Falamos muito de vocação. Quando dizemos que alguém tem vocação, afinal o que queremos dizer? A palavra vocação vem do verbo no latim “vocare” (chamar). Assim vocação significa chamado. É, pois, um chamado de Deus. Se há alguém que chama, deve haver outro que escuta e responde.

A vida de todo ser humano é um dom de Deus. “Somos obra de Deus, criados em Cristo Jesus” (Ef 2,10). Existimos, vivemos, pensamos, amamos, nos alegramos, sofremos, nos relacionamos, conquistamos nossa liberdade diante do mundo que nos cerca e diante de nós mesmos.

Não somos uma existência lançada ao absurdo. Somos criaturas de Deus.

Não existe homem que não seja convidado ou chamado por Deus a viver na liberdade, que possa conviver, servir a Deus através do relacionamento fraternal com os outros.

Você é uma vocação. Você é um chamado.

Encontramos na Bíblia muitos chamados feitos por Deus: Abraão, Moisés, os profetas… Em todas as escolhas, encontramos:

Deus chama diretamente, pela mediação de fatos e acontecimentos, ou pelas pessoas.

Deus toma a iniciativa de chamar.

Escolhe livremente e permite total liberdade de resposta.

Deus chama em vista de uma missão de serviço ao povo.

Vocação é o encontro de duas liberdades:

  • a de Deus que chama
  • a do Homem que responde

Podemos fazer uma distinção entre os chamados: vocação à existência, vocação humana, vocação cristã e vocação específica, uma sobrepondo-se à outra.

  • Vocação à existência – Vida

Foi o primeiro momento forte em que Deus manifestou todo o seu amor a cada um de nós. Deus nos amou e nos quis participantes de seu projeto de criação como coordenadores responsáveis por tudo o que existe. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. A vida é a grande vocação. Deus chama para a vida, e Jesus afirma que veio para que todos a tenham em abundância. (Jo 10,10)

  • Vocação humana – Ser gente, ser pessoa

Foi nos dada a condição da “liberdade dos filhos de Deus”, inteligência e vontade. Estabelecemos uma comunhão com o Criador e, nessa atitude dialogal, somos pessoas. A pessoa aprende a conviver, a dialogar, enfim, a se relacionar. Todos têm direitos e deveres recíprocos.

Infelizmente, a obra-prima do Criador anda muito desprezada: enquanto uns têm condições e oportunidades, outros vivem na miséria, sem condições básicas para ressaltar a dignidade com que foram constituídos. No mundo da exclusão acontece a “desumanização”‘e pode-se perder a condição de pessoa humana.

  • Vocação cristã – Vocação de filho e batizado

Todo batizado recebeu a graça de fazer parte do povo eleito por Deus, de sua Igreja. Através da vocação cristã, somos chamados à santidade, vocação à perfeição, recebendo a mesma fé pela justiça de Deus. Fomos, portanto, eleitos e chamados pessoalmente por Cristo para ser, como cristãos, testemunhas e seguidores do Mestre Jesus. Chamados à fé pelo batismo, a pessoa humana foi qualificada de outra forma. Assim todos fazem parte do “reino de sacerdotes, profetas e reis”. (1 Pd 2,9)

Toda pessoa batizada tornou-se um seguidor de Cristo, participante de uma comunidade de fé que pode ser chamada para participar da obra de Deus, como membro de sua Igreja, seguindo caminhos diferentes:

  • Vocação laical (matrimônio / celibato / solteiro – apóstolo)

Assim todo cristão solteiro ou casado, batizado em Cristo, tornando-se membro da sua Igreja, é convocado a ser apóstolo, anunciador do Reino de Deus, exercendo funções temporais. O leigo vive na secularidade e exerce sua missão insubstituível nos ofícios e trabalhos deste mundo. O Concilio Vaticano II sublinhou que a vocação e a missão do leigo “contribuem para a santificação do mundo, como fermento na massa’. (LG31)

  • Vocação ao ministério ordenado (diácono, padre e bispo)

É uma vocação de carisma particular, é graça, mas passa pela mediação da Igreja particular, pois as vocações são destinadas à Igreja. Acontece num acompanhamento sistemático, amadurecendo as motivações reais da opção. O ministro ordenado preside e coordena os serviços da comunidade. Por intermédio dos sacramentos, celebra a presença de Deus no meio do seu povo. O presbítero é enviado a pastorear e animar a comunidade. Ele é o bom pastor que guia, alimenta, defende e conhece as ovelhas. “Isto exige humanidade, caráter íntegro e maduro, virtudes morais sólidas e personalidade madura”. (OT 11)

  • Vocação à vida consagrada (ser irmão religioso / vida ativa ou contemplativa)

O religioso é chamado a testemunhar Cristo de uma maneira radical, vivendo uma consagração total nos votos de pobreza, castidade e obediência. Com a pobreza, vivem mais livres dos bens temporais, tornando-se disponíveis para Deus, para a Igreja e para os irmãos. Com a castidade, vivem o amor sem exclusividade, sendo sinal do mundo l futuro que há de vir. Com a obediência, imitam a Cristo obediente e fiel à vontade do Pai.

Na Sagrada Escritura:

Mas temos vários outros exemplos de homens de fé que foram chamados por Deus, como:

Moisés, que foi chamado especialmente para tirar o povo da escravidão do Egito;

Josué, que foi escolhido para liderar o povo de Israel em direção a terra prometida;

Samuel, que foi usado para ser o último grande Juiz da nação Hebraica e ajudar o povo a escolher o primeiro rei de sua história;

Jonas, que foi chamado para pregar a um povo estranho às alianças de Deus, o povo de Nínive;

Os doze apóstolos, que foram chamados por Jesus para estarem ao seu lado e, também, para serem os primeiros fundamentos de sua Igreja;

Timóteo, o jovem companheiro do apóstolo Paulo, que foi chamado para trabalhar na causa do Evangelho;

João Batista, que foi chamado para converter os filhos de Israel mostrando quem era o verdadeiro Messias e preparando-os para a Sua vinda;

Paulo, o apóstolo aos gentios, que foi chamado pelo Senhor para sofrer pelo Seu nome.

Textos bíblicos para reflexão:

Mateus 25,14-30:

14. Porque isto é também como um homem que, partindo para fora da terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os seus bens.

15 E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe.

16 E, tendo ele partido, o que recebera cinco talentos negociou com eles, e granjeou outros cinco talentos.

17 Da mesma sorte, o que recebera dois, granjeou também outros dois.

18 Mas o que recebera um, foi e cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.

19 E muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e fez contas com eles.

20 Então aproximou-se o que recebera cinco talentos, e trouxe-lhe outros cinco talentos, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que granjeei com eles.

21 E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

22 E, chegando também o que tinha recebido dois talentos, disse: Senhor, entregaste-me dois talentos; eis que com eles granjeei outros dois talentos.

23 Disse-lhe o seu senhor: Bem está, bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

24 Mas, chegando também o que recebera um talento, disse: Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste;

25 E, atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu.

26 Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei?

27 Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros.

28 Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos.

29 Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado.

30 Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.

João 14, 5 – 7

5 Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho?

6 Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.

7 Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis, e o tendes visto.

2 Timóteo 1-9

que nos salvou e nos chamou com uma santa vocação, não em virtude das nossas obras, mas por causa da sua própria determinação e graça. Essa graça nos foi dada em Cristo Jesus desde os tempos eternos,

Mateus 6, 24

“Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro.”

Jeremias 1, 4-10

4 Assim veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:

5 Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta.

6 Então disse eu: Ah, Senhor DEUS! Eis que não sei falar; porque ainda sou um menino.

7 Mas o Senhor me disse: Não digas: Eu sou um menino; porque a todos a quem eu te enviar, irás; e tudo quanto te mandar, falarás.

8 Não temas diante deles; porque estou contigo para te livrar, diz o Senhor.

9 E estendeu o Senhor a sua mão, e tocou-me na boca; e disse-me o Senhor: Eis que ponho as minhas palavras na tua boca;

10 Olha, ponho-te neste dia sobre as nações, e sobre os reinos, para arrancares, e para derrubares, e para destruíres, e para arruinares; e também para edificares e para plantares.

Venha beber desta fonte (Autor Frei Carlos Mesters, carmelita):

O que é uma vocação?

A vocação básica

Geralmente, falando de vocação, muita gente pensa logo em vocação para padre, freira, diácono, ministro ou ministra, pensa na vocação à santidade ou na vocação que como cristãos recebemos no batismo. Tudo isso é correto, mas não é tudo. É apenas uma parte, e uma parte muito pequena, é olhar apenas um único tijolo e achar que já viu e conhece a casa inteira que tem muitas paredes, quartos e andares.

Existe uma vocação básica que abrange e fundamenta todas as outras vocações. Eu sou Carlos. Você é Maria, João, Raquel, Alberto. A vocação básica de cada um de nós é a gente procurar ser aquilo que a gente já é: ser Carlos, ser Maria, ser João, ser Raquel, ser Alberto. Todos nós somos Seres Humanos. Foi assim que Deus nos criou e nos quis. Graças a Deus!

