Capítulo I

Alguns dados

Edith teve como pais Siegfried e Augusta Stein-Courant; ela nasceu em Breslau, na Silésia, no dia 12/10/1891, dia da Grande Reconciliação (Yom Kippur) (Lev. 16) como a undécima criança dessa família, recebendo o nome de Edith Sarah. Quatro crianças morreram na tenra infância; e quando Edith tinha dois anos seu pai veio a falecer. Ficou por conta da mãe a educação dos sete e o comércio de madeira, sendo a situação de pobreza. Menina bem-dotada, sensível aos problemas dos outros, sempre disponível a um gesto de ajuda e segura de si, ela, desde pequena, sentia-se interiormente solitária. O Deus que lhe era apresentado, ela não podia adotar, enquanto sentia grande necessidade de uma unidade espiritual, uma alma, um sentido global que desse consistência ao viver.

Fazia um século que os judeus tinham adquirido sua identidade com direitos iguais na sociedade, o que contribuiu para enfraquecer a sua ligação com a prática do judaísmo. Mas a família de Edith era praticante, transmitindo uma educação ortodoxa para os filhos. A mãe lhes ensinou orações em hebraico e as bênçãos para refeições, o sábado e várias situações na vida. Os filhos, porém, não seguiram a mãe na prática religiosa. Quem sabe, a sinceridade na educação familiar ajudava para fazer perceber o aspecto fragmentário da realidade, tanto social, como científica e religiosa. Não bastava o subjetivismo do imediatamente experimentado, mas requeria-se a solidez objetiva da verdade. Estava aberto o caminho para a busca.

Edith desfrutou de uma vida familiar equilibrada, num clima de aconchego; desenvolveu um caráter suave, apaixonado e sensível, inteligência privilegiada com fome insaciável do saber. Muito segura de si, com valores bem arraigados no seu íntimo, ela logo se impôs a colegas que nela vinham buscar formas variadas de ajuda. Um professor observou para uma colega de Edith: “Bate nessa pedra (Stein) e sairá sabedoria”. Diante de fronteiras, ela não se rendia facilmente, mas reconhecia que não podia fechar-se diante do mistério da realidade com suas possibilidades surpreendentes e inesgotáveis.

Após o ginásio, Edith ingressou na universidade de Breslau iniciando o estudo de medicina, mas em 1911 começou o estudo de história e filologia, em seguida de psicologia experimental e finalmente de filosofia. Seus professores ficaram impressionados com a sagacidade de sua inteligência e a exatidão de suas avaliações, mas não conseguiram detê-la em Breslau devido à sua ambição intelectual e sua postura social e política. De fato, ela passou a lutar pelos direitos da mulher, pelo direito da greve e pela socialdemocracia da república de Weimar (1919-1933), cuja falência abriu as portas ao nacional-socialismo.

Capítulo II

Em Busca

Embora os estudos a deixassem num certo vazio, ela os continuou ampliando a sua visão. Caiu na total indiferença diante de questionamentos religiosos, chegando a denominar-se ateísta. Mesmo assim, por sentimentos de compaixão, continuou a acompanhar sua mãe à sinagoga. Essa delicada sensibilidade e a abertura de espírito a acompanharam em toda a sua trajetória. Posteriormente renasceu para a admiração diante da realidade que lhe foi revelando novas dimensões muito além dos horizontes de esquemas fixos e de ideologias de dominação. Agora a verdade passa a ser uma certeza que vem dar direcionamento à sua busca.

No estudo fenomenológico, Edith despertou para a percepção dos fenômenos e o seu significado para a vida. No verão de 1912, ela entrou em contato com a riqueza do pensamento filosófico de Edmundo Husserl (1859-1938), o que a libertou da visão estreita que herdara da universidade de Breslau. Conheceu também o pensamento da filósofa Hedwig Martius e resolveu mudar para Göttingen, onde ambos residiam. Desencantada com o subjetivismo da psicologia, que ainda estava engatinhando, ela se entusiasmou pelo método objetivo da fenomenologia, onde a realidade fala de si. E seus professores, judeus que adotaram a fé cristã – Husserl, Adolf Reinach e Max Scheler despertaram nela também a pesquisa religiosa, uma vez que a ciência não conseguiu saciá-la em sua busca da verdade.

Relações de amizade a ajudaram a descobrir o Cristianismo e o significado da cruz. Do seu encontro com A. Reinach, assistente de Husserl, ela diz, a partir de sua posição inferior de mulher: “Nunca me tinha sentido acolhida por um ser humano, com tão grande bondade…Foi como se um mundo novo se abrisse para mim”. Ela também foi tocada de admiração pelo testemunho de vida de Max Scheler, Hedwig Martius e Anna e Adolf Reinach que se fizeram janela aberta para o mundo da fé, cuja influência ela ia sofrendo quase imperceptivelmente. Na Primeira Guerra Mundial, ela interrompe seus estudos e passa a trabalhar como auxiliar de enfermagem no hospital austríaco de Maehren, tratando dos feridos.

