vez que são dimensões nas quais crescem juntos, são estradas para serem percorridas de um modo novo. Nesses itinerários, cada etapa do processo formativo tem seu próprio planejamento, no qual os ensinamentos se baseiam e que os responsáveis pela formação não podem se afastar. Na verdade, os diversos tópicos propostos não são veredas separadas, mas, sim, diferentes aspectos de uma única realidade, que, em última análise, irão modelar de forma única o verdadeiro cristão e a comunidade verdadeiramente carmelita. Uma vez que esse objetivo é definido, tudo – organização, atividades, estruturas, interpretações – nada mais é senão meios para chegar ao alvo. Examinemos um por um.

No período de pré-recepção (Postulantado), os candidatos revisitam o itinerário batismal, com a intenção de torná-los mais participantes de um organismo vivo: a Igreja. Ao mesmo tempo, são ajudados a tornar-se conscientes da verdadeira motivação que os atraiu para o Carmelo. Em muitos casos, é porque estão fascinados por alguma coisa que irão sabem explicar.

No período de formação para a primeira profissão, os candidatos começam a se questionar sobre a validade da escolha que estão fazendo. Se decidem prosseguir, começam, então, a explorar e experienciar, ao lado dos outros candidatos e com a assistência do formador, a beleza do carisma carmelitano, que consiste em oração, fraternidade e serviço. É um período de provações, mas também de graças especiais. Os encontros formativos devem acontecer mensalmente ou conforme o estatuto local previr; o mais importante, porém, é que a formação mantenha o foco em certos aspectos fundamentais.

Os três anos que seguem a profissão temporária são aqueles em que o carisma do Carmelo é mais intensamente vivenciado, para tornar o candidato habilitado a fazer a escolha final. Durante esse período, os contatos com a família dos professos perpétuos devem ser intensificados. Mesmo assim, continuam a receber a formação específica para prepará-los para a profissão definitiva. Neste período, os professos temporários são convidados a ampliar seu horizonte para outras dimensões do Carmelo e devem participar nos congressos, e assembleias regionais, nos eventos da Família Carmelitana, em reuniões dos leigos da Província, para que se sintam cada vez mais parte de uma grande família, conheçam outras fraternidades e se acostumem ao diálogo com superiores religiosos da Ordem.

Após a profissão final, os novos carmelitas leigos trazem agora aos encontros de sua comunidade seu conhecimento, seus dons e talentos para o serviço a todos. A transição não é fácil, contudo. Tendo completado o período em que o relacionamento entre formador e formando era mais pessoal e envolvente, podem pouco a pouco tornar-se afetados pela tendência, que às vezes ocorre, a resignar-se à passividade e à mesmice. Os encontros de formação correm o risco de se tornar uma obrigação mensal ou quinzenal, com o objetivo de “relembrar” certas coisas, sem novas motivações e motivações e mudanças de atitude. O que, então, se pode fazer para que a vida da comunidade se torne uma experiência enriquecedora e ajude os professos simples a experimentar uma comunhão fraterna?

A formação, também, deve tornar-se uma experiência de serviço em atividades verdadeiramente úteis, correspondentes a necessidades reais, e não necessidades inventadas de acordo com preferências pessoais.

III. Uma Caminhada de Oração

A primeiríssima etapa na caminhada de formação de um carmelita leigo é a oração. Quando nos lançamos nessa caminhada, precisamos criar o hábito de reservar, todo dia, um pequeno espaço no nosso tempo para devotarmos exclusivamente à oração. Será bom criar um lugar específico onde esse encontro com Deus possa acontecer. É importante que, nas atividades do dia a dia, estejamos vigilantes para que sintamos a presença de Deus nelas, em cada pessoa, em todos os seres vivos e na natureza. Deus está conosco em cada momento e em tudo que fazemos.

Os carmelitas leigos devem permanecer em oração fielmente, a cada dia, e sentir a presença de Deus em sua vida. Para alcançar isso, devem amá-lo verdadeira e incondicionalmente “acima de todas as coisas” e também esforçar-se para continuar no caminho “perto”, subindo o Monte em cujo pico vão encontrar Cristo. De acordo com São João da Cruz, grande místico carmelita, nessa subida ao Monte, eles precisam deixar de lado tudo que esteja no caminho, de forma que cheguem ao Senhor libertos de todos os grilhões e sem levar nada.

A oração é um dos pilares nos quais o carisma carmelita se baseia. Sua prática deve começar imediatamente após a entrada no Carmelo, uma vez que não é possível ser carmelita sem o silêncio e a oração. É importantíssimo que o Assistente Espiritual e/ou Formador esteja apto para dar uma boa orientação, observando com atenção os recém-chegados, estimulando-os e guiando-os durante toda a formação.