A vocação básica de todos nós é: a gente ser HUMANO, ser gente. É humanizar nossa vida. É contribuir para que a vida da gente seja de fato vida de gente; para que a vida da nossa sociedade seja mais humana. Jesus disse: “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância (Jo 101,10). Quando falamos em vocação cristã, vocação religiosa ou vocação carmelita, não podemos esquecer esta vocação básica. Não se constrói um prédio começando com o terceiro andar. Não dá certo. Tem que começar da base.

Ser chamado pelo nome

Vocação é o mesmo que ser chamado pelo nome. Ora, ser chamado pelo nome é a coisa mais frequente e mais comum que acontece com cada um de nós: “João” “Raquel” “Carlos” Quando alguém chama, você para, olha e pergunta: “O que há?”

Às vezes, somos chamados por alguém, mas não escutamos. Muito barulho ao redor ou dentro de nós. Pode ser também que o chamado foi muito fraco ou vinha de uma pessoa muda que chamava com um gesto que você não entendeu. Condição para poder escutar o chamado é saber fazer silêncio. Sem silêncio não escuta nada. Hoje, o que mais nos falta é silêncio.

Alguém chama você porque está precisando de uma ajuda. Você dá a sua resposta, se compromete e vai agindo. No fundo, tudo que a gente faz na vida de cada dia é resposta a um chamado, a uma vocação: “Recebi uma chamada pelo telefone e fui!” Há chamados pequenos e chamados grandes: Chamado de criança que chora, de mendigo que pede, de amigo que convida. Às vezes acontece que alguém chama, e você responde: “Sinto muito, mas agora não posso”. É que um outro chamado o impede de responder positivamente a este novo chamado.

São muitas as palavras que usamos para expressar aquilo que escutamos dentro de nós como vocação e à qual procuramos dar uma resposta ao longo dos anos da nossa vida. São palavras comuns que indicam coisas muito comuns, muito humanas: Chamado, Pedido, Recado, Telefonema, Apelo, Convite, Vocação, Convocação, Grito, Lembrete, etc.

Como a vocação se manifesta na vida

Um chamado ou uma vocação pode vir de dentro da gente “eu me sinto chamado par isto ou para aquilo”. Também pode vir de fora. Alguém bate na porta e diz: “Maria, será que você pode vir ajudar a gente?” Geralmente, a vocação é algo que vem ao mesmo tempo, de dentro e de fora da gente. É como uma semente que está dentro da terra. Mas se não houver chuva e sol que vem de fora, a semente que está dentro da gente não cresce e não se desenvolve.

Tem semente de alface e semente de jacarandá. Semente de alface, tendo sol e chuva, cresce rápida. Semente de jacarandá cresce bem mais devagar a semente da vocação dentro da gente é de jacarandá: cresce devagar, durante tantos anos quantos anos dura nossa vida.

Vocação é como gente. Ninguém nasce sozinho, mas nasce de pai e mãe, no meio de uma família. Não cresce sozinho, mas com a ajuda de outras pessoas. Dizia o cearense filósofo lá do sertão que nunca estudou: “Eu não sou pessoa não, sou pedaço de pessoa. Pessoa é a comunidade, e quanto mais eu participo na comunidade, mais pessoa eu fico”. É assim que cresce a vocação dentro da gente: convivendo.

Vocação pode nascer de muitas maneiras. Por exemplo, quando, diante de uma injustiça, você percebe que tem a possibilidade de fazer algo para mudar a situação, então… dentro de você, nasce um sentimento de responsabilidade que a faz dizer: “Não posso ficar parada! Devo fazer alguma coisa!” Pois bem, esta consciência forte que você eu ou a comunidade às vezes sentimos de que podemos e devemos fazer algo para mudar o rumo dos acontecimentos ao nosso redor, é uma vocação. Vem de Deus através da consciência. Assim existem muitas vocações, muitos chamados.

Tem gente que vive procurando durante anos para saber “O que será que Deus quer de mim”. Quando depois de muitos anos de busca e de reza, finalmente, encontra a resposta que procurava a pessoa diz: “Até que enfim encontrei o que eu queria. Acho que nasci para isso” Naquele momento, tudo se encaixa e a pessoa se sente no lugar onde Deus a queria desde o momento em que nasceu.

No tempo do profeta Jeremias, as pessoas diziam a mesma coisa, mas com outras palavras. Jeremias sentia Deus dizendo a ele assim: “Jeremias, antes de formar você no ventre de sua mão, eu o conheci, antes que fosse dado à luz, eu o consagrei, para fazer de você o profeta das nações” (Jr 1,5). Hoje dizemos: “Acho que estou no lugar onde Deus me quer. Nasci para isso!”

Como a vocação aparece na Bíblia

A Bíblia é uma luz importante para nos ajudar a descobrir a vocação de Deus que está em nós. Ela nos faz saber a raiz da nossa vocação e nos orienta como acolhe-la e realiza-la.

A raiz da nossa vocação está em Deus

Diz o livro do Êxodo (Ex 2,23-25):

“Muito tempo depois, o rei do Egito morreu. Os filhos de Israel gemiam sob o peso da escravidão, e clamaram; e do fundo da escravidão, o seu clamor chegou até Deus. Deus ouviu as queixas deles e lembrou-se da aliança que fizera com Abraão, Isaac e Jacó. Deus viu a condição dos filhos de Israel e a levou em consideração”.

Mais adiante diz novamente (Ex 3,7-10):

“Javé disse a Moisés: “Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios e para fazê-lo subir dessa terra para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel, o território dos cananeus. O clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e eu estou vendo a opressão com que os egípcios os atormentam. Por isso, vá. Eu envio você ao Faraó para tirar do Egito o meu povo, os filhos de Israel”.

Esses textos e tantos outros mostram que a raiz da nossa vocação está em Deus. Antes de nós, Deus teve vocação, pois Deus foi chamado pelo povo sofrido. A vocação de Deus é o grito do povo oprimido” E Deus deixou que este chamado entrasse dentro dele. Ele escutou, e deu uma resposta coerente.

Para ser fiel à sua vocação, Deus chamou Moisés e chama a cada um de nós. Chamou a mim. Chama a você também” Nossa vocação tem a sua origem em Deus, na vontade que Ele tem de comprometer-se com a vocação que está recebendo do povo para libertá-lo.

Os sete passos da resposta de Deus à sua vocação

Vejamos como Deus foi chamado e como Ele respondeu à sua vocação. Isto nos ajudará para saber como responder à nossa vocação. A Bíblia anota sete passos bem precisos da maneira como Deus respondeu a sua vocação:

  1. Deus ouviu o clamor que vinha da realidade dos oprimidos;
  2. Deus lembrou-se da aliança que fizera com Abraão, Isaac e Jacó;
  3. Deus viu a miséria e a opressão com que os egípcios o afligiam;
  4. Deus conheceu os seus sofrimentos e os levou em consideração;
  5. Deus desceu para libertá-lo;
  6. Deus decidiu fazê-lo subir para uma terra fértil e espaçosa;
  7. Deus chamou Moisés e o enviou ao faraó para tirar o povo do Egito.

Os sete passos da nossa resposta à vocação

Vale a pena fazer uma análise da própria vida e vocação percorrendo estes mesmo sete passos que Deus percorreu para dar uma resposta à sua vocação: OUVIR, LEMBRAR, VER CONHECER, DESCER, DECIDIR, CHAMAR. Não são passos distintos, um depois do outro, mas são os vários aspectos da resposta que damos ao chamado que recebemos.

  1. Ouvir: Deus ouviu o clamor

A gente deve aprender a escutar o grito calado do pobre, deve aprender a perceber os problemas das pessoas, dos irmãos e das irmãs, do povo; deve estar atento aos acontecimentos. Como Jesus na estrada dos Emaús, devemos aproximar-nos das pessoas, caminhar com elas, perguntar, fazer silêncio para escutar o que conversam (Lc 24,13-35); ter um desconfiômetro para perceber em nós eventuais resistências, filtros, desvios ou enganos, que nos impedem de escutar. O ponto de partida é fazer silêncio dentro de nós para poder escutar a vocação.

  • Lembrar: Deus se lembrou da aliança com Abraão

Muitas vezes, ao presenciar um fato na rua ou escutar uma notícia na televisão ou no rádio, você se lembra de alguma situação já vivida antes. Os fatos que acontecem hoje trazem de volta na memória as coisas do passado, tanto da vida pessoa, como da família, da comunidade, do Brasil ou do mundo. E esta lembrança do passado, por sua vez, ajuda a dar uma resposta mais coerente aos apelos que recebemos hoje. A memória do passado é chave para poder analisar bem a situação presente e perceber os apelos ou as vocações que aí existem para nós. Sem memória do passado, não há futuro para o povo”. Por favor de memória já erramos muito na vida.

  • Ver: Deus viu a miséria do seu povo

Todos os dias, vemos a miséria do Brasil: pobres na rua, brigas em família, desemprego, corrupção, exploração, fome, violência, etc., mas nem sempre nos damos conta do que está acontecendo. Vemos as coisas, mas não as percebemos. Nós nos acostumamos e nos tornamos insensíveis aos problemas do país e das pessoas. Muitas vezes, os meios de comunicação, a TV, os grandes jornais e as revistas determinam o nosso pensamento. Não analisamos as coisas e, para acalmar uma possível reação da nossa consciência, arrumamos motivos e pretextos para não nos envolver. Por falta de análise crítica da realidade não enxergamos o apelo de Deus na vida e, mesmo vendo, não descobrimos nossa vocação.