Em agosto de 1916, ela defende a tese, “summa cum laude”, Sobre o problema da introdução e, ela se torna doutora em filosofia e aceita o convite de Husserl para ser sua assistente na universidade de Freiburg em Breisgau. Após um ano e meio reconhece que, sem fazer sombra ao mestre, ela não consegue prosseguir com independência a sua pesquisa. Resolve, então, renunciar à sua função de assistente, sem que rompa com a amizade. Quando Adolf Reinach, discípulo de Husserl e filósofo, falece na Bélgica, em 1917, sua esposa Anna convida Edite para ordenar os escritos do marido em vista de uma publicação póstuma. Aceitou o convite de bom grado, mas temia o encontro com a viúva, pois não sabia como consolá-la por não acreditar numa vida eterna. (Reinach, judeu, tinha aderido à Igreja Evangélica.)

Para surpresa sua encontrou essa amiga muito sofrida, mas não abatida e portadora de uma força interior que muito a impressionou. Batizada havia poucos meses, ela encontra na fé uma grande força e paz. Mais tarde, Edith escreverá: “Este foi meu primeiro encontro com a Cruz e a força divina que ela imprime nos que a carregam. Pela primeira vez vi de modo palpável diante de mim a Igreja, nascida do sofrimento redentor de Cristo, na sua vitória sobre o aguilhão da morte. Esse foi o momento em que minha descrença implodiu e Cristo passou a brilhar, Cristo no seu mistério da Cruz”. (PC, p. 116). Aqui aprendeu que não é o conhecimento racional que muda a pessoa, mas o ser tocado pela própria verdade. Porém, persiste à vontade no seu esforço de resistir às consequências que emanam do encontro com Deus. Edith fala dessa “sombra da morte” que a perseguiu entre os anos 1917 a 1921.

Concluído o serviço, ela retornou para Freiburg, onde ficou até 1918 quando começou a procurar um emprego de professora de filosofia. A elogiosa recomendação de Husserl não bastou para que alguma universidade assumisse o risco de contratar uma mulher como docente. Em 1920 está de volta em Breslau onde, na casa paterna, passa a dar aulas particulares, mas nada feliz com essa exclusão contra a mulher. Ela escreve: “O chão me queima debaixo dos pés. Estou passando por uma profunda crise que, na casa paterna, não poderá chegar a uma solução”. Em sua busca religiosa, começou a ler o Novo Testamento vacilando na decisão de aderir à religião católica ou evangélica. Até que foi confrontada com uma surpresa.

Capítulo III

Encontro Decisivo

Durante seus anos de estudo em Göttingen, Edith fizera amizade com Hedwig Martius que posteriormente casou com o filósofo Theodor Conrad e fixaram-se em Bergzabern, num sítio, tendo adotado uma criança. Cultivavam a terra e praticavam a filosofia fazendo de sua residência um centro de encontro para filósofos de Göttingen. Foi para lá que Edith se dirigiu e permaneceu por um bom tempo, usufruindo da paz e das discussões filosóficas. No verão de 1921, quando a família foi de férias, ela permaneceu ali sozinha. Ocasionalmente encontrou na biblioteca a Autobiografia de Sta. Teresa de Ávila. Como fenomenóloga, Edith deixou impressionar-se pelo senso agudo da realidade, pela riqueza de experiências e pelo realismo das descrições dessa grande Santa Carmelita. Com prazer passou a aprofundar-se nessa leitura.

Sem interrupção foi até a última página, quando concluiu: “Esta é a verdade”. Nessas páginas, ela encontrou algo de sua própria relutância com seus questionamentos. E convenceu-se de que não podemos ser fiéis a nós mesmos, caso não demos resposta à experiência de Deus. Trata-se de uma relação pessoal. Mas sempre inquieta na busca, não lhe bastou encontrar a verdade, precisava praticá-la. Sem esperar, Edith decide comprar um Catecismo e um Missal e sozinha começa a aprofundar-se na fé católica. Sua amiga não foi informada pela descoberta, sendo que Edith continuou reservada.

Não é nada fácil o acesso ao aspecto paradoxal dessa vida. O judaísmo sempre a acompanhou e iluminou seu caminho, a fenomenologia de mestres judeus com explícito acento cristão lhe abriram caminhos, mas somente com a ajuda de Teresa, também de ascendência judaica, ela viu a verdade estender-lhe os braços. E depois encontra em João da Cruz, igualmente de sangue judeu, a inspiração para o seu testemunho final, judaísmo e Cristianismo, no destino de Edith, andam sempre de mãos dadas qual túnica inconsútil.

