Começamos com a ambientação geográfica desta passagem que como Marcos e Lucas, também Mateus coloca no centro do seu Evangelho.

A cena se desenvolve em Cesaréia de Filipe – a capital que esse filho de Herodes, o Grande, fez construir no extremo norte da terra de Israel. O lugar é encantador: ali brotam, frescas e abundantes, as águas do rio Jordão, a planície, irrigada por numerosos riachos, é coberta de uma vegetação luxuriante. Quando aí cheguei pela primeira vez, maravilhado eu disse para mim mesmo: o paraíso terrestre não poderia ser mais belo que isto. Na antiguidade pensava-se que os deuses da natureza – dos quais dependiam as colheitas, a fecundidade dos campos e dos animais – tinham estabelecido ali a sua morada. A eles tinham sito construídos templos e cada dia eram oferecidos sacrifícios para obter favores.
Cesaréia de Filipe era também a sede dos poderosos, daqueles que dominavam, que se faziam servir, que sujeitavam os outros.
É nesse contexto que Jesus pergunta a seus discípulos sobre aquela questão embaraçosa: Quem sou eu para vós, o que vós pensais de mim? Talvez me seguis porque estais convencidos de que vos encherei de bens da terra, mais do que todas as divindades da natureza fazem por seus devotos. Talvez espereis a conquista do poder ou, num dado dia, morar num palácio suntuoso como o de Filipe. Nada disso! Eu não sou o dispenseiro dos bens deste mundo, não espereis de mim poder e prestígio.
O diálogo com os discípulos, contido no evangelho de hoje, introduz as palavras dramáticas com que Jesus anuncia pela primeira vez sua paixão e faz sua proposta: o dom da vida (Mt 16, 21-28).
Dividamos o trecho em duas partes: a primeira (vv. 13-16) apresenta as várias opiniões do povo e de Pedro a respeito de Jesus, a segunda (vv. 17-19) contém a resposta de Jesus a Pedro.