A oração é o laço que une o homem a Deus, 110 qual o Senhor, pleno de amor, busca atrair para si toda a humanidade. O número que podemos fazer é retribuir incondicionalmente a esse amor. Só pela oração é que podem conhecer melhor e amar o Amado.

Durante o processo formativo, cada carmelita leigo aprenderá como amadurecer pela oração. Aprenderemos métodos de oração da Igreja e dos santos carmelitas de forma que possamos entrar em relacionamento com nosso Senhor e estar em união com Ele.

IV Uma Caminhada de Fraternidade

Outro pilar do carisma carmelitano é a fraternidade; por isso, o carmelita leigo não a dispensará na formação. Os carmelitas, inspirados na comunidade cristã primitiva citada por Lucas nos Atos dos apóstolos, vive a fraternidade na união, partilhando a vida um do outro. No mundo do Carmelo, a fraternidade é considerada o fundamento e a alma do carisma, em harmonia com suas duas outras dimensões: oração e missão apostólica no mundo. A Regra de Santo Alberto dá instruções sobre fraternidade, as quais permanecem válidas até hoje e estão expressas também na Regra da Ordem Terceira Carmelita.

O tema fraternidade requer boa base teológica, a partir da Palavra de Deus e da Eucaristia. A fraternidade ajuda a enfrentar diversas dificuldades. Devemos meditar, celebrar e praticar essa Palavra. Palavra e Eucaristia dão ao carmelita leigo uma base sólida para os valores abraçados por ele. Ao mesmo tempo, fazem o carmelita leigo abrir-se para o outro. É um dinâmico vivenciado dia após dia. Tal dinamismo do espírito de fraternidade é dirigido pelo relacionamento e integração entre o indivíduo e a comunidade. Cada um vai se juntando à comunidade para criar o bem comum. Como resultado, todos ganham maturidade, e a comunidade avança em qualidade de vida. A fraternidade permite superar o egoísmo; é ainda uma resposta para a falta de espírito fraterno no mundo; se ela é genuína, autêntica, estará a serviço de todos. A fraternidade, como fermento, faz a comunidade crescer na direção do Reino; deve dar prioridade à pessoa, em todos os seus aspectos, sobretudo no seu desejo de justiça e paz, é a fé, no mistério da vida.

Durante o processo de formação, cada carmelita leigo aprenderá no amadurecimento da vida fraterna. Dia a dia. com a assistência do Espírito Santo, a Eucaristia diária, a oração, o próprio esforço, a ajuda do formador e o apoio da comunidade, todos os membros encontrarão, na caminhada de formação, uma fonte de educação, ajuda, apoio, amizade e conforto. Dependendo da etapa de formação, o carmelita leigo será convidado a participar em celebrações litúrgicas da comunidade, assembleias, retiro espirituais; acima de tudo, será convidado para dias de convivência fraterna, nos quais, na companhia dos outros num clima de alegria e amizade, podem surgir relacionamentos espontâneos e genuínos entre todos.

O período formativo deverá transformar a pessoa de apenas ser ouvinte numa pessoa participante no diálogo, que vai estabelecer conexões entre os membros, ao mesmo tempo capacitando-os a receber e a dar. Cada um partilhará suas responsabilidades, participando de todos os encontros, conselhos ou assembleias considerando-os um assunto da comunidade, um fórum para comunicação de experiências e, conjuntamente, de assunção de responsabilidades. Para que isso ocorra, é necessário viver verdadeiramente um clima de fraternidade em cada sodalício e não permitir que o ativismo dos trabalhos domine, pois isso causa dispersão e rouba o tempo que poderia ser do diálogo fraternal, da reflexão sobre a vida e da oração comunitária.

V A Caminhada de Serviço

“Todo carmelita leigo é como uma faísca de amor lançada na floresta da vida; e deve ser capaz de inflamar a quem se aproxima dele.” Serviço é o último pilar para o sólido alicerce do carisma carmelitano. Com base no modo carmelita de compreender e viver a contemplação, somos convidados a estar no meio do mundo e a testemunhar para o mundo pelo nosso trabalho e serviço. Desde o início do processo formativo carmelita, deve ser despertada a sensibilidade fundamental para com as necessidades do outro. Assim está expresso na Regra da Ordem Terceira:

“Os terceiros reconhecem e mostram com a vida que as atividades temporais e o próprio trabalho material são participações na obra sempre criadora e transformadora do Pai” (…). (NT.1)

Partimos de uma atitude de altruísmo e de bondade para com o outro; assim as ações pessoais e comunitárias são fortalecidas, possibilitando o desenvolvimento do serviço de forma natural.