Capítulo IV

Retorno para Deus

Foi no dia 1 de janeiro de 1922 que Edith Stein, aos 30 anos de idade, foi batizada por Eugen Breitling na igreja St. Martinus em Bergzabern, com o nome de Theresia Hedwig, sendo Sta. Teresa sua inspiradora e Hedwig Conrad, a grande amiga, sua madrinha. Longa foi a caminhada, mas rápido o caminho. Após encontrar a verdade, ela não pôde deixar de reordenar a sua vida. Ela escreveu: “A aceitação da verdade revelada não resulta de uma simples decisão da vontade. Muitos, pois, não se deixam mover havendo também casos de um “eu não posso” muito misterioso. A hora da graça, então, ainda não veio”. Quem sabe, ela pensava no seu povo. Tudo indica que ela fez do batismo a sua resposta à pergunta: “Onde estás?”(Gen. 3,9) Enveredou pelo caminho de Jesus de Nazaré sem distanciar-se de suas raízes. “Após o meu retorno para Deus senti-me antes de tudo judia”. Na sua conversão, portanto, não há ruptura entre judaísmo e cristianismo; e este não ocupa o lugar daquele nem o complementa. Sua originalidade é viver a tensão entre as duas tradições que aparentemente se excluem. Amigos não compreendiam essa experiência de Deus e estranhavam a oração demorada de Edith nas igrejas de Speyer e Beuron.

A relação entre mãe e filha passa a ser tensa, estremecida, com tristeza e ternura. Edith não deixa de acompanhar a mãe na ida à sinagoga e em casa segue os rituais, como o jejum, de sua idosa mãe como também essa participação na tradição familiar não a impede de ir, cedinho, à Missa. E junto aos filósofos em Freiburg, ela agora sente algo como distância, desde que encontrou em Teresa a verdade “encarnada” que agora tem de ser “feita”. As duas faces da mesma realidade: palavra e gesto – essência do judaísmo-, cuja interligação confere uma força misteriosa ao testemunho que irradia junto a alunos e amigos. Mas colegas e sacerdotes a aconselham para não enterrar seus talentos atrás dos muros de um mosteiro e, sim, de investi-los no serviço às pessoas.

Edith teve a experiência de Maria: “Uma espada traspassará o teu coração”(Luc. 2,35), numa encruzilhada de dois caminhos. Ambas aceitaram seguir Jesus sem achar ultrapassada a tradição judaica, pois a verdade como diálogo opõe-se à ruptura e realiza-se na experiência da cruz como árvore de vida. O Gênesis lembra que a natureza (lesse diálogo foi confiada à mulher (HaVaH – Eva) relacionado com ajuda (HaLaH – Vida), (mãe dos viventes) (3,20). (A mesma raiz HVH encontramos na palavra HaVeh = dizer, narrar, comunicar, iluminar, esclarecer, ensinar e até testemunhar numa causa judicial). A objetividade do diálogo não se resume em “de uma vez para sempre” adotar uma posição, mas na vigilância e na crítica relativa ao próprio julgamento, às próprias palavras, cultivar uma atenção extremada dirigida para o outro, para o destino do outro e sua história pessoal. Por isso Edith vigia seu julgamento com respeito à atitude de sua tão amada mãe que não pode entender nem aceitar essa sua escolha.

Por ser a mulher portadora tanto da vida como do diálogo ela não pode assumir uma posição de caráter dialético marcada por uma essencial separação. Mais tarde, como carmelita ela não hesita em comparar-se com Ester: “Não pense que você é a única dos judeus a escapar com vida, só porque vive no palácio (mosteiro carmelita)”. (Ester 4,13) E ela acrescenta: “Eu sou a pequena Ester, muito pobre e frágil, mas o rei que me escolheu é grande e infinitamente misericordioso”. De trás das grades do mosteiro, ela vai imolar-se por tantos que lutam na escuridão do seu triste destino e permite que a cruz se faça solidariedade e caminho de reparação. Esse misterioso caminho do sofrimento, da cruz, vale tanto mais quando é associado a um compromisso fraterno de viver o amor como caminho a serviço dos outros. Longe de buscar a si mesma, ela engaja todo o seu ser na causa que abraça para que a verdade se faça caminho que dê passagem à própria vida, onde o direito é o bem máximo e a justiça se impõe igualmente a todos possibilitando uma convivência de paz. Aqui a experiência de Deus se faz berço de personalidade exemplar.

Capítulo V

Encontro com a verdade

O retorno para Deus é característica da conclusão da primeira fase na vida de Edith.

