Tradução de Frei José Cláudio Alencar Batista, OCarm

Queridos irmãos e irmãs da família carmelitana, aproxima-se a solenidade de Nossa Senhora do Carmo e, por isso, quero enviar uma cordial felicitação a todos vocês que, de um modo ou de outro, fazem parte da família do Carmelo. Nesta data, não só recordamos e celebramos a Mãe do Senhor com a bela invocação do Carmelo, mas também nos sentimos parte de uma família que, com sua identidade particular, vive sua fé a serviço da Igreja e da humanidade.

Este ano minha felicitação tem um tom especial, porque, depois de doze de anos de serviço à Ordem como Prior Geral, deixarei este posto no Capítulo Geral que celebraremos em Sassone (Roma, Itália), de 09 a 29 de setembro. É esta a primeira mensagem que lhes desejo enviar este ano: que todos (religiosos, monjas contemplativas, religiosas de vida ativa, terceiros, leigos dos diversos grupos, etc.) nos unamos verdadeiramente em oração para que o Capítulo Geral seja um tempo de graça, de reflexão profunda, de discernimento e de fraternidade. O tema que escolhemos para o nosso Capítulo, como já o sabem, é: “Vós sois minhas testemunhas” (Is 43,10); de uma geração à outra: “chamados a ser fiéis ao nosso carisma carmelitano”. Tal tema foi escolhido em virtude de que, nestes últimos decênios, a Ordem tem crescido muito geograficamente, o que é uma verdadeira bênção e um motivo de alegria para todos nós. Porém, estas missões ou novas presenças contém em si um desafio, sobretudo no que se refere à formação dos futuros carmelitas, uma formação que deverá combinar o específico das culturas locais com a tradição mais genuína da Ordem, à qual devemos ser fiéis e da qual devemos ser transmissores.

Trata-se, sem dúvida, de um desafio fascinante, mas também complexo. Além disso, é uma grande responsabilidade com a qual devemos nos confrontar com muita seriedade, dado que disto dependerão, em grande medida, as configurações e a validade do Carmelo do século XXI. Por isso é importante que o Capítulo reflita, entre outras coisas, este problema em profundidade, com critérios evangélicos, seriedade e generosidade.

O Capítulo também terá a tarefa, indicada no Capítulo de 2013, de revisar as Constituições. Como já repeti várias vezes, não se trata de elaborar novas Constituições, mas de incluir alguns aspectos que estavam ausentes e que fomos tomando conhecimento com o tempo, ou de acrescentar algumas referências aos últimos documentos oficiais da Igreja, ou de aperfeiçoar melhor alguns números que, com o passar do tempo, tornaram-se obsoletos ou insuficientes frente às novas problemáticas e desafios da nossa sociedade.

Não é necessário destacar a importância deste trabalho. As Constituições não são somente um instrumento jurídico ou administrativo, mas devem mostrar o que somos e, ainda mais, o que queremos ser. Não são normas vazias e desencarnadas, fruto de um legalismo antiquado, mas mostram o nosso humilde empenho de viver como carmelitas do século XXI que, com alegria, generosidade e criatividade, se colocam ao serviço da Igreja e da evangelização. Ademais, embora as Constituições se refiram diretamente aos religiosos, influenciam também, de certo modo, na vitalidade de toda a família carmelitana.
Outrossim, o Capítulo deverá eleger os irmãos que animarão a vida da Ordem no próximo sexênio. Desde já, nos colocamos numa atitude de generosa e afetuosa colaboração com os irmãos que serão eleitos para este delicado trabalho e que assumirão o encargo de dirigir a Ordem para que seja sempre mais fiel à sua missão e ao carisma recebido.

Em não poucas ocasiões já coloquei em evidência a importância da nossa estrutura capitular, própria das ordens mendicantes. Não é só uma modalidade de organização ou de administração (tão válida quanto outras), mas leva consigo toda uma “cultura capitular” e, ainda mais, uma “espiritualidade capitular”. Esta dinâmica capitular porta inclusive uma teologia, uma forma de entender os sinais dos tempos nos quais Deus se manifesta, uma forma de compreender o discernimento espiritual, a autoridade, a sinodalidade, etc.

Por isso, nas festividades que estamos para celebrar, tenham muito em conta esta intenção diante daquela que é Mãe e Irmã, na presença da Estrela do Mar, que nos tem guiado e acompanhado durante estes oito séculos e que, sem dúvida, continuará a fazê-lo agora que entramos no terceiro milênio, cheio de desafios, de necessidades de todo tipo e também de esperanças. Da oração sincera e fraterna de todos nós dependerá em grande parte o êxito de nosso Capítulo Geral.