  • Conhecer: Deus conheceu os sofrimentos

Na Bíblia, a palavra conhecer indica não só o conhecimento teórico obtido pelo estudo. Na Bíblia, conhecer indica a experiência prática, obtida na convivência. Uma coisa é observar de longe, outra é sentir de perto. Quem vive em condomínio fechado não sabe o que sofre um favelado. Quem já esteve na casa de um desempregado sabe o que significa não ter o que comer. Quem é o dono de terras não sabe o que sofre um sem-terra. Uma vocação que não se envolve não atinge o seu objetivo. Quem não mora antes, não sabe com quem vai casar, e pode dar um passo em falso. Quem não aprofunda a vida, vive na superficialidade, sem raiz. Não resiste.

  • Descer: Deus desceu para libertar o seu povo

A situação do povo que gritava fez com que Deus saísse do lugar onde estava para colocar-se no lugar onde estava o povo. Mudou de posição. Fez opção pelos pobres e oprimidos. Descer significa mudar de posição social. Para poder assumir sua vocação é muito importante a pessoa fazer algo, por menor que seja, para descer, mudar de posição. Por exemplo, no jeito de oferecer ajuda aos outros ou de dar uma esmola, na hora de votar, nas decisões que se tomam, na maneira de fazer análise dos problemas, etc. Diz um provérbio egoísta: “A fome na China pode ser grande, mas o meu calo dói mais! ” É COLOCANDO-ME NO SAPATO DO OUTRO, QUE VOU PERCEBER QUE A FOME NA CHINA DÓI BEM MAIS QUE O MEU CALO. Aí eu saio do meu egoísmo, e mudo de posição.

  • Decidir: Deus decidiu fazê-lo subir para uma terra fértil

Deus ouviu, lembrou, viu, conhecer e desceu. Agora Ele começa a agir, tomando decisões concretas a partir da posição do outro, com o enfoque do outro, e elabora um projeto para libertar o povo daquela situação. Deus percebeu que o povo não podia continuar do jeito que estava lá no Egito e que era necessário encontrar uma saída “para fazê-lo subir dessa terra para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel”. O projeto de Deus levou quarenta anos de andanças no deserto para ser realizado, desde a travessia do Mar Vermelho até a entrada na Terra Prometida. Deus parece não ter pressa. Ele não planta alface. Planta é Jacarandá.

  • Chamar: Deus chamou Moisés e o enviou para libertar o povo

Para realizar seu projeto Deus chamou Moisés, Moisés chamou Aarão, Aarão chamou outros, os outros chamaram outros. Iniciou-se um processo que chegou até nós. Deus tomou iniciativas, envolveu pessoas, fez com que os outros passassem pelo mesmo processo A raiz da vocação de Moisés e da vocação de todos nós, é a preocupação de Deus em ser fiel à vocação que Ele, Deus, está recebendo do povo até hoje para libertá-lo da opressão e do sofrimento em que vive.

A única certeza que Deus nos dá quando nos chama para alguma missão é esta “Vai! Estou contigo”. Deus não dá cheque assinado nem dinheiro. Não dá diploma nem nos coloca no seguro. Não muda o nosso caráter, nem tira nossos defeitos. Não nos dá segurança psicológica, nem tira nossas dúvidas. Apenas faz saber: “Vai, estou com você” Foi o que Ele disse a Moisés (Ex 3,12), A Maria, a mão de Jesus (Lc 1,28), aos apóstolos (Mt 28,20), e a tantos outros, antes de nós. Foi também o nome que ele deu a Jesus: Emanuel, que quer dizer Deus Conosco (Mt 1,23). Ele está conosco, sempre, para que possamos realizar nossa missão, nossa vocação!

Como na Bíblia as pessoas respondem à vocação?

Deus chamou Moisés, Moisés chamou Aarão, Aarão chamou outros, os outros chamaram a nós. Como responder a este chamado que nos vem de Deus através dos irmãos e das irmãs?

Neste capítulo apresentamos alguns espelhos, nos quais transparece como as pessoas da Bíblia reagiam ao chamado de Deus. Pois as mesmas reações costumam acontecer até hoje em nossas vidas: As dificuldades e as resistências, as alegrias e a coragem, o medo de comprometer-se, as dúvidas e a falta de fé na promessa, os pretextos para escapar, os enganos e os falsos rumos que desviam do caminho. Por isso, estas histórias da Bíblia podem ajudar-nos no discernimento da nossa vocação.

  • Adão e Eva – Descobrir a vocação de Deus na nossa condição humana

Diz o livro do Eclesiástico: “Acima de qualquer outra criatura viva está Adão” (Eclo 49,16). Adão e Eva somos todos nós, seres humanos. Independente de idade ou de raça, de condição social ou de grau de cultura, de gênero ou de religião, somos todos feitos do barro e do sopro de Deus (Gn 2,7). Adão e Eva representam nossa pequenez e nossa grandeza como seres humanos. Tropeçando, caminhamos em direção a Deus. Todos e todas nascidos de Deus e querendo voltar para Deus “Tu nos fizestes para Ti, e o nosso coração está irrequieto até que não descanse em Ti”.

O velho Adão e a velha Eva que existem em todos nós (Rm 6,6; Col 3,9), devem ser renovados segundo a imagem do novo Adão e da nova Eva (Ef 4, 16.22). A vocação básica da nossa vida é renovar, passar do antigo para o novo. Nascemos velhos e velhas e vamos morrer novos e novas. Graças a Deus.

  • O Pai Abraão – Saber crer na vocação mesma na escuridão, sem prova concreta

Aos noventa anos de idade, Abraão foi chamado para ser Pai de um povo (Gn 12,1-3). Promessa bonita e atraente! Porém, condição para poder ser pai de um povo é ter ao menos um filho. Abraão não tinha filhos e Sara, sua esposa, era estéril, não podia ter neném e já tinha mais de setenta anos de idade (Gn 17,1,17;18,13). Inicialmente, os dois não conseguiram crer na vocação, deram risada. Risada de incredulidade! (Gn 17,17;18,12-13). Por falta de fé na vocação de Deus, arrumaram três propostas alternativas para poder garantir a realização daquela promessa tão atraente: ser pai de um povo.

A primeira proposta foi de apresentar Eliezer, um empregado, como substituto do filho (Gn 15,1-6). Mas Deus disse: “Eliezer não! Vai ter que ser filho seu! ” (Gn15,4). A segunda proposta foi de apresentar Agar, escrava de Sara, para ser mãe do futuro filho (Gn 16,1-16). Nasceu Ismael, filho de Abraão e Agar. Mas Deus responde: “Ismael não! Terá que ser filho de Sara” (Gn 17,15-19). A terceira proposta foi assim. Abraão conseguiu crer em Sara, e nasceu o filho da promessa que recebeu o nome de Isaac, o que significa risada (Gn 21,1-7). A esperança de Abraão adquiriu uma prova concreta e palpável: o filho Isaac! Mas agora, imperceptivelmente, o fundamento da esperança se transfere de Deus que oferece o dom, para Isaac que é o dom oferecido por Deus. E aí a palavra de Deus chega de novo até Abraão e diz “Vai sacrificar o seu filho Isaac no lugar que eu te mostrar! ” (Gn 22,1-2). Desta vez, Abraão não discute, não diz nada. Ele é obediência muda. Apenas age (Gn 22,3-10). Não se fica sabendo o que ele pensa. O texto não informa. Sabe por que? É que cada um de nós, lendo o texto e comparando sua própria vocação com a de Abraão, deve preencher a informação que falta no texto. O que você faria? No último momento, Deus proíbe Abraão de sacrificar o filho (Gn 22,11-19). Bastou a obediência!

A carta aos Hebreus interpreta o gesto de Abraão da seguinte maneira: “Abraão acreditava que Deus é capaz de tirar a vida da própria morte”, ou seja, ele já acreditava na ressurreição. E acrescenta: “Isso é um símbolo para nós” (Hb 11,17-19). Símbolo, como? É que todos nós, casados ou solteiros, temos dentro de nós um pequeno Isaac, um valor do qual não abrimos mão e sem o qual não podemos imaginar nossa vida. Chegará o dia em que Deus pedirá a mesma coisa: Sacrifique esse seu Isaac para que sua esperança seja colocada em Deus, só nele!

Responder à vocação é um processo que ocupa a vida inteira. É fruto da lenta e dolorosa purificação. É como descascar uma cebola. Você tira uma casca, e terá outra para tirar. Você grita: “Pare! É o miolo! ” E não é o miolo, é a casca. Cebola não tem miolo. Só tem casca. E enquanto descasca a cebola você chora. Até descobrir que nós não fomos feitos para nós mesmos, mas para Deus e para os outros. Convém olhar muito neste espelho de Abraão e Sara e aprender deles como crer na força da Palavra de Deus que nos chama, pois para Deus nada é impossível.

  • O levita Moisés – Ter coragem de aceitar a vocação, mesmo diante do perigo

Moisés foi chamado para enfrentar o Faraó do Egito, o dono do mundo. Sua vocação era libertar o povo que estava sendo explorado pelos capatazes do Faraó. Quarenta anos antes, Moisés já tinha tido uma experiência dolorosa quando, em defesa dos irmãos oprimidos, matou um egípcio (Ex 2,12). Teve que fugir da polícia que queria mata-lo (Ex 2,15).