Ela buscou a verdade, fundamentada na razão natural e na experiência sobrenatural. Nisso ela foi amparada pelo ambiente familiar e pelo círculo de amigos pensadores, o que enriqueceu e desenvolveu a sua personalidade. Só o silêncio da câmara de gás interromperá o diálogo com familiares e amigos. Devedora de Teresa, Edith começa a nutrir o desejo de tornar-se carmelita também, mas vai ter de esperar mais de dez anos para abraçar o que já julga ser seu caminho. Move-se no meio dos alunos do colégio ligado ao convento de Sta. Madalena, em Spiers (Páscoa de 1923 até Páscoa de 1931), perto de Heidelberg, onde ela é docente e trabalha na tradução do “De Veritate”, de Sto. Tomás de Aquino. E progressivamente a verdade revelada se torna para ela o critério de toda verdade, enquanto ela trabalha no seu livro Ser finito e infinito que ela termina no fim do seu ano de noviciado em Colônia, 1935/36.

Sua progressiva descoberta é fundamental para toda espiritualidade: “Quanto mais nos deixamos atrair para Deus, tanto mais temos de sair de nós mesmos para ir ao encontro do mundo onde encontramos e somos convidados a levar amor”. (P.C.47) A crise econômica mundial começa a dar sinais cada vez mais eloquentes e Edith se engaja social e politicamente enquanto a pobreza assume formas alarmantes. Ela colabora na distribuição de alimentos e com gestos de solidariedade vai ao encontro dos mais pobres e famintos que, por sua vez, lhe presenteiam dignidade humana. E ela lembra o que dizia seu saudoso amigo Reinach: “Nunca ter medo para ir até o fim das coisas, à sua última realidade”.

No seu escrito sobre Isabel da Hungria (1931), ela comenta: “Se desejamos retratar fielmente a figura da santa devemos preservar os aspectos contrastantes de seu comportamento: um temperamento impulsivo, inclinado a seguir espontaneamente as inspirações de um coração ardente, sem subjugar-se ao freio de pensamentos bem pesados ou de conselhos vindos de fora; e ao mesmo tempo uma vontade irresistível e sempre às voltas para controlar impulsos naturais a fim de imprimir-lhes a luz de um ideal orientador. Eu creio que devemos nos posicionar de tal modo que esses contrastes não somente se tornem compreensíveis, mas também se harmonizem de modo que esse esforço de ser o que se é possa desenvolver-se na luz da verdade”.

Edith frequentava também, desde a Semana Santa de 1928, a abadia de Beuron onde fez boa amizade com dom Rafael Walzer. Ali se desenvolvia a consciência da grande ameaça do nacional-socialismo. E naquele tempo, Edith passa a assumir palestras que veio a proferir em diferentes países da Europa, como França, Suíça e Áustria. Em 1931 abandona a sua função em Spiers e se torna docente no Instituto Pedagógico de Münster, o que a faz destacar-se no meio intelectual católico como militante pelo respeito e liberdade do indivíduo. Longe de sofisticar ideias e construir grandiosas teorias, ela usa linguagem simples e direta e, agora com a ajuda da Revelação, evidencia a dignidade da vida e os direitos da mulher.

Desde 1925, com o início do movimento nacional-socialista por Hitler, os judeus são acusados pela miséria no país e considerados parasitas que impedem o verdadeiro progresso. É preciso privá-los de todo poder e eliminá-los, eis o objetivo do novo partido. Antissemitismo e racismo formam o coração da nova ideologia. A igualdade em direitos começa a ser desfigurada no terror de perseguições, onde o sangue judeu até a terceira e quarta geração desvaloriza as pessoas. Nesse ambiente, Edith dá um testemunho incomum: acentua a igualdade entre as pessoas como riqueza maior na convivência e proclama a liberdade como vocação fundamental do ser humano. E ela se joga de corpo e alma na luta, incitando também seus alunos para reagir contra a injustiça das leis raciais.

Sempre discreta e recolhida, Edith cerca com silêncio a sua vida espiritual, mas reveste com clamor a sua oração oculta quando decide escrever uma carta para o Papa Pio XI com respeito à perseguição contra os judeus. Como resposta recebe a bênção papal para si mesma e os seus. Decepcionada, ela escreve: “Não resultou em nada. Muitas vezes eu me perguntei se essa carta de vez em quando não lhe vinha no pensamento”. (PC, 117). Sua prima Érika, que conseguiu fugir para Palestina, observou na beatificação de sua tia: “Melhor do que proclamá-la beata hoje, a Igreja teria feito bem em salvá-la ontem”. Elie Wiesel observou que a indiferença com respeito ao mal é o próprio mal.