Gostaria de aproveitar esta ocasião para compartilhar com vocês alguns sentimentos ao terminar meu período como Prior Geral da Ordem. Permitam-me esta nota pessoal sem grandes pretensões e feita em tom fraterno e informal.
Se tivesse que destacar o que sinto neste momento, a palavra que melhor exprimiria seria “gratidão”. Gratidão ao Senhor por me ter chamado ao Carmelo e pela ocasião e grande honra de servir aos irmãos em âmbito internacional, gratidão pelas belas experiências de fraternidade, de missão, de serviço e de solidariedade que tive a oportunidade de conhecer durante estes anos. Confesso a vocês que, sem negar os problemas, as necessidades e as dificuldades ocorridas neste período, não poucas vezes me senti profundamente orgulhoso de ser carmelita e de pertencer a esta família. Não quero citar nenhuma experiência concreta (seriam tantas!), mas posso lhes dizer que muitos carmelitas, com o seu trabalho generoso, alegre, simples, sem muita publicidade e quase anônimo, me edificaram e enriqueceram, ajudaram-me a prosseguir o caminho e a renovar minha vocação. Por todos eles, pelas nossas irmãs contemplativas, pelas religiosas de vida ativa que se dedicam ao ensino, às missões, aos enfermos, pelos nossos leigos que muitas vezes vivem com grande esperança e generosidade a sua pertença ao Carmelo… vale a pena continuar a semear e a crescer como carmelitas do século XXI.

Gostaria também de pedir desculpas àqueles que em algum momento se sentiram decepcionados ou que esperavam algo diferente. Quem me conhece bem, sabe que este pedido de perdão não é um formalismo, um gênero literário que se utiliza sempre no fim de uma missão, mas que o digo de todo coração.

O Carmelo segue processos diferentes nas várias partes do mundo onde nos encontramos. Enquanto a Ásia tornou-se a maior zona geográfica da Ordem, a Europa e a América do Norte se veem imersas num processo de falta de vocações e de diminuição alarmante de nossas províncias que já dura várias décadas. A América Latina continua crescendo num ritmo estável e as jovens presenças da África, não obstante sua fragilidade, vão se consolidando e deixando entrever um futuro bastante promissor.

Em cada caso, a estratégia da Ordem deve ser diferente. O governo geral não pode agir só a partir dos critérios ou da conjuntura de uma determinada região geográfica. Seria frustrante nos deixar levar pelo pessimismo, ignorando que existem regiões do mundo no qual o Carmelo cresce com muita pujança. Seria irresponsável ignorar que existem carências e dificuldades pela falta de pessoal e que isso supõe a restruturação das nossas presenças em outras zonas do mundo. Ainda que a Cúria esteja em Roma, na Itália, na Europa… é a Cúria de toda a Ordem, em sua riqueza e diversidade.

Todavia, em qualquer caso, devemos manter um estilo evangélico, próprio de homens de fé que agem movidos por outros valores. Com muita humildade, realismo, coragem e esperança nos sintamos orgulhosos e agradecidos por esta internacionalidade, pela diversidade de línguas e culturas, que consideramos uma benção e uma riqueza enorme, e assumamos desafio de oferecer e compartilhar o carisma carmelitano com todos.

Neste sentido, procurei durante estes anos manter um sadio equilíbrio entre a presença ativa em Roma e a presença nas periferias da Ordem – para usar uma expressão tão amada pelo Papa Francisco – , da qual a vida eclesial pode ser vista com outras sensibilidades, com acentos e outros matizes, coisa que, sem dúvida, enriquece e completa o nosso serviço à Igreja universal. Por isso, pude contar com a ajuda inestimável dos diversos conselheiros e do Pe. Christian Körner, Vice-Geral, que tem mantido com grande generosidade e eficiência a atividade propriamente curial. Também têm servido de grande ajuda para manter este contato com as diversas realidades vivas da família carmelitana, tanto o Procurador Geral como o Delegado para as Monjas, o Webmaster e a Postuladora Geral. A todos eles a minha mais sincera gratidão.

Enfim, e como costumo fazer todos os anos, gostaria de recordar alguns aniversários que celebramos este ano, que não deixam de ser significativos, acerca da nossa história e identidade, sobretudo no que se refere à dimensão mariana do carisma, e que, por sua vez, nos projetam em direção a um futuro cheio de desafios.

Em primeiro lugar, quero mencionar o primeiro centenário da coroação canônica da imagem da Virgem do Carmo (Nossa Senhora do Carmo) do Recife, que ao mesmo tempo foi nomeada Patrona da cidade e da Província Eclesiástica de Pernambuco, no Nordeste do Brasil. Creio que não exagero ao dizer que se trata da festa da Senhora do Carmo com maior afluência de fiéis no mundo. Cada ano, na solenidade do dia 16, centenas de milhares de pessoas participam das celebrações e da procissão e honram à Virgem do Carmo com grande devoção. A poucos quilômetros de Recife se encontra o convento de Olinda, considerado a primeira fundação carmelitana do continente americano, do qual celebramos solenemente faz alguns anos, o restauro e a re-dedicação.