Agora, novamente lá, no Monte Sinai. Na sarça ardente, Deus o chama para voltar ao Egito e enfrentar o homem mais poderoso de todo o mundo (Ex 3,1-10). Moisés ficou com medo e arrumou cinco desculpas ou pretextos para escapar da vocação (Ex 3, 11.13;4, 1.10.13).

Primeiro pretexto: humildade e incapacidade: “Quem sou eu? ” (Ex 3,11) Deus responde: “Vai! Estou com você! ” A única saída é a entrega total na fé. É crer que Deus está conosco, comigo, aqui e agora!

Segundo pretexto: a ignorância do povo que vai perguntar “Qual o nome? ” Deus reafirma o que havia dito antes: “Estou com você! ” Deus combate o medo de Moisés reafirmando de maneira categórica: “Certissimamente estou com você”.

Terceiro pretexto: a falta de fé dos outros: “Não vão crer em mim” (Ex 4,1). Moisés esconde o medo e sua própria falta de fé atrás da falta de fé do povo. Na realidade, quem não acreditava era ele, Moisés. Em resposta, Deus o faz realizar três sinais milagrosos (Ex 4,2-9). São histórias bem populares para ajudá-lo a superar o medo e crer na vocação.

Quarto pretexto: incapacidade física: “Meu Senhor, eu não tenho facilidade para falar” (Ex 4,10;6,30). Na resposta Deus mostra que não tem cabimento inventar junto ao Criador da boca dos homens esse pretexto do defeito no falar (Ex 4,11-12).

Quinto pretexto: “Não, meu Senhor, mande a quem quiser” (Ex 4,13). Isto é, mande a quem quiser, mas não a mim. Finalmente, Moisés falou claro. Deixou de esconder-se atrás de pretextos e disse o que estava no fundo da sua alma: “Não quero! Mande outro! ” Deus também falou claro: E você vai! Pode levar Aarão com você, que tem língua boa para falar (Ex 4,14-18;7,1-2).

Às vezes, a vocação dá medo na gente. Moisés soube superar o medo e, no fim, entregou-se e realizou sua vocação. Vocação é um processo. Leva tempo. É Jacarandá. Na vida de todos nós existe uma sarça ardente, existe o Monte do reencontro com Deus e com a vocação.

O que teria acontecido se Moisés não tivesse ido? Talvez tivesse sido um bom executivo do faraó. Talvez tivesse recebido, depois da sua morte, uma pequena pirâmide, mas a história teria tomado outro rumo, e você não estaria lendo este livro.

  • O profeta Elias – Saber achar o caminho para não perder o rumo da vocação

Sempre existe a necessidade de conversão, não só da conversão moral, mas também e sobretudo da conversão no modo de pensar e de enxergar Deus e a vocação. Neste ponto o profeta Elias nosso pode orientar.

Elias já tinha realizado grandes coisas. Enfrentou sozinho o rei Acab e os 450 profetas do falso deus Baal (1Rs 18,20-40). Mas teve um momento de desânimo tão forte que perdeu o rumo da vocação e a vontade de viver. Só queria comer, beber e dormir. Estava sem rumo, perdido, no meio do deserto, sozinho: “Quero morrer, não sou melhor do que os outros” (1Rs 19,1-6). Ele imaginava sua vocação de um jeito, e ela vinha a ele de outro jeito. Você já teve momentos assim? Como fez para reencontrar o caminho?

Elias recebe a ordem: “Saia e fique no alto da montanha, diante de Javé, pois Javé vai passar” (1Rs 19,11). Elias sai da gruta e se prepara para o encontro com Deus. Momento solene! No passado, naquela mesma montanha Horeb ou Sinai, Deus manifestara sua presença no furacão, no terremoto e no fogo (Ex 19,16). Estes sinais tradicionais da presença de Deus eram os critérios que orientavam Elias na sua busca. Mas acontece o inesperado: Deus já não está no furacão, nem no terremoto, nem mesmo no fogo. Parece até um refrão que chama a atenção “Javé não estava no furacão… não estava no terremoto… não estava no fogo” (1Rs 19,11-12) Os sinais tradicionais da presença de Deus eram lâmpadas apagadas. Bonitas para ver, mas sem luz! Deixaram Elias no escuro! Elias vivia no passado! Deus já não era como ele, Elias, e tantos outros o imaginavam e desejavam. É a desintegração do mundo de Elias. Caiu tudo! A imagem que Elias tinha de Deus e a vocação quebrou em mil pedaços. É o silêncio de Deus!

Na Bíblia este silêncio é expresso com as palavras “murmúrio de uma brisa suave”. A palavra hebraica usada para indicar a brisa vem da raiz DMH, que significa parar, ficar imóvel, emudecer. O “murmúrio de uma brisa suave”, que veio depois do furacão, do terremoto e do fogo, indica uma experiência repentina, que, como um golpe suave e inesperado, faz a pessoa ficar calada, cria nela um vazio e, assim, a dispõe para escutar. É como um puxão de orelha, que desperta, quebra a ilusão irreal e faz a pessoa colocar o pé no chão. A brisa suave obrigava Elias a uma conversão radical. Elias cobre o rosto com o manto (1Rs 19,13). Sinal de que tinha descoberto a presença de Deus naquilo que parecia ser a sua ausência! Despertou, caiu a filha, aprendeu a lição! A escuridão iluminou-se por dentro e a noite ficou mais clara que o dia (Sl 139,12). Deus se fez presente na ausência para além de todas as representações e imagens.

A experiência de Deus na Brisa Leve dá olhos novos e produz uma mudança radical. Elias descobre que não é ele, Elias, que defende a Deus, mas é Deus quem defende a Elias. É a sua conversão e libertação! Reencontrando-se com Deus, encontrou-se consigo mesmo Reencontrou sua vocação lá, onde pensava que Deus não tivesse nada a dizer-lhe. Imediatamente, ele parte para cumprir as ordens de Deus. Uma delas é ungir Eliseu como profeta em seu lugar (1Rs 19,16). Renasce a profecia! A luta pela justiça renasce da experiência da gratuidade.

  • O casal profético Gomer e Oséias – Descobrir a vocação de Deus na experiência do amor humano

Os reis de Israel souberam manipular a religião da fertilidade da divindade Baal. Na opinião do povo, Baal controlava a produção de alimentos pela chuva e a reprodução da vida pela união sexual com as prostituas sagradas nos assim chamados “lugares altos”. Os reis aconselhavam as moças a irem nos lugares altos para serem prostituídas em nome daquela divindade. As crianças que assim nasciam eram propriedade do rei e deviam servir a ele como soldados e trabalhadores, ou como empregadas domésticas e amantes (Os 4,1-14; 1Sam 8,11-17).

Assim Oséias, como todos os rapazes da época, frequentava o lugar alto, onde ele encontrou Gomer, moça prostituída (Os 1,2). Os dois se queriam bem e casaram. Mesmo casados, os dois continuavam frequentando o lugar alto. Era o que todos faziam naquela época. Mas aconteceu algo novo. Eles experimentavam o amor que nasceu entre eles como um dom de Deus e, pouco a pouco, esta experiência do amor humano levou os dois a desconfiar da ideologia com que os reis apresentavam o culto da fertilidade. Os dois tomam a decisão de romper com o culto da prostituição sagrada e resolvem seguir a vocação nova que estavam sentindo dentro de si a partir da experiência do amor. Diz Oséias a Gomer: “Por um bom tempo você ficará em sua casa para mim, sem se prostituir, sem relação com homem nenhum, e eu farei a mesma coisa por você” (Os 3,2-3). Decisão profética, nascida da fidelidade à sua vocação.

  • Jó e os três amigos de Jó – Descobrir a vocação de Deus nas contradições da religião

O livro de Jó é como um teatro. O ensino oficial dizia “Sofrimento é castigo de Deus”. O teatro do livro de Jó verbaliza a tensão entre o ensino oficial e a consciência rebelde dos sofredores. Jó representa a consciência rebelde dos sofredores. Os três amigos representam a visão tradicionalista. A cabeça de Jó, formada pela ideologia dominante, dizia: “Jó, você sofre porque é pecador”, mas o coração, a consciência lhe dizia: “Não pequei! Acho que Deus é injusto comigo”. Jó critica os três amigos, que identificam Deus com o nível econômico das pessoas: “Vocês usam mentiras para defender a Deus” (Jó 13,7). “Vocês são capazes de leiloar um órfão e vender seu próprio amigo” (Jó 7,27).

A chave da mensagem do livro de Jó está na frase final. Jó se dirige a Deus e diz: “Eu te conhecia só de ouvir falar de Ti, mas agora meus olhos te viram. Por isso me retrato e me arrependo sobre pó e cinza” (Jó 42, 4-6). A luta não era contra Deus, mas sim contra a imagem errada de Deus que o catecismo da época tinha colocado na cabeça de Jó e que falsificava a consciência das pessoas e destruía a convivência humana. É a rebeldia profética de um velho sábio.

  • O profeta Jeremias – Sempre teve problema de vocação, mas nunca desanimou.