Ela experimenta a solidariedade forçada com seu povo na perda de seu cargo de docente em Münster sendo ainda impossibilitada de achar trabalho. E essa perda, ela a transforma em convite e oportunidade para realizar finalmente o seu desejo de ingressar no Carmelo, sem tombar vítima da amargura na revolta. Pelo contrário, agora começa uma nova etapa, onde o encontro consigo irá aprofundar-se nessa relação de pertença ao seu povo como também no envolvimento eclesial e crístico que abarca o todo da humanidade através do tempo e do espaço. E essa experiência vai realizar-se na perspectiva das dimensões cósmicas simbolizadas na cruz, onde o divino e humano, o infinito e finito, a vida e a morte se abraçam e mutuamente fecundam.

Capítulo VI

Fazer a verdade

Foram doze anos de espera, amadurecimento e luta para agora, em 1933, retirar-se atrás dos muros de um mosteiro. O cunhado, casado com a irmã Erma, lhe oferece hospitalidade, mas ela se decide pelo caminho do Carmelo em Colônia. Entre os familiares o susto passa a ser incompreensão. Sua irmã sintetizou: “O terrível na vida é isto: o que torna um feliz é para o outro a maior catástrofe”. A despedida da mãe foi comovente. Essa não entendeu absolutamente a decisão de sua filha mais nova. E na extrema solidão, Edith deixou para sempre Breslau no dia 12 outubro de 1933, dia do seu aniversário. Ela tinha 42 anos. No dia 14, ela chega ao Carmelo em Colônia, adotando o nome de Teresa Benedita da Cruz. Fazia escuro, cada vez, ao seu redor, mas ela se reconhecia acolhida na luz de Deus.

Dentro do contexto da Alemanha daquela época, o ingresso de Edith no Carmelo facilmente poderia parecer-lhe uma negação ou fuga, sendo na realidade uma resposta pessoal, sofridamente amadurecida, ao apelo de Deus e à urgência da situação. Realmente a questão é a escolha do meio adequado para entrar na luta. Paulatinamente ela chegou à conclusão de que a estranha dimensão do mal nazista só poderia ser combatida pela força da Cruz, isto é, um amor incomum que, de um lado, elimina toda violência e, do outro lado, enfrenta o mal na sua raiz graças a uma solidariedade incondicional. Ela escreve: “O nosso socorro não resulta simplesmente das humanas aquisições, mas do amor sofrido de Cristo; e é meu desejo partilhar nele. Quero entregar-me ao coração de Jesus como oferenda pela paz do mundo. Que o reino do anticristo possa implodir, caso possível sem guerra mundial, e que uma nova, realmente nova ordem possa ser estabelecida”.

Para Edith o ingresso no Carmelo nada tem a ver com fuga; pelo contrário, ela se dirige ao front para combater o inimigo com os meios que julga os mais eficientes: a oração, a entrega de sua pessoa, uma ilimitada reconciliação como a do “Yom Kippur”. Como Teresa Benedita da Cruz, ela é uma simples carmelita entre as outras, cujo brilhante passado intelectual é ignorado pelas companheiras. Mas seu novo nome resume sua história: Teresa evoca a beleza da amizade e a força da inspiração reformuladora; Benedita evoca a busca intelectual com sua paixão pela verdade e a Cruz abre o espaço misterioso com o caminho da solidariedade e as experiências espirituais mais profundas que culminam em Auschwitz onde se desvenda o mistério da “Ciência da Cruz”.

Por ocasião de seu ingresso no Carmelo, Edmund Husserl sintetizou para sua discípula e amiga muito estimada o paradoxo de sua opção: “Afinal, há no coração de todo judeu um impulso para o absoluto e um amor pelo martírio”. Neste novo estilo de vida, sua sensibilidade e atividade intelectual, antes tão evidenciadas, ficam ofuscadas pelo amor a Cristo na Vida Religiosa e são transformadas pela luz do conhecimento que resulta da sofrida experiência com a Verdade. Já adaptada ao novo estilo de vida, ela recebe a incumbência de, em 1935, redigir o texto filosófico “Endliches und Ewiges Sein”‘, que depois é barrado para publicação por tratar-se de um escrito não ariano. Os muros do mosteiro, aliás, preservam as irmãs da complexidade da realidade, mas Edith, através da troca de cartas com familiares e amigos, acompanha o que lá fora está acontecendo de ameaçador. E ela se mostra sempre de prontidão para lutar pela verdade e pela justiça.

Em 1936, morreu sua mãe, o que possibilita ou a vinda de sua irmã Rosa para unir-se a ela, em Colônia. Há tempo, ela desejava ser batizada mas resolveu poupar sua mãe desse sofrimento. O batismo aconteceu na véspera de Natal, na presença de Edith. No ano seguinte, festa de 300 anos do mosteiro, a religiosa escreve: “Vamos ao encontro de grandes mudanças. Na expectativa das mesmas temos como dever apoiar com nossa oração todos que já estão envolvidos na luta”. Em 1938, 21 de abril, ela faz a profissão perpétua. Neste ano, os alemães são convocados duas vezes para se pronunciar a respeito do Führer, mas Edith perdeu seu direito de voto. Na primeira votação, dois senhores se apresentam para colher informação sobre a ausência da Dra. Stein. Ela assume a sua condição de não ariana e responde à priora, que lhe pergunta o que decide fazer: “Se esses senhores apreciam tanto o meu não, eu não o posso negar a eles”.