Esta profunda conexão entre a missão e uma sadia devoção mariana deve motivar-nos a continuar o trabalho cotidiano nesta mesma linha. A piedade popular mariana não pode nos distrair da missão fundamental do cristão de anunciar a boa notícia da salvação; esta piedade – se é autêntica – nos envia, nos interpela, nos lança a ser testemunhas vivas do Evangelho e a vivê-lo com gratidão e generosidade.

Parabéns à Província Carmelitana Pernambucana e a todo o Carmelo brasileiro por este centenário. Que Nossa Mãe do Carmelo faça crescer a Ordem e a família carmelitana nessas terras.

Em segundo lugar, quero destacar que, como já sabem das comunicações oficiais da Ordem, estão começando as comemorações do oitavo centenário da morte de Santo Ângelo da Sicília, para o qual foram organizadas uma série de celebrações religiosas e culturais que se desenvolverão nos próximos meses. Santo Ângelo é, sem dúvida, uma das figuras significativas dos primeiros tempos da história de nossa Ordem. Por conta da escassez de dados que possuímos da sua vida, sabemos que, com toda probabilidade, veio da Terra Santa (também é conhecido como Santo Ângelo de Jerusalém) e dedicou a própria vida à pregação. Também se costuma vinculá-lo, inclusive iconograficamente, a São Domingo de Gusmão e São Francisco de Assis, pondo em evidência a inserção do Carmelo entre as ordens mendicantes. Este ano celebramos também os 50 anos da restauração da Província Britânica, uma das mais antigas da Ordem e suprimida no século XVI, no momento do cisma nos tempos de Henrique VIII. Por este motivo, celebrarei a Solenidade da Mãe do Carmelo em Aleysford e, depois, em Gales, um dos lugares onde os carmelitas irlandeses iniciaram os trabalhos de restauração. A Província, conhecida agora como Brittania Maioris, é dedicada à Assunção da Virgem Maria, o mistério mariano que nos recorda que a Senhora nos precede no caminho, que é penhor e garantia do chamado universal à salvação. Nos países de minoria católica, mas também em todo o mundo, a Igreja nos pede hoje um esforço para viver a nossa devoção mariana com autenticidade, sensibilidade ecumênica e com a mesma humildade que tornou Maria quem ela é (Lc 1,48-49). Talvez nestes países se faça realidade, de modo mais perceptível, que Deus age no pequeno e que só a partir deste se pode construir o seu Reino. Por esse motivo, quero parabenizar a Província Britânica por este aniversário e a Província da Irlanda que, com generosidade, embarcou nesta aventura de restaurar o Carmelo na Grã-Bretanha.

Por último, quero fazer menção à celebração dos 25 anos da beatificação de Isidoro Bakanja, o jovem congolês que foi brutalmente golpeado por haver recusado renunciar a sua fé e retirar o escapulário da Mãe do Carmelo que levava ao pescoço e que era para ele um sinal tangível da fé que professava. Esse escapulário, que era para ele uma recordação do seu batismo, o levou à atitude verdadeiramente heroica de perdoar quem lhe havia ferido mortalmente, e, além disso, levou-o, definitivamente, ao sublime testemunho da caridade evangélica elevada ao máximo grau, o martírio. O seu testemunho, proposto à Igreja há 25 anos na solene cerimônia de beatificação em Roma, deve continuar a ser para nós hoje uma verdadeira fonte de inspiração. Os humildes, como Isidoro, nos mostram aquilo que é mais genuíno e mais autêntico da nossa devoção mariana.

Em 2020 será um novo Prior Geral quem assinará esta carta por ocasião da festa da Mãe do Carmelo, nossa Mãe e Irmã, a Domina Loci que está no centro das nossas vidas, nos inspira e nos encoraja a viver o carisma carmelitano ao serviço do Evangelho, do povo de Deus e de toda a humanidade.

Desde agora lhe desejamos todo bem e um frutuoso serviço à família do Carmelo. Colocamos sob a proteção materna de Maria tanto o capítulo Geral como o próximo sexênio. Ela saberá nos guiar com doçura e afeto e, como Stella Maris, nos mostrará o caminho da salvação ao qual ela, Maria de Nazaré, entregou a sua inteira vida.

Um forte abraço a todos. Felicidades!

Fernando Millán Romeral, O.Carm.Prior Geral


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