Na hora de tomar consciência do chamado de Deus em sua vida, Jeremias levou susto, ficou meio gago e se desculpou: “Sou apenas uma criança” Mas assumiu sua vocação (Jr 1,4-10) e sofreu a vida inteira por causa da vocação assumida (Jr 20,7-18). Teve uma vida longa, pois nasceu em torno de 650aC e foi morrer no Egito depois do ano 580aC, aos quase 70 anos de idade.

Jeremias viveu no período do exílio da Babilônia. Foi ele, Jeremias, que, nesse momento mais trágico da história do povo, fundamentava sua esperança e segurança, na não observância perfeita da Lei, mas sim na gratuidade infinita do amor de Deus que se manifesta nos fenômenos da natureza. Eis o que Jeremias ensinava ao povo: “Assim diz Javé, aquele que estabelece o sol para iluminar o dia e ordena à lua e às estrelas para iluminarem a noite, aquele que agita o mar e as ondas rugem, aquele cujo nome é Javé dos exércitos: Quando essas leis falharem diante de mim – oráculo de Javé – então o povo de Israel também deixará de ser diante de mim uma nação para sempre. Quando alguém puder medir o tamanho do céu nas alturas ou examinar com cuidado os profundos alicerces da terra, só então eu rejeitarei o povo inteiro de Israel, por causa de tudo o que ele fez – oráculo de Javé” (Jr 31,35-37;33,20-21.25-26).

Jeremias ensina a observar a lei de Deus, não para merecer uma recompensa, mas sim para agradecer o amor gratuito de Deus. Foi ele, com a sua vida tão sofrida e tão fiel, que inspirou aos discípulos e discípulas de Isaías a figura do Servo de Javé, imagem do povo sofrido, descrita nos quatro cânticos do servo (Is 42,1-9;49,1-6;50,4-9;52,13a53,12). Os cânticos do Servo, por sua vez, inspiraram e animaram Jesus na realização da sua vocação e missão como Messias.

  • A profetisa Ana e o velho Simeão – descobrir a vocação nos fatos comuns da vida

Ana e Simeão aparecem no evangelho de Lucas por ocasião da apresentação de Jesus no Templo (Lc 2,22-38). O olhar dos dois era um olhar de fé, capaz de distinguir o Salvador do mundo num menino recém-nascido, trazido por um casal pobre de camponeses lá da Galileia, no meio de muitos outros casais que traziam suas crianças para serem apresentadas a Deus no Templo. Os dois tinham dentro de si uma convicção de fé que não iriam morrer sem antes verem a realização das promessas (Lc 2,26).

Esta é também a convicção, o desejo de todos nós. Cada ser humano traz dentro de si uma promessa de séculos. Será que somos capazes de descobrir os apelos de Deus nos fatos comuns da vida?

  • Maria Madalena – Saber crer na força do amor, escondido na vocação

Maria Madalena era uma moça da cidade de Magdala, à beira do lago da Galileia. Por isso era chamada Maria Madalena, Maria de Magdala. Diziam que Jesus tinha tirado dela sete demônios (Lc 8,2; Mc 16,9). Ela deve ter sido uma moça cheia de problemas. Pessoas assim não costumam ter muito autoestima, a vizinhança as rejeita e marginaliza, e elas mesmas costumam ter muita dificuldade em carregar sua cruz.

Mas Maria Madalena foi acolhida por Jesus e começou a fazer parte do grupo dos discípulos (Mc 15,40-41; Lc8,2). Ela soube crer no amor de Jesus, amor tão grande que devolveu a ela toda a sua autoestima e sua vocação. Maria Madalena renasceu.

O amor de Jesus criou nela tanta coragem que chegou a ir com ele até o Calvário aos pés da Cruz (Jo 19,25). Ela carregou sua cruz atrás de Jesus e foi testemunha da sua morte e sepultura (Mc 15, 40.47). Madalena foi a primeira pessoa a receber uma aparição de Jesus ressuscitado (Mc 16,9; Jo 20,16).

Como você vive a sua vocação? Ela o ajuda a crer no amor e ter maior autoestima? São Paulo dizia: “Nada nos pode separar do amor de Deus” (Rom 8,38-39).

  • Os doze discípulos – Descobrir a vocação de Deus nos chamados que vêm dos outros.

Os doze foram chamados para estar com Jesus, para anunciar a palavra e para combater o poder do mal (Mc 3,13-19). Nas pinturas e figuras eles sempre aparecem como idosos. Na realidade eram todos jovens, casados ou solteiros, em torno de 30 anos de idade ou menos. Olhando a vida deles, a gente se consola e cria coragem. Eles eram pessoas comuns como nós.

Por exemplo, Pedro era uma pessoa generosa e entusiasta (Mc 14, 29.31; Mt 14,28-29), mas na hora do perigo e da decisão o seu coração encolhia e voltava atrás (Mt 14, 30.Mc 14,66-72). Ele era, ao mesmo tempo pedra de apoio (Mt 16,18) e pedra de tropeço (Mt 16,23). Mas Jesus rezou por ele (Lc 22,31). Por isso Pedro ficou firme.

Tiago e João eram dois irmãos, conhecidos como os filhos de Zebedeu. Estavam dispostos a sofrer com Jesus (Mc 10,39), mas eram violentos. Jesus deu a eles o apelido de filhos do trovão (Mc 3,17). Eles queriam fazer baixar o fogo do céu para matar os samaritanos que não quiseram receber Jesus (Lc 9,54). Jesus os repreendeu (Lc 9,55). João pensava ter o monopólio de Jesus para expulsar demônios. Jesus o corrigiu (Mc 9,38-40).

Jesus passou uma noite em oração antes de escolher estes doze apóstolos (Lc 6,12-16). E ele diz aos apóstolos: “Não foram vocês que me escolheram, mas fui eu que escolhi vocês” (Jo 15,16). Isto nos tranquiliza quando vem a tentação de achar que somos indignos ou que não somos capazes.

  • As sete discípulas – Descobrir a vocação de Deus no seguimento de Jesus

No grupo que seguia Jesus também havia mulheres. Elas seguiam a Jesus (Lc 8,2-3;23,49; Mc 15,41). A expressão seguir Jesus tem aqui o mesmo significado que quando é aplicado aos homens. Elas seguiam Jesus, desde a Galileia até Jerusalém (Lc 23,55). O evangelho de Marcos define a atitude delas com três palavras: Seguir, servir, subir (até Jerusalém) (Mc 15,41).

Os primeiros cristãos não chegaram a elaborar uma lista completa destas discípulas, Mas os nomes de sete delas estão espalhados pelas páginas dos evangelhos: Maria Madalena (Lc 8,2), Joana, mulher de Cuza (Lc 8,3), Suzana (Lc 8,3) Salomé (Mc15,40), Maria, mãe de Tiago (Mc 15,40), Maria, mulher de Cléofas (Jo 19,25), Maria, a mãe de Jesus (Jo 19.25).

Depois da páscoa, foram mulheres a quem Jesus apareceu por primeiro. Elas receberam de Jesus a ordenação de anunciar aos outros a Boa Nova da Ressurreição (Jo 20,17; Mt 28,10). A tradição eclesiástica posterior não valorizou este dado com o mesmo peso com que valorizou as aparições de Jesus aos homens.

  • O Apóstolo Paulo – Modelo e exemplo para os carmelitas.

A regra do Carmo diz a respeito de Paulo: “Por sua boca Cristo falava e ele foi constituído por Deus e dado como pregador e mestre dos gentios na fé e na verdade. Se seguirem a ele não poderão desviar-se (Rc 20).

Inicialmente, Saulo, assim ele se chamava, era radicalmente contra a nova “Seita” dos seguidores de Jesus. Achava que eles eram a negação total de tudo aquilo que Deus tinha falado e prometido no passado. Por isso, Saulo concordou com o assassinato de Estevão e começou a perseguir os cristãos querendo acabar com eles (At 8,1-4). No caminho de Damasco, uma luz o envolveu e o jogou no chão (At 9,3-6). Ele ficou três dias na escuridão total (At 9,9).

Ananias, a pedido de Jesus, acolheu Paulo com estas palavras: “Paulo, meu irmão” (At 9,17). O perseguido acolhe o perseguidor como irmão. Ele praticou o que Jesus mandou “Amai os vossos inimigos” (Mt 5,44). Foi a revelação do amor de Deus para Paulo e ele ressuscitou para uma nova vida (At 9,17-19).

Paulo não se agarrou às próprias ideias, mas foi capaz de reconhecer seu erro, de vencer sua teimosia e de entregar-se sem medida à nova vocação que acabava de receber de Deus. Ou melhor, antes da sua conversão, Saulo se agarrava à letra da Bíblia e chegou a matar. Na sua conversão recebeu o Espírito de Jesus que o ajudou a superar a letra que mata e encontrar a vida (2Cor 3,6). Como foi este processo em você?