Na segunda vez, a maioria das irmãs resolve omitir-se para não votar contra Hitler. Edith acha isso um absurdo. Uma delegação vem buscar os bilhetes das religiosas e elas são convocadas. No fim, a superiora tem de explicar a ausência de duas irmãs. Resposta: a irmã Ana é doente mental e não tem condições. E quando, insistindo, perguntam pela Dra. Stein, a superiora responde: “Ela não é ariana”. A declaração é anotada e os homens se despedem apressados. Edith resolve deixar o país. Na noite de 9 para 10 de novembro (Kristallnacht), em 1938, os nazistas vingam a morte de um companheiro, Ernest von Rath que, em Paris, é assassinado por um rapaz judeu, Herschel Grynszpan, cujos pais tinham sido deportados. A explosão antissemita resultou na profanação e destruição de todas as 600 ou 1000 sinagogas do país que foram incendiadas. E 7500 estabelecimentos comerciais de judeus foram saqueados e 30000 judeus são brutalmente jogados em campo de concentração, sendo que milhares são assassinados. Livros judaicos são queimados e decretos raciais instituem a discriminação. Iniciou-se a destruição do judaísmo na Alemanha. Na sociedade e na religião, faltaram gestos de protesto.

O mundo está consternado e Edith carrega uma dor que a esmaga. “É a sombra da cruz que cai sobre o meu povo”, escreve. Perseguir judeus é perseguir a humanidade de Jesus. “Ai da cidade, do país, das pessoas sobre quem a ira divina vai manifestar-se devido a tantos crimes cometidos contra os judeus”. Ela tentou ir para a Palestina, o Carmelo de Belém, mas negaram-lhe a permissão. Na noite de 31 de dezembro de 1938, ela foge para o Carmelo de Echt, na Holanda. Para lá tinham fugido as irmãs alemãs nos anos de 1871-1878, durante a “Kulturkampf” de Bismarck contra os católicos alemães, e a maioria das religiosas ainda era alemã. No verão de 1940, sua irmã Rosa veio unir-se a ela naquela comunidade. Quando em setembro daquele ano foi eleita a nova priora, essa a encarregou de escrever algo sobre S. João da Cruz por ocasião do 4º centenário do grande santo carmelita.

Trata-se do livro “A Ciência da Cruz”, iniciado em 1941 e escrito de uma vez, onde ela apresenta um tipo de autobiografia espiritual registrando também o seu protesto contra a ideologia racista do nazismo. De fato, o que escreve nessas páginas tem tudo a ver com o que ela mesma está passando. No símbolo da cruz, morte e vida estão inseparavelmente interligadas; e Edith externa a certeza absoluta da vitória da luz sobre as trevas. Melhor ainda, transmite a convicção de que a luz surge das profundidades da escuridão, embora ela tivesse de esperar para completar corporalmente o que permaneceu incompleto no livro. Nunca ela insinuou encontrar-se num esconderijo, atrás dos muros do mosteiro, dos quais disse com senso de humor: “Deus não se obrigou a deixar-nos para sempre ali dentro”. Já em 1935, responde a uma amiga que ali a julgava segura: “Não tenha isso como uma certeza! Certamente eles vão me procurar aqui. E eu não acredito de forma alguma que vou ser poupada”. Na noite do domingo da Paixão, em 1939, ela escreve um bilhete para a Priora: “Querida Madre: Por favor, permita-me vossa reverendíssima que me ofereça ao Coração de Jesus como vítima propiciatória pela paz autêntica: que o poder do Anticristo caia e, se for possível, sem uma nova guerra mundial, que se possa instaurar uma nova ordem de coisas. Desejaria fazê-lo hoje”.

Sempre muito atenta, ela observa o que os fatos como sinais têm a dizer-lhe. Mesmo sem ilusões com respeito a uma eventual melhora da situação, ela deixa a porta aberta para uma eventual possibilidade de escapar à morte preparando uma nova fuga. Conta com a possibilidade de dirigir-se para o Carmelo de “Le Pâquier”, em Friburgo na Suíça. Mas de repente, Rosa e Edith são convocadas para apresentar-se no escritório da “Gestapo” em Maastricht, onde são tratadas com muita grosseria. Ela é ameaçada porque o “J”, de uso obrigatório para os judeus, não consta no seu passaporte e tampouco o seu segundo nome Sarah. Depois, no início de maio de 1942, mais uma convocação para Amsterdam onde é submetida a longos e humilhantes interrogatórios. Ela toma conhecimento da decisão de altos funcionários nazistas que pretendem aplicar a evacuação global dos judeus. Nessa situação tensa e sofrida, enquanto ainda procura escapar para a Suíça, ela acompanha em tudo a vida conventual e continua a escrever o livro sobre S. João da Cruz. Disse à priora: “Não há salvação. O assunto da Suíça vai chegar demasiado tarde. Os alemães têm pressa em acabar conosco”.

