Escapulário

UM SINAL NA VIDA HUMANA

Vivemos num mundo feito de realidades materiais cheias de simbolismo: a luz, o fogo, a água…

Na vida de cada dia existem experiências de relações entre os seres humanos, que exprimem e simbolizam coisas mais profundas como partilhar a comida (sinal de amizade), participar de uma manifestação de massa (sinal de solidariedade), celebrar junto de uma festa nacional (sinal de identidade).

Temos necessidade de sinais ou símbolos que nos ajudem a compreender e a viver os fatos mais conscientes daquilo que somos como pessoas e como grupos.

UM SINAL DA VIDA CRISTÃ

Jesus é o grande dom e o sinal do amor do Pai. Ele estabeleceu a igreja como sinal e instrumento do seu amor. Na vida cristã também existem sinais. Jesus os utilizou: o pão, o vinho, a água, para nos fazer compreender realidades superiores que não vemos e não tocamos. Na celebração da Eucaristia e demais sacramentos (batismo, confirmação, reconciliação, matrimônio, ordem sacerdotal, unção dos enfermos), os símbolos (água, óleo, imposição das mãos, alianças), exprimem o seu significado e introduzem-nos numa comunicação com Deus, presente através deles. Além dos sinais litúrgicos, existem na igreja outros ligados a um acontecimento, a uma tradição, a uma pessoa.

UM DESSES É O ESCAPULÁRIO DO CARMO.

HISTÓRIA DO ESCAPULÁRIO MARROM

A devoção do Escapulário vem do tempo do profeta Elias (Terceiro Livro dos Reis). O povo estava então a adorar Baal (o demónio). Para que o povo se voltasse para Deus, Elias rezou para vir uma seca, que o povo compreenderia que era um sinal do descontentamento divino. Depois de não ter chovido durante três anos e meio, Elias subiu ao Monte Carmelo (na Palestina) e pediu a Deus que mandasse chuva. Passou algum tempo a rezar e depois enviou um companheiro, a ver se vinha chuva. O companheiro desceu o monte, olhou para o mar e voltou para Elias, dizendo-lhe que não via chuva. Então Elias rezou novamente e depois mandou o seu companheiro ver o mar; mais uma vez, não avistou chuva. Elias rezou seis vezes, sem que viesse chuva, e então rezou uma sétima vez. E desta vez, quando o homem desceu a montanha, viu uma nuvenzinha em forma de pé a sair do mar. E esta nuvem cresceu até cobrir toda a terra. E dessa nuvem começou a cair chuva.

S. Boaventura diz-nos que cada página do Antigo Testamento fala da Santíssima Virgem, de uma maneira ou de outra. Pessoas santas disseram-nos que há mais duas razões para essa nuvem representar a Santíssima Virgem:

1) Porque o mar era de água salgada mas a nuvem era de água doce. A nuvem representava a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. A Santíssima Virgem nasceu da humanidade pecadora, mas distinguiu-se por ser concebida sem pecado;

2) A nuvem também representava a Santíssima Virgem como Mediadora de Todas as Graças. A água da chuva representa a graça. A chuva que caiu sobre toda a terra seca veio de uma só nuvem. Veio através da Mediadora de Todas as Graças.

O MANTO DE ELIAS É MENCIONADO NAS SAGRADAS ESCRITURAS

Uma vez, quando Elias quis atravessar o rio Jordão, tirou o seu Manto, tocou no rio com o Manto e o rio deixou de correr, para ele poder atravessar (4 Reis 2:8). Na altura em que Elias ia ser arrebatado ao Céu, o seu sucessor Eliseu pediu-lhe o espírito profético. Elias disse-lhe: “Se te deixar o meu Manto, saberás que vais receber este espírito profético.” As Sagradas Escrituras contam-nos que, quando o carro de chamas veio levar Elias para o Céu, separou Elias de Eliseu. E então, Eliseu apanhou o Manto que Elias tinha deixado (4 Reis 2:13).

Há época das cruzadas, eremitas se instalaram no Monte Carmelo e lá construíram a primeira capela a ser feita em honra da Santíssima Virgem Maria. A partir desse momento, a devoção à Mãe de Deus ficou a ser o precioso legado espiritual destes eremitas.

Foi ao sucessor destes eremitas do Monte Carmelo que Nossa Senhora apareceu, séculos mais tarde. A comunidade tinha acabado de ser transferida em 1241 do Monte Carmelo, na Palestina, para Aylesford, na Inglaterra. S. Simão Stock foi elevado em 1245 a Superior Geral da Ordem.

Acabrunhado por todas as perseguições externas e as dissensões internas daquele tempo, S. Simão Stock, retirou-se para a solidão da sua cela. Em 16 de Julho de 1251 abriu o seu coração à Santíssima Virgem Maria — a Flor do Monte Carmelo — pedindo-Lhe que o ajudasse e a todos os Carmelitas.

Nossa Senhora apareceu-lhe então, acompanhada por uma multidão de anjos, tendo nas Suas mãos o Escapulário da Ordem, e disse:

“Será este o privilégio para ti e para todos os Carmelitas: quem quer que morra usando isto [o Escapulário] não sofrerá o fogo eterno.”

S. Simão estabeleceu a Confraria do Monte Carmelo pouco depois desta aparição, e assim a promessa da salvação eterna foi alargada aos membros da Confraria Carmelita que morressem usando o Escapulário Carmelita. O Papa Urbano IV, em 1262, conferiu bênçãos especiais a estes membros da Confraria.

A forma abreviada do Escapulário já existia por volta do ano 1276, como se pode ver pelo pequeno Escapulário, ainda existente, do Papa Gregório X, que morreu naquele ano e foi sepultado usando o seu Escapulário. Quinhentos e cinquenta e quatro anos mais tarde, em 1830, este foi encontrado intacto na sua sepultura, e conserva-se hoje no museu de Arezzo (Itália).

O ESCAPULÁRIO, UM SINAL MARIANO

Um dos sinais da tradição da Igreja, há sete séculos, é o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo.

É um sinal aprovado pela igreja e aceito pela Ordem do Carmo como manifestação extrema de amor a Maria, de confiança filial nela e do compromisso de imitar a sua vida. A palavra “Escapulário” indica uma vestimenta que os monges usavam sobre o hábito religioso durante o trabalho manual. Com o tempo assumiu um significado simbólico: o de carregar a cruz de cada dia, como os discípulos e seguidores de Jesus. Em algumas Ordens religiosas, como no Carmo, o Escapulário tornou-se um sinal da sua identidade e vida. O Escapulário simbolizou o vínculo especial dos carmelitas com Maria a Mãe do Senhor, que exprime a confiança na sua materna proteção e o desejo de imitar a sua vida de doação a Cristo e aos outros. Transformou-se assim num sinal mariano.

Nossa Senhora mostrou-nos o Escapulário em Fátima, querendo que nós todos o usássemos e o oferecêssemos aos outros.

DAS ORDENS RELIGIOSAS AO POVO DE DEUS

Na idade média, muitos cristãos queriam associar-se às Ordens religiosas fundadas naquele tempo: franciscanos, dominicanos, agostinianos, carmelitas. Surgiram grupos de leigos associados a eles, por meio das confrarias.

Todas as Ordens religiosas desejavam dar aos leigos um sinal de afiliação e participação do próprio espírito e do próprio apostolado. Este sinal era constituído de uma parte do hábito: a capa, o cordão, o Escapulário.

Dois grandes fundadores de Ordens Religiosas, Santo Afonso dos Redentoristas e S. João Bosco dos Salesianos, eram devotos de Nossa Senhora do Carmo e ambos usavam o Seu Escapulário Castanho. Quando morreram, foram sepultados com as suas vestes sacerdotais e o Escapulário. Quando, muitos anos mais tarde, as sepulturas foram abertas, os corpos e as vestes sagradas com que tinham sido sepultados estavam reduzidos a pó. MAS O ESCAPULÁRIO CASTANHO QUE CADA UM DELES USAVA ESTAVA PERFEITAMENTE INTACTO. O Escapulário de Santo Afonso está exposto no seu Mosteiro em Roma.

Entre os carmelitas estabeleceu-se o Escapulário como o sinal de afiliação à Ordem e expressão da sua espiritualidade.

O VALOR E O SIGNIFICADO DO ESCAPULÁRIO.

O Escapulário funda as suas raízes na tradição da Ordem, que o interpretou como sinal da proteção materna de Maria. Contém em si mesmo, a partir desta experiência plurissecular, um significado espiritual aprovado pela igreja:

  • Representa o compromisso de seguir Jesus como Maria, o modelo perfeito de todos os discípulos de Cristo. Este compromisso tem a sua origem no batismo que nos transforma em filhos de Deus.             

Por ele a Virgem Maria nos ensina a:

  • Viver abertos a Deus e à sua vontade, manifestada nos acontecimentos da vida;  
  • Escutar a palavra de Deus na Bíblia e na vida, a crer nela e a pôr em prática as suas exigências;  
  • Orar em todo momento descobrindo Deus presente em todas as circunstâncias;      
  • Viver próximos aos nossos Irmãos na necessidade e a solidarizar-se com eles.  
  • Introduz na fraternidade do Carmelo, comunidade de religiosos e religiosas, presentes na

Igreja há mais de oito séculos, e compromete a viver o ideal desta família religiosa: a amizade íntima com Deus através da oração.          

  • Põe-nos diante do exemplo das santas e dos santos com os quais estabeleceu uma relação familiar de Irmãos e irmãs.
  • Exprime a fé no encontro com Deus na vida eterna pela intercessão de Maria e sua proteção.

NORMAS PRÁTICAS:

  • O Escapulário é imposto só uma vez por um sacerdote ou uma pessoa autorizada.  
  • Pode ser substituído por uma medalha que represente de uma parte a imagem do Sagrado Coração de Jesus e da outra, a Virgem Maria.             
  • O Escapulário compromete com uma vida autêntica de cristãos que se conformam às exigências evangélicas, recebem os sacramentos, professam uma especial devoção à Santíssima Virgem, expressa ao menos com a recitação diária de três Aves Marias.             

FÓRMULA BREVE PARA IMPOSIÇÃO DO ESCAPULÁRIO

Sacerdote: Senhor, mostrai-nos a Vossa misericórdia.

Respondente: E dai-nos a Vossa salvação.

Sacerdote: Senhor, ouvi a minha oração.

Respondente: E que o meu clamor chegue a Vós.

Sacerdote: O Senhor esteja convosco.

Respondente: E com o vosso espírito.

Sacerdote: Oremos.

Senhor Jesus Cristo, Salvador da humanidade, santificai pela Vossa mão direita este (estes) Escapulário(s), que o(s) Vosso(s) servo(s) usarão devotamente, por Vosso amor e da Vossa Mãe Santíssima, Nossa Senhora do Carmo, para que, por Sua intercessão, seja (sejam) protegido(s) dos espíritos malignos, e persevere(m) na Vossa graça até à morte: Vós Que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos. Amém.

O sacerdote depois asperge o Escapulários com Água Benta, e em seguida coloca-o sobre os ombros do respondente — uma peça para a frente, outra para as costas, dizendo:

Recebe (recebei) este Santo Escapulário, e pede (pedi) à Santíssima Virgem que, pelos Seus méritos, o possas (possais) usar sem qualquer mancha de pecado, e que Ela te (vos) proteja de todo o mal e te (vos) conduza à vida eterna. Amém.

Depois de investir cada Escapulário Castanho, continua com as orações seguintes:

Pelo poder que me foi concedido, recebo-te (-vos) na participação de todos os bens espirituais provenientes dos Religiosos do Carmo, com a ajuda misericordiosa de Jesus Cristo. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Que Deus Onipotente, Criador do Céu e da Terra, que Se dignou receber-te (-vos) na Confraria de Nossa Senhora do Carmo, te (vos) abençoe. Pedimos-Lhe que na hora da tua (vossa) morte esmague a cabeça da antiga serpente e obtenha para ti (vós) a palma e a coroa da tua (vossa) herança eterna. Por Cristo, Nosso Senhor. Amém.

O sacerdote asperge a pessoa que recebe o Escapulário com Água Benta. Se houver mais do que uma pessoa a recebê-lo, usa a fórmula no plural.

O ESCAPULÁRIO DO CARMO NÃO É:

  • Um sinal de proteção mágica, um amuleto;  
  • Uma garantia automática de salvação;  
  • Uma dispensa de viver as exigências da vida cristã.  

É UM SINAL:

  • Aprovado pela igreja há sete séculos;  
  • Que representa o compromisso de seguir Jesus como Maria:  
    • Abertos a Deus e à sua vontade;  
    • Guiados pela fé, pela esperança e pelo amor;  
    • Próximos dos necessitados;  
    • Orando em todos os momentos e descobrindo Deus presente em todas as circunstâncias;
    • Que introduz na família do Carmelo; 
    • Que alimenta a esperança do encontro com Deus na vida eterna pela proteção de Maria e sua intercessão.           

FATOS SOBRE O ESCAPULÁRIO

Só um sacerdote (ou um diácono ordenado com autorização para tal) pode investi-lo.

O Escapulário Castanho consiste em duas peças de lã marrom, juntas por duas fitas, fios, cordéis ou correntes. A cor das fitas, fios ou correntes não é importante. O que é importante é que haja duas peças de lã marrom (ou preta).

A maioria dos Escapulários Castanhos têm gravuras das duas peças de lã marrom. Mas estas gravuras não são necessárias.

Para obter a promessa do Escapulário, um Católico deve ser investido do Escapulário e deve usar o Escapulário Castanho à hora da morte.

Para usar o Escapulário Marrom, é preciso que uma peça de tecido de lã marrom fique sobre o peito e a outra sobre as costas. O Escapulário é colocado pela cabeça, de modo a ficarem os fios sobre os ombros, um fio para cada ombro.

Se o Escapulário Marrom ficar gasto ou se rasgar, deve ser tratado com reverência, queimando-se ou enterrando-se no solo.

PRIVILÉGIO SABATINO

A grande recompensa pessoal que se pode receber é “O Privilégio Sabatino (ou seja, de SÁBADO)”, que se baseia numa Bula Papal, emitida em 3 de Março de 1322 pelo Papa João XXII.

Este privilégio é frequentemente compreendido como significando que quem usar o Escapulário e satisfizer duas outras condições (que, segundo a única cópia existente da Bula, foram dadas pela Santíssima Virgem Maria, numa aparição ao Papa João XXII), será LIBERTO DO PURGATÓRIO NO PRIMEIRO SÁBADO A SEGUIR À MORTE.

Todavia, tudo o que a Igreja disse oficialmente para explicar isto, em várias ocasiões, foi que quem satisfizer as condições do Privilégio Sabatino será liberto do purgatório, por intercessão de Nossa Senhora, CEDO depois da morte, e ESPECIALMENTE NO SÁBADO.

Esta declaração oficial foi feita pelo Papa Paulo V. Numa altura em que a origem e a natureza do Privilégio Sabatino estavam a ser muito contestadas, o Papa disse: “É permitido pregar…que a Santíssima Virgem ajudará as almas dos Irmãos e Irmãs da Confraria da Santíssima Virgem do Monte Carmelo depois da morte, por Sua intercessão contínua, pelos Seus sufrágios e méritos e pela Sua proteção especial, particularmente no Sábado, que é o dia especialmente dedicado pela Igreja à dita Santíssima Virgem Maria…”

Depois da graça da perseverança final, esta “proteção especial para depois da morte” é o maior de todos os benefícios da devoção do Escapulário, com a exceção do benefício essencial da ligação estreita que a devoção do Escapulário cria entre os nossos corações e o Imaculado Coração de Maria.

Recordamos novamente as palavras dirigidas pelo Papa Bento XV aos Seminaristas de Roma: “… O Escapulário da Santíssima Virgem Maria … goza do PRIVILÉGIO SINGULAR da proteção, mesmo depois da morte. ”

Na sua carta de 18 de março de 1922, comemorando o sexto centenário do Privilégio Sabatino, o Papa Pio XI disse:

“Certamente, devia ser suficiente exortar apenas todos os membros da Confraria para que perseverem nos santos exercícios que foram prescrevidos para ganhar as indulgências a que têm direito, e em especial para ganhar a indulgência que é a principal e A MAIOR DE TODAS, ou seja, a que é chamada Sabatina. ”

Em vista disto, é bom recordar que, para ganhar qualquer recompensa, é preciso um esforço da nossa parte. Assim sucede com o Privilégio Sabatino. Nossa Senhora prometeu uma recompensa muito generosa para quem perseverar como Seus filhos especiais sob o manto protetor do Seu Escapulário. “Fazei saber a nossa vontade e a nossa exortação…”

“Que se guardem sempre e com grande estima as práticas e exercícios de devoção à Santíssima Virgem Maria que têm sido recomendados através dos séculos pelo Magistério da Igreja. E entre elas, achamos bem recordar especialmente o Rosário Mariano e o uso religioso do Escapulário do Monte Carmelo. ”

… Papa Paulo VI