  • Resumindo

Nenhuma vocação se repete. Deus chama Abraão e Sara de um jeito e a Maria Madalena, de outro jeito. Também a maneira de eles perceberem a vocação é diferente; diferentes são as respostas. Uns oferecem resistência, outros aceitam logo. Uns tem problemas e dúvids, lutam com a vocação até o fim da sua vida. Outros, como Amós não tem problema nem dúvida e aceitam o chamado como o eixo de suas vidas. Uns são chamados desde a juventude, outros só depois de velhos. Uns são chamados para uma tarefa bem limitada, outros para uma missão que envolve a vida inteira e o povo todos

Às vezes, a vocação se impõe com força irresistível, como fogo dentro dos ossos (Jr 20,9), como marreta que rebenta as rochas (Jr 23,29), e deixa a pessoa na revolta e no sofrimento (Jr 20,7-18); outras vezes, ela é fonte de alegria (Jr 15,16). Para uns, o chamado vem com muita clareza, para outros não há clareza nenhuma, nem percebem nada de Deus. Sentem apenas uma necessidade humana que pede uma resposta. E quando, no julgamento final, Deus os elogia (Mt 25,34-35), eles dizem “Quando foi que o vi com fome e sede, sem roupa e na prisão, doente? Não estou lembrado” (Mt 25,37-39) E Deus responderá: “Foi quando você ajudou aquela pessoa pobre. Era eu” (Mt 25,40).

Umas pessoas são chamadas para libertar o povo, outras para organizá-lo, outras para presidir assembleias, organizar o culto, para cantar, profetizar, denunciar, animar, anunciar, aconselhar, governar. Vocação para missões grandes e missões pequenas, importantes e menos importantes, ligadas ao povo todo e ligadas a um pequeno grupo Missões que valem para muitos anos, outras que valem para pouco tempo ou só para a pessoa que a recebe.

Para chamar as pessoas Deus usa os mais variados meios de comunicação: sorteio, aclamação, indicação pela comunidade, percepção das necessidades do povo, ação de bravura, perigo de guerra, chamado interior, aparição de anjo, sonhos, chamado de um companheiro.

O chamado de Deus não tira a liberdade das pessoas. Cada um reage do seu jeito diante da missão que recebe. Cada um trava duas lutas dentro de si: a grande luta da transformação do mundo e a pequena luta da conversão pessoal. Ambas são igualmente importantes, ligadas entre si.

TORNAR-SE CARMELITA, UMA PROPOSTA DE VIDA – TEXTO 1

Em que consiste a vocação para o Carmelo?

Na igreja há muitas vocações, muitos carismas, muitos serviços. Ao longo dos séculos, diante das necessidades do povo de Deus, sempre apareceram pessoas que procuravam ler a situação do povo à luz da palavra de Deus e se sentiam impelidas para responder ao chamado que vinha da realidade. Assim foram surgindo as várias congregações religiosas, as ordens, os institutos, os movimentos leigos, as organizações de bairro e tantos outros movimentos e formas de ajuda para melhorar a vida das pessoas e transformar a convivência humana mais de acordo com a vontade de Deus. Assim surgiu a ordem do Carmo, a família carmelitana. Foi na Idade Média, mais de oitocentos anos atrás.

A grande necessidade do povo na Idade Média

No século X e XI, apareceu uma grande necessidade no povo da Europa. O sistema social, econômico e político do feudalismo começou a desintegrar-se. Muita gente que vivia nos feudos do interior, da roça, saía para ir morar nas cidades que estavam crescendo com muita força e poder. Assim, nas periferias das cidades surgiam as massas de pobres, chamados “menores”. Muita gente se aproveitava desta situação confusa para difundir idéias estranhas no meio do povo. Na Igreja, o clero não estava preparado para esta mudança repentina e os grandes mosteiros dos monges, que viviam longe do povo, por ora não tinham resposta adequada.

Diante deste grande clamor, diante desta vocação de Deus vinda da realidade, muitas pessoas começaram a procurar uma resposta. Demorou muito tempo para encontrar o rumo. Uma destas pessoas foi Francisco de Assis. Ele encontrou uma resposta bonita e muito concreta. Para ajudar o povo a reencontrar Deus na vida, ele criou pequenas comunidades itinerantes de leigos que viviam entregues à oração e andavam pelos povoados para anunciar e irradiar a boa nova de Jesus. Era chamado o movimento mendicante.

Quando São Francisco morreu, nem vinte anos depois, já havia mais de 5000 frades franciscanos e muitas religiosas franciscanas junto com Santa Clara. Sinal de que Francisco e Clara souberam ser um apelo forte para a juventude da época.

Os franciscanos (o nome vem de Francisco) se chamavam “frades menores”, porque procuravam viver com os “menores” e como os “menores”, os pobres. Ao lado dos “frades menores” surgiram vários outros grupos mendicantes: Dominicanos, Mercedários e outros. Um deles somos nós: a Ordem dos Irmãos da bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, a família carmelitana.

A família carmelitana: sua vocação, seu carisma

Os mendicantes nasceram para ajudar os “menores”, o povo pobre que vinha dos feudos do interior, da roça, e enchia as periferias das cidades. Cada grupo mendicante procurava responder a uma necessidade bem concreta do povo. Os franciscanos identificavam-se, sobretudo, com a pobreza e viviam pobres com os pobres, testemunhando e anunciando a boa nova de Jesus. Os dominicanos procuravam atender às necessidades do conhecimento deficiente que o povo tinha das coisas da fé, pois havia muita gente que semeava confusão entre os pobres. Os mercedários se uniam para ajudar na libertação dos muitos prisioneiros e escravos.

E os carmelitas? Os frades carmelitas procuravam atender à grande necessidade que o povo sentia de saber como rezar, como viver com Deus na oração; como viver na presença de Deus, como irradiar esta presença de Deus no meio do povo, no meio dos “menores”.

Os primeiros carmelitas, na sua maioria, eram leigos. Eles tinham abandonado a Europa, sua terra natal, para viver, como peregrinos, na terra de Jesus. Alguns foram ex-combatentes das cruzadas. Eles se estabeleceram no monte Carmelo, onde era muito viva a memória do profeta Elias e do seu discípulo o profeta Eliseu. Lá no monte Carmelo, começaram a organizar-se em comunidade ao redor da fonte do profeta Elias e ao redor de uma capelinha dedicada a Santa Maria do Monte Carmelo. Eles foram morar lá, como eles mesmos diziam, para poder iniciar uma vida nova “em obséquio de Jesus Cristo”. Isto foi em torno do ano 1200. Para distingui-los dos outros grupos, o povo os chamava: “irmãos da bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo”.

Eles viviam de maneira muito simples e pobre, cada um numa gruta na montanha, que eles chamavam de cela. De manhã cedo, reuniam na capela para celebrar a eucaristia. Durante o dia, rezavam os salmos, meditavam a vida de Jesus e trabalhavam para poder sobreviver. Em determinados dias desciam do monte para os povoados a fim de anunciar a boa nova de Jesus ao povo do lugar. Tinham seus jegues ou jumentos nos quais viajavam para visitar os pobres nas suas comunidades.

Depois de uns anos, eles quiseram ter a aprovação da Igreja para sua maneira de viver o evangelho lá no Monte Carmelo. Resolveram conversar com o bispo de Jerusalém, o patriarca Alberto. Mas antes de falar com ele, fizeram uma reunião e elaboraram um rascunho, no qual expunham para Alberto o seu jeito próprio de “viver em obséquio de Jesus Cristo”. O patriarca Alberto acolheu o pedido e transformou o rascunho num programa de vida que é a regra do Carmo. Isso por volta de 1207.

Uns 30 anos depois, eles decidiram que um grupo deles devia voltar para Europa, pois, diante das ameaças dos muçulmanos, a situação no monte Carmelo estava cada vez mais insegura, com menos perspectivas para o futuro. Eles queriam que a missão continuasse e se espalhasse em outros lugares e países. Assim, alguns deles voltaram para a Europa: uns foram para a ilha de Chipre, outros para Sicília e para o sul da França. Isto foi em 1238.

Nas cidades da Europa, a situação do povo era bem diferente do que no monte Carmelo e seus povoados. Por isso, para que pudessem servir melhor aos “menores” da Europa, pediram ao papa Inocêncio IV para adaptar a regra às novas circunstâncias. O papa atendeu ao pedido. Ele pediu a dois frades dominicanos, Hugo e Guilherme, para atualizar e adaptar a regra à nova situação da Europa. Em seguida, o papa aprovou a regra. Isto foi no dia 1 de outubro de 1247.

Um pouco mais de 50 anos depois, em 1300, já havia mais de 150 comunidades carmelitas ou pequenos Carmelos em quase todos os países da Europa. Sinal de que, como Francisco e Clara, o testemunho de vida dos primeiros carmelitas era um apelo forte para a juventude da época.

O monte Carmelo: um ideal de vida

O monte Carmelo marcou de tal maneira a vida daqueles primeiros frades, que ele deixou de ser uma simples referência geográfica para tornar-se um ideal de vida. Por isso, em vez de Albertinos (o nome viria de Alberto), eles quiseram ser chamados de carmelitas, moradores do Carmelo. Cada comunidade de carmelitas, seja de leigos ou leigas, seja de frades, freiras ou monjas, deve ser um pequeno Carmelo, isto é, um lugar onde as pessoas reencontram o mesmo ideal de vida, a mesma boa nova de Deus, o mesmo ambiente acolhedor, a mesma hospitalidade e a mesma fraternidade, que os tinha marcado para sempre desde aquele primeiro início lá no monte Carmelo. E assim deve ser até hoje.