Há algum tempo, ela traz consigo um trecho do Evangelho: “Quando perseguirem vocês numa cidade, fujam para outra. Eu garanto que vocês não acabarão de percorrer as cidades de Israel, antes que venha o Filho do Homem”. (Mt 10,23) Em toda a Europa os judeus, aos milhares, são arrastados de seus países e deportados para os campos de extermínio. Na Holanda as igrejas elevam a voz contra essas medidas discriminatórias contra os judeus, e no dia 11 de julho de 1942 o comunicado da Igreja Católica e do Sínodo da Igreja Reformada é lido nos púlpitos. O resultado é que somente os judeus que podem provar sua pertença ao Cristianismo antes de 1941 não serão deportados, caso as autoridades eclesiásticas desistam do comunicado. Sob a liderança do cardeal de Jong, no dia 26 de julho de 1942, uma carta de protesto é lida nas comunidades, o que deixa uma impressão muito positiva e aviva a esperança das Irmãs Carmelitas. Mas imediatamente vem a represália.

Na tarde do dia 2 de agosto de 1942, Edith inicia o último capítulo do seu livro: “No Rastro do Crucificado”, mal imaginando que ela o viverá com seu testemunho. Na manhã desse dia começa o aprisionamento de milhares de religiosos não arianos. Às 17hs, enquanto as irmãs estão unidas em oração, dois oficiais da Gestapo tocam a campainha e pedem falar com a Irmã Stein. A superiora imagina que eles venham revisar o visto para que possam ir para a Suíça, mas infelizmente recebem ordem de, dentro de 10 minutos, deixarem o mosteiro. A superiora tenta resistir, mas recebe graves ameaças. E recebe a ordem: “Limite-se a dar uma manta à Dra. Stein, um copo, uma colher, mantimentos para três dias. Se quiser levar o hábito, leve-o. A sua irmã também”. Na cela de Edith, as monjas tratam de animá-la, preparando-lhe as coisas e arrumando alimentos, mas ela não quer provar nada. Ao chegar à porta, abraçada na Irmã, Edith lhe diz: “Vamos, partiremos ao encontro do nosso povo”. De carro, são transportadas para o Campo de Amersfoort, de onde seguem depois para Westerbork, que Anne Frank chama o “limiar do inferno”. No dia 6 de agosto, festa da Transfiguração, elas recebem a visita de dois rapazes de Echt com notícias e alimentos. É que antes conseguiram enviar um telegrama pedindo os passaportes, uma roupa e objetos como: escova de dente, cruz, rosário e breviário e até cartão de racionamento de pão. E no PS pedem: um hábito e aventais e um véu pequeno. Edith conta sobre a vida no Campo, os maus tratos, o desprezo e a incerteza do futuro; e fala da notícia de que, em breve, um trem partirá rumo à Silésia.

Outros que ainda a encontraram no Campo comentaram a coragem e serenidade de sua postura. De fato, ela se movia como um anjo entre as mulheres recém-chegadas e amparava as crianças, oferecendo a todos ajuda e consolo. Disse: “Aconteça o que acontecer, estou disposta a tudo. O Menino Jesus encontra-se aqui também no meio de nós”. Alguém perguntou: “O que a senhora irá fazer de ora em diante?” Sua resposta se faz simples: “Até hoje eu pude orar e trabalhar, espero que possa prosseguir assim”. Duas pequenas cartas chegaram a Echt. Na primeira, está escrito: “Somente pode adquirir-se a “Scientia Crucis” quando realmente se começa a sofrer debaixo da cruz. Desde o primeiro momento eu me convenci disso interiormente e do fundo do meu coração eu disse: “Ave Cruz, única esperança”. No segundo bilhete, de 6 de agosto, ela pede roupa de inverno e seus cartões de identidade. No dia 7 de agosto, elas seguem nos passos do Crucificado sendo transportadas para Silésia onde, no Campo de Auschwitz-Birkenau, na diocese de Krakau, no dia 9 de agosto de 1942, as irmãs Edith e Rosa se identificam em extremo com o Crucificado, sofrendo a morte na câmara de gás. Morreram dessa forma porque faziam parte do povo que lhes deu como guia e companheiro um judeu, Jeshua de Nazaré. Agora, o testemunho de sua vida nos lembra que Deus existe e reina, encontra-se no meio de nós e se deixa encontrar, mesmo em e através de toda perda e ruína.