  1. Quem dizeis que eu sou? (vv. 13-16)
    Também nós hoje, como os apóstolos há dois mil anos, ouvimos falar frequentemente de Jesus e as opiniões que recolhemos não são muito diferentes daquelas que nos são referidas no evangelho. Também atualmente as pessoas o consideram um homem excepcional, um grande mestre da vida mora, um revolucionário que tomou o lado dos mais pobres e deu a vida para libertá-los da sua condição. Com ele (todos o reconhecem) teve início a transformação mais profunda que já ocorreu na história da humanidade.
    É suficiente essa admiração pelo personagem Jesus para podermos ser considerados seus discípulos, para sermos cristãos? Não. Professar que Ele é o Messias quer dizer estar convencidos de que como ele não existiu e não existirá mais ninguém. Os profetas foram só grandes homens, não foram salvadores da humanidade: João Batista preparou a vinda do Messias, mas João Batista não era o libertador esperado. Jesus é único.
    Cada povo venera seus heróis, recorda os homens generosos que praticaram gestos extraordinários, que se sacrificaram pelos outros, que fizeram descobertas úteis para a humanidade, que ajudaram a construir a paz na sua pátria e no mundo. Jesus é um desses? É somente um homem sábio, inteligente, generoso, mas apenas um homem? ara a pessoa que crê, Jesus é muito mais: ele é o Cristo, o Filho do Deus vivo.
    Se em nossos dias Jesus nos perguntasse: “Quem sou eu para você?”, certamente responderíamos com as palavras de Pedro, pois olharíamos para ele com satisfação, como fazem os alunos que estão convencidos de ter superado com sucesso a prova do exame. Mas ele, provavelmente, insistiria: isto não é o que você pensa, é ainda o que você ouviu os outros dizerem, os padres, as irmãos, os catequistas, mas para você, pessoalmente quem sou eu? Que influência eu tenho na sua vida, quais são as mudanças que a fé em mim operou em você?
  2. Tu és Pedro (vv. 17-19)
    Na segunda parte da passagem de hoje vemos que Jesus diz a Simão: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.
    Não é fácil estabelecer o significa dessas palavras. Geralmente se diz que Pedro é a sólida rocha sobre a qual foi edificada a Igreja, mas esta não é a única interpretação. Acima de tudo existem outros textos do Novo Testamento que nos dizem claramente que a “rocha” que Deus pôs como fundamento da Igreja é o próprio Cristo. Falando na noite de Páscoa aos neo-batizados da cidade de Roma, o próprio Pedro diz: “Achegai-vos a ele, pedra viva que os homens rejeitaram, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus; e quais outras pedras vivas, vós também vos tornais os materiais deste edifício espiritual, um sacerdócio santo, para oferecer vítimas espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo” (1Pd 2, 4-6). É Jesus a “pedra angular” da Igreja (Ef 2,20). Na primeira carta aos Coríntios, Paulo, discutindo com os grupos de cristãos que tendiam a exagerar as funções de um ou de outro apóstolo, afirma: “Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto Jesus Cristo” (1Cor 3,11).
    O nome que é dado a Simão: Cefas-Pedro, na língua de Jesus, com toda a probabilidade não significa “rocha”, mas simplesmente “pedra de construção”.
    Então o que é que Jesus entende quando afirma: “sobre esta padra edificarei a minha Igreja”? Ele se refere à fé nele professada por Pedro. Essa fé constitui o fundamento sólido da Igreja, torna-a invencível e capaz de dominar as forças contrárias. Todos aqueles que, como Pedro, professam a fé em Jesus Cristo Filho do Deus vivo, passam a fazer parte deste edifício solidíssimo que jamais ruirá.
    A expressão as portas do inferno não deve ser entendida em sentido material. Indica as forças do mal, o que é contrário à vida e ao bem dos homens. Nada poderá impedir a Igreja, que acredita firmemente em Cristo, de realizar sua missão de salvação.
    Pedro recebe também as chaves e o poder de ligar e de desligar. Antes de procurar entender o significado dessas duas imagens, notemos que o poder de ligar e de desligar não é reservado a Pedro, é conferido, logo depois a toda a comunidade (Mt 18,18; Jo 20,23).
    Essas imagens, usadas frequentemente pelos rabinos do tempo de Jesus, indicam a autoridade de transmitir os ensinamentos do Mestre e de decidir o que é conforme e o que é contrário ao evangelho.
    Pedro, que apenas manifestou sua fé em Cristo, representa os apóstolos e todos os cristãos que professam a mesma fé. Mas qual é seu ministério específico?
    É este o ponto que divide as comunidades cristãos de todo o mundo. Essa divisão é provocada certamente pelo pecado dos homens, não pela palavra de Jesus.
    Para reconstruir a unidade não podemos pretender que sejam os outros que se devam converter para nós, nem os irmãos da outras confissões exigir que nos convertamos a eles. Todos devemos converter-nos para Cristo e para a sua palavra. Os irmãos protestantes reconhecem agora que Jesus realmente conferiu a Pedro uma missão particular a serviço dos irmãos. No Novo Testamento esse apóstolo aparece sempre em primeiro lugar e é ele que deve confirmar a fé dos outros (Mt 10,2; Lc 22,32; Jo 21,15-17). Isso indica que a Igreja tem, no bispo de Roma, o encarregado de manter a unidade na fé em Cristo professada por Pedro.
    Mas também nós, católicos, devemos converter-nos. Devemos abandonar tudo o que não é evangélico no nosso modo de entender o ministério do Papa e a autoridade na Igreja. Devemos adequar-nos, sobretudo, ao que Jesus repetiu tantas vezes e tão claramente “o primeiro entre vós seja como o menor e quem governa seja como aquele que serve” (Lc 22,26). Devemos portanto fazer desaparecer toda forma de privilégio e também a simples aparência de uma semelhança entre quem preside a comunidade cristã e “os reis das nações” (Lc22,25).
    Na sua primeira carta – que citamos acima – Pedro dita os critérios de comportamento de quem é chamado a desenvolver o ministério da presidência na comunidade: “Velai – diz aos anciãos – sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado. Tende cuidado dele, não constrangidos, mas espontaneamente, não por amor de interesse sórdido, mas com dedicação, não como dominadores absolutos sobre as comunidades que vos são confiadas, mas como modelos do vosso rebanho. E quando aparecer o supremo Pastor, recebereis a coroa imperecível da glória” (1Pd 5, 2-4).
    Provavelmente a melhor definição do ministério do Papa continua sendo a de um famoso bispo da Igreja dos primeiros séculos, Irineu de Lion, que chamava o bispo de Roma “aquele que preside à caridade”.

Fonte: Armellini, Fernando – Celebrando a Palavra “Festas”


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