Até hoje, procuramos recriar em nós o mesmo ideal de vida. Como os nossos santos e santas, iniciamos a mesma “subida do monte Carmelo”: Alberto, Ângelo, Maria Madalena de Pazzi, João Soreth, Nuno, João da Cruz, Tereza de Ávila, Teresinha de Lisieux, Tito Brandsma, Edith Stein, Teresa de los Andes, Isidoro Bakanja, Gabriel Couto, Ângelo Paoli. Tantos e tantas! Homens e mulheres, sacerdotes e religiosas, monjas e leigos, casados e solteiros, pais e mães de família, jovens e velhos, rapazes e moças. Todos eles testemunham com a sua vida: ser carmelita é tudo que eu quero na vida! Venha beber desta fonte!

Que fonte é esta? É a intuição mística que brota dentro de cada um de nós e sobe do fundo da nossa consciência dizendo: “Deus existe, ele está conosco, ele nos ouve; dele dependemos, nele vivemos, nos movemos e existimos. Somos da raça do próprio Deus” (cf. At 17,28). E o coração humano responde murmurando: “sim, tu nos fizeste para ti, e o nosso coração estará irrequieto até que não descanse em ti! ”  Hoje, mais do que nunca, em cada nova geração, este murmúrio da alma levanta a cabeça em busca de uma resposta para as perguntas que sempre renascem: por que existimos? Quem nos fez? Quem é Deus? Qual o sentido da nossa vida? Deus, onde estás? As imagens de Deus mudam, devem mudar, para que os costumes e as imagens envelhecidas e antiquadas não nos impeçam de descobrir a novidade da vocação de Deus na vida de hoje.

A água que Elias bebeu na fonte do Carmelo ajudou-o a redescobrir a presença de Deus quando ele, perdido e desanimado, deitou debaixo de uma árvore e pediu para morrer (1Rs 19,4). Ele imaginava Deus de um jeito: poderoso, forte, ameaçador, como terremoto, tempestade e fogo. Mas Deus já não estava no terremoto, nem na tempestade, nem no fogo (1Rs 19,11-12). A água que Elias tinha bebido na fonte do monte Carmelo ajudou-o a superar as imagens antiquadas de Deus e levou-o a discernir a presença divina, para além das imagens, na brisa leve (1Rs 19,12), no silêncio sonoro, na noite escura, mais clara que o sol do meio dia (Sl 139,12). Esta fonte brota sempre, até hoje, mesmo de noite

Quem tiver sede, venha beber, disse Jesus à samaritana, ao povo de Jerusalém e a todos nós (Jo 4,14; 7,37-39). No monte Carmelo existe a fonte que, ao longo dos séculos, matou a sede do profeta Elias, do profeta Eliseu, dos filhos dos profetas, dos santos e santas do Carmelo. Venha beber desta fonte!

O que nos define como carmelitas: o DNA do Carmelo

Para aqueles primeiros frades, o monte Carmelo deixou de ser uma simples referência geográfica para tornar-se um ideal de vida. Da mesma maneira, no decorrer dos séculos, outros aspectos da vida no Carmelo deixaram de ser simples fatos ou lugares históricos para se transformar em símbolos da nossa própria existência, com os quais nos identificamos e que, sem palavras, falam de nós para o mundo.

Enumeramos aqui doze destes referenciais simbólicos que nos ajudam a perceber melhor os diversos aspectos do nosso carisma. Agradecemos a nosso confrade frei Francisco Sales, carmelita da província Pernambucana, que elaborou estes doze pontos tão significativos da nossa espiritualidade que aqui transcrevemos:

Peregrinação.

Os primeiros carmelitas são peregrinos, homens inconformados com um modelo de viver a fé que, movidos pelo desejo de seguir a Jesus de forma mais radical, buscam na terra santa, o Santo da terra. Constroem o novo, aventuram-se para garantir a autenticidade de sua fé. O carmelita é por natureza um inquieto, peregrino, inconformado com a mesmice da fé e da história, aventureiro do absoluto.

Grupo, fraternidade.

No Carmelo não há um líder carismático, um fundador no estrito senso da palavra. Há um grupo que, movido por um desejo comum de fidelidade ao evangelho, encontra-se e constrói um modo de vida. Para o carmelita, a razão da vida tem sua fonte numa comunidade e está necessariamente direcionada para a construção da fraternidade.

Corações famintos.

Nós não conhecemos os nomes dos primeiros carmelitas, mas podemos conhecer seus corações marcados por uma fome. Foram marcados por uma profunda experiência de conversão, saíram do bulício das cidades para viverem na solidão, iniciando uma vida juntos com o intuito de responderem à fome profunda de seus corações.

Monte Carmelo.

O caminho carmelita passa necessariamente pelo monte, com todos os significados que a espiritualidade bíblica a ele atribui. É o lugar da parada dos peregrinos, da subida, da jornada para a comunhão com o Senhor, etc. O monte confere ao grupo um nome, uma identidade, uma terra. Eles irão levá-lo a todos os recantos por onde se espalham, fazendo de suas habitações outros pequenos Carmelos, lugares evocativos da aventura inicial.

Fonte de Elias.

O ponto de parada dos primeiros carmelitas é a fonte do profeta, marco memorial dos grandes feitos de Elias. Ao redor da fonte saciam aquela sede mais intensa e, à imitação de Elias, deixam-se consumir de ardente zelo pelo senhor Deus dos exércitos, anunciando a boa nova de Deus aos pobres dos povoados ao redor do monte Carmelo.

Celas.

Espaço de solidão e de cultivo da intimidade e do encontro com Deus, chão, no qual se nutre a vida através da lectio divina, lugar de luta contra toda forma de escravidão da pessoa e da conquista da liberdade interior.

Oratório.

Centro de convergência da vida, lugar da celebração do louvor comum que transforma a vida em sacramento da presença de Deus. Espaço para a celebração da eucaristia, do encontro com o Cristo vivo e presente no pão partilhado que se transforma em ponto gravitacional de toda a existência.

A senhora do lugar.

O oratório é consagrado à virgem Maria, e à senhora do lugar eles próprios se consagram. No coração da visão carmelita está Maria, como força de inspiração a quem eles chamam irmã e na qual contemplam, como em figura, realizado todo seu desejo de fidelidade ao projeto de jesus.

Um ritmo que orienta a vida.

Viviam em um local aprazível e solitário; distantes o suficiente uns dos outros; dedicavam o seu tempo à oração e reflexão; liam as escrituras e procuravam marcar com suas linhas os seus corações; jejuavam; trabalhavam e marcavam suas vidas ao compasso do silêncio; reuniam-se diariamente para a eucaristia e semanalmente para revisar a vida à luz do propósito comum; viviam uma vida de pobreza; seu líder era eleito e morava à porta da habitação comum; acolhiam e serviam àqueles que batiam a sua porta; desciam do monte para irradiar a boa nova entre o povo do lugar. A vida no monte Carmelo centrava suas vidas dispersas e apaziguava suas mentes confusas, libertando os seus corações das urgências e compulsões do tempo. Viveram quase 100 anos neste ritmo de vida.

A norma de vida.

A vida vivida foi codificada numa regra que se transforma no referencial permanente, na fonte que contém as indicações concretas para a fidelidade, sempre aberta para aqueles que fizerem mais. Mais do que normativa, a regra é um elemento carismático, indicativo e dinâmico.

Viagem de volta.

Diante das dificuldades e perseguições, os carmelitas fizeram a viagem de volta, transfigurados. Deixaram o Carmelo, mas o Carmelo nunca mais os deixou, forjaram uma nova visão do Carmelo, como referencial espiritual de suas vidas. O carmelita é aquele que, uma vez bebendo da fonte, é capaz de refazer o caminho de volta e recontar a própria história a partir da experiência vivida.

Mendicância.

A dinâmica das ordens mendicantes é assimilada pelo Carmelo desde a sua origem e sobretudo a partir do seu retorno na Europa. Momento vivido com os conflitos próprios de toda mudança. A regra é adaptada à nova realidade e mais uma nota é acrescida à sinfonia inicial do Carmelo, incorporando outros elementos, como a itinerância, a simplicidade de vida, o serviço ao povo de Deus nas realidades desafiadoras das cidades, a abertura ao inesperado, etc.

Estes referenciais simbólicos estão impressos no coração de cada carmelita, fazem parte do nosso DNA espiritual, renascem em cada nova geração e nos ajudam a entender e a viver melhor o dom especial do Carmelo para a Igreja. Eles nos provocam continuamente em nossos desejos e impulsos de fidelidade, em nossos projetos e escolhas. Eles nos ajudam, diante dos desafios com os quais nos confrontamos, a recriar o significado de nossa vida e de nossa presença na Igreja e no mundo, mantendo a fidelidade à nossa identidade, atualizando-os numa tensão fecunda entre passado e presente em vista do futuro.

TORNAR-SE CARMELITA, UMA PROPOSTA DE VIDA, TEXTO 2

O terceiro carmelita, um leigo de Maria

por frades carmelitas · 7 de julho de 2015

o terceiro carmelita, um leigo de Maria

por Christian Hernández Rosado, OTC

desde tempos antigos, a memória de Maria, a mãe do Senhor, esteve ligada à formosura e beleza de um dos lugares mais emblemáticos da terra santa, o monte Carmelo. As sagradas escrituras fazem referência à beleza do Carmelo: “ foi-lhe dada  a glória do Líbano, a beleza do Carmelo e do Saron (Is  35,2); “tua cabeça eleva-se como o monte Carmelo” (Ct 7,5). A liturgia da Igreja viu nestas frases adjetivos eloquentes para falar da beleza que adorna Maria.