Capítulo VII

Conclusão

Na pessoa de Edith Stein temos o exemplo vivo de uma pessoa que, na variedade de situações e tarefas, testemunhou algo de Deus. Ela se fez coração inquieto que, em meio às perturbações do nosso tempo e na sensibilidade aos seus desafios, irradiou o absoluto inserido na fragilidade do humano.

Somos vivamente tocados por sua dignidade vivida nos diferentes níveis de ser ou nas fases de filha delicada, judia, irmã prestimosa, ateísta em intensa busca, estudante aplicada, enfermeira humanista, filósofa de caráter, assistente de catedrático renomado, convertida, professora, mulher de ciência, tradutora, conferencista de questões femininas, docente numa faculdade de pedagogia, sempre cidadã engajada e, finalmente, religiosa carmelita, segundo o coração do Mártir de seu povo.

Nessa figura delicada, retraída, corajosa e de uma firmeza de caráter invejável destaca-se um caminho de vida onde problemas do nosso tempo são levados a sério, necessidades da convivência social suscitam resposta e questionamentos religiosos são assumidos a serviço da verdade e da justiça. Aqui perspectivas de profunda humanização brotam de uma busca insaciável pelo sentido da vida, onde uma postura de autenticidade desperta interesse social e garante solidariedade no exercício de cidadania.

Nada melhor que suas palavras: “Trata-se de um longo caminho, desde a auto complacência de um bom católico que cumpre seus deveres, lê um jornal de qualidade e vota no partido certo, mas pelo resto faz o que gosta até uma vida entregue na mão de Deus com a simplicidade da criança e a humildade do publicano. E quem percorreu uma vez esse caminho, jamais poderá voltar atrás em seus passos”. Mas isso não a tornou distante do mundo, alienada da realidade. Pelo contrário, ela continuou a sua luta com planos para uma reforma escolar e novos caminhos na educação da mulher a fim de integrá-la na sociedade moderna. Em sua atividade soube dar um bom espaço à contemplação, nunca se deixando absorver servilmente pelo aqui e agora com suas múltiplas tarefas, desafios e ameaças, porém mantendo-se em tudo ligada à fonte de toda luz que lhe transmitia serenidade, coragem, concentração e criatividade. Com muito carinho esvaziava-se de si e, até no silêncio da dor, permitia que Deus mesmo se fizesse sua nova plenitude.

Belo testemunho foi dado pela senhora Bromberg, que foi companheira de Edith no Campo de Concentração e que milagrosamente salvou a própria vida:

“Vi-a muitas vezes. O que a distinguia das outras religiosas era o seu silêncio. Dava a impressão de que estava triste até ao fundo da alma, mas não se mostrava angustiada. Não sei bem como me exprimir. O peso da sua dor parecia imenso, esmagador, uma vez que, quando sorria, o seu sorriso parecia vir de uma tal profundidade de sentimento que chegava a incomodar.

Pouco falava, e olhava a sua irmã Rosa com uma indizível expressão de tristeza. Previa a sorte de todos. Creio que ela media antecipadamente o sofrimento que as esperava; não o seu, mas o das outras pessoas. Toda a sua postura, quando a revejo em espírito, sentada naquela barraca, desperta sempre em mim uma mesma imagem: a da Senhora das Dores, uma Pietà sem o Cristo”.


Sob a cruz (Poema)

Maria,

hoje permaneci contigo

sob a cruz

e jamais sentira tão claramente

que foi sob a cruz que te tornaste

nossa mãe.

Como a fidelidade de uma mãe da terra

não escutaria solícita a última vontade do filho?

Mas tu, tu eras a Serva do Senhor;

o ser e a vida do Deus feito Homem

estavam inteiramente inscritos

no teu ser e na tua vida.

Foi assim que tomastes os teus no teu coração,

e foi com o sangue de teus sofrimentos

que resgataste cada alma para uma nova vida.

Tu nos conheces a todos: nossas feridas, nossas chagas,

tu conheces também o esplendor celeste

que o amor de teu filho

quer difundir sobre nós na claridade eterna.

Assim, guia solícita nossos passos.

Nem um preço é para ti

muito alto para conduzir-nos

ao fim.

Mas aqueles que

escolheste

para te seguir,

para te rodear, um dia, de perto

do trono eterno,

devem permanecer aqui contigo sob a cruz;

é com o sangue de seus sofrimentos

que devem encontrar o esplendor celeste

das almas preciosas

que o Filho de Deus lhes confiou em

herança.

Fonte: Edith Stein – 1ª Edição – Fr. Cláudio Van Balen O.Carm


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