A formação para o serviço também nos encoraja a responder com autenticidade e prontidão ao Senhor que nos chama para sermos servos um do outro e nos envia a evangelizar pelo nosso modo de vida e por meio de formas específicas de serviço na Igreja e no mundo (100). Por essa razão, a perspectiva espiritual do carmelita leigo pode ser revitalizada pela capacidade de ver os detalhes de sua vida como parte da caminhada e também como parte do convite de Deus para o serviço. Isso significa que o serviço não é um mistério que os carmelitas leigos têm de esperar, mas são estimulados a participar ativamente dele.

A aprendizagem do serviço continua nas várias etapas de formação e se adapta aos diferentes estágios de discernimento. Sua estrutura deve ser flexível levando em consideração a cultura de cada província. Deve ter sensibilidade para as circunstâncias concretas da vida e a vocação de cada pessoa. É importante levar em conta a idade, as expectativas e a capacidade de cada formando. Os mais velhos devem ter abordagem diferenciada na formação, por exemplo.

Notas do Capítulo

100. Ratio 114

NT. 1 Regra OTC 49. Cfr. Gaudium et Spes 34

Capitulo 6

OS AGENTES E OS PRINCÍPIOS NA FORMAÇÃO

I. INTRODUÇÃO

As comunidades de carmelitas leigos devem buscar estabelecer e desenvolver relações com o laicato carmelita nos níveis provinciais, nacionais e internacionais para partilhar experiências, apoio recíproco e inspiração. Com o mesmo propósito, as relações com os outros ramos do Carmelo são sustentadas e alimentadas pela oração comum. É importante que os carmelitas leigos estejam sempre conscientes de que fazem parte da Igreja e de que são chamados a se engajar ativamente na vida de sua paróquia e no serviço apostólico diocesano.

É dever dos Conselhos averiguar com regularidade o bom andamento das comunidades, examinando também como vivem a dimensão da fraternidade, sem receio de identificar falhas pessoais ou do grupo (correção fraterna).

A formação dos terceiros carmelitas é um processo permanente de mudança e transformação. Sua caminhada gradativa em direção aos ideais escolhidos deve-se à natureza humana frágil e limitada, que, guiada pelo Espírito Santo, aprofunda sua vida de conversão que abrange um realinhamento radical em todos os níveis da existência do ser humano. (101) Nessa estrada para subir o monte, o amor de Deus transforma a pessoa e a separa de todas as coisas, de forma que a imagem de Deus, presente em todo homem e em toda mulher, possa ser redescoberta, purificada e transformada na imagem viva da nova criação. (102) O principal objetivo da formação dos carmelitas leigos é a clara redescoberta da vocação própria a cada um e a vontade cada vez maior de viver de acordo com ela e de cumprir a própria missão. (103) Alcançado esse objetivo, o membro da OTC descobre sempre melhor os sinais dos tempos e a presença de Deus na história e como o Senhor pode usar o carmelita leigo e a comunidade dele para a transformação do mundo. (104)

A ação de Deus, que forma, por meio do Espírito Santo, os corações de seus fiéis de acordo com os sentimentos de seu Filho (105), é mediada pelos formadores que, como “irmãos mais velhos” (106), acompanham os carmelitas leigos. Espera-se que o formador não seja apenas o transmissor de informações sobre o modo de vida carmelita, mas principalmente que ensine como vivê-lo. Esse conhecimento vem da experiência prática que o formador tem da oração, da vida fraterna e do ministério apostólico. (107)

II. OS CANDIDATOS

Cada carmelita leigo é responsável pela própria formação, por seu próprio bem, pelo bem da Igreja, pelo bem da Ordem e pelo bem das pessoas a quem ele/ela serve. Os terceiros têm que aprender como progredir de forma saudável e unitária. Os carmelitas buscam crescer nas virtudes especialmente na humildade e na pobreza, que é um contínuo e interminável processo de formação. Espera-se que os formandos se esforcem para pôr em prática, no dia a dia, os elementos da espiritualidade carmelitana, já que são conduzidos e acompanhados por pessoas responsáveis (diretor espiritual, formador, assistente espiritual, a própria comunidade) na sua busca da perfeição e da comunhão com Deus. Procurem levar em consideração, com responsabilidade, sua trajetória no Carmelo, em relação à vontade de Deus para eles. Respeitem a opinião e a decisão da comunidade como relevantes para seu processo formativo e em relação à sua recepção na comunidade.

III. OS FORMADORES

Os formadores são orientados a respeitar a singularidade da caminhada de cada pessoa para Deus e a ajudar o formando a discernir a própria vocação e a ação de Deus na vida dele/dela, o que não é possível sem o desejo do formador e do formando de serem iluminados pela palavra de Deus nas suas orações (108). Os formadores estão, portanto, obrigados a respeitar a devoção pessoal do candidato dentro da liberdade dada pela Igreja. Os formadores não imporão suas próprias ideias aos candidatos, mas ficarão atentos ao modo como Deus conduz a pessoa, respeitando-lhe a consciência. Os formadores ajudarão os candidatos em seu crescimento através de encontros pessoais, que deverão ser regulares; eles serão disponíveis, pacientes e compreensíveis. Os formadores apresentarão claramente as exigências do seguimento de Jesus no Carmelo. (109) Como o objetivo do discernimento é descobrir a vontade de Deus, pode ficar evidente que o candidato não é chamado ao Carmelo. Nesse caso, ele deve ser ajudado a buscar outro caminho mais apropriado com gentileza e humanidade.

Os formadores aceitam esse serviço com responsabilidade. Devem ser bem escolhidos no nível comunitário dentre os próprios carmelitas leigos como um leigo que é capaz de introduzir outro leigo na forma específica de viver a espiritualidade carmelitana. Darão exemplo com a própria vida e fornecerão aos candidatos alimento doutrinal e espiritual, baseados na própria experiência. Isso exige que os formadores tenham boa formação, com bom conhecimento da Doutrina Católica e do modo carmelita de vida. (110)

IV. OS FRADES E O DELEGADO PROVINCIAL

Os frades, particularmente o delegado provincial para os carmelitas leigos, oferecem assistência na formação e nos retiros. Os representantes procurarão levar em consideração o progresso dos candidatos, observando o caráter gradual da formação, que não deve ser apressada nem indevidamente prolongada (111). Contudo, os formadores não deixarão prosseguir no processo formativo quem:

A). Não tiver vocação para a Ordem Terceira Carmelita;

B). Não tiver boa conduta moral e não desejar viver nem agir no espirito do Carmelo;

C). Não puder, por qualquer outro motivo sério, ser admitido na comunidade da Ordem Terceira. (112. 113)

V. COMUNIDADE LOCAL

A OTC local procurará levar os candidatos a experienciar os valores de uma fraternidade carmelitana. A comunidade será flexível, sem rigidez na aceitação de candidatos. Os membros da comunidade são chamados a ser exemplo de vida e fé para os candidatos. Os frades carmelitas contribuirão para o discernimento dos candidatos durante a formação, acompanhando a vida espiritual da comunidade carmelita leiga.

Eis alguns pontos concretos que acompanharão a formação, para que seja frutífera e possibilite o discernimento:

• O discernimento deve ser feito com o Senhor, num sincero espírito de oração e abertura, suplicando a ajuda do Espírito Santo.

• Os encontros com o diretor espiritual e o formador são importantes.

• A questão básica é “O que Deus quer de mim nesta situação”?

• É importante provocar o candidato com os três elementos do carisma (oração, fraternidade, serviço e apostolado) como forma concreta e iniciadora da própria experiência.

• O discernimento refere-se a ambos: o formando e a comunidade.

• Um bom discernimento leva a uma decisão serena, depositando a confiança no Senhor e na comunidade de modo pacífico e realístico.

• Todo discernimento será feito por um período limitado de tempo (uma data clara deve ser fixada)

• Prorrogação de prazo é sempre possível de acordo com a opinião do formador e do conselho da comunidade, ouvindo também o diretor espiritual.

• É útil ter em mente algumas perguntas para reflexão, mas que sejam preparadas para estimular uma meditação profunda e não para exigir respostas certas ou erradas. Algumas questões que poderiam ser feitas sobre a atitude do candidato a respeito da vida ou em relação à oração serão mais bem respondidas pela observação do que pela pergunta direta.

Notas

101. Cf. R 21

102. Cf. R 22

103. Cf. São João Paulo II, Christifideles Laici 58

104. Cf. R 23

105. Cf. Filipenses 2,5.

106. RIVC 57

107. RIVC 57

108. Cf. 58″

109. Cf. RIVC 58b

110. Cf. RIVC 58c

111. Cf. RIVC 58d

112. Cf. R 76 113. RIVC 115