O vínculo com a Santíssima Virgem e o monte Carmelo remonta também a tempos proféticos, quando o profeta Elias defendeu os direitos do Deus verdadeiro nesse monte. Ali é o lugar onde profeta orou para que a chuva caísse sobre os esgotados campos de Israel, depois de uma seca de vários anos.

Durante esse instante decisivo da história do povo de Deus, Elias vislumbrou uma nuvenzinha que subia do mar. Era o sinal imediato de que as chuvas estavam próximas. Todavia, para a tradição dos primeiros carmelitas que deram origem à ordem do Carmo nesse monte, o acontecimento teve um significado a mais além da precipitação da chuva. Para eles era um prelúdio do nascimento da Virgem Santíssima, que com seu nascimento traria abundantes e inesgotáveis graças, já que dela o Senhor se revestiria de nossa humanidade para realizar nossa redenção.

Os primeiros carmelitas que habitaram o monte Carmelo – daí o nome de carmelitas –  viram sempre em Maria o ideal de vida à qual aspiravam. Ela é o espelho das virtudes, beleza na qual Deus se alegra, imagem do contemplativo em sua plenitude, enfim, a encarnação de seu ideal carmelitano de vida juntamente com o profeta Elias.

Destas origens, dirá o grande mestre de espiritualidade moderna Thomas Merton O.C.S.O: “o propósito da ordem fundada em sua honra consiste em capacitar seus membros para que, sob a guia de nossa senhora, alcancem o cume da contemplação”. Pode-se dizer que a vocação do carmelita é caminhar rumo à santidade, tomado pela mão de Maria, em direção ao cimo do monte da salvação que é seu filho Cristo, o Senhor, orando, contemplando, servindo e amando como ela o fez.

Muitos pensam que a vocação contemplativa carmelita se restringe só aos frades e monjas de clausura de nossa ordem, coisa que não é certa, já que desde a idade média e já desde os princípios do renascimento, a Igreja e a ordem reconhecem a vocação do leigo à vida do carmelo.

Primeiramente, temos que ver que a vida carmelitana no laicato é uma vocação, como o é a vida religiosa ou sacerdotal. A vocação à vida terceira carmelita é, antes de tudo, um desafio para sermos contemplativos no mundo em que vivemos; é viver em estreita amizade com Deus, mais com atos que com palavras, como sempre fez a Virgem Santíssima.

A Ordem Terceira Carmelita (OTC) é uma via pela qual a família carmelita oferece ao povo de Deus, a todo o laicato em geral e aos membros do clero secular a oportunidade de viver o carisma carmelita. Seguindo este caminho queremos intensificar a busca da santidade por meio de um maior compromisso com a vocação batismal que tem todo cristão, que é a busca da santidade à qual todos somos chamados ao nos tornarmos filhos de Deus pelo batismo.

O programa de vida espiritual pelo qual nos guiamos para alcançar a meta de realizar esta vocação à santidade, que tanto o Senhor como nossa Santíssima Mãe e a Igreja esperam de nós, se baseia numa norma de vida aprovada pela Ordem do Carmo e a Santa Sé, pela qual se rege nosso estilo de vida. Este documento nos recorda qual o nosso ideal de vida e como temos que viver com fidelidade nosso compromisso como terceiros carmelitas; e, se seguimos fielmente nossa norma de vida, poderemos avançar no caminho da perfeição cristã, tal como nos recorda uma das filhas mais ilustres de nossa ordem, Santa Teresa de Jesus, a qual exortava suas monjas para que guardassem com fidelidade a regra e as constituições, e não seria necessário outro milagre para que fossem santas.

A missão do terceiro, segundo nossa norma de vida, é bastante clara: o terceiro carmelita de hoje é “chamado a iluminar e a dar o justo valor às realidades temporais, de maneira que sejam realizadas segundo os valores proclamados por Cristo e em louvor do Criador, do Redentor e Santificador” (regra da OTC, 10).   Somos convidados, como nos diz São João Paulo II, na exortação apostólica, Christifidelis Laici, a  “ultrapassar em si mesmos a ruptura entre o evangelho e a vida, refazendo na quotidiana atividade em família, no trabalho e na sociedade, a unidade de uma vida que no evangelho encontra inspiração e força para se realizar em plenitude” (n.34).

Como vimos, a Igreja não pede outra coisa senão que saibamos viver nossa vocação como cristãos, iluminados pelos exemplos de Maria e de Elias, e dos demais santos e mestres espirituais que a ordem tem dado à Igreja, ao passar dos séculos, cada um com um carisma e um magistério espiritual distinto, porém unidos numa mesma vocação carmelitana.

A pessoa de Maria na vida e na espiritualidade do terceiro ocupa um lugar central depois da de Cristo. A relação dos carmelitas com Maria é estreita, já que remonta aos tempos em que a ordem nasceu no monte Carmelo.

A vida intensamente mariana de nossa ordem, que nos distingue de outras ordens religiosas, está no fato de que em nossas origens no carmelo (séc. XII), por não termos um fundador jurídico como os franciscanos ou dominicanos, tomamos o nome do lugar onde fomos fundados.  Além disso, a relação com Maria advém do fato da primeira capela que teve a ordem ter sido dedicada à Virgem, lá no monte Carmelo. Desta primeira capela surge o título de Irmãos de Santa Maria do Monte Carmelo, que nos vinculará para sempre a ela.

Maria é para os primeiros carmelitas a domina loci, a senhora do lugar, a quem servem como homens consagrados. Ela se torna mãe e irmã daquele pequeno núcleo de ermitãos que decidiram levar uma vida santa naquele lugar venerável.

Outro acontecimento que une mais intensamente os carmelitas a Maria, de maneira particular e com um vínculo mais forte ainda, é o da entrega do santo escapulário, 16 de julho de 1251, ao prior geral de então, São Simão Stock, a quem lhe prometeu que aquele que morresse com o escapulário da Ordem do Carmo não pereceria no fogo eterno. A este acontecimento se acrescente o fato de que a intervenção direta da virgem em várias ocasiões foi o que ajudou a ordem para que fosse definitivamente aprovada pelo papa Inocêncio IV.

Ao longo de nossa história, vemos como a mão da Virgem Santíssima tem acompanhado os carmelitas desde suas origens até os dias de hoje. Maria é para todos os carmelitas de todos os ramos –  frades, freiras e terceiros –, o modelo que desejam imitar para ser agradáveis ao seu filho Jesus.

Maria encarna o duplo ideal do carisma carmelitano, que se encerra na sentença: “contemplata aliis tradere” , que em português significa dar ao outro o que foi contemplado. O terceiro carmelita, por meio de uma vida sacramental saudável e de uma oração intensa,  carrega-se de frutos produzidos por estes encontros pessoais com o Senhor e os dá, transformados em serviço, à Igreja e ao próximo.

Maria, como mulher orante, sempre esteve atenta ao serviço da obra de seu filho e sempre obteve a força para levar sua missão através da sua intensa vida de oração. O melhor exemplo nos dá o evangelho com a frase que nos recorda que ela meditava e guardava tudo no seu coração.

Outro aspecto não menos importante na vida do terceiro, de que a virgem é seu modelo e espelho no qual deve olhar-se, é o coração de Maria. Esse Imaculado Coração de Maria para o terceiro carmelita é a meta última à qual aspira, pois ele deve aspirar a ter um coração limpo e imaculado como o dela, para servir ao senhor com um coração puro, tal como pede nossa santa regra. Tomados pela mão de Maria, devemos procurar limpar nosso coração de tudo aquilo que não nos permite unir-nos de um modo mais perfeito ao Senhor, e é impedimento para seguir o que Deus espera de nós em nossa vida.

O Carmelo, com o passar dos séculos, demonstrou ser mestre da ciência da circuncisão do coração, como o definem os antigos autores da ordem. O grande São João da Cruz, em sua doutrina, nos ensina a limpar o coração de todo afeto desordenado para servirmos ao Senhor com maior liberdade.

Por último, o terceiro carmelita sempre leva com amor aquele dom precioso que a virgem deu a seus carmelitas: o santo escapulário. Para o terceiro este escapulário é o sinal das virtudes de Maria que ele deve encarnar para ser autêntico discípulo de Cristo; é também sinal da predileção da Virgem Maria para com o ele, e de seu amor maternal.

Por isso, sempre professamos na Ordem do Carmo um amor tão especial à Virgem Santíssima. Ela nos chamou à sua ordem, nos vestiu com seu santo hábito e escapulário, nos alimenta com a meditação assídua das sagradas escrituras à qual todo carmelita é chamado, e com os ensinamentos de nossos irmãos mais velhos, os santos.

Tanto amor da senhora para conosco nos fez que, com o passar do tempo, nós, carmelitas, sejamos os propagadores de sua devoção, seus pregadores mais ardorosos, os que com mais solenidade e terno amor celebram suas festas, os que com maior fervor e entusiasmo defendem com a pena suas prerrogativas como virgem, mãe, imaculada conceição e irmã do Carmelo. Enfim, o Carmelo é todo de Maria. Se quiseres seguir a Cristo, guiado pela mão de Mãe tão terna e doce, une-te a nossa família. Vem e